quinta-feira, 14 de agosto de 2008

Vôo sobre o Abismo

Na véspera do Dia de Todos Santos, ele se viu debruçado sobre um desfiladeiro profundo. Na outra margem, seus ossos chocalhavam, mas ele permanecia com o rosto voltado para baixo, encarando o abismo. O abismo, insinuante, como que brotava do breu subjacente, e se esgueirava até ele, encarando-o sem expressão.

Suavemente, caminhando com passos tímidos, lentos, silenciosos sobre a poeira, aproximou-se um manto de muitas cores e camadas, envolvendo em vários amplexos um corpo velho e carcomido. Precisamente, os panos tomavam os contornos de um quimono sobre aquele corpo de gente antiga, de pele engelhada e tetas murchas, e ralos cabelos dispersando-se ao vento.

Os olhos miúdos do corpo viram seus próprios dedos da mão canhota se esticarem, estalarem e tocarem o ombro do ele debruçado sobre o penhasco. O susto o fez mover o pé, que jogou cascalho abismo abaixo, dentro da escuridão.

O ele levantou-se, e postou-se de frente com o corpo envolto em mantos, a velha de cabelos dissipados. Os sapatos dele já estavam cobertos de poeira, assim como seu paletó e sua calça. Nesse instante, sua gravata drapejava, e seus cabelos cobriam seus olhos, semicerrados pelos grãos de poeira que a eles se lançavam.

- Não é preciso. – disse a boca que surgia de repente do manto. – O segredo é voar. Não pule, voe.

As cores do manto, e os espasmos de pele que por mágica surgiam entre suas curvas estendiam seus tentáculos e tocavam os olhos dele, tentando despertá-los da letargia em que se haviam afundado. Os olhos, porém, não demonstraram reação. Ele deu um passo vacilante, seu pé se arrastando, escorregando no solo seco, e passou curvado ao lado do manto e sua velha inata, abandonando-os no meio da poeira, da solidão e do vento silvante.

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Chegou em casa logo, passou pelos umbrais da porta sem fazer barulho e subiu para seu quarto. Já ali, pôs-se à janela e ficou a observar a vizinhança, tentando ouvir alguma música agradável ou burburinho. Os arredores, porém, permaneciam na mais absoluta estagnação.

Tornou às escadas e desceu para a sala, onde sua mulher via TV compenetrada. Na cozinha, sua filha estudava, debruçada sobre os cadernos, e um único feixe de luz, vindo da luminária, descia e imprimia em sua silhueta um delinear fantasmagórico. Suspirou.

Voltou para a sala e, sem hesitar, desligou a TV. Virou-se para a mulher e disse:

- Venha, querida, vamos dançar.

Ela se limitou a encará-lo com os olhos levemente arregalados, e depois virou-os de volta para a TV. Num gesto mecânico, levantou-se e saiu da sala. Abriu a porta para a varanda e ficou ali, parada, recebendo no rosto a brisa noturna.

Ele então decidiu tentar a filha, e foi para a cozinha. Debruçou-se sobre o rosto curvado da menina, seu braço direito apoiado no balcão, e murmurou:

- Oi filha.

A menina assustou-se, levantou o rosto com rapidez. Largou o lápis no movimento, e com lerdeza virou o rosto para o pai. Em seu rosto, uma expressão de cansaço. Ela fitou os olhos do pai e, por um segundo, deu um leve sorriso. Depois, debruçou-se sobre os cadernos novamente, sem pronunciar uma palavra sequer.

Já enervado, ele saiu da cozinha e caminhou até a porta da varanda, onde a mulher ainda esperava, de pé, braços ao largo do corpo, ombros caídos. Ele passou os braços em volta de sua cintura e a abraçou forte, beijou seu pescoço e exalou um bafo cálido. A mulher limitou-se a voltar, quase imperceptivelmente, o rosto para trás, e torná-lo novamente para o frio da noite.

Soltando os braços, ele deu um passo para trás, e a passos largos saiu da casa. A rua do subúrbio estava vazia e escura, muitos dos postes tinham sua lâmpada queimada, e não se ouvia um rumor de conversa em todo o quarteirão. Apertou o passo e, correndo, voltou o rosto para trás uma única vez, para ver grãos de poeira e insetos ascenderem ao céu sem estrelas e a luz de sua casa afastar-se lentamente.

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No desfiladeiro, encontrou um carro velho, enferrujado, praticamente esfarelando-se. Lá dentro, um manto cheio de reentrâncias se apoiava no volante. Ele abriu a porta e tentou acordar a velha que dentro das reentrâncias morava, mas o manto estava vazio.

Ergueu a cabeça, olhou em volta e não viu sinais de ninguém. Tomando uma decisão, retirou o manto do carro, e o levou até a beira do abismo. As pontas de seus pés avançavam perigosamente para dentro do espaço vazio, mas ele não estava com medo.

O manto, que se enrolava na violência do vento, era segurado firmemente por sua mão, mas uma súbita rajada mais forte o arrancou de entre seus dedos e o levou, flanando, drapejando, voando, para um horizonte indeciso.

Nesse momento, suas pernas começaram a tremer. Um frêmito surgiu da ponta de seus dedos, passou pelo calcanhar, e à medida que subia por sua perna, por seu peito, por seus braços, arrepiava cada pêlo no caminho. Chegou à nuca, e eriçou seus cabelos. O abismo avizinhava-se particularmente negro.

Não sem esforço, ergueu os olhos da escuridão sensível e os jogou em direção a tudo que havia em volta. O céu, num azul absurdo, contrastava com as nuvens, branquíssimas. As cores da areia se reproduziam e multiplicavam-se, coleando como vagas secas. Os próprios espinhos do desfiladeiro pareciam mais tangíveis, mais sólidos. O ar estava mais espesso, seu coração batia mais alto, seu sangue corria mais intensamente.

Debalde, tentou recuar o pé pela terra esturricada, mas foi em vão. Já era tarde demais. O vento, chicoteando, o empurrou em direção ao abismo, e o viu abanar os braços, fechar os olhos e buscar na memória orações perdidas.

Uma nova rajada, entretanto, o jogou para cima, e abriu seus olhos, e fez seus braços pararem, formando um curioso arco que lembrava a envergadura das asas de um pássaro. Assim, de olhos abertos, ele se lembrou das palavras do manto, e, ainda sem saber muito o porquê, ou entender como, baixou os braços em direção ao corpo, e viu-se jogado ainda mais para cima por uma outra rajada de vento.

Finalmente, estava voando. Deixou-se esvaziar de tudo que o preenchia, e o vento o levou, leve como uma pluma, até o outro lado do abismo. Descendo, a dez metros por segundo por segundo, sua cara encontrou o chão em cheio, e encheu sua boca, seu nariz e seus olhos de pó.

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Perto dali, seus ossos chocalhantes já se haviam recomposto, e preparavam-se para o movimento. Após alguns segundos de intenções indecisas, os ossos da sua perna direita se moveram, seguidos pelos da esquerda, e assim por diante. Desequilibrado a princípio, a ossada logo encontrou seu prumo, e começou a correr.

Os ossos encontraram-no se recuperando do choque, levantando-se apoiado nos braços ainda doloridos e tentando limpar o terno da maneira que podia. Não tomaram nota de sua presença, mas fizeram seu uso dele. Antes que ele percebesse, os ossos se haviam apoiado sobre seus ombros e pulado, passando por cima de sua cabeça a espetacular velocidade, e indo cair na outra face do abismo.

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Orgulhosa, a ossada andava pela cidade, emitindo um brilho tal que quase se poderia dizer que ela sorria. Garbosa, passava em frente a vitrines, se admirava nos vidros espelhados dos carros, e seu desajeitado passear fazia parecer que ela estava rebolando.

Intuitivamente, logo chegou à sua, poderíamos dizer, casa. A, poderíamos dizer, sua mulher, continuava parada na soleira da porta, mas agora se apoiava no braço direito, e não tomou nota quando os ossos passaram. Também sua, poderíamos dizer, filha, continuava debruçada sobre os cadernos.

Curioso, percorreu a casa de cima a baixo, mas não encontrou nada de interessante, ou que valesse a pena. Foi para a cozinha, e sentou-se ao lado da filha, cotovelo sobre a mesa, o crânio apoiado na mão ossuda. Após algum tempo nessa posição, seus ossos começaram a tiritar, e acharam melhor sair dali.

Já experiente, dirigiu-se com cautela para a mulher. Pôs os ossos da mão em volta de seu ombro, e tentou virá-la em sua direção. Mas foi inútil. Ela continuava fitando obsessivamente uma mancha na madeira da varanda.

Cabisbaixo, ele saiu da casa sem fazer barulho, e voltou para o desfiladeiro. Lá, arrastou o carro em ruínas até a borda, e, antes de pular, deu uma última olhada para trás, como que pensando se fazia a coisa certa.

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Ele agora estava sentado, virando a cabeça para todos os lados como que para reconhecer o terreno. Ouviu a aproximação de seus ossos, e se levantou. Encarou a ossada longamente, e um brilho suave de reconhecimento apareceu em seus olhos. Levantou o rosto sorridente e indagou à sua caveira:

- Você também desistiu?

O crânio limitou-se a olhar para o lado, e então tornar novamente suas órbitas vazias para ele. Foi até ele, e pôs os ossos da mão em seus ombros. Ele sorriu novamente, e conduziu a ossada até a sombra de uma grande árvore, onde descansaram durante algumas horas. Depois, ele e seus ossos continuaram sua marcha pela terra incógnita.

*inspirado em uma história em quadrinhos de Laerte Coutinho.

Um comentário:

Sib disse...

muito bem escrito, mas um tanto quanto confuso.
coloque a tirinha do laerte, oras!
=*