quinta-feira, 19 de fevereiro de 2009

Platoon

Escrito e dirigido por Oliver Stone baseado em sua própria experiência na Guerra do Vietnã, Platoon é uma visão mais histórica e profunda do conflito em si. Se O Franco-Atirador demonstrava o impacto da guerra no homem comum americano e Apocalypse Now era um tour-de-force dramático-psicológico que extrapolava o evento, Platoon entrou para a história como um registro do dia-a-dia dos soldados, de seus dramas e suas perdas.

O cartaz do filme já alertava: “Na guerra, a primeira baixa é a da inocência.”, e o que vemos em Platoon é a transformação de um idealista em um realista. A transformação de um jovem que acreditava na importância de lutar por seu país em um homem mais cético, de um assustado com a violência em alguém que conhece a crueldade humana.

Chris Taylor (Charlie Sheen), o protagonista, espécie de alterego do diretor, era um universitário quando decidiu largar a faculdade e se alistar. É então jogado no Vietnã para ficar um ano. Logo na chegada ao aeroporto, já encara o que será sua vida dali por diante: corpos em sacos plásticos e soldados que passam com o rosto cinzento e olhos marcados pelo esgotamento. Ele é integrado a um pelotão do exército americano, a Companhia Bravo, sob o comando dos sargentos Barnes (Tom Berenger) e Elias (Willem Dafoe).

Os dois sargentos são um a antítese do outro. Elias é gentil, prestativo e pacifista, sempre ajudando os novatos como Taylor. Já Barnes é durão, cruel, violento, e prefere educar os outros na base da porrada. A inimizade entre os dois é, basicamente, o que conduz o filme. Isso porque não existe um enredo a seguir. Assim como os recrutas jogados no meio da selva para lutar uma guerra fantasma, o espectador é jogado dentro do filme quase sem referências. Sabe que há os americanos, os vietcongues, e a selva. E a guerra explodindo entre essas partes. Mas não há nada além disso, nenhuma missão especial ou objetivo significativo além de lutar e sobreviver.

Por isso, Stone investe nos personagens, o que faz muito bem, enchendo o filme de trechos da rotina dos soldados no Vietnã, suas relações, suas personalidades. Cada soldado do pelotão ganha uma personalidade, mais ou menos desenvolvida, dependendo do caso, mas sempre tangível e humana. Há O’Neill, o falso-durão e puxa-saco dos superiores; Bunny, moleque sem noção e psicótico; Big Harold e King, dois negros simpáticos e gentis que se tornam os mais próximos de Taylor; assim como a turma da marijuana, comandada por Rhah e pelo sargento Elias. São, em suma, um retrato diversificado dos jovens que lutaram pelos EUA naquela guerra, contaminados em sua maioria pelo zeitgeist do final dos anos 60.

À medida que o filme avança, personagens morrem, outros são feridos, outros ficam abalados psicologicamente. Taylor, por sua vez, aparece em diversos momentos sendo atacado por formigas e até sanguessugas. O pelotão, assim como Taylor, está sendo devorado pelo Vietnã, a consciência e a vida de cada um fragmentando-se pouco a pouco. Quando perdem companheiros, quando são feridos, quando atacam e queimam aldeias milenares, quando assassinam e torturam vietnamitas com crueldade, quando simplesmente presenciam tudo isso in loco, esses jovens estão sendo devorados.

A batalha final, na qual culminam as pequenas histórias de cada um, é o símbolo definitivo do que foi o Vietnã. A selva envolvendo tudo, e o inferno queimando por entre as árvores. Os soldados são levados ao limite e forçados a revelar quem realmente são. Tudo depende das escolhas que cada um toma para enfrentar o caos. Taylor, sobrevivente, toma sua decisão, ao caminhar por cima dos corpos e encontrar, ainda vivo, um certo inimigo. Se, quando recruta, ele fora incapaz de explodir algumas minas para matar uns vietcongues, agora ele mata a sangue frio. Mas isso está certo, porque aquilo é a guerra, e a inocência já não pode ser recuperada. Resta o ódio, a vingança, a expiação.

Ao voltar para a base, após a batalha, na iminência de ser mandado de volta para casa, Chris reflete, pela última vez, sobre sua experiência na guerra. Chega à conclusão de que, em uma guerra, um povo não luta contra um inimigo, mas contra si mesmo. E percebe, mesmo com o sol, branquíssimo, ofuscando sua imagem, que a guerra, mesmo tendo acabado para ele, estará viva para o resto de seus dias, assim como está viva, até hoje, no coração de cada um que já esteve em um combate, nos túmulos dos que morreram numa batalha, na pele da terra que padeceu sob as bombas e o sangue, e na alma violenta do ser humano.
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Um comentário:

Art Now disse...

Puxa, valeu mesmo. Ótima sinopse.
Bjs
Flavia