sábado, 5 de janeiro de 2008

Resenha: Um Retrato Do Artista Quando Jovem

A tradição do romance de formação ou Bildungsroman remonta a Goethe e seu “Os Anos de Aprendizagem de Wilhelm Meister.” A história do jovem alemão e suas teorias sobre Hamlet não só influenciou diversos escritores como criou um gênero. Livros como “O Jovem [Aluno] Törless” de Robert Musil, e “Sidarta” de Hermann Hesse são alguns dos expoentes do gênero, embora incontáveis outras obras sejam acrescentadas - ao humor do crítico estiver analisando (Harry Potter inclusive). Ainda que muitas (ou todas) as histórias falem sobre transformação, as características do Bildungsroman são claras e facilmente apreensíveis. Para começar, observe os títulos. Palavras sobre juventude e aprendizado são constantes. Além disso, são romances majoritariamente psicológicos, mais dedicados aos pensamentos e sentimentos do protagonista (notoriamente masculino pelas questões sociais que todos conhecemos, mas obviamente com suas exceções) sobre o que acontece ao seu redor, algo que acaba solitarizando-os.

Joyce adorava o livro de Goethe, e o citou inclusive em sua opus magnum “Ulisses” . Fez assim jus a isso criando um romance de formação – que é frequentemente comparado à autobiografia por semelhanças estilísticas – semi-autobiográfico. A história do “Retrato” é longa. Começou no dia 7 de Janeiro de 1904 (ano fatídico), quando ele escreveu um ensaio autobiográfico intitulado A Portrait of the Artist para a revista Dana, editada pelos escritores John Eglinton e Fred Ryan (também personagens de “Ulisses”), recusado prontamente, pois aquele afirmou: “Não posso imprimir aquilo que não entendo.” Incentivado pela recusa, Joyce se pôs a trabalhar em um romance, com o mesmo tema e história, chamado Stephen Hero, com conteúdo muito mais sociopolítico e extenso, percorrendo 26 capítulos, mas já “estrelado” pelo alterego do autor, Stephen Dedalus. Fragmentos de Stephen Hero seriam publicados depois da morte dele, possibilitando uma análise de seu conteúdo e proposta. Quanto ao “Retrato”, foi metamorfoseado da obra original em algo muito mais psicológico e denso, sendo então publicado em forma de série na revista The Egoist em 1914 e 1915, e depois impresso em forma de livro em 1916.

Como toda a obra de Joyce, o livro pode ser analisado sob muitas facetas. Comecemos pelo protagonista: St. Stephen foi o primeiro mártir cristão, e Dédalo foi o gênio inventor e arquiteto da mitologia grega - que construiu um touro de madeira para a rainha Pasífae copular com um touro campeão, e por isso foi preso pelo rei Minos no labirinto que construíra para o Minotauro, junto com seu filho. Ele então fez dois pares de asas com penas e cera, e as utilizou para fugir. Seu filho, por outro lado, se aproximou muito do sol e caiu, gerando a famosa analogia/metáfora do “vôo de Ícaro” ou da “queda de Ícaro”, tão batida quanto a “ressurreição da Fênix das cinzas” -, o que ilustra perfeitamente a dicotomia do personagem: inicialmente e por um lado um católico contrito, cheio de culpas e arrependimentos, eternamente melancólico; e posteriormente e por outro um pagão, um poeta herético ou, em suas palavras, “um horrível modelo de livre pensamento.” Analisado contra Poldy ou Molly Bloom, Stephen é um personagem um tanto estéril (como o disse Harold Bloom). Quando divide a cena, acaba ficando em segundo plano. Mas “Retrato” é seu livro, sua história, e aqui ele executa perfeitamente bem seus papéis.

E a maneira que ele encontra para tomar posse do livro é a penetração psicológica, aplicada sob a forma do monólogo interior, usado pela primeira vez por Joyce. O método “criado” por Edouard Dujardin foi utilizado por muitos, mas Joyce é o mestre e artesão definitivo do estilo. O monólogo de Molly Bloom em “Ulisses” é especialmente citado, mas já em “Retrato” Joyce explora de mil maneiras o mundo interior do protagonista com o fluxo de consciência. Impossível não entender os dilemas de Stephen, e identificá-lo como humano. A maneira como as coisas vêm pode ser um pouco difícil, mas qualquer leitura atenta desvenda imediatamente toda a - com o perdão da expressão – magia do livro.

Magia esta que toma outras formas. A “formação” ou “evolução” da personagem, o outro grande trunfo do romance, ocorre aqui em paralelo à evolução do livro. O crescendo da sofisticação lingüística e sua representação musical são de fato os verdadeiros retratos de Stephen. Inicialmente sons monocórdios, orações coordenadas, idéias girando em torno de um mesmo conceito. Sim, o início do “Retrato” é o mundo pelos olhos de um bebê. O resto deste primeiro capítulo, um dos mais deliciosos de se ler, também retrata fielmente o pensamente infantil, em sua busca dos porquês e em sua ânsia analítica de entender as coisas e relacioná-las umas às outras. Finda a prótase, vem a epítase: nascem os conflitos, familiares, religiosos e psicológicos, na mente e no mundo de Stephen. A descrição do Inferno, em particular, me marcou profundamente quando o li pela primeira vez, transformando-se no trecho mais perene na minha memória. A catástase, em minha concepção, é sua decisão de ir embora, de romper de vez com sua família, e ir morar em Paris, sendo todo esse conflito permeado por suas discussões estéticas e políticas com colegas estudantes.

Antes que se consuma o fim, já se formou na memória qual foi a “formação” pela qual Stephen passou: um garotinho estudante de um colégio jesuíta passa por um momento de quebra (a falência de seu pai) e se entrega à promiscuidade como refúgio (e como descoberta). Mas as reminiscências do passado religioso renascem quando ele volta à escola, e se descobre um pecador, fechando-se então cada vez mais em seu desespero profano. Acomodado, encontra um ponto de segurança, mas continua preso e fechado. Finalmente, vai se libertando, se desprendendo de sua família que o prende, de suas culpas que fecham, de seus medos que o vedam. Como aquele do qual tomou o nome, ele escapa de um labirinto - onde em cada parede se encontra uma frustração -, estende suas asas, e alça vôo, para descobrir novos ares e tentar novas empreitadas. É a catástrofe, o desfecho, o amadurecimento do jovem aprendiz. Independente do que vier a mais, ele se encontrou definitivamente, e se transformou no que viveu para ser. E para que, quando encontrasse novos grilhões, novas barreiras, pudesse voar novamente, pede, nas linhas que encerram o romance: Velho pai, velho artífice, valha-me agora e sempre.

3 comentários:

Anônimo disse...

Muito bom resumo, com qualidade
Agradeço

Felipo Bellini disse...

Muito Bom! - Me ajudando a fazer uma prova!!!

Heidi disse...

Obrigada! Estou preparando um seminário e seu ponto de vista clareou o meu!