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sábado, 13 de março de 2010

A Roda #19 - Panorama do Vale de Legium, parte 8


por Lobato Légio

A floresta: esperas contemplá-la por completo? Esperas poder extrair dela cada folha, cada raio de sol que rasgando a malha dos galhos atinge o solo? Ainda que a percorresses por todos os lados, e visses cada mísero ponto, ainda assim não a teria visto por inteiro, pois teria visto cada ponto em um momento diferente no tempo, e não concomitantemente, como exige a visão plena das coisas. Somente se pudesses ver cada pedaço da floresta no mesmo instante, cada mínimo recorte de suas infinitas imagens na mesma mínima fatia de tempo decorrido, somente aí poderias ter a visão do conjunto, e então ver o que hoje não vês, e entender o que hoje não entendes.

Ouça, pois, aquilo que te digo, e aprende, por minhas palavras, o que não pode contemplar frente a frente. Por entre as árvores e os arbustos, sobre as ervas e o musgo colados ao solo, abaixo da luz e da sombra que céu, sol e galhos formam, pela floresta passam dois caminhos. Entrando-se nela por onde seja, qualquer uma das aberturas que pontuam sua muralha, e percorrendo a trilha tão naturalmente formada que se coloca sob teus pés, tu viajante logo encontrarás uma árvore enorme à tua frente e bifurcando-se violentamente a partir do caminho em que seguias duas novas trilhas se formarão, desviando da árvore e seguindo cada uma em uma direção. Invariavelmente, ao deparar-se com essa árvore, estarás seguindo caminho para o Norte, e o caminho da esquerda portanto o levará do leste para o oeste, seguindo o Sol, enquanto o da direita o levará do oeste para o leste, perseguindo Seu retorno.

Pises no caminho da esquerda, e nele continuando verás muito. Raios de sol penetrando o dossel das copas tocarão os teus pés durante o caminho, e quando parares para beber água ou repousar à sombra, encontrarás um recanto fresco e silencioso. Verás pequenas feras brincando e brigando, e predadores perseguindo suas presas, e verás animais dependurados no galhos que jogarão frutas sobre ti, mas não te acertarão, e cães se alimentando de pequenas aves. Se chover, a chuva encharcará teus ombros, mas também poderás buscar abrigo sob alguma árvore frondosa. Será um caminho cansativo para ti, o da esquerda, haverá momentos de descanso, mas ao fim da jornada invariavelmente estarás tomado pelo mais violento desejo de repousar, o mais quanto for possível. Saindo da floresta, ao fim do caminho, já estará de noite, ou talvez na hora mágica em que o Sol se encaminha para o Outro Mundo. Olharás para trás em direção à floresta e poderás ver que poucas lembranças restarão a ti daquele lugar, mas que a caminhada que lá empreendestes foi, afinal, agradável.

Mas podes também, num gesto simples de escolha como qualquer outro, optar pelo caminho da direita, e ir em direção ao nascer do Sol enquanto o astro te ultrapassa e toma posição às tuas costas.

Se fizerdes isso, encontrarás um outro caminho, totalmente diverso do que encontraria seguindo na outra direção. Nesse caminho, pouco verás do Sol, e talvez o tempo todo que nele caminhardes seja Noite. O mais completo silêncio te acompanhará nesse caminho, quando pensardes ter ouvido algo nada mais será que teu próprio passo. Nesse caminho não poderás parar para comer, pois nele não há árvores com frutos ou animais para te alimentar; não poderás parar para descansar, pois o chão é duro e não há recôncavo onde se aconchegar; não poderás também tornar para trás, pois depois que tu passas o caminho se fecha. Carregarás por todo o caminho um peso no coração, e em cada passo que deres ele se tornará mais pesado, ficarás possesso por uma angústia que não tem nome, uma sensação que não se descreve e da qual não se deve falar. Ao fim do caminho, já terás quase te esquecido de quem és, e de para onde estavas indo, mas ultrapassando os últimos troncos na fronteira da floresta com o campo a seguir serás ofuscado pelo Sol que, tendo dado a volta no Mundo, talvez muitas vezes enquanto estavas entre as árvores, torna a aparecer no horizonte, surgindo do leste para retomar seu caminho tantas vezes repetido. Nesse ofuscar, a escuridão que lhe pesava na alma se tornará subitamente luz, uma brancura por um instante sem sentido, e então te sentirás muitas vezes reconfortado, tomado de uma ardência suave no peito, e continuará seu caminho. Não poderás olhar para trás, pois assim se procede nos lugares infernais, e não esquecerás jamais do que viveste lá dentro, ainda que não possas dizê-lo em palavras.

São tais os caminhos à direita e à esquerda na floresta, e para ti os descrevo, para que tenhas conhecimentos e possas escolher com sabedoria. E dois são os caminhos muitas vezes a nós descritos, mas há uma verdade que poucos ousam falar, e ela reside em que, por mais diversos e definidos sejam esses dois caminhos que sempre se apresentam, há um terceiro caminho. Aquele que, não se deixando vencer pelas trilhas que se apresentam, contorna a grande árvore, descobre que além dela a trilha que até então percorrera continua em frente.

Essa trilha sem demora leva a uma pequena clareira, sobre a qual brilham estrelas, fixas no firmamento. À frente do que vem pela trilha se ergue uma pedra, e sobre ela, imenso, erguido sobre as patas dianteiras, assentado sobre as traseiras, rajado violentamente de laranja e negro, um Deus-Tigre. Tu, paralisado impotente sobre tuas duas míseras pernas, o verás erguer-se de todo e encarar-te, mostrando os dentes. E verás em tua imaginação a vida daqueles que foram até ali antes de ti, e os verá sendo devorados pelo monstro. E o Deus-Tigre fechará a boca, e continuará a te encarar, sem rugir, e em seus olhos tu verás, finalmente, o que fora lá buscar. E a floresta se revelará a ti de uma vez por todas, e poderás contemplá-la, cada ramo e raiz, e verás o incêndio que por ela se alastra, e o que ali dentro reside. E nesse momento, olhos fixos nos dele, finalmente alcançarás o entendimento, e então não haverá mais nada para ver.
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sexta-feira, 10 de abril de 2009

A Roda #18 - Tratado Universalizante da Xurepa, Parte 1: O Significado da Xurepa - A Xur-Lírica: Ouvi-La com a Alma


por Lobato Légio

Se a Xur-Épica contempla e estuda as trevas do abismo em que nos encontramos, e xurepicamente espera ser contemplada de volta, a Xur-Lírica busca lançar uma luz nesse abismo, nas trevas do mero ser, e iluminar os laços que unem as coisas com uma cor cálida e próxima. De fato, a Xur-Lírica é a mais pessoal das abordagens da Xurepa, justamente por ser, toda ela, pessoal e intransferível. No capítulo anterior, foi dito que as relações – xurépicas – entre as coisas poderiam ser representadas por linhas que as ligassem. Pois bem: a Xur-Lírica nada mais é que a contemplação, por um ser consciente, das linhas que saem de si próprio e o ligam às demais coisas do Universo.

Por ela se explica o mais valoroso conceito do ser humano: a experiência pessoal. Pois, se cada um vê as linhas que saem de si, cada um tem uma visão particular do Mundo: o emaranhado das linhas xurépicas que constituem a existência se apresenta a cada ser de maneira única. As linhas da Xurepa não ligam somente coisas materiais, mas as imaterias também. Um ser consciente é ligado às suas idéias, às idéias dos outros, às coisas que não conhece, e cada uma dessas linhas tem um significado próprio. Mas esse significado só é apreensível para aquele que a vê de determinado ponto. Alguém que observe uma linha ligando duas pessoas distintas terá uma determinada idéia sobre ela, e cada uma das pessoas nas extremidades da linha terá uma visão diferente, tanto daquele que se encontra na outra ponta quanto do observador passivo.

Aí se encontra a raiz da solidão, e aí a raiz da poesia. Tendo um ser humano uma visão única das coisas, ele é, até as últimas conseqüências, único, e sua experiência é também única, e intransferível, o que, em princípio, e ao menos em certos momentos, instantes que pontuam sua passagem pela Terra, o isola. Mas, se o todo é inimitável, dois seres conscientes podem ter uma visão similar de certas linhas, e portanto se aproximarem. O relacionamento humano, assim, é a busca por linhas que se sobreponham – seja por serem coincidentes, seja por se completarem. Quanto mais linhas sobrepostas entre dois seres, maior a proximidade entre eles, maior a ligação entre suas almas. Nem sempre o ser humano é capaz de divisar a sobreposição das linhas, ou entender conscientemente o significado delas. Mas elas estão ali, à espera da descoberta.

A poesia, por sua vez, é a tentativa de expressão da visão Xur-Lírica. Em sua solidão, em última instância, incontornável, o poeta quer que os outros compreendam sua própria visão, ou também querem se colocar em outro ponto de observação, querem se deslocar para outra convergência de linhas, donde poderão entender o que, de sua perspectiva trivial, não entendem. Desnecessário comentar sobre quais seriam as principais manifestações da Xur-Lírica na sociedade humana: ela está em toda parte. Cada ser consciente que se apercebe de sua singularidade, de seu lugar único em relação ao mundo, cada ser humano que se vê sozinho, incompreendido, cada pessoa que tenta dividir com os outros sua própria visão, seja por palavras, seja por gestos, seja por algum outro meio ainda não notado mas presente no decorrer dos dias, esse ente descobre a Xurepa, e a vivencia, e a espalha.
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quarta-feira, 8 de abril de 2009

A Roda #17 - Panorama do Vale de Legium, parte 7


por Lobato Légio

Ao fim do grande mar, onde o azul impassível encontra em brancura e espuma as falésias da costa oeste do Império, ali, descendo das rochas, após o platô que avança em direção às águas, desafiando a calma inescrutável do sem-fim-à-vista, ali começa a grande planície, que de seu início segue até o fim, contida por seus limites, que a cercam. Um viajante que porventura ponha os pés na terra das pradarias encontrará a cada passo o rastro das lendas que a habitam, o murmurinho das bocas que se multiplica a cada forasteiro, indagando se ele seria de fora da Planície ou de uma região mais distante dela, desde sempre e até o fim desconhecida às línguas indagadoras.

De todos os mistérios, porém, de todas as historias, de todas as fábulas, de todos os boatos sobre ladrões; exércitos de animais ou de mortos; caravanas sinuosas e intermináveis com centenas de milhares de pessoas, verdadeiras cidades ambulantes; feras multicoloridas e mortais, capazes de matar com seu veneno ou seus chifres; ou ainda as tribos de homens voadores que fazem seus ninhos em esparsas árvores nunca vistas; de todas as palavras, enfim, que percorrem as bocas e ouvidos dos que põe os pés na Planície, as mais inescapáveis, sem dúvida, são as que versam sobre uma grande pedra e sua caverna interior, e sobre o Som que lá habita.

No meio da Planície, ponto exato entre as linhas que a cruzam por sua maior extensão de Norte a Sul e Oeste a Oriente, há uma grande Pedra. Junto dela, encontram-se dois homens, um jovem e um mais velho, um sentado e outro em pé, um coberto dos pés à cabeça e o outro também, a não ser pelo fato de, nesse exato instante, ter tirado seu capuz e revelado o rosto imberbe para a sombra lançada sobre ele pela Pedra. O velho fala.

“Isso, Amaron, sente-se, você precisa descansar, ainda é muito jovem para ficar em pé recebendo o sol. Sua pele pura não está acostumada com a inclemência do olho-que-nos-frita.”

“Pare com isso, Nanutchk, sabes muito bem que só vou descansar um pouco porque machuquei o tornozelo ontem.”, respondeu o jovem.

“Pois bem, aceito isso. Ainda assim, o que eu disse continua sendo verdadeiro.”

“Que seja, Nanutchk, mas venha: conte-me uma história. Conte-me uma daquelas que só você conhece, uma das boas!”

O velho pensou por um minuto.

“Veja só, conheço uma muito valorosa. Não sei se reparaste, Amaron, mas estás sentado à sombra da Pedra do Meio, a grande rocha que se ergue no meio da Planície.”

“Ora...”, Amaron ergueu-se sem se levantar e virou para a Pedra, a fim de contemplá-la. “É essa mesmo? Não me parece ter nada de especial.”

“Nada de especial? Pois então escute. Essa pedra tem algo de muito misterioso sobre si. Ou deveria dizer sob si, hein? Eh–eh-eh. Sim, sob a Pedra, dizem alguns, há uma caverna. O que haverá nessa caverna, ou de que tamanho será, não há quem saiba. No entanto, eu, em minhas viagens, já ouvi relatos de homens lúcidos que disseram ter ouvido, ao passarem por aqui, um grande ruído ou som estrepitoso. A natureza do som, não me explicaram, mas afirmaram, todos eles em comum, ser algo por assim dizer novo, nunca antes ouvido, um som podemos dizer fresco, e ao mesmo tempo frio, um som que parecia brotar da terra como uma fonte d’água. Após o som, ao encararem a Pedra, percebiam ter-se aberto nela um buraco, um grande buraco negro que como exalava um bafo maligno. Sobre este ponto, alguns divergem. Certos narradores disseram ser o bafo muito acalentador, livre, capaz de libertar a mente por um instante de toda a memória e todo pensamento, transformando-a numa espécie de, como já me disseram, mar ou lagoa calma, em cujas águas não há desatino ou ruga. Prefiro, porém, manter uma certa desconfiança às coisas das profundezas, e encarar esse ar do buraco como algo a se manter distância. Terminavam dizendo, por fim, que ao contemplar o buraco eram tomados de um grande pavor, e não conseguiam sequer se mexer, até que um novo ruído, dessa vez mais familiar, brotasse do movimento das pedras e fechasse o buraco novamente. Por mais que tentassem, nenhum dos que me contaram histórias semelhantes puderam escavar ou encontrar novamente o buraco, e mantiveram consigo somente uma leve lembrança do negrume, do som e do bafo que compunham a caverna oculta. Certo, meu caro Amaron, a Planície está cheia de histórias desse tipo, mas dada a localização da pedra e o volume de histórias semelhantes creio ser razoável supor que...”

As palavras de Nanutchk foram interrompidas por um leve tremor, que arremessou Amaron ao chão e fez o velho desequilibrar-se. Em seguida ao tremor, o entorno foi preenchido, subitamente, pela vibração de um som estranho, pouco natural, que parecia entrar, em estado quase sólido, pelas orelhas dos dois homens, e ali alojar-se, grudando nas grutas de seus órgãos e impedindo que eles ouvissem até mesmo suas vozes gritando. Somente soava, por todos os lados e reentrâncias, o som misterioso, o som indescritível, preenchendo e tolhendo os sentidos de Nanutchk e Amaron como a afogá-los na própria sensibilidade.

Então, como viera, o som foi-se, desobstruindo os ouvidos e as mentes dos dois viajantes e permitindo-lhes respirar aliviados. Nanutchk foi o primeiro a reparar, erguendo os olhos, que algo diferente surgira onde antes havia pedra, exatamente no local em que Amaron estivera sentado instantes (ou já teria se passado uma eternidade?) antes. Antes que o velho pudesse dizer qualquer coisa, também Amaron virou-se e encarou o buraco que surgira na Pedra. O bafo atingiu-lhe logo o rosto, e o jovem deu um passo para trás. Do buraco emergia um vento, uma corrente ao mesmo tempo suave e constante de ar que lentamente envolvia os dois homens. Nanutchk sentia-se como se uma cobra estivesse enrodilhando-se em seu corpo, enquanto a Amaron parecia que a corente o levantava do chão, deixando seu corpo suspenso no ar. Ficaram imóveis durante segundo preciosos. Nenhum dos dois queria arriscar um movimento. Amaron percebia, porém, que diferente do que ocorria nas histórias que Nanutchk ouvira, ele não estava paralisado. Se Nanutchk permanecia tenso, preso num abraço apertado, ele sentia-se capaz de correr e até voar, estando ali onde estava. Movido por uma força natural, que retrocedeu seu passo-para-trás e o levou a dar um passo à frente, Amaron sentiu um imenso desejo de penetrar no buraco da Pedra e explorar a caverna que além dele se escondia.

Num último momento de indecisão, virou-se para Nanutchk e viu que o velho continuava com os músculos tensionados, presos por uma serpente invisível. Balançando a cabeça, Amaron tornou a olhar para o buraco, e sem emitir palavra adentrou o espaço negro que o aguardava.

Tão logo seu último calcanhar desapareceu nas trevas, o Som voltou mais uma vez, um assovio rápido e baixo, e a terra novamente tremeu, e as rochas levantaram poeira, e o buraco na Pedra voltou a se fechar. Imóvel e sozinho, Nanutchk olhou ao redor, e experimentou dar um passo: seu pé se mexeu. Então, o velho relaxou os ombros, soltou os braços do nó que ele próprio dera, e exaurido de repente de suas energias desabou no chão, virando em seguida o corpo e encarando o céu esbranquiçado. Um vento forte levantou areia, envolvendo-o, e aspirando o pó do solo o velho fechou os olhos e dormiu.
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quarta-feira, 25 de março de 2009

A Roda #16 - O Círculo, a Roda e o Giro


por Lobato Légio

O giro é um movimento fundamental do Universo. Dele todas as coisas se aproveitam, e mesmo nós, mortais conscientes, a ele nos curvamos. Qual não deve ter sido o assombro do primeiro homem que, após vagar maltrapilho por anos observando as formas do mundo e perceber como o arredondado, o círculo, era presente e significativo, pôde se valer de uma roda como instrumento. Nosso ancestral, pela primeira vez capaz de entender o mistério do giro, deve ter sido tomado por um Êxtase sagrado, o espanto fundamental da descoberta, o sentimento de intimidade com os segredos do Universo. Contemplou a obra de suas mãos, e sentiu que ali residia a Verdade do mundo. Baseado no círculo, forma das coisas, fora capaz de construir a roda, um instrumento, e agora poderia se utilizar dela para a prática do movimento que é o único movimento, o espiral, o helicoidal, o elipsoidal, o circular: o giro.

O Círculo. A origem de todas as coisas, a forma do Deus pitagórico, forma perfeita e representação da unidade absoluta, primordial. A forma impossível, oposta em todos os sentidos à limitação da reta, ao único e linear caminho que a reta traça no infinito. A reta se curvou, e Tudo se fez. Do círculo nasceu o Universo, e o Círculo nasceu no Universo. Não por acaso, o útero é antes arredondado que reto, as estrelas são esferas – círculos expandidos – e nossos olhos se constituem dessa mesma forma. O Círculo estava no mundo, e um círculo era o Mundo, e o Homem, tomado pela consciência, percebeu sua maravilha e seu mistério.

A Roda. A primeira ferramenta e o primeiro símbolo. Manifestação, através de mãos humanas, da forma primeva, a forma mãe. O Ancestral tomou a forma em sua mão, tomou a forma em sua mente, tomou a forma em seu espírito e, alinhando-os, reproduziu-a, por seu próprio esforço, a curva que escapa aos olhos e oferece perguntas mais do que respostas. Desde aquele instante de revelação, a eureka inicial, a Roda tem continuado seu translado, levando sobre si, impassível, toda a civilização.

O Giro. O movimento essencial do Universo. O único movimento. É nas revoluções, translações e rodopiar dos átomos que tudo se move, no giro inescapável do tempo e espaço, o movimento que não se esgota. As coisas são porque as coisas giram, e elas giram porque giro é movimento. A estagnação é atribuição do Vazio, e o movimento prerrogativa da existência. É próprio do haver esvair-se, movimentar-se lentamente em direção à anulação, vertiginosamente em direção ao fim. E o movimento utilizado para trilhar esse caminho é o Giro, o rodopiar das coisas, a valsa cósmica ao som da sinfonia silenciosa produzida pelo movimento imperceptível e constante dos elétrons e dos quarks que só pode ter por destino acabar quando os instrumentos pararem de tocar e as luzes se apagarem.

Eis a epítome do Universo: Nascido de Círculo, sendo Círculo, preenchido de Círculo, presencia a sapiência de seres conscientes a ponto de tomar emprestado do que já existia uma forma capaz de servir-lhes e criar uma ferramenta e um símbolo tornado então ubíquo por sua polivalência, a Roda, e sobre essa Roda e esses círculos movimenta-se, girando, na velocidade que lhe cabe, até que os círculos se sobreponham e se aproximem cada vez mais e por fim coincidam, o círculo final, o círculo que não é círculo, o ponto final onde todos os círculos se concentram e giram e rodam para, no instante posterior, após o fim do universo, serem capaz de expandir-se e darem novamente, BANG!, vazão à existência.
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sexta-feira, 20 de março de 2009

A Roda #15 - Tratado Universalizante da Xurepa, Parte 1: O Significado da Xurepa - Concepções Xur-Épicas dos Poemas-Mundo


por Lobato Légio

No mundo que nos rodeia, aquele que vemos, que ouvimos, que apreendemos com nossos sentidos; nesse mundo está a Xurepa. Se no capítulo anterior entendemos a manifestação da Xurepa mais próxima a nós, a partir destas letras que se inscrevem diante de vossos olhos passaremos a compreender que nossa percepção das relações xurépicas estão divididas em duas categorias. Para que esse conceito se torne mais claro, no entanto, é necessário um pequeno artifício. Imaginemos que a Xurepa, o relacionamento entre as coisas, seja representado por uma linha ligando essas coisas. Assim, todas as coisas estão ligadas umas às outras por linhas imaginárias (ou invisíveis) que são a manifestação alegórica da Xurepa. Ora, um ser consciente – no nosso caso, humano – que se coloque diante do Mundo e O veja “enxerga”, de maneira indireta, essas linhas. Mas, como já mencionado, existem dois tipos de linha, do ponto de vista do ser consciente: as que saem de si próprio e alcançam os outros entes, e as que não o tocam, mas envolvem as coisas do Mundo que o rodeia. A percepção das linhas do primeiro tipo é chamada pelos estudiosos de Xur-Lírica, enquanto a das linhas do segundo tipo é conhecida por Xur-Épica. Neste capítulo, trataremos de analisar esta última.

Em última análise, todo ser consciente tem, ainda que subconscientemente, uma concepção paranóica da realidade, ou seja: vê relações entre todas as coisas. No entanto, como já sabe quem conhece a Xurepa, todas as coisas estão de fato ligadas umas às outras, e portanto a realidade é, de certa maneira, “paranóica” em si própria. Para o ser consciente comum, não inquisitivo, amortecido talvez pelos anos que o separam do assombramento permanente da infância, somente algumas das relações Xur-Épicas interessam. Há aqueles, porém, que questionam a realidade, desejam conhecer as relações entre cada coisa. São, enfim, seres conscientes ávidos de entendimento Xur-Épico, usualmente conhecidos como cientistas, filósofos, ou simplesmente curiosos. A esses seres, as linhas que ligam as coisas são de suma importância, o conhecimento do que elas representam é essencial, e faz parte da vida entender essas relações.

Como veremos mais detalhadamente adiante, uma das primeiras manifestações da Xurepa, e, mais especificamente, da Xur-Épica, foram os chamados Poemas-Mundo. Nestas obras, desenvolvidas por seitas xurépicas primordiais, buscava-se descrever, pormenorizadamente, as relações das coisas do mundo. Com os olhos livres, os asseclas xurépicos olhavam para o mundo e viam, com clareza e discernimento únicos, as linhas que ligavam as coisas umas às outras, para então, usando da conjunção entre a mente, os sentidos e o espírito, transformar aquele entendimento em linguagem, e imprimir essa linguagem em documentos e obras das quais hoje conhecemos somente alguns exemplares.

Esses asseclas foram os ancestrais do que hoje conhecemos como cientistas ou filósofos, seres conscientes que religiosamente buscavam nas relações entre as coisas respostas para as perguntas que espontaneamente surgiam ao darem-se conta de sua própria existência e da existência das coisas ao seu redor.
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sexta-feira, 13 de março de 2009

A Roda #14 - Tratado Universalizante da Xurepa, Parte 1: O Significado da Xurepa - A Língua da Palavra Sagrada


por Lobato Légio

Já se entende, estando nesse ponto, de que natureza a Xurepa é, e a que classe de coisas ela “pertence”. Em termos: a Xurepa é a linguagem de que os entes se valem para relacionar-se com outros entes e o espaço ao redor. Decerto, é por demais ambicioso procurar descrever todas as relações existentes no Universo. Por isso, como já mencionado anteriormente, ateremo-nos, neste tratado, a analisar o aspecto da comunicação consciente que emana da Xurepa, a mais propriamente conhecida linguagem do ser humano, de que ele se vale para expressar-se funcional, filosófica e artisticamente.

Antes, porém, é válido sondar algumas das outras possibilidades de relação que a Xurepa configura. A Xurepa é, pois, a fonte das relações, o centro donde emanam as justificativas da existência. Algumas agremiações religiosas e filosóficas humanas já se dispuseram, ao longo dos séculos, a listar e catalogar todas as formas de relações possíveis, e então tentar encaixá-las em grupos gerais. No entanto, obviamente, seus intentos nunca chegaram a um termo e, conquanto tenham nos legado uma valorosa herança, é por demais ingênuo buscar nos tomos e livros secretos uma descrição da ordem das coisas. Se quer-se descobrir que espécies de relações a Xurepa constitui, ou ainda, que espécies de relações existem, basta olhar para o mundo, e num único quadro poderão ser observadas as mais diversas relações.

Exemplifiquemos com a clássica paisagem idílica, um gramado verdejante que encobre colinas baixas até onde a vista alcança, num dia de sol forte e algumas nuvens no céu, quando o vento está soprando e, ao lado de uma árvore, um casal de namorados faz um piquenique, enquanto uma criança corre atrás de uma bola e passa por uma pedra. O vento fustiga o mato, fustiga a pedra, fustiga os rostos dos amantes e da criança. Os rostos, o mato, a pedra, todos recebem o vento, impotentes, mas com prazer. A pedra se apóia no chão, e esmaga a grama, e impede a luz solar de atingir o solo abaixo de si, absorvendo-a toda em sua superfície acidentada, acinzentada. A árvore vive, puxa a água do solo, recebe o sol em suas folhas, lança sombras sobre os namorados. A bola rola sobre o chão, foge da criança, corta o ar. A criança move suas pernas, pisa nas folhas, sorve o ar, ofegante. As nuvens lançam-se no vazio, movem-se lentamente, unem-se, dividem-se e multiplicam-se. Os amantes dão-se as mãos, e se amam. O sol, constante, a tudo ilumina.

Destarte descrita foi uma grande variedade de relações xurépicas, de toda natureza, mas não o bastante. Foi antes um pequeno fragmento, e mesmo a pedra quieta sobre o solo arenoso relaciona-se de mais maneiras do que a soma de todas as apresentadas no parágrafo anterior. Como se vê, a Xurepa está em toda parte, e assim permanece infinita, insaciável de ser novas relações.

A nós mortais, contudo, a nós solitárias marmotas, filhas da terra e da escuridão, a percepção de todas as existências e de suas relações é um atributo sobremaneira imenso, demasiado superior às nossas forças e ao tempo de que dispomos. Por isso, notamos a Xurepa em seu aspecto mais capaz de despertar em nós uma reação. Se a Xurepa, de seu absoluto original, ramificou-se, dividiu-se, formando toda uma árvore, todo um caminho de novas relações, foi pelo caminho da linguagem e da comunicação que ela nos alcançou. Com a palavra sagrada que nos fala ao espírito, a Xurepa falou, e desde então nós ouvimos. A poesia, a dança, a beleza, a magia, a oração... todas as manifestações artísticas, religiosas ou espirituais de maneira geral são em verdade manifestações da Xurepa, canções e versos proferidos na língua primordial, a língua mãe que somente o coração pode entender, e que o corpo, a mente e a boca traduzem para melhor apreensão dos nossos sentidos.
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quarta-feira, 11 de março de 2009

A Roda #13 - Panorama do Vale de Legium, parte 6


por Lobato Légio

Perto de Akurdati, cidade encravada nas cordilheiras da região mais setentrional do Império, lá onde os picos emergem do solo por vontade própria, implorando por alcançar o céu, e as aves carniceiras devoram suas companheiras moribundas em pleno vôo e não tocam o chão a não ser a cada um ano e um dia, há um pequeno vilarejo de choupanas de palha e gente simples, chamado pela tradição Panaita mas conhecido nos mapas dos desbravadores por Atulana.

O caminho que leva ao vilarejo começa num dos portões de Akurdati, e vai singrando a encosta das montanhas, tornando-se mais sinuoso e estreito a medida que se aproxima do topo do mundo. Grandes rochas e desfiladeiros tangem-no pelas beiradas, mas não se atrevem a invadi-lo, amedrontados de postar-se no caminho dos braços que todos os dias caminham montanha acima ou abaixo entre a cidade e o vilarejo.

Um desses viajantes constantes, da gente de sangue forte das alturas, percorria toda semana a trilha de Akurdati até Panaita, levando tecidos bordados e algumas garrafas de bebida forte, para agradar os homens e as mulheres. Chegava ao centro da aldeia no meio da manhã e sem estardalhaço atraía os vilãos para comprar seus produtos e descobrir novidades. Assim era e assim foi por muito tempo, e assim continuava sendo quando, num dia nublado, o vendedor de panos e águas chegou à aldeia.

Um pequeno grupo de pessoas logo se reuniu ao seu redor e muitos tecidos e bebidas foram vendidos. Os homens discutiam entre si o sabor e o aroma dos líquidos e as mulheres elogiavam com parcimônia o aspecto dos sólidos. Não demorou que um dos clientes mais contumazes do vendedor, como comumente acontecia, o convidasse para almoçar. Sorrindo, o vendedor aceitou, e acompanhou o cliente e a esposa até a cabana em que moravam, um aconchegante lar para o casal e seus quatro filhos. Refestelaram-se de comida e da bebida que o vendedor trouxera, e após a refeição aproveitaram o tempo fresco para cochilar nos almofadões que se espalhavam pelo chão.

Quando acordou com o barulho do vento, a primeira coisa que o vendedor viu foi a dificuldade de ver: o lusco-fusco que tomava conta do ambiente e a brancura que vazava pelas frestas das paredes. Notou que o resto da família ainda dormia, e preferiu não acordá-los. Levantou-se em silêncio e foi até a porta, que abriu com dificuldade. Lá fora, nevava intensamente, e mal se enxergava o próprio chão da rua, já coberto pela neve. Movido por um impulso desafiador, típico de sua juventude, o vendedor lançou um último olhar para os panos e garrafas que trouxera consigo e não vendera, e entrou na nevasca, fechando sem estrondo a porta atrás de si.

Ao acordar, já após o fim da nevasca, o chefe da família notou as pegadas do vendedor, e as seguiu por poucos metros, somente até onde a proteção do telhado cedia e os vestígios haviam sido encobertos pela neve.

O jovem vendedor não mais foi visto.
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quarta-feira, 25 de fevereiro de 2009

A Roda #12 - Coincidências, Parábolas e o Universo


por Lobato Légio

Ontem, vejamos... Sim, ontem. Foi ontem que, após caminhar por páginas e horas de leituras quase atentas, um círculo se fechou sobre mim. Ontem, terça-feira de Carnaval, eu, lendo um grande livro, colosso a ser escalado pelos amantes das letras, deparei-me com uma coincidência inegável. Certas coincidências são contestáveis, é preciso exagerar muito para enxergá-las. Algumas são uma questão de interpretação: tanto se pode dizê-las coincidências supremas como dois fatos sem relação. Outras, porém, e é dessas que falo, são tão claras em sua relação que paradoxalmente tornam-se obscuras, inexplicáveis, e causam assombro. Ontem, enfim, vivi uma dessas coincidências. No momento a que me refiro, lia o último trecho do quinto capítulo do supracitado grande livro, quando me dei conta de que aquele capítulo se passava na noite de uma terça-feira de carnaval. Ora, aquele que leu até aqui se recorda, com certeza, de que eu lia esse mesmo trecho, eis a coincidência, na noite de uma terça-feira de Carnaval. Sem premeditação alguma, portanto, incidiram, concomitantemente, em meu espírito, dois espaço-e-tempo diferentes, o espaço-e-tempo exterior a mim e aquele do livro que entrava por meus olhos. Sem premeditação, repito, ou previsão possível, aqueles dois ciclos temporais se tocaram, produzindo uma coincidência.

Mas que forma tem uma coincidência no Universo? Digo, se o Mundo fosse composto de símbolos, que símbolo representaria a Coincidência? Qual seria seu desenho? Para encontrar a resposta, imagine o gráfico que descreve uma equação de segundo grau, e retire o plano cartesiano: aí tens a figura da Coincidência. Uma meia parábola, duas linhas que vem do infinito mas estão predestinadas a se encontrar. Não, não são retas paralelas que súbitos alteram seu curso, não. São caminho que seguem, constantes, seu tracejado inescapável, o trajeto que leva a um único destino: a incidência concomitante no mesmo ponto.

E se uma meia parábola é uma coincidência, que será a parábola inteira? Uma parábola inteira é um conto moral, de significado ao mesmo tempo flagrante e misterioso, uma história freqüentemente recheada de grande sabedoria, que pretende expressar uma maneira de ser e de se comportar frente ao mundo. Ora, se metade da parábola é uma coincidência, a incidência concomitante de personagens, acontecimentos, componentes do cenário, estados físicos e psicológicos e integrantes imateriais, contra todas as expectativas, no mesmo instante simbólico, a outra metade é o significado que essa união, essa coincidência adquire. A união de uma coincidência e seu significado: eis a parábola inteira.

Destarte, é razoável supor que, se a parábola simbólica apresenta tal aspecto, uma outra parábola, tão imaginária quanto, também apresente. Falo das parábolas celestiais, os trajetos que os corpos celestes percorrem no espaço. Essas parábolas compõem o Universo e, à maneira fractal, são a imagem reduzida de como o Todo do Universo, a soma de todas as parábolas, se apresenta. As parábolas do céu possuem, como as simbólicas, dois centros, e esses centros, tanto numa quanto noutra são opostos, posto que um é “material”, sólido, e o outro é imaterial, ou mesmo vazio, mas só à primeira vista. Pois quando vemos o Sol que se ergue num dos centros da parábola que nossa terra-mãe, a Terra em si, percorre todos os anos, nos espantamos, por seu brilho e solidez que mal podem ser contemplados, tamanhos eles se apresentam. Mas, ao dirigir os olhos para o outro centro, e encontrá-lo vazio, desdenhamos dele, e chegamos mesmo a considerá-lo nulo, quando na verdade deveríamos pensar nele, e ser curiosos a respeito, e tentar descobrir seu papel. E ao fazê-lo, acharíamos sensato considerar que não é porque não vemos nada ali que não há nada de fato. Desse modo, com a mente limpa de julgamentos apressados, seríamos capazes de sentir o que de fato há no segundo centro da parábola, pois da mesma maneira que, ao fechar os olhos e voltá-los para o sol, somos capazes de sentir sua presença, ao abrir os olhos e voltá-los para o segundo centro, seremos capazes de perceber que ele está ali. Assim é a parábola: o Sol, a Coincidência, esses são incontornáveis. Mas o Significado, o Segundo Centro, esses precisam ser buscados, pois se mesmo de olhos abertos eles não se apresentam facilmente, que dirá de olhos fechados, virados para dentro, voltados para a escuridão que lá reside.
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sexta-feira, 20 de fevereiro de 2009

A Roda #11 - Tratado Universalizante da Xurepa, Introdução


por Lobato Légio

Xurepa é o que eu escrevo. Xurepa é o que você fala. Xurepa é o que nós pensamos. De fato, qualquer idéia organizada ou expressão comunicativa, queira por palavra - escrita ou dita -, queira por pensamento, é a Xurepa. A Xurepa é o espírito do convívio social e da civilização. Contudo, não só do “convívio” ou “civilização” em termos humanos, e sim em termos de qualquer ente que possua dois princípios, quais sejam: existir e se relacionar com outros entes que possuam as mesmas duas premissas no espaço alcançável e imaginável. Ver-se-á, no entanto, que as duas premissas são em verdade a mesma, e que é impossível uma ser válida sem que a outra também o seja. Analisemos, pois, ambas as características, de modo a demonstrar esse conceito.

Comecemos, portanto, pela Xurepa em si. Definir a Xurepa é o exercício de metalinguagem supremo, o que o torna extremamente importante e nada trivial. Como se vê por esse próprio texto, a Xurepa tem muitas definições, e cada uma delas é válida. Descrevê-la por completo seria uma tarefa exaustiva, quiçá interminável, então procurar o cerne de todas as definições, o que todas elas têm em comum, é o único meio praticável de definir a Xurepa. Arrogo-me o direito de tentar fornecer essa definição, ainda que ela possa ser, ainda, outra faceta, e não o âmago definitivo.

Para começar, partiremos de definições mais genéricas da Xurepa, para depois tentar extrair delas um aspecto comum. Quando um ser humano fala com outro, ocorre um processo de comunicação. Há um ente que diz e um ente que ouve. Mas o processo, a relação entre eles, é a Xurepa. Do mesmo modo, quando se escreve, a caneta faz pressão no papel, e o papel cede, sendo então marcado pela tinta. Ocorre aí um processo mútuo. Isso é Xurepa. Ao se olhar para o céu à noite, vê-se estrelas, e as estrelas são vistas. Isso é Xurepa. Ao se sentar em uma cadeira, a parte animada entra com o traseiro e a inanimada, com o assento. Isso é Xurepa. Uma árvore cai na floresta. Não há ouvidos para ouvir sua queda, mas esta continua provocando o deslocamento do ar, deslocado por ela. Aí também está a Xurepa. A Xurepa é, portanto, uma troca - ainda que inconsciente, posto que pode ser realizada por seres sem consciência. É o equilíbrio das forças comunicativas no universo. A linguagem mais básica de comunicação, de relação entre entes, uma espécie de Kether lingüística da qual emergem todas as outras formas de se relacionar no Universo.

Pois bem, isso posto, qual a relação que isso tem com a existência em si? Não é matéria para esse estudo questionar as filigranas e questiúnculas sobre o que é realidade, mas isso não o impede de fazer uma proposição a respeito de pergunta geral: o que significa, exatamente, existir? Descartes sugeriu o famoso postulado Cogito ergo sum – Penso, logo existo -, mas essa relação obviamente só é válida para seres racionais. Sobre isso ele erigiu a tradição do ceticismo, de duvidar de tudo até níveis paranóicos. Entretanto, não se pode dizer que a fala de alguém - essa combinação etérea de pensamento, vibrações das cordas vocais e ar – existe? Não se poderia dizer que a imagem de uma pedra em nossa imaginação também existe, enquanto imagem de uma pedra na imaginação?

A verdade é que prerrogativas como tangibilidade e consciência são mancas para explicar a qualidade de algo existente. São extremamente arbitrárias ao condenar a imaginação, a ilusão, o pensamento, até mesmo a música, à categoria de não-coisas, de coisas que não existem por não serem tangíveis ou imagináveis. Mas, se não for isso, pergunta-se: o que poderia justificar ou caracterizar a existência? E se responde, prontamente: a Xurepa. O estado de estar se relacionando com outras coisas.

Essa visão é, por certo, fonte de esperança mesmo em frente à desolação do vazio. Um átomo largado no vácuo é algo que existe, assim como o nada ao seu redor existe também. Somente o nada absoluto, livre de qualquer contraste, não-existe. Mesmo que toda a história da humanidade fosse o sonho de um deus adormecido, isso não retiraria a solidez do fato de que existimos.

É uma definição abrangente, mas definições tem o costume, raramente contrariado, de serem abrangentes. Se fosse algo específico, não seria definição, e sim descrição. A Xurepa tem muitas descrições, mas a definição, sobre o que ela é, acima de tudo, é só uma. Existir e se relacionar, portanto, é uma única e mesma coisa, e a Xurepa é o caminho entre o nada e a existência.

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Nesse estudo, analisaremos mais a fundo outras facetas da Xurepa, com exemplos, histórias e descrições, e forneceremos um painel abrangente de como ela foi tratada e retratada pelo gênio humano, na arte e na filosofia, durante a história, focando-se especialmente em seu aspecto de linguagem que expressa idéias, sentimentos e abstrações.
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quarta-feira, 11 de fevereiro de 2009

A Roda #10 - Panorama do Vale de Legium, parte 5


por Lobato Légio

- Ontem fará trinta anos que eu não terei visto meu pai.

- Tudo isso? Meu amigo, não lembrava que já fazia tanto tempo.

- A última vez que encarei aqueles olhos foi há trinta longos anos. Nunca os havia penetrado tão profundamente, mas no último momento mergulhei neles e quando saí já estava a uma grande distância do homem que me criou.

- Também me lembro disso, de estar ao seu lado antes de você sair para encontrá-lo, de te encorajar a ser franco sobre seus sentimentos.

- Não há meio de agradecê-lo por isso, foi a melhor coisa que eu poderia ter feito, mas foi o suficiente somente para diminuir a dor, não para acabar com ela.

- A dor... ainda hoje você a sente não?

- Hoje, propriamente, não sei, mas a sinto em ciclos que se repetem pelos meus anos. Não se pode pensar na dor em termos científicos, claros. Ela não diminui nem aumenta com o tempo, ela é um movimento constante, repetitivo. Após a partida de meu pai, ela foi crescendo, e depois diminuiu, e desde então assim se repete seu movimento, picos que surgem, arrasadores, cercados por todos os lados de sentimentos mais amenos... Tranqüilidade e boa nostalgia pontuadas por instantes excruciantes, breves no tempo contado mas imensos nas horas que passam dentro de mim.

- É como se de repente o tempo mudasse e você se visse de volta ao instante chave, ao momento da ruptura, e toda a dor daquele fato caísse de novo sobre você.

- Mas é isso mesmo, exatamente isso... como sabe?

- Meu amigo, você entende. Todos nós já vivemos isso.

- Sim, como não saber? É uma verdade tão universal, tão agarrada em nossa pobre alma estropiada.

- É uma verdade do tempo e da memória, e do sangue e das lágrimas, e dos sinais elétricos que se repetem em nossos corpos, reforçando a mesma mensagem, criando fantasmas na nossa carne...

- Como eu gostaria de poder ter evitado tudo o que aconteceu, de ter percebido antes o rumo que as coisas estavam tomando, de ter enxergado a tempo a que fim meus atos levariam...

- Você não pôde, amigo, nem poderia, de maneira nenhuma. Você pôde reparar os sentimentos, mas não os fatos. Você deixou seu pai em paz, e assim encontrou sua própria paz, mas nunca teria podido mudar o destino que havia escolhido para si.

- O tempo é tão estranho... Nos momentos de dor, quando o aperto surge silencioso e recrudescente, um bolero cruel, eu sinto que estou de novo mergulhando nos olhos do meu pai, e lá dentro eu encontro momentos da minha infância, quando ele vinha quieto me ver brincar, e ficava lá, parado num canto, sorrindo e deixando que as imagens do filho se gravassem em suas retinas, em sua memória. É exatamente como se eu voltasse àquele momento, e enquanto a dor perdura, vivo uma vida inteira de novo, mas quando a dor termina, nem um minuto se passou.

- O tempo não existe a não ser dentro da gente, a não ser na nossa alma. O único contador de tempo confiável é nossa própria consciência. E ainda assim, esse pedaço da existência, esse movimento indecifrável, o tempo, não tem nada de humano. O tempo é implacável, irredimível, irreversível, e por mais que nos postemos firmes contra ele, acabamos devorados de dentro pra fora, reduzidos sem perdão a uma última camada de pó.

- E no entanto, permanecemos.
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sexta-feira, 6 de fevereiro de 2009

A Roda #9 - Tratado Universalizante da Xurepa, Prelúdio


por Lobato Légio

Xurepa, jureva, czureta. Xurepa, jureva, czureta. Xurepa, jureva, czureta. Vem, língua-mãe do Universo. Dai-nos palavra, eloqüência e sentido. Pa lavra e Loqüência sem tido. Dainos, palavraeloqüênciasentido.

Doravante a visão da Xurepa em glória, terror e delícia do Universo, a Palavra-Sagrada. As línguas revolvam nas bocas, os palatos tremam e soem, os dentes estalem e as cordas vocais vibrem! Cavalguem as canetas, dancem as penas, os lápis pululem e as teclas batam! Divulguem todos a linguagem que É.

Dita, proferida, proclamada, composta, escrita, desenhada, imaginada, pensada, gritada, cantada seja! Ouçamo-la com os ouvidos, ouçamo-la com a mente, ouçamo-la com o coração, ouçamo-la com a Alma! Eis a Idéia, eis a História, eis a Língua!

Xurepa que Fala, conceda-nos ouvir-te.
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quarta-feira, 28 de janeiro de 2009

A Roda #8 - Notícias da Frente


por Lobato Légio

Ano termina, ano começa, aqui estamos nós – mesmos e desiguais. Lobato Légio mais uma vez vem deitar e sussurrar para a poeira da superfície da Terra seus segredos profundos. Mas é uma espécie de magia, a mudança. A maneira como segredos profundos vêm à superfície, a maneira como superficialidades podem submergir lentamente até as profundezas. A maneira como um antigo poeta latino vem parar na pena de um prosador contemporâneo, talvez até demais para o próprio gosto: Metamorfoses.

Pois bem, aqui estamos, portanto, e as coisas mudam, e nós com elas: A Roda, que antes girava uma vez a cada duas semanas, agora há de girar todas as semanas, porém não como vocês imaginam. A cada duas quartas-feiras, como já ocorre, A Roda girará no ritmo de sempre, trazendo sobre si novas palavras deste prolixo pensante. A cada duas sextas, porém, alternadas às quartas rodadas, as palavras célebres de artistas merecedores darão lugar ao ruído desprezível do que vos escreve.

Nesses dias, a despeito do estilo pobre, um tema elevado será objeto de estudo (e, considerando-se o tema, também o próprio meio de expressão): não mais não menos que a Xurepa. Pois, por motivos que me fogem à compreensão, Tuma solicitou-me a permissão para publicar no diário-de-rede minha obra Tratado Universalizante da Xurepa, publicada já há anos idos, como maneira de esclarecer aos eventuais leitores as características, pormenores e idiossincrasias de tal coisa. Dessa maneira, esperem muitas digressões sobre a história da Xurepa, o que ela é e o que representa.

Concomitantemente, a própria coluna de quarta-feira terá novidades. Em um mês, ou seja, daqui a duas colunas-de-quarta, quatro no total, começarei (espero continuar sendo eu, até lá) uma série sobre a Roda, seu significado e suas variantes, fazendo jus, finalmente, ao título da coluna.

O futuro não me pertence, é certo, e a quem pertence também não sei. Mas, durando o mundo, e seguindo seus cursos as coisas como planejado, os próximos meses serão muito enriquecedores para minha experiência nesse diário-de-rede, e espero que também seja enriquecedor para os leitores.

Ano termina, ano começa, aqui estamos nós – mudando, resistindo às mudanças, tocando sempre em frente.
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quarta-feira, 14 de janeiro de 2009

A Roda #7 - Panorama do Vale de Legium, parte 4


por Lobato Légio

Inelutável a atração que Ponto provoca nas mentes humanas. Chama, bradando, e as envolve num amplexo poderoso. Muitas coisas evocam o mar, muitas coisas o mar evoca. De um mero momento, água caindo potente sobre a cabeça, respingando nas paredes, nasce uma idéia. É a consciência, que flui, e desemboca no mar.
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Há um ponto entre os ladrilhos. É uma encruzilhada. Há uma árvore morta. Tombada sobre o caminho que vem do norte. Há morte, no caminho do norte, me diz um corvo. Ele espreita, entre os galhos ressequidos de uma vida passada, hoje só um esqueleto no urzal. É longa a autoestrada. Autoestrada. Eu não tenho uma estrada. Os caminhos se bifurcam, não sei para onde. Qualquer um serve.

Água escorre da parede. O xampu me cega, e seu gosto ruim provoca uma careta. Uma carreta colide com a árvore morta a caminho da horta. O pára-choque entorta. Mais um cadáver.

Alô? – hesito – Preciso conversar.

Sim? – êxito – diga.

Silêncio. Estática. Sem lenço as lágrimas me escorrem ao chão. Elas vêm, em ondas. Eu não sou uma onda. Eu sou o mar. O mar. Imenso. Ordem. Onda. Chuá. Onda. Chuá. A arrebentação faz-me doerem as pontas dos dedos. Eu resisto. Agora é o gosto salgado que me oprime.

Não serei mais aquilo. Serei ira. Das profundezas, e a elas, vem uma voz, que ecoa e destrói as paredes de pedra da enseada. Os grãos de areia suplicam, aterrorizados. Oh não por favor oh não por favor. Rochas imensas caem sobre eles. Rochas pantagruélicas, transubstanciando-se em titãs do tamanho do mundo. Não do tamanho do mar.

Imagem do infinito: o mar. Sem bordas, sem praias, sem um porto seguro onde chegar. Sim, sim! Sou grandessíssimo. Titânico. Colossal. Me ergo e firo a tessitura da terra, para então cair no infinito.

Acordo. Nove nove nove. Seis seis seis. Um dois. Tuu. Tuu. Alô?

Tartamudeando, falo.

O tártaro é o Inferno. Lugar das almas penadas. O lago de fogo eterno. Imagem da eternidade: Cada grão de areia ou gota do oceano, pena dos pássaros ou pêlo dos mamíferos, escama de réptil ou folha das árvores. Cada quark, trinado de gaivota ou manhê. Num monte sem medida. Um pássaro, o corvo do caminho do norte. Vem, a cada giga-ano, levar uma partícula embora. Ao fim do monte, não se passou sequer um segundo da eternidade. Desespero eterno no tártaro.

Mude. Morte e vida cara e coroa começo e fim. Não há diferença. A destruição é a matéria que alimenta as estrelas. Mude. Não há mudança. Somos os mesmos. Somos a esmo. Somos, mesmo que. Mude. Ga-ga-ga.

Andei, andei, andei, andei. Nada nada nada nada encontrei. A estrada que vem do norte está plena de morte. A estrada que vem do oeste nada traz senão o ar marinho. Eu venho de lá? É por isso que almejo esse caminho? Não, não faz diferença. O oeste está fechado, do leste vem a peste, no norte há só morte e o sul é azul. Nenhuma rima ou canção é ouvida pelos lados do pôr-do-sol.

Falo. Não digo. Falo. O dom que recebemos daquele completo, repleto, inexorável, amoroso, divino, ouvidor, rápido Ser. Crescei-vos e multiplicai-vos. Ouvidor. Houve dor. O falo causou a dor. Você é! Eu faço. Ouço um grito, é a dor.

Acordo. Fiz um acordo com ele. Parei de gaguejar e disse: eu sou o mar. Oh não, por favor!
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quarta-feira, 10 de dezembro de 2008

A Roda #6 - Adeus Ano Velho







por Lobato Légio

Vão-se os anos: as lembranças ficam. Ao menos por enquanto. Hoje, nesse décimo dia de dezembro desse ano de doismileoito, escrevo pela última vez no diário-de-rede Amortescimento. Eu, o Lobato Légio de doismileoito, o Lobato Légio com essa contagem de anos, não voltará a escrever aqui. Só quem vocês poderão ouvir, a partir do decimoquarto dia de doismilenove, será o novo Lobato Légio, o Lobato Légio do anoquevem, um outro.

Esse de agora, porém, tem ainda algo que dizer. O doimileoito que se arrasta para o não-mais-ser foi um ano pleno de mudanças para os dedos que tanto anunciam: no princípio um kaos, então kalmaria, e por meios movimento (posto que não chegou ainda o Fim), como cabe aos mitos de todas as línguas.

O primeiro dos dias de Janus perdeu-me numa distensão em que o passado e o futuro, afrente e atrás, eram concomitantemente assimilados pela minha consciência. Por “assimilados” e “consciência”, porém, digo somente que tais coisas caíam sem aviso no mar-revolto que meus pensamentos se haviam tornado.

Por todos os primeiros meses, tal continuou acontecendo. Numa imagem que pode facilitar a apreensão do que eu sentia: sendo minha cabeça uma imensa biblioteca, era como se todas as prateleiras houvessem sido viradas e os livros assim idos ao chão, misturando-se em princípio, confundindo-se depois e ao cabo queimando como uma Alexandria assaz pessoal e singular.

Uma garoa fina, todavia, soprada talvez pelos deuses beneméritos, veio sobre mim aplacar as chamas e esfriar os destroços. Após o que resolvi abandonar todos os meus projetos e haveres e mudar-me para uma solitária cabana no campo. Ali pelos vários dos meses morei, até que um velho da aldeia indicou ao Tuma dono deste local virtual o caminho até minha cabana, e o moço solene veio até mim.

Da maneira que já tratei, o rapaz convidou-me para escrever em seu diário-de-rede, com donaires de grande intento, convite do qual declinei gentilmente. As Moiras, porém, nos enredam de maneiras que mal concebemos, e por motivos os quais não é de meu interesse comentar vim morar aqui em terra brasilis, Pindorama para os íntimos.

A isto, seguiu-se que achei por bem aceitar o convite de Tuma, e passei a escrever “aqui” no Amortescimento a cada duas semanas (constância que se manteve, salvo uma única exceção). Conquanto não tenha, é fato, tratado ainda diretamente de temas mais específicos, já vi publicadas aqui três descrições geoandrográficas das terras (em) que sou, e recebi com alegria os comentários feitos a respeito de meus escritos.

A hora, porém, é de melancolia. Estive com vocês, meus leitores, por durante seis longos séquitos letrados, mas doismileoito não lerá mais minhas palavras. O que vem agora, portanto, é despedida, um único “Adeus”, lacônico e franco, para os que com coragem me acompanharam.

Minha personalidade semovente, pois, há-de estar em um outro lugar que não o de-hoje aqui, quando Lobato Légio voltar a escrever. Ter(ei/emos/ão) dado mais um passo em direção ao Fim, conquanto não (me/nos/lhes) será dada a chance de chegar até o momento último, quando A Roda parar de girar a contagem dos anos voltar a zero e todos os atos lembranças palavras sentidos se desfizerem em brancura.

Assim, com imensa tristeza mas esperançoso de uma outravez nos encontrarmos, digo o que é preciso dizer:

Adeus.
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quarta-feira, 26 de novembro de 2008

A Roda #5 - Panorama do Vale de Legium, parte 3







por Lobato Légio

O velho Toleimã está sete palmos abaixo do chão. Em tempos antigos, devastou muitas terras. Agora, já não destrói mais. Postava-se imponente acima de todas as terras e só o que os moradores de tais plagas faziam era observar seu assombro, espantados, olhos arregalados para o colosso que até o céu se erguia. Ali, entre eles, nascera o Semeador de Ventos, uma criança amaldiçoada, filha do grito e da fuga, adotada pelos aldeões sem consciência de que deixavam o destino entrar pela porta. Quando cresceu, plantou mudas de vento, e uma vez por ano, fazia a Colheita. Tempestades varriam todos os rincões, empurrando o povo daquela terra para um lado e para o outro até o exílio. Em um determinado ano, quando o sol foi especialmente quente, e a água especialmente boa, os pés de ventos deram uma safra especialmente portentosa. Nascia o velho Toleimã.

O furacão colossal assombrou os vales por anos sem conta, tornando nômades os sedentários e desérticas as plantações. Quando estava simplesmente transformando as coisas em destroços, jogava-as para o céu, e fazia as vezes de mensageiro. Levava as mensagens-gentes do sertão sem fim até a terra de Oz e além, nos Orientes longínquos. Agarrados em sua cauda iam bruxas, cangaceiros e deuses imortais. Só os que ficavam agarrados ao chão eram as gentes do povo, com os dedos sangrando de enfiá-los em fendas e em rochas para não ser espedaçado pelo vento.

Com o tempo, passaram a aceitar o velho Toleimã como parte da natureza, uma entidade tão absoluta e cuja presença era tão inerente ao estado das coisas quando o céu ou o chão. Assim que ele se tornou parte óbvia do mundo, começaram a fazer para ele canções e poemas, que o descreviam, louvavam e amaldiçoavam, e inventaram para ele espíritos e deuses, para os quais poderiam rezar a fim de que a tempestade fosse embora.

Tendo adquirido, por meio de seus fustigados, uma consciência metafísica, o velho Toleimã passou a dirigi-la para seus atos, e para as justificativas deles, e percebeu que nada do que fizera até então fazia sentido. Tomado por uma necessidade primal de encontrar seu criador, passou a buscar o Semeador de Ventos, e acabou por encontrá-lo, muito tempo depois, sozinho em sua cabana.

Devido ao seu tamanho e força, o velho Toleimã arremessou, inadvertidamente, a cabana do Semeador para o céu, e o velho ceifador de tempestades desapareceu entre as estrelas. Triste, desse modo, por ter sumido com seu criador, o colosso de vento começou a arrefecer.

Pouco tempo se passou, alguns anos somente de rondas no deserto, e o antigo deus furacão acabou sendo engolido pelo chão, desaparecendo na poeira que um dia transtornara.

Triste e solitário, assim morreu o Velho Toleimã.
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quarta-feira, 12 de novembro de 2008

A Roda #4 - Mil perdões







por Lobato Légio

Caríssimos leitores: perdoai-me. Nós, que labutamos na difícil lida da escrita, deveríamos ficar trancafiados de duas a três horas por dia, ao menos, para nos dedicarmos a esse ofício. Tal não acontecendo, ocorre o que ocorreu com a minha coluna - digníssima, prestimosa coluna: eu fiquei sem escrever, e vocês ficaram sem ler. Mas não há drama, tudo isso é fruto de minhas escolhas.

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Morasse eu ainda em minha cabana, teria muito tempo para dedicar-me ao Ofício. Mas me mudei, e aqui estou: vivendo em meio ao caos, buscando os fragmentos de minha própria identidade em meio ao som e à fúria da vida contemporânea, escrevendo como posso, catando os cacos de minhas memórias e influências para oferecer a vocês, e ao dono deste espaço, algo digno de nota.


Tuma disse, semana passada, ser o motivo de minha ausência uma crise existencial. Eu mesmo não seria tão dramático ao me referir àquele conjunto de experiências pelo qual passava então, mas ainda assim achei o termo válido.

Tratou-se, mais apropriadamente, de um período de confusão mental e falta de inspiração - o que, de qualquer forma, para um escritor como eu, seria algo como um crise existencial, daí eu concordar com a denominação dada por Tuma, embora não a reforce -, fruto da fragmentação já citada no início deste texto.

Como vocês talvez não saibam, tenho outras tarefas cá no Brasil além de escrever para este diário-de-rede. Ora, minha mudança para o país é recente, assim como é recente minha iniciação no tipo de serviço ao qual me refiro. Além disso, o clima, os costumes e o silêncio deste lugar são muito diferentes dos que eu me acostumara em minha aldeia.

Por conseguinte, acabei por entrar neste torvelinho, em que toda minha energia criativa era sugada pelo meu trabalho oficial, e tanto minha vida pessoal quanto criativa acabaram por se tornar mortiças. Felizmente, com rapidez recuperei a energia, e por isso posso, hoje, escrever aqui de novo.

Desde já, agradeço a paciência de todos vocês, meus leitores, com esse contratempo. Continuem comigo, que em breve, muito em breve, virão as coisas as quais lhes havia prometido.
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quarta-feira, 15 de outubro de 2008

A Roda #3 - Panorama do Vale de Legium, parte 2






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por Lobato Légio

Tecem-se as impressões sobre o monólito vivo: fulgura já o sol alto no céu, mas ele ainda permanece à sombra. É O Que Foge do Zênite, o para o dia obscuro. Mas, posta a estrela maior, a refulgência de fogo, em seu nadir, ou, antes mesmo, nos limites da visão, caminhante do ocaso, aí sai o monólito de sua caverna e caminha no lusco-fusco, e espera surgir Vésper, e brilha com as estrelas.

E na chuva delas se molha, e se banha, e resplandece, solitário e único, vidrocristal que verte do areal sem fim. O deserto ressoa de eco e silêncio, toca os ângulos e as impressões do monólito vivo. De bem longe vêm surgindo sombras, que caminham em sua direção e por ele passam, antes mesmo que se entenda o que elas eram.

Deitado de braços abertos, engolido pelo céu negro sarapintado de estrelas, sou eu o monólito vivo, erguendo-me da areia, tão pesado quanto o mundo, somente o sol por testemunha. Sem pestanejar caminho, e pulo, e alcanço.

A estrada que corta o deserto, é ela que me alcança, com suas curvas insidiosas, animais invasores, e retas que perpassam o coração das areias como uma lança. O asfalto quente expele um bafo de ilusão, e o caminho que se posta à frente se torna difuso e sem contornos.

Na névoa, porém, vejo aparecer algo sólido, real. Quatro paredes e meia, pilastras, uma bomba de gasolina. Dentro do posto, um homem gordo e barbudo não levanta os olhos quando eu entro, fica a anotar riscos mortos em sua caderneta.

Somente quando toco no balcão, ele sai de sua posição, e vira os olhos para mim, e sua língua, e pergunta, de pronto, sem mesmo piscar: “Mister...?”, ao que respondo, após um único e leve respirar: “Suzano – from Alabama.”
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quarta-feira, 1 de outubro de 2008

A Roda #2 - Considerações Iniciais






por Lobato Légio

Considerei, quando fui convidado pelo insigne Tuma para escrever neste diário-de-rede, que espécie de compromisso teria de assumir para colocar, a cada quinze dias, minhas palavras à disposição dos outros.

Ponderei, muito calmamente, os dois aspectos mais imediatos dessa abertura. Por um lado, escrever numa coluna permitiria-me expôr algumas idéias que considero essenciais. Mas por outro, demandaria que eu me expusesse muito amplamente, e saísse da cômoda situação em que me encontrava.

De fato, quando Tuma me procurou, encontrou-me em uma espécie de idílio, um exílio auto-imposto a que me submetera para descansar a mente e relaxar o corpo, após tantas jornadas. As situações específicas que levaram a tal exílio não são matéria para esse texto, e portanto ficarão rigorosamente excluídas de seu entrecho.

Basta saber que vivia eu isolado da civilização e dos homens quando, num dia ameno, em que a luz do sol aparece mais branda, tingindo de ouro os campos, e as nuvens se agrupam em largas ilhas de brancura nos ares, e os animais ficam em silêncio para ouvir a própria respiração, apareceu Tuma caminhando calmamente colina acima, acompanhado de um velho da aldeia, que indicou-lhe o caminho e o deixou galgá-lo sozinho.

Já o observava há muitos minutos da janela quando ele alcançou a porta de minha cabana e bateu, três vezes. Curioso, mas calmo, desci vagarosamente as escadas e abri a porta, deixando a luz invadir minha sala e a silhueta de Tuma acertar em cheio meus olhos.

Nos conhecíamos de uma outra visita que ele me fizera, quando eu estava em Veneza, trabalhando no último volume de Crítica e Comentários à Produção Literária Humana e aproveitando o ar do Adriático. Queria autorização para utilizar alguns trechos de minhas obras, a qual dei de bom grado.

Depois, não havíamos nos falado novamente por um bom tempo, até que, no começo desse ano, ele me procurou em minha cabana, no alto daquela colina velha donde se via todas as cercanias.

Apresentou logo o motivo de sua visita: queria que eu cedesse minha “ilustre presença transubstanciada em palavra” (termos dele) para seu recém-criado diário-de-rede, a cada quinze dias. Fui breve, também, em minha resposta: não estava interessado. O resultado das considerações citadas no início deste texto foram os seguintes: a chance de escrever em um diário-de-rede novo e mal visitado não compensava o fato de eu ter de abandonar meu pequeno paraíso.

Assim, Tuma agradeceu por eu haver lhe ouvido, e partiu. Tudo teria permanecido desse modo, e hoje eu não estaria aqui escrevendo este texto, se alguns eventos momentosos não houvessem retirado-me de meu idílio e obrigado-me a vir para o Brasil.

Uma vez com os pés e a alma devidamente postos em terras tupiniquins, logo pensei em entrar em contato com Tuma, mas não foi necessário: ele me procurou no hotel onde estava momentaneamente hospedado e fez, mais uma vez, a mesma proposta.

Neste tempo, porém, não pude recusar: fazendo uma mudança inesperada para um país a respeito do qual só conheço a língua e a cultura? Por que não, afinal, escrever e, assim, tornar-me mais conhecido entre os nativos?

Desse modo, pus-me logo a trabalhar, e Tuma só tem agradecido minha diligência. Eu, porém, é que aproveito o ensejo para agradecê-lo pela oportunidade de estar aqui, enquanto “presença transubstanciada em palavra”, e para avisar a todos de que o que está por vir não foi previsto, ou anunciado, mas será digno das profecias.
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quarta-feira, 17 de setembro de 2008

A Roda #1 - Panorama do Vale de Legium, parte 1






por Lobato Légio

Eu não sou Lobato Légio. Nunca fui, nunca serei, não posso querer sê-lo. À parte isso, tenho em mim todos os Lobatos Légios do mundo.

O quanto de ser Lobato Légio me apetece é aquele tanto em cuja consciência mora a paz, a calmaria de um oceano equanimemente profundo do qual as ondas não encontram terra.

Mas, não sendo Lobato Légio, não encontro essa paz, em lugar algum, senão nas consciências alheias, múltiplas, que não me pertencem.

Só o que tenho é a angústia, o sentimento de necessidade e falta que me impede de ir longe do lugar onde meu coração habita, que limita meus horizontes e, portanto, me define.

Contudo quando, na noite silenciosa, ouço o bater de poderosas asas, acordo ofegante, e começo a correr pelos sonhos frágeis como quem foge da morte, e as cores dos mundos padecentes além das muralhas da minha terra espocam em círculos no ar, atraindo, irresistivelmente, o curso dos meus passos.

E então, desperto, arrasto meu coração, levando-o sobre os ombros a um lugar qualquer que o caminho alcance.

Nessa jornada, só o que anseio é descobrir, saber, ver, com os olhos bem abertos, as coisas intensamente. A curiosidade me move, a loucura me guia, e só o que permanece é o caos, a cacofonia de vozes, a confusão de imagens que escorrem, e vazam, e inundam todas as coisas.

Os sábios me dizem, os anciãos me ouvem, os calmos me abraçam e me levam pelos dedos. Todas essas paragens onde vive o conhecimento, por elas eu caminho, cajado nas mãos, conduzindo o rebanho meus pensamentos em cadenciada marcha, até encontrar um Sol que a Tudo ilumine.

No fim, torno à minha casa, ao meu refúgio no cimo da colina, e meu coração repousa. Deixo meu corpo descansar na cadeira, e recuperar na memória todas as sensações daquele lugar. Os cheiros, os frios e os calores, os duros e os macios.

E Aquele que vem morar na minha cabeça é o que tem a paz na consciência. E, cansado, deito para adormecer, mas não adormeço.

Os sussurros voltam, e um arrepio toca com as pontas frias dos dedos todo o meu corpo, as palavras que me entram pelos ouvidos vão se formando lentamente no salão de espelhos encobertos da minha mente, até que uma luz se acende e, mais uma vez, eu posso ver.

E sinto Lobato Légio correr em mim como um rio por seu leito, e lá fora um grande silêncio como um deus que grita.
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