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Citação de Sexta excepcional por esse trecho fabuloso.
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“Na cidade (como notou Jacinto), nunca se olham, nem lembram os astros – por causa dos candeeiros de gás ou dos globos de eletricidade que os ofuscam. Por isso (como eu notei) nunca se entra nessa comunhão com o universo que é a única glória e única consolação da vida. Mas na serra, sem prédios disformes de seis andares, sem a fumaraça que tapa Deus, sem os cuidados que, como pedaços de chumbo, puxam a alma para o pós rasteiro – um Jacinto, um Zé Fernandes, livres, bem jantados, fumando nos poiais de uma janela, olham para os astros e os astros olham para eles. Uns, certamente, com olhos de sublime imobilidade ou de sublime indiferença. Mas outros curiosamente, ansiosamente, com uma luz que acena, uma luz que chama, como se tentassem, de tão longe, revelar os seus segredos, ou de tão longe compreender os nossos...
- Ó Jacinto, que estrela é esta, aqui, tão viva, sobre o beiral do telhado?
- Não sei... E aquela, Zé Fernandes, além, por cima do pinheiral?
- Não sei.
Não sabíamos. Eu por causa da espessa crosta de ignorância com que saí do ventre de Coimbra, minha mãe espiritual. Ele, porque na sua biblioteca possuía trezentos e oito tratados sobre astronomia, e o saber, assim acumulado, forma um monte que nunca se transpõe nem se desbasta. Mas que nos importava que aquele astro além se chamasse Sírio e aquele outro Aldebarã? Que lhes importava a eles que um de nós fosse Jacinto, outro Zé? Eles tão imensos, nós tão pequeninos, somos a obra da mesma vontade. E todos, Uranos ou Lorenas de Noronha e Sande, constituímos modos diversos de um ser único, e as nossas diversidades esparsas somam na mesma compacta unidade. Moléculas do mesmo todo, governadas pela mesma lei, rolando para o mesmo fim... Do astro ao homem, do homem à flor do trevo, da flor do trevo ao mar sonoro – tudo é o mesmo corpo, onde circula, como um sangue, o mesmo Deus. E nenhum frêmito de vida, por menor, passa em uma fibra desse sublime corpo, que se não repercuta em todas, até às mais humildes, até às que parecem inertes e invitais. Quando um sol que não avisto, nunca avistarei, morre de inanição nas profundidades, esse esguio galho de limoeiro, em baixo na horta, sente um secreto arrepio de morte: - e, quando eu bato uma patada no soalho de Tormes, além o monstruoso Saturno estremece, e esse estremecimento percorre o inteiro universo! Jacinto abateu rijamente a mão no rebordo da janela. Eu gritei:
- Acredita!... O sol tremeu.
E depois (como eu notei) devíamos considerar que, sobre cada um desses grãos de pó luminoso, existia uma criação, que incessantemente nasce, perece, renasce. Neste instante, outros Jacintos, outros Zés Fernandes, sentados às janelas de outras Tormes contemplam o céu noturno, e nele um pequenininho ponto de luz, que é a nossa possante terra por nós tanto sublimada. Não terão todos esta nossa forma, bem frágil, bem desconfortável, e (a não ser no Apolo do Vaticano, na Vênus de Milo e talvez na Princesa de Carman) singularmente feia e burlesca. Mas, horrendos ou de inefável beleza; colossais e de uma carne mais dura que o granito, ou leves como gases e ondulando na luz, todos eles são seres pensantes e têm consciência da vida – porque decerto cada mundo possui o seu Descartes, ou já o nosso Descartes os percorreu a todos com o seu método, a sua escura capa, a sua agudeza elegante, formulando a única certeza talvez certa, o grande Penso, logo existo. Portanto todos nós, habitantes dos mundos, às janelas dos nossos casarões, além nos Saturnos, ou aqui na nossa terrícula, constantemente perfazemos um ato sacrossanto que nos penetra e nos funde – que é sentirmos no pensamento o núcleo comum das nossas modalidades, e portanto realizarmos um momento, dentro da consciência, a unidade do universo! – Hem, Jacinto?...”
-A Cidade e as Serras, Eça de Queirós
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sexta-feira, 25 de setembro de 2009
sexta-feira, 3 de abril de 2009
Citação de Sexta: Profecia

“O segredo e a existência da nossa era não são a libertação e o desenvolvimento do eu. O que ela necessita, o que deseja, o que criará é – o terror.”
-Thomas Mann, em A Montanha Mágica, livro lançado em 1924
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*Mais uma vez, a publicação do Tratado Universalizante da Xurepa terá de ser adiada. Assim, a Citação de Sexta da semana que vem veio para hoje, e o capítulo de hoje do Tratado foi para a semana que vem.
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sexta-feira, 27 de março de 2009
Citação de Sexta: Duas Cargas

“Na hora certa aconteceu exatamente o que Flask dissera. Assim como antes o ‘Pequod’ se inclinava abruptamente com a cabeça do cachalote, agora, com as duas cabeças a equilibrar o navio, o mesmo ficou na posição normal, embora extremamente pesado, bem podeis acreditá-lo. Assim, ao içar a um costado a cabeça de Locke, fica-se inclinado; mas agora com outra cabeça içada do outro lado, no caso a cabeça de Kant, volta-se ao estado anterior, embora em mísera situação. Assim alguns espíritos mantêm-se para sempre a equilibrar as cargas. Ó tolos! Lançai ao mar essas tempestuosas cabeças, e então será possível flutuar leves e direitos.”
-Herman Melville, Moby Dick
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domingo, 8 de março de 2009
Citação de Sexta: Sombras elétricas

“Quando a derradeira e trêmula imagem de uma sequência de cenas se desvanecia e se fazia luz na sala, exibindo à multidão o campo das visões em forma de uma tela vazia, faltava até uma oportunidade para bater palmas. Não estava presente ninguém que se pudesse aplaudir e admirar, graças à arte por ele demonstrada. Os artistas que se haviam reunido para dar o espetáculo que o público acabava de desfrutar, fazia muito que se tinham dispersado. O que se vira eram apenas as sombras das suas façanhas, milhões de imagens, brevíssimos instantâneos, em que se dissecara a sua atividade durante o processo fotográfico, para que fosse possível restituí-la ao elemento do tempo, cada vez que se quisesse, num curso tremeluzente de tanta rapidez. O silêncio da assistência após o fim da ilusão tinha qualquer coisa de inerte e repugnante. As mãos jaziam impotentes em face do nada. As pessoas esfregavam os olhos, miravam fixamente o ar, tinham vergonha da claridade e desejavam voltar à escuridão, para tornarem a contemplar, para novamente verem, como se desenrolavam, transplantadas para tempo fresco e arrebicadas pela música, aquelas cenas pertencentes a um outro tempo.”
- Thomas Mann, A Montanha Mágica
* O capítulo de hoje do Tratado Universalizante da Xurepa não será publicado por problemas técnicos. Mas semana que vem ele entra na sexta-feira, normalmente.
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sexta-feira, 27 de fevereiro de 2009
Citação de Sexta: Contemplai as minhas obras, ó poderosos...

“I met a traveller from an antique land
Who said:—Two vast and trunkless legs of stone
Stand in the desert. Near them on the sand,
Half sunk, a shatter'd visage lies, whose frown
And wrinkled lip and sneer of cold command
Tell that its sculptor well those passions read
Which yet survive, stamp'd on these lifeless things,
The hand that mock'd them and the heart that fed.
And on the pedestal these words appear:
'My name is Ozymandias, king of kings:
Look on my works, ye mighty, and despair!’
Nothing beside remains: round the decay
Of that colossal wreck, boundless and bare,
The lone and level sands stretch far away.”
- Percy Bysshe Shelley, Ozymandias
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sexta-feira, 13 de fevereiro de 2009
Citação de Sexta: Ambigüidades covalentes

“Na última terça parte de sua vida, Laszlo Jamf adquiriu – era a impressão que tinham os que, nas arquibancadas de madeira do anfiteatro, viam suas pálpebras pouco a pouco tornar-se granulosas, manchas e rugas estampar-se em sua imagem, desintegrando-a em direção à velhice – uma hostilidade, um estranho ódio pessoal dirigido à ligação covalente. A convicção de que, para que a síntese tivesse futuro, era necessário aperfeiçoar – alguns alunos chegavam a entender que o sentido era “transcender” – a ligação. Para Jamf, a idéia de que uma coisa tão mutável, tão frágil, quanto um compartilhamento de elétrons constituía o âmago da vida, da sua vida, parecia uma humilhação cósmica. Compartilhar? Era tão mais forte, tão mais duradoura, a ligação iônica – em que os elétrons não são compartilhados e sim capturados. Tomados! – e aprisionados! polarizados, positivos ou negativos, esses átomos, sem ambigüidades... como ele amava aquela clareza: sua estabilidade, sua teimosia mineral!”
- Thomas Pynchon, O Arco-Íris da Gravidade
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sexta-feira, 30 de janeiro de 2009
Citação de Sexta: Tão cedo...
sexta-feira, 23 de janeiro de 2009
Citação de Sexta: A Sina do Homem
sexta-feira, 16 de janeiro de 2009
Citação de Sexta: [In]san[t]idade

"Assim, a loucura dos seres humanos é o juízo celeste; e, ao se afastar de toda a razão mortal, o homem alcança por fim o pensamento celeste, que, para a razão, é absurdo e louco; e, tanto na prosperidade como na dor, sente-se então sem compromissos, indiferente como o seu Deus."
-Herman Melville, Moby Dick
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sexta-feira, 9 de janeiro de 2009
Citação de Sexta: Os Mortos
Foto: Bruna Pimenta “Chega um momento da vida em que, entre todas as pessoas que conhecemos, os mortos são mais numerosos que os vivos. E a mente se recusa a aceitar outras fisionomias, outras expressões: em todas as faces novas que encontra, imprime os velhos desenhos, para cada uma descobre a máscara que melhor se adapta.”
- Italo Calvino, As Cidades Invisíveis
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sexta-feira, 19 de dezembro de 2008
sexta-feira, 12 de dezembro de 2008
Citação de Sexta: A vida é uma ópera...
sexta-feira, 5 de dezembro de 2008
Citação de Sexta: Amanhã, e amanhã e amanhã
sexta-feira, 28 de novembro de 2008
sexta-feira, 21 de novembro de 2008
Citação de Sexta: Respiro, Suspiro
sexta-feira, 14 de novembro de 2008
Citação de Sexta: O Sonhar
sexta-feira, 7 de novembro de 2008
sexta-feira, 31 de outubro de 2008
Citação de Sexta: One of the old Bill, the Bard
sexta-feira, 24 de outubro de 2008
Citação de Sexta: Da arte de escrever histórias
sexta-feira, 17 de outubro de 2008
Citação de Sexta: A Insustentável Identidade do Ser
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