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quarta-feira, 2 de junho de 2010

A Série - S01E24 - Season Finale

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Hoje eu cheguei um pouco mais tarde no estúdio. Não estava me preocupando muito, já que não tinha muito o que fazer lá. Não havia cenas novas para serem ensaiadas há alguns dias, e todos os cenários programados já estavam construídos. Surpreendentemente encontrei todos os membros da equipe ali, o Roy e a Tina é claro, mas também a Lia e o Justin, e o John B. e a Samantha, e o Madusky, que quando eu cheguei já estava lá, e o Kurt, que do mesmo modo que nas últimas duas semanas se sentava na cadeira com seu nome, de óculos escuros, imóvel.

As pessoas conversavam baixo, sem muito barulho, o Roy e a Tina sentados trocando algumas palavras com a Lia e o Justin, todos com expressões de desânimo no rosto. Samantha, o rosto contraído, lia um livro, talvez sua autobiografia, e o John B. e o Martin Madusky estavam de pé, um de frente pro outro, cochichando alguma coisa. A maioria das luzes não havia sido ligada e o pessoal da equipe estava todo reunido perto do café. Dei um suspiro de desconsolo, tentando pelo menos dar um passo em direção a mais um dia daqueles, e qual não foi minha surpresa quando ouvi meu nome sendo dito alto atrás de mim, duas palavras que se colocaram sobre todas as outras do estúdio, e fizeram todos pararem de falar e virarem o rosto em minha direção. Mais devagar que eles, eu também me virei e dei de cara com um homem elegante e completamente careca, que me entregou um bilhete dizendo “Para você” e, virando-se, foi embora. Abri o bilhete e li o que estava escrito, em largos caracteres batidos à maquina.

“O TÍTULO DA SÉRIE FOI DECIDIDO.

SERÁ PRELÚDIOS E FUGAS.

AS GRAVAÇÕES PODEM COMEÇAR.”

Com um grande sorriso me voltei para as pessoas no estúdio, que continuavam me encarando ansiosas, e anunciei que nosso tormento havia terminado, que Eles finalmente nos haviam dado uma luz, e agora tudo poderia voltar ao normal: as gravações tinham sido autorizadas a começar. Os membros da equipe reunidos gritaram de alívio e alegria. Os atores coadjuvantes se abraçaram para comemorar. Samantha Sugarcane fechou o livro e levantou-se sorrindo. John B. e Martin Madusky se entreolharam e foram, cada um para um lado, começar a preparar as gravações. Kurt em princípio não manifestou reação, mas continuou sentado, imóvel, até mesmo quando o Roy foi até ele cumprimentá-lo. Só se levantou quando os outros começaram a se mexer. Como um organismo único, guiado por alguma espécie de consciência coletiva, a equipe e o elenco se movimentaram, pelo estúdio, realocando o cenário e os equipamentos e posicionando-se em seus lugares marcados, que eles tantas vezes já haviam freqüentado impotentes. Cada ordem de John B. desencadeava uma onda de vitalidade pelo galpão. Ele disse “Luz” e tudo se iluminou. Ele disse “Som” e o silêncio pesado de mãos apertando nossos lábios que nos atormentava há tanto tempo se desfez. Ele disse “Câmeras” e cada um ali, cada mínimo elemento da equipe e do elenco de “Prelúdios e Fugas” se colocou em seu lugar perfeito. Mas quando ele disse “Ação”, Kurt, que já se posicionara para gravar a primeira cena em que seu personagem aparecia, saiu do meio do cenário e veio, correndo, em minha direção, e com os olhos cheios de lágrimas me abraçou e disse, murmurando:

- Obrigado.
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quarta-feira, 26 de maio de 2010

A Série - S01E23

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Parado o carro, John B. logo abriu a porta e saltou para fora, alongando o corpo como se tivesse viajado por muitas horas. Martin Madusky desceu com mais dificuldade, abrindo a porta, girando o corpo e levantando-se com ajuda dos braços. Depois de bater a porta, espanou o pó da aba do sobretudo e colocou os óculos, que tirara ao alcançar a portaria. O estacionamento estava vazio. O Autor de sobretudo preto calça preta camisa preta sapatos pretos meias pretas óculos pretos cabelos pretos barba preta pele branca e dentes amarelos e o Diretor de colete, óculos escuros, jeans, tênis, boné, cabelos brancos, barbicha e pele enrugada seguiram lado a lado pelo pátio imenso, quase deserto, em direção ao grande bloco oblongo e escuro de milhares de janelas que era a Sede da Emissora. O sol se tornara ainda mais quente e arrancava ilusões do cimento e suor do rosto dos dois caminhantes. Na entrada do prédio não estava escrito o nome da Emissora. Ao se aproximarem das portas de vidro escuro, elas não se abriram à passagem deles, e ao tentar abri-las perceberam que estava trancada. Martin bateu no vidro com força enquanto John B. se virava e olhava para cima, em direção ao céu azul ou ao próprio sol. Não havia toldo na entrada do prédio, as portas davam direto no pátio, sem abrigo dos raios solares ou da chuva. Martin tentou bater de novo, mas seu punho varou o ar, pois as portas se haviam aberto com rapidez, revelando o átrio acarpetado que constituía o saguão de entrada da Sede.

O carpete vermelho se espalhava por uma área larga. Ao passarem pelas portas Martin e John tiveram a impressão de que o saguão ocupava todo o térreo do edifício, mas não puderam comparar as perspectivas interna e externa pois as lâminas de vidro já se haviam fechado atrás deles. Elas eram a única brecha para o exterior naquele recinto. As paredes marrons se erguiam a uns três metros de altura, cobertas por painéis quadrados de madeira, e circundavam todo o saguão sem intermitências, até as portas de vidro pelas quais o Autor e o Diretor haviam acabado de passar. Logo à frente da entrada havia um tapete cor de vinho, de talvez quatro por cinco metros, donde emergiam douradas as letras N G e P, colossais. A única saída dali, além das portas de vidro, era um elevador colocado bem no meio do saguão, uma estrutura redonda com portas de aço opacas. Além do tapete e do elevador, as únicas outras coisas que se podiam divisar no saguão eram pequenos quadros colocados a distâncias constantes uns dos outros sobre os painéis de madeira, que pareciam vistos de longe retratos em preto e branco de faces conhecidas, que fitavam todos aqueles que passavam por ali sem desviar o olhar, mas Martin e John não tiveram tempo de conferir, pois logo que puseram os pés dentro do saguão se encaminharam para o elevador que os esperava de portas abertas.

Não havia botões, mas assim que entraram as portas de aço se fecharam às suas costas e, com um tranco, o elevador se pôs em movimento. Começou a tocar uma música muito baixo, que nenhum dos dois pôde distinguir, e quando ela parecia estar aumentando, em direção talvez a algo mais compreensível, o elevador parou e as portas se abriram para que eles saíssem. Encontraram um corredor estreito, forrado com carpete vermelho e painéis de madeira, e sem janelas ou fontes de luz exterior, somente portas que afundavam nos painéis uma após a outra. Após alguns segundos parado na saída do elevador, John B. se virou para a direita e começou a andar. Um pouco inseguro de estarem no caminho certo, Martin Madusky perguntou: “Tem certeza de que é por aqui?” John B. respondeu: “Sim, você não se lembra?” E Martin: “Nunca estive aqui.”

John B. caminhava lentamente, mas com decisão, e Martin Madusky o seguia, a cara fechada, de vez em quando olhando para trás e para os lados. Dos dois lados do corredor portas se alternavam. Quando havia uma porta à direita não havia à esquerda, e quando havia uma porta à esquerda não havia à direita. As portas não tinham só números, mas inscrições, e símbolos, ou nada. A primeira pela qual passaram tinham um olho mágico; na segunda estava escrito “Aqui”; em outra uma placa dizia “Entre sem bater”; em outra, um homem de braços e pernas abertos estava representado num ícone em forma de losango; em outra, havia uma aldrava em forma de rosto de gárgula. Muitas portas eram lisas e não tinham sequer maçanetas. Após andarem por alguns minutos o corredor começou a fazer uma curva, e antes que pudessem praguejar por não estarem chegando a lugar nenhum uma porta pela qual haviam acabado de passar, e na qual não havia símbolo ou inscrição algum, se abriu silenciosamente e a figura de Little Punk apareceu no limite do campo de visão de Madusky. O Autor parou e virou o tronco devagar, chamando a atenção do Diretor, que também parou. Little Punk sorriu para eles seu grande sorriso branco e disse: “Entrem.”

Dentro do recinto, que parecia uma sala de interrogatórios, com uma tábua no papel de mesa brotando da parede cinza e duas cadeiras de ferro de cada lado, encontraram Doo-Doom sentado ao lado de uma placa onde estava escrito “Sala de Reuniões”. O único elemento destoante ali era uma cadeira de madeira encostada na parede, sobre a qual ninguém estava sentado. Martin e John sentaram-se nas cadeiras de ferro, assim como Little Punk, que acabara de fechar a porta.

“Muito bem...”, disse o agente, antes que se instalasse qualquer espécie de silêncio, e depois disse o que o Autor e o Diretor já sabiam, que estavam ali para decidir o título da Série. Madusky soltou um “Ehrm” à cata de fôlego para sua pergunta, que era “Por que caralhos nós só fomos chamados para decidir isso agora?”, mas Doo-Doom, que não costumava falar muito, continuou o discurso de Little Punk antes que ele pudesse articular qualquer som. “Para decidir o título, precisamos discutir sobre o que é a Série...” – a voz dele era anasalada, mas grave – “Em que lugares ela se passa, quem são os personagens, que tipos de eventos acontecem... é dessas informações que poderemos extrair um bom título.”

Martin respondeu dizendo que a Série, bem, ele gaguejou um pouco e disse que a Série era sobre jornadas, sobre os caminhos que as pessoas tomam, e sobre as paixões que tomam conta delas nesses caminhos, sobre os desejos e os apegos e as obsessões, e algum tipo de coisa que as pessoas chamam de “amor”, e aonde ele as leva. “Um homem, ehrm, ele tem um objetivo, ele tem um sonho, e ele deseja ardentemente o objeto do seu, ahm, sonho, ele quer muito o que ele quer, mas, é, talvez ele não ame o aonde o sonho pode levar ele, mas o sonho em si, hum... Isso, é, a série é sobre isso, sobre as viagens que o amor faz a gente fazer, sobre... o amor que temos por essa viagem, sobre o amor que temos pelo destino” E John B. sugeriu alguns títulos, ele disse que talvez um bom título seria “Love Trip”, ou “O Amor é uma Viagem”, mas Little Punk e Doo-Doom descartaram essas opções. Com mais tempo de discussão, ele passou a defende ardorosamente “Dois Caminhos para Bortelega”, que ele disse ser um título perfeito, pois sintetizava, em poucas palavras, toda a idéia da Série: o destino idílico, a jornada, as escolhas, mas também esse foi irredutivelmente vetado pelos agentes.

Quando saíram da Sede já estava escuro. Little Punk e Doo-Doom se haviam despedido deles e fechado a porta lisa às suas costas. O elevador os trouxera prontamente para o saguão e, quando viram o negrume do ambiente, se surpreenderam. Nenhum dos dois levava relógio e não haviam se dado conta de quanto tempo se passara lá dentro. A despeito disso caminharam com tranqüilidade para o carro, que deslizou suavemente para fora do estacionamento, levando duas almas mais leves, despidas de um peso que não haviam chegado a compreender.

A Série se chamaria Prelúdios e Fugas; talvez como uma metáfora para a constante tensão entre a expectativa em direção aos fatos e contrária a eles que marcaria a narrativa da série, ou talvez somente porque, nos alto-falantes da sala de reuniões, vindo não se sabe de que central musical no Edifício, estivesse tocando O Cravo Bem Temperado.
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quarta-feira, 19 de maio de 2010

A Série - S01E22

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Eu gostaria de ter começado me apresentando, contando minha história, dizendo de onde eu vim, quem é minha família, como eu cheguei até aqui, mas eu não podia. Minha língua estava por assim dizer atada por um dever que eu mesmo me impus. Eu sou um profeta, o profeta do apocalipse, e Martin Madusky é meu anticristo.

Meu nome é John Tarr Zane, meu pai era húngaro e minha mãe americana descendente de gregos, o velho imigrou para cá no começo dos anos sessenta, ele tinha uns 16, 17 anos. Logo se envolveu com uma espécie de gangue que ficava vagando pela cidade, mas que não representava nenhum perigo real. Ele conheceu minha mãe num desses passeios, ela tinha quinze anos e na primeira vez que meu pai a viu ela estava na saída do seu colégio de filhos de médicos e advogados, onde as meninas ainda usavam saia, camisa e lenço como uniforme. Depois daquele primeiro vislumbre (ele sempre dizia que tinha sido pra ele uma revelação, mas minha mãe achava que ele tinha se interessado muito mais pela presença de um monte de moças adolescentes que por ela em especial) meu pai passou a incluir a saída do colégio dela nos itinerários diários da sua gangue, até ter a coragem de se aproximar dela e a sorte de não ser violentamente rechaçado pelos seguranças do colégio. Ele começou então a levar minha mãe todo dia embora, eles escapavam para algum café ou ficavam andando à toa pela cidade, no mais completo ócio e na mais completa indiferença. Quando os pais dela, meus avós, perceberam o que estava acontecendo, era tarde demais: minha mãe estava grávida. Meu pai sempre disse que eles foram incrivelmente serenos, considerando o que tinha acontecido, e minha mãe nessas horas em geral se calava, mas visitávamos pouco os pais dela e, embora eu fosse só uma criança, percebia o clima solene que reinava na casa do senhor advogado Zane e sua esposa quando estávamos lá. Mas o importante mesmo é que eu nasci e cresci num ambiente muito bom e muito estranho, minha mãe adorava pintura, escultura, arquitetura, e meu pai era um espírito incrivelmente livre e sábio, um oráculo primitivo na minha vida. Por isso desde muito cedo me interessei por arte. Nós passeávamos em família no final de semana, uma lembrança da juventude dos meus pais, que fora tão abruptamente encerrada com o meu nascimento, e sentíamos verdadeiramente a cidade. Às vezes levávamos latas de tinta e fazíamos desenhos em paredes de terrenos baldios, o que devia ser uma cena muito estranha, um homem, uma mulher e uma criança pichando um muro. Acho que foi assim que eu descobri minha verdadeira vocação e meu verdadeiro desejo, de manipular o espaço, de criar figuras com volume, obras de arte por onde alguém pode andar, e, talvez, se perder. E foi assim que eu me tornei cenógrafo, que pode parecer um ofício menor para um artista, mas não é. Nos anos oitenta eu freqüentava com afinco um cineclube do centro onde passavam com freqüência os filmes de John B., que desde o primeiro fotograma se mostrou a mim como um visionário, um oráculo para minha juventude, e talvez para o resto da minha vida. Dessas paixões conjuntas nasceu meu ofício. Dessa história e de muitas outras nasci eu. Quando me iniciei na carreira de cenógrafo Eles acharam que meu nome era muito complicado, muito étnico, e me obrigaram a arranjar um pseudônimo. Deram para mim a alcunha de Johnny Tarzan, que eu uso até hoje. Esse sou eu.

E agora estou aqui, pelo menos do jeito em que se pode estar num maldito limbo. Fui enredado numa teia construída por Eles, uma teia que não tem aranha, mas da qual ninguém sairá vivo. Estamos todos presos, envolvidos pelo fio de teia e imobilizados. Olho ao meu redor e só vejo escuridão, os holofotes estão todos apagados, as câmeras estão todas cobertas, as portas estão se fechando e talvez não dê tempo de sairmos daqui de dentro. Está tudo a um passo da destruição, e entre os corpos curvados e as faces sombrias há o bobo da corte, que continua cantando a aurora, enquanto eu, o corvo da tempestade, anuncio o fim do mundo. Martin Madusky foi o que menos mudou com tudo o que aconteceu. Ele continua o mesmo sujeito mau humorado, fechado, arrogante, irresponsável. Ele não respeita mais nem mesmo John B., que estoicamente resiste. Kurt Belmondo está ficando maluco, Samantha Sugarcane está à beira de um ataque de nervos, os astros teen estão assustados, e não há ninguém na equipe que realmente acredite que algum dia essa série será gravada. Enquanto isso, Eles permanecem em silêncio. Só eu falo, só a minha voz é ouvida, mas tudo o que eu tenho para dizer é que todas essas pessoas estão se desintegrando, logo atingirão o ponto de saturação, e que essa maldita série em breve voltará para o nada, e então será como se ela nunca tivesse existido, a não ser para nós, que por todos esses meses vivemos seu horror. Essa é minha profecia.
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quarta-feira, 12 de maio de 2010

A Série - S01E21

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Meu nome é Melman Ludovic, já que você perguntou, e eu não tenho mais nada para dizer. Sim, eu fui até sua emissora, seja lá como vocês a chamem, até o galpão da sua emissora, o estúdio, certo, NGP, certo, isso pouco me importa, sim. Como presidente do clube honorário de Samantha Sugarcane, tenho esse direito, e não fui nenhum invasor, entrei pelo portão principal como qualquer um, embora nenhum guarda tenha perguntado meu nome. É claro que eu queria falar com Samantha, minha deusa Samantha, e é claro que vocês não tem nada a ver com isso. O quê? Ora, o estúdio pode ser seu mas a vida é minha, e Samantha não é de ninguém além de si mesma. Vocês estão cometendo um crime impedindo a gravação dessa série, eu vi como estão as coisas, é um desastre, aliás vim até aqui exatamente para pedir a Samantha que abandone esse barco naufragado. Eu entendo a dignidade dela, e também a temeridade de vocês todos, prendendo-a como fazem, mas já é hora disso acabar. Faz meses que não vejo o rosto de Samantha na TV, ela não vai a mais nenhum programa, e quanto mais no cinema! Ai, no cinema, meus ossos tremem quando penso na ausência de minha deusa da sala escura, quando penso na tela branca e na sala escura, e nas sombras que ocasionalmente vejo lançadas ali mas que não passam disso, sombras, nenhuma com um pouco sequer de brilho, um pouco sequer da luz de Samantha. Criminosos! Estão impedindo que ela leve o fogo adiante. Eu não sou criminoso, sou só um fiel, um adorador, um fanático, e vocês, o que são? Donos? Produtores? O que é isso? Qual é o brilho que vocês tem? Já se perguntaram isso? Qual é o poder que um de vocês ou vocês todos juntos têm, perto do poder da minha deusa? Hein? Você tem como me responder isso?
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quarta-feira, 5 de maio de 2010

A Série - S01E20

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Acho que as gravações pararam ao mesmo tempo que começaram. No dia programado tínhamos terminado de preparar as coisas básicas, a iluminação, os cenários de base e estávamos todos reunidos ali esperando os figurões (John B., Kurt Belmondo, Samantha Sugarcane e o tal Madusky que escreve a Série) quando um cara de terno que eu não conhecia chegou perto de mim e perguntou “Don Grapefruit?”, e eu respondi, é claro, sim, e ele me deu um bilhete e pediu para eu entregar ao autor da série. Ele disse também que as gravações tinham sidos suspensas e deveríamos esperar ordens de cima para começar a gravar. Quando o Madusky chegou já estávamos todos reunidos, conversando sobre isso e tentando entender o que tinha acontecido, e eu me separei deles e fui andando em direção ao autor e entreguei o bilhete na mão dele, só pra ver seu rosto ficar mais branco quando ele o abriu e leu. E então as coisas continuaram desse jeito, ninguém se deu ao trabalho de explicar o que estava acontecendo, só sabíamos que as gravações ainda não iam começar, mas tínhamos de continuar trabalhando, montando cenários, ensaiando cenas, preparando a iluminação...

Depois que o Kurt explodiu naquele dia com o elenco principal e o diretor da Série as coisas se acalmaram, embora tenham se tornado mais sombrias. Um fã maluco da Samantha invadiu o estúdio e tentou falar com ela para convencê-la a abandonar a Série, e depois disso ela ficou um pouco abalada. A Lia Lispeck e o Justin Case não vêm mais todo dia ao estúdio, parece que eles têm outros compromissos e algumas pessoas que têm contato com agentes que eu conheço dizem que eles podem estar prestes a pular fora. O John B. está transformando os ensaios num circo de horrores, ele pede para os atores fazerem as coisas mais impensadas e improvisa truques de iluminação inacreditáveis mesmo sem gravar nada. Só o Roy e a Tina que parecem um pouco imunes a tudo que está acontecendo.

Mas o pior de todos, é claro, é o Kurt. Depois do desabafo dele, quando ninguém, nem mesmo o Roy, conseguiu falar o que quer que fosse para ele, ele ficou sem aparecer no estúdio por uns três dias, e quando voltou estava ainda mais apático do que jamais estivera. Na verdade, dessa vez parece que o espírito dele transcendeu a apatia, e entrou numa espécie de tristeza profunda. Ele se arrasta pelos cantos e pede litros e litros de café para a Denise. Nos ensaios funciona como uma espécie de elemento do cenário, um cenário que emite uma voz gutural, que diz palavras que poucos gostariam de ouvir.

Se o Kurt está triste, eu também estou, e não acho que haja muito a fazer agora. Gostaria de poder ajudá-lo, de fazer alguma coisa por ele, mas sinceramente me parece, por mais otimista que eu seja, que ele está além de qualquer salvação, assim como a Série.
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quarta-feira, 28 de abril de 2010

A Série - S01E19

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A lâmpada vermelha do semáforo apagou-se, dando lugar rapidamente ao verde brilhante e surpreendendo Martin Madusky, que, tendo acabado de parar em frente ao sinal, imaginava esperar por muito tempo a permissão de prosseguir. Um tanto quanto atabalhoadamente, Martin engatou a primeira marcha e acelerou, fazendo cantar os pneus do seu pequeno carro de duas portas. John B. não esboçou reação ao movimento repentino do automóvel, mas inclinou-se para fechar o vidro quando um caminhão passou ao lado deles soltando fumaça.

- Eu tenho uma teoria..., ele disse, recostando-se de novo no banco - há dois tipos de fumaça no mundo, fumaça boa e fumaça ruim. A fumaça boa é aquela que acalma a mente, que a descontrai, que tira dela as amarras e permite vôos suaves, tornando tudo mais claro. A fumaça ruim é o contrário disso, ela deixa a gente nervoso, impaciente, confuso.

- Erhm, respondeu Martin.

O Autor tinha saído de sua casa no subúrbio perto das oito horas da manhã, e logo voltara para dentro a fim de pegar seu sobretudo mais quente, sentindo o ar frio ao abrir a porta. Mas em menos de meia hora o tempo virara, e agora ele dirigia um carro pequeno demais para ele, preso no trânsito e nas garras do sol forte. Levara pelo menos vinte minutos para chegar ao terreno onde John B. deixava seu trailer. O Autor o encontrou na frente do alambrado, de colete, boné e óculos escuros, terminando de fumar um cigarro e jogando a guimba no chão. John B. entrou no carro e percorreram todo o caminho praticamente em silêncio, com ocasionais comentários do Diretor pontuados por sutis exclamações de concordância por parte do Autor.

Alguém que observasse atentamente a relação dos dois desde que haviam se conhecido, após o convite a John B. para dirigir a Série, perceberia, com alguma dificuldade, uma sutil mudança na maneira como um tratava o outro. Mas poucas observações revelariam tanto como a dos momentos em que os dois se colocavam juntos diante dEles, supremamente unidos, como nós todos, em oposição aos que estão do Outro Lado. E hoje se encaminhavam para um desses momentos.

Estavam indo decidir o empecilho que travara as gravações da Série por tanto tempo, o Problema fundamental que impedia as idéias dos dois de virarem realidade: a Série precisava de um nome e, até que decidissem qual seria, Eles não permitiriam que fosse gasto um rolo sequer de película. O problema começou pequeno. No dia em que as gravações iriam começar Eles mandaram um bilhete avisando que a Série precisava de um título, e que até que ele fosse decidido não haveria gravações. Madusky imaginou que Eles consideravam o título uma garantia de que a Série viria a existir, e não queriam comprometer o orçamento antes de ter essa garantia, mas não entendia porque eles só haviam tocado no assunto quando as gravações estavam prestes a começar e tanto já fora decidido. Mas a confusão de Martin só aumentaria à medida que o tempo passasse e a Série permanecesse sem título, permanecesse paralisada, e Eles permanecessem em silêncio, sem se manifestar sobre como o título seria escolhido. Essa pergunta atormentava Martin, que todas as noites rabiscava em um caderno possíveis títulos para sua história. Ele tentou entrar em contato com Little Punk e Doo-Doom, mas não encontrou nenhum deles. Tentou enviar recados para Eles, mas não encontrou mensageiros. Numa madrugada, sem conseguir dormir, chegara a ir até a Sede da Emissora para tentar de alguma maneira perguntar a Eles sobre o nome, mas o portões estavam fechados e eram altos demais para que ele passasse por cima. Martin esperou durante vários minutos à frente da Sede, mas começou a chover e ele foi embora.

A mesma Sede se apresentou, bela e terrível, quando o carro que agozinando comportava Madusky e B. virou a esquina da Thalberg com a Goebbels, e o pequeno automóvel continuou, dessa vez sem hesitação ou engasgos, até a portaria da NGP.

A Sede ficava no final da Goebbels, ou melhor, a Goebbels levava até a Sede. Os prédios baixos de escritórios seguiam, homogêneos, até um determinado ponto da rua, e depois davam lugar a uma sebe alta delimitada, em relação à calçada, por uma grade de ferro opaca. Os arbustos de folhas escuras se estendiam dos dois lados da rua, acompanhando as grades. Só cediam espaço para dois pequenos trechos de grade livre, que deixavam entrever um grande pátio de estacionamento e limitavam a portaria à esquerda e à direita. Acima dos portões lia-se a sigla enigmática, NGP. Não havia porteiro à vista, somente uma guarita com vidros pretos, embaixo dos quais emergia da parede um alto-falante. Uma voz metálica perguntou quem eram eles, e Martin respondeu dizendo que eram o Autor e o Diretor da Série. “Que série?”, perguntou o alto-falante, mas Martin não soube responder. Segundos depois, os portões se abriram, e, novamente atabalhoado, Martin engatou a primeira marcha e acelerou, cantando pneu, para dentro da Emissora.
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quarta-feira, 21 de abril de 2010

A Série - S01E18

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Aconteceu uma coisa muito estranha com o Kurt. Desde que ele chegou aqui ele mudou muito, eu sei, mas tá tudo piorando. No começo ele estava alegre, animado, cumprimentava as pessoas, mas depois foi se tornando mais apático, mais distante. Quando os ensaios começaram ele se animou de novo, todo mundo que conseguia ver o John B. orientando os atores, seja o Kurt e a Samantha, ou alguma cena dele com o Roy, dizia que ele estava muito bem, que tinha realmente conseguido captar o personagem. Mas antes dos ensaios e depois dos ensaios ele se fechava de novo, ficava trancado no trailer, e algumas vezes ia para casa e não voltava no dia seguinte.

Ultimamente, até a interpretação dele tinha degenerado. Ele não se esforçava mais por interpretar, somente lia o roteiro sempre do mesmo jeito, sempre do jeito como se lê da primeira vez, pra passar, como se em cada ensaio ele estivesse conhecendo tudo desde o começo. Ficava sentado na sua cadeira, de óculos escuros, declamando mecanicamente suas falas, para o desespero da Samantha, a perplexidade do Roy e da Tina e a completa indiferença do John B.

Ontem, ele deu um ultimato aos outros, a nós todos talvez, o Martin Madusky apareceu no estúdio e ele disse que queria começar a gravar, não importa o que acontecesse, ele disse que queria as câmeras ligadas no dia seguinte e que se não fosse isso ele não sabia do que seria capaz. Hoje ele chegou ao estúdio e todos estavam reunidos no lugar onde os ensaios acontecem, o Roy e a Samantha olharam para ele enquanto ele se aproximava, o John B. tava conversando com o Charlie, e o Madusky não estava lá. Quando ele chegou até eles, olhou ao redor e perguntou: “Cadê as câmeras?” Os outros só ficaram olhando para ele, meio sem jeito. Ele repetiu: “Cadê as câmeras?” O Roy tentou falar com ele, “Kurt”, mas era só o que ele precisava pra estourar de vez –

“Não, porra, cadê as câmeras, cadê a porra das câmeras?” – ele disse gritando, rangendo os dentes – “Eu não quero continuar repisando essas mesmas falas, eu não quero continuar reprisando essas mesmas cenas, não, porra, eu quero viver” – voava saliva de sua boca enquanto ele falava – “eu preciso disso, onde estão as câmeras, se não têm câmeras onde é que eu vou ser alguém, porra, onde, onde estão as câmeras” – ele gesticulava amplamente com os braços, caminhando nervosamente em direção a cada um de nós – “eu quero as câmeras agora, eu preciso, eu preciso das câmeras” – ele disse, parando, os olhos esbugalhados, olhando fixamente para mim – “eu quero VIVER!” – gritou, sua voz ficando aguda, e parou de falar. Mas nenhum de nós sabia o que responder para ele.
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quarta-feira, 14 de abril de 2010

A Série - S01E17

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Observar os passos de Madusky é como observar uma aranha desengonçada tecendo sua teia, cagando fios de seda indestrutivelmente frágeis uns sobre os outros, tentando formar um padrão mas conseguindo somente um emaranhado, um novelo, um labirinto de fios pênseis e moles. Veja essa série, para a qual fui atraído como uma mosca. Madusky escreve contos ruins. Madusky finge ser um poeta maldito. Madusky escreve o roteiro de um filme. Madusky escreve uma minissérie. Madusky resolve escrever uma série. Por que o maldito não pode fazer duas vezes a mesma coisa? Porque ele não presta, é claro.

No período de preparação da série tudo correu bem. O primeiro dia foi uma festa. Kurt Belmondo apareceu caracterizado como Rhett Butler, que ele tinha interpretado numa versão para a TV de “E o vento levou...”. Samantha Sugarcane surgiu como o sol da manhã, uma aurora de dedos rosados dignamente adorada sorrindo para todos os que a cercavam. Roy Buffalo entrou despercebido mas logo já tinha tido pequenas conversas com quase todo mundo no estúdio, Tina Tornado se sentara logo após chegar a conversava com Lia Lispeck, dando a ela algumas dicas sobre a rotina de gravações de uma série adulta, e Justin Case concedia um pouco tímido autógrafos para alguns membros da equipe que tinham filhas adolescentes. John B. adentrou as portas como um velho profeta, humildemente calçando seus tênis e usando roupas simples, e sua entrada foi seguida por um longo murmúrio de excitação e admiração, enquanto ele andava, num passo entre o indiferente e o cauteloso, em direção aos autores. Martin Madusky, como sempre, chegou atrasado, e achou que a festa era para ele.

Ele paparicou muito o John B., naqueles primeiros dias, ele o seguia de cima para baixo, sempre um passo atrás do diretor, e eu quase podia vê-lo lambendo o chão que os pés de John B. pisavam. Mas então veio o impedimento, e as coisas meio que começaram a desabar. Não deixaram as gravações da série começar, e todos nós que trabalhávamos lá começamos a ficar perturbados. A Samantha se tornou irritadiça, o Kurt apático, o John B. histérico, e Martin Madusky... Martin Madusky continuou basicamente o mesmo, embora tenha parado de puxar o saco do John. Acho que isso diz muito sobre ele.
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quarta-feira, 7 de abril de 2010

A Série - S01E16

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Que desrespeito! Nunca vi maior afronta à dignidade de uma estrela!

Samantha, minha deusa, quis estrelar uma nova série de TV, de uma dessas emissoras cujo nome não significa nada. Colocaram para trabalhar com ela somente atores capazes de suportar seu brilho, embora o criador da série seja um tipinho irrelevante. Deram-lhe destaque e liberdade, e ela estava satisfeita com seu trabalho. Mas, ora, de uma hora para a outra as gravações foram paralisadas, e continuaram exigindo a presença de todo o elenco e equipe!

Esses produtores insignificantes! Quem eles pensam que são? Minha deusa tem mais o que fazer além de participar de uma seriezinha de TV. Ela poderia estar com seus amigos, ou trabalhando em projetos pessoais, ela poderia, ela poderia estar no cinema! Sim, fazendo um filme, gravando seu perfil eternamente no celulóide da minha memória.

Mas não, ao invés disso tem que permanecer cotidianamente ao lado de seres falsos, menores que ela, e suportar o constante adiamento do início de sua personagem, de seu próprio início para aquilo que dura. Prepotentes produtores, quem são eles? Como podem amarrar minha deusa com linhas de contrato ao penhasco de suas próprias ambições?

Não, isso não vai durar, não vai. Não há aves que queiram devorar-lhe o fígado, e os nós logo se afrouxarão. E então minha deusa poderá continuar sua caminhada, ela que carrega o fogo e nos ilumina a todos, titã que caminha por entre rostos minúsculos que inevitavelmente se apagam.
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quarta-feira, 31 de março de 2010

A Série - S01E15

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- O quê?

Martin Madusky acaba de configurar em seu rosto redondo uma autêntica expressão de surpresa. Little Punk e Doo-Doom, os agentes da Emissora, acabaram de lhe avisar que John B. será o Diretor da Série. Desta vez eles estão acompanhados por um Agente novo, uma moça que só observa, parada que está alguns passos atrás de seus companheiros, e não diz nada.

- Mas eu pensei que haveria vários diretores, The Brotherhood of Heaven and Hell foi dirigido por 3 pessoas diferentes...

- A Emissora quer fazer diferente, dessa vez, disse Little Punk, John B. vai dirigir a Série e te ajudar a decidir o que acontecerá na história.

Esse momento confirma para Martin sua teoria do terceiro encontro, que ele guarda inexpressa na cabeça e sobre a qual não fala a respeito nunca, tomando cuidado na verdade para nem pensar muito nela. A teoria, que ele cria estar sendo agora confirmada na prática, consistia em serem os terceiros encontros com agentes dEles experiência memoráveis, transformadoras, e possivelmente desagradáveis. Acontecera nas filmagens de Massacre Sangrento, acontecera nas filmagens de “The Brotherhood of Heaven and Hell”, e agora acontecia de novo. Depois que Ruther Cardigan lhe ligara, perguntando se já havia escrito um roteiro, e pedindo a ele um exemplar do gênero para dirigir, justificando o pedido com ser ele um admirador de seus contos, Martin, tendo aceito, o acompanhara a uma reunião com um agente dos Eles do Estúdio que iria financiar e distribuir o filme. O segundo encontro se dera durante as filmagens, quando o mesmo agente do primeiro encontro, que Martin tinha a vaga lembrança de chamar-se Xenofonte, aparecera no estúdio para cumprimentar o elenco e a equipe. O terceiro encontro, fatídico, teve lugar quando Xenofonte, junto de um agente inominado, foi até a casa de Madusky para dizer-lhe que o Estúdio não estava gostando das provas do filme, e que seria necessário fazer alterações e cortes. Quando foi chamado para escrever “The Broterhood of Heaven and Hell”, Martin encontrou-se duas vezes com Little Punk e Doo-Doom, em sua casa e depois na sede da Emissora, e um dia enquanto acompanhava as filmagens da Série eles apareceram, acompanhados de um homem velho que não se apresentou, e avisaram a Martin que por questões complexas de orçamento o número de episódios de “The Brotherhood of Heaven and Hell” teria de ser reduzido drasticamente, passando de 18 para 13, o que eliminou um arco inteiro da série e, na visão de Martin, mutilou parte do sentido de sua obra. Ainda assim, ele não ofereceu muita resistência quando Little Punk e Doo-Doom trouxeram a proposta da Emissora para uma nova Série, dessa vez longa, que daria continuidade ao sucesso alcançado pela última empreitada televisiva de Madusky. Depois de feito o convite, Martin se encontrara com Little Punk na sede da Emissora, para apresentar suas idéias para a Série, e agora, na terceira vez em que encontrava um ou mais agentes desde o fim de seu último trabalho, eles lhe vinham com aquela notícia.

- Mas o que vocês estão dizendo! John B. é como um herói para mim, eu já vi todos os seus filmes várias vezes, vai ser uma honra trabalhar com ele!

E Little Punk respondeu simplesmente:

- Muito bem.

Recebida a notícia, Martin trabalhou com afinco para finalizar as estruturas dos episódios daquela que seria a Primeira Temporada da Série, e com especial esmero se debruçou sobre o Piloto para transformá-lo em algo memorável, capaz de atrair atenção e audiência. Eles haviam decidido transmitir a Série às quartas-feiras, no horário das nove da noite, e embora não estivessem fazendo grandes investimentos técnicos na produção, tinham trazido para trabalhar na Série grandes atores e atrizes, assim como atores e atrizes famosos. O eminente Roy Buffalo, a talentosa Tina Tornado, o chamativo Justin Case, a indescritível Lia Lispeck, assim como os grandes e premiados Kurt Belmondo e Samantha Sugarcane compunham o elenco principal da Série, o sexteto central ao redor do qual os acontecimentos e demais personagens rodariam.
A Série seria gravada nos novos estúdios perto de Wild Sierra, com o apoio da equipe “de luxo” da Emissora, os co-roteiristas Ringo Gillespie, Giuliano Ellington, Clint Parker e Django Reinhardt, vulgo “Quarteto”, o requisitado cenografista Johnny Tarzan, o cinematografista Alfie Figaro, e muitos outros membros dedicados do Esquadrão de Qualidade da NGP. Martin estava muito feliz, portanto, quando chegou ao estúdio naquele que seria o primeiro dia de gravações da Série. Estava sem óculos e até mesmo sorria discretamente por trás da barba. Quando entrou no estúdio, viu que um grupo de pessoas estava reunida diante dos cenários, e não davam o menor indício de estarem trabalhando. Uma das pessoas, percebendo a presença de Martin, veio em sua direção e, sem dizer nada, lhe entregou um bilhete dobrado. Do lado de fora lia-se “Para Martin Madusky”, e ao abri-lo o roteirista deparou-se com uma mensagem imponente, escrita numa letra de mão que bem poderia ter sido encontrada nas ruínas de alguma civilização perdida, e que levava adiante sua teoria dos três encontros, pois parecia constituir, em sua impessoalidade, um encontro mais verdadeiro com Eles do que todos os que tivera até então por meio de Seus agentes:

“GRAVAÇÕES SUSPENSAS ATÉ SEGUNDA ORDEM.

TEMOS UM PROBLEMA:

QUAL SERÁ O NOME DA SÉRIE?”
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quarta-feira, 24 de março de 2010

A Série - S01E14

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Bem, como eu estava dizendo, o convite para dirigir a Série me pegou completamente desprevenido, eu estava na prática aposentado e, a despeito dos meus sonhos mais dolorosamente desgastados, não dirigira nada por muito tempo. Meus dias se passavam dentro e fora do trailer, eu cuidava da minha pequena plantação pessoal de artigos vegetais e herbais, principalmente de manhã, e depois ficava brincando com o Tweedle-Dee, meu hamster de estimação, que eu ganhei do meu filho junto com outro, que se chamava Tweedle-Dum, mas esse morreu intoxicado depois de comer o que não devia. Se bem que, considerando o que ele comeu, eu não acho que seja certo usar a palavra intoxicado. Melhor é dizer que ele foi às nuvens rápido demais, e acabou ficando por lá.

Quando ele se cansava eu botava ele de lado, cochilava um pouco, e ficava vendo TV o resto do tempo. Minha preferência sempre foram os filmes, mas eu gostava muito também de assistir aos programas de televendas. As pessoas costumam mudar de canal quando começam esses programas, mas eles não sabem o que estão perdendo. Considero esses vídeos verdadeiras obras de arte utópicas, que meu Tomás Mórus não hesitaria em colocar lado a lado com sua obra. Aliás, acho mesmo que, se ele vivesse hoje, incluiria todos aqueles produtos no cotidiano da ilha, e se inspiraria nos protagonistas das pequenas histórias que compõem os vídeos para definir seu modelo de cidadão feliz de Lugar Nenhum. Em sua obra atualizada os utopianos poderiam cultuar o deus que quisessem, usariam roupas simples e práticas e teriam mangueiras fáceis de enrolar, escadas dobráveis com mil alterações possíveis, máquinas capazes de produzir os refrescos mais sofisticados e vigorosos, fornos que agem como se fossem chefs, produzindo comidas deliciosas facilmente, e equipamentos de exercício que transformariam a todos em deuses saudáveis, e outras tecnologias semelhantes. Tenho sonhos secretos em que eu sou uma daquelas pessoas que vivem nesses vídeos, não um ator, mas um ser real, num mundo real, e lá eu sou feliz.

Então, num desses dias de far niente e suaves empreendimentos filosóficos, Eles apareceram na minha porta. Claro que não eram “Eles”, e claro que não era mesmo uma porta, no sentido mais usual dessa palavra, embora fosse tecnicamente uma porta sim, mas de um trailer. Quando se bate numa dessas belezas elas tremem bastante, e por vezes também o trailer, tudo depende da quantidade de coisas que tem lá dentro, e da força com que batem. Eles não bateram muito forte, talvez por não serem “Eles”, e estarem tentando fazer um contato pacífico. Não vou dizer que não fiquei surpreso. Quando os vi pela janela, corri para pegar minha espingarda, mas me lembrei que não tinha uma, então acabei paralisado. Na verdade, não conhecia aqueles Agentes, mas é claro que só poderiam ser isso, só poderiam ser “Eles”, um homem alto, de pele escura, os cabelos crespos grandes enrolados por uma faixa colorida, uma calça boca de sino e uma camisa brilhante por cima, ao lado de um homem muito branco e muito baixo, quase totalmente careca, que mais parecia uma criança usando o terno do pai, o que mais poderiam ser, senão “Eles”? E o que mais poderia eu fazer senão entrar em pânico, já que da última vez que “Eles” tinham se mostrado para mim eu acabei preso, e desde então eles não haviam parado de me observar, atentamente, pacientemente, secretamente, sem, no entanto, interferir? Foram cheios de angústia, aqueles momentos de indecisão, mas por fim fui demovido da paralisia pelas batidas na porta, que haviam se tornado mais fortes, e quando finalmente a abri para eles e para o dia pensando Alea jacta est nada mais pude dizer senão “Bom dia, pois não?” com um sorriso forçado que eles rapidamente perceberam ser falso.

Fiquei indeciso sobre chamá-los ou não para entrar, mas eles estavam suando mais que eu sob aquele sol, e eu estava suando muito, então pensei que já tinha aberto a porta para eles, convidá-los para entrar não pioraria as coisas. Eles se apresentaram, o negro se chamava Little Punk e o baixinho Doo-Doom, e vinham em nome de uma emissora, da Emissora, como a chamo agora, NGP, olhem que grande coincidência. A Emissora estava produzindo uma nova série escrita por um desses autores da nova geração, todos ótimas figuras para aparecer em capas de revistas, embora eu em geral desconfie da capacidade deles de escrever o que quer que seja, e tinha interesse em que eu dirigisse a Série. Mesmo estando a tanto tempo afastado eu tinha consciência de que na TV os diretores mudam o tempo todo, e têm pouca influência sobre o que acontece na história, mas eles me garantiram que estavam fazendo algo diferente, que eu dirigiria todos os episódios, e poderia discutir os rumos e os temas da série com seu autor, que aparentemente gostava muito de mim.

Fiquei tremendamente inseguro. Por que diabos eles estavam me oferecendo isso agora? Alguns anos antes, eu teria pedido mais tempo para pensar, e descobrir o que diabos estava acontecendo, ou mesmo recusado na hora, mas... Tempus longum vitiat lapidem. O que eu teria a perder? Continuar preso naquele trailer não me livraria deles, nada livraria. E mais, aquela era minha oportunidade de voltar ao coração da Coisa, e quem sabe reparar tudo que acontecera quando de lá eu fora expulso. Por isso, mesmo ainda inseguro sobre como eu deveria agir, aceitei dirigir a Série para a Emissora.
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quarta-feira, 17 de março de 2010

A Série - S01E13

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Quando Eles me convidaram para dirigir a Série eu já estava há muitos anos no que os meus inimigos chamam de ostracismo, mas na verdade era um período sabático. É engraçado, na verdade, ninguém dava muita bola pra mim na época, eu estava morando há dois anos num trailer cercado de arbustos secos e poeira, um verdadeiro Martin Epidimn em Bando de Forasteiros, vivendo de uns parcos direitos autorais pelas exibições dos meus filmes na TV e dos dinheiros que meus filhos mandavam de vez em quando.

Uma vez por mês, mais ou menos, eu recebia uma carta de um fã, geralmente uma longa digressão que dissecava os meus filmes um por um, decifrando os significados de cada fotograma. Durante muito tempo eu esperava ansioso por essas cartas, mas depois admito que adquiri certo enfado em relação a elas. Não porque elas tenham se tornado repetitivas, mas porque haviam perdido o brilho inicial. É como se meus espectadores houvessem se tornado mais técnicos e menos criativos, e não existe nada mais chato que alguém sem criatividade. Felizmente eu encontrei um ótimo uso para essas cartas sem brilho, de modo que seus aspectos materiais viraram cinzas, ou, na melhor das hipóteses, guimbas, se é que vocês me entendem (quando afirmei que meu trailer era cercado de arbustos secos... bem, não eram só arbustos que eu tinha plantados ali).

Apesar de tudo, vez ou outra aparecia uma carta com algum conteúdo interessante, sinal de que nem tudo está perdido (desconfio que os autores dessas digressões brilhantes sejam membros da minha tribo de enevoados). Essas, se não preservava integralmente, ao menos copiava os melhores trechos, trechos que guardo com muito carinho. Vejam esse sobre Marijuana dos Anjos.

“Parece-me evidente, sire, que a cena da possessão em ‘Marijuana’ é uma representação das teorias comunistas, e em especial da URSS, sendo invadidas por parasitas e corroída por dentro pelo demônio do capitalismo e do liberalismo. Isso fica patente quando vossa excelência das Artes mostra Mary sangrando, e alterna sua agonia com uma longa sequência de uma tela inicialmente tomada pela cor vermelha que, no entanto, vai se retraindo, enquanto imagens de uma águia e de homens gordos aparecem no espaço de somente alguns fotogramas, não ficando por mais que um segundo diante dos nossos olhos.”

Esse outro, que escreveu sobre Folhas de Erva, me trata por Tio, o que estranhei a princípio mas terminei por apreciar.

“Tio, seus filmes são maravilhosos eles são foda eles mexem com a cabeça da gente. Eu vi um pedaço de um uma noite a TV tava ligada eu tava chapado e vi aquele monte de imagens sinistras e nossa, quando eu descobri que filme era aquele quem tinha feito e tudo eu fui atrás o mais logo que eu pude e hoje eu já vi mais de cinco filmes de você. Eu adoro as cenas do seu filme os atores as cores as músicas eu adoro o jeito como você faz as coisas as cenas é tudo tão lindo tem uma que é a mais linda de todas e eu entendo tudo que ela diz ela diz tanta coisa é lindo. O filme acho que chama Folhas de Erva tem tanta poesia e uma parte o cara vai passando e cantando na rua você sabe qual que é e ele vai cantando baixinho mas as pessoas que tão na rua também percebem que ele ta cantando e aquilo meio que muda a vida delas e depois quando as pessoas se reúnem no campo para construir o monumento aquelas pessoas são as mesmas pessoas que ouviram o cara cantando na rua e é tão bonito ver aquilo chapado as pessoas cantando e se movendo e trabalhando e as cores é lindo Tio, é lindo tiozinho eu já vi cinco filmes de você e vou ver todos mas eu quero que você faça mais porque quando acabar eu vou ficar triste e mesmo podendo ver de novo eu quero ver mais filmes seus que você fez hoje porque eles são todos lindos, lindos.”

Por enquanto fiquemos com somente mais um.

“John B. (por que você usa esse nome, afinal?), eu adoro seus filmes, eles são para mim o ápice do cinema. Não tenho muito amigos que te conhecem mas os que te conhecem caçoam de mim por te admirar, eles dizem que seus filmes são involuntariamente engraçados, que são filmes B e até que seu nome é B, e eles dizem que seus filmes são puro trash. Mas eu sei que eles são do jeito que são porque você é desse jeito, e você melhor do que ninguém conseguiu se expressar nos seus filmes, você mais do que ninguém foi honesto e abriu a alma. Seus filmes são terror, comédia, psicodélicos, existencialistas, pura poesia é isso não é? Seus filmes são você em celulóide, é isso não é?”

Infelizmente, nunca tive condições de responder a essas cartas, o que deve ter deixado meus admiradores um pouco desapontados.
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quarta-feira, 10 de março de 2010

A Série - S01E12

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Madusky, o imbecil, ataca novamente. O maldito tentou substituir o Quarteto, arranjar novos co-roteiristas, mas a emissora não deixou ele fazer isso. Que bom, que bom, que ótimo que ele não teve seus caprichos atendidos! O Quarteto tem muito prestígio com a emissora, eles escreveram os maiores sucessos televisivos dos últimos anos, entregam os textos na data certa, não têm frescuras. Ao contrário do Madusky e de sua pança, a dupla dinâmica.

Ainda me pergunto como me deixei enredar nesse projeto. Quando fui chamado, eu não estava de mãos vazias. Eu tinha uma proposta de Travis Armedio para trabalhar num filme de época, do século XVIII, com um orçamento alto pra cacete. Eu tinha sido convidado por Sidney Lawton em pessoa para fazer os cenários de um filme dele passado no futuro, algo como a mesma coisa que hoje mas com pequenos detalhes diferentes, e eu teria TODA A LIBERDADE para criar esses detalhes, toda a liberdade para dar a esse mundo uma cara parecida com a minha. Eu podia até mesmo tentar entrar de uma vez por todas na carreira de diretor, com meu velho projeto passado na Paris da belle époque, que eu amo tanto. Mas não, eu me deixei levar por razões sentimentais e pelas promessas deles, e agora rumino a presença repulsiva de Madusky. Malditos.

Recebi um convite por escrito pelo correio para comparecer a um coquetel na sede da emissora, em Wild Sierra, mas o convite não dizia qual era o objetivo do evento. Normalmente esses coquetéis servem para a emissora fazer uma triagem entre os membros da classe que não são seus funcionários sobre como eles estão se sentindo em relação a ela e à indústria, e por isso não me preocupei muito em me informar. Quando eu cheguei lá vi que esse era um coquetel diferente, pois não só havia relativamente pouca gente como estava cheio de funcionários da emissora, por exemplo meu velho amigo Charlie, que há anos é chefe do pessoal da iluminação, e o Quarteto. Não demorei a descobrir que a emissora tinha feito aquele coquetel para apresentar seu próximo grande projeto à equipe que trabalharia nele. Eles falaram desse jeito mesmo, apareceu um dos famosos porta-vozes, um que eu não conhecia, totalmente careca vestindo um terno bem recortado, como sempre, e começou a falar ao microfone (normalmente nesses eventos não tinha microfone, os contatos eram feitos somente na conversa), dizendo que uma nova série começaria a ser gravada para ser lançada no horário nobre, e que todos nós ajudaríamos a construir o sucesso dela, isso que muitos de nós ali sequer éramos funcionários da emissora e a maioria não fazia idéia do que estava acontecendo.

Só depois surgiu o habitual exército de homens e mulher boa-pinta, todos quarentões, e começaram a formar rodinhas, a conversar pessoalmente com quem estava ali. Comigo veio falar um que eu já conhecia, seu nome era Júlio ou Julien, ele estava vestindo uma jaqueta cor de vinho e uma camisa aberta no peito, e começou a falar sem parar, muito rápido, sobre como a série era interessante, sobre como seu criador era revolucionário, e sobre como eu seria bem remunerado por ela. Eu tentei explicar que não podia, que já tinha dois convites importantes de trabalho, e estava pensando em investir num projeto mais pessoal, mas ele parecia não me dar ouvidos. Até que veio o golpe de misericórdia. O maldito falou a única coisa que poderia me convencer de não aceitar algum dos convites que estavam pendentes e abandonar meu sonho pessoal. Ele disse que o diretor da série, diretor e co-autor, responsável pelo desenvolvimento e direção de TODOS os episódios da série, seria o grande diretor cult dos anos 70, John B. Quando ele disse aquilo, eu congelei. Minha paralisia foi tão súbita que até mesmo ele parou de tagarelar e me perguntou se eu estava bem. Eu respondi que sim e perguntei se ele estava falando sério, se O John B., John B., pensei ao mesmo tempo, o mago da minha infância, o profeta da minha adolescência, meu guia e pastor de todas as horas, fazendo suas magias e dizendo a verdade e guiando-me os passos através das imagens que criara, iria dirigir essa série integralmente para a emissora. E ele disse que sim. O maldito disse que sim e eu, completamente ignorante do que eu teria pela frente, ignorante da desgraça que Martin Madusky seria para mim, desisti de dois projetos promissores e temporariamente do meu próprio sonho e disse que Sim, também, eu aceito.

Maldito Julien!
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quarta-feira, 3 de março de 2010

A Série - S01E11

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Com outro salto, ele subiu na mesa e, sapateando, começou a soltar seus versos:

Nós podemos ver, como você está triiiste
Mas isso não é nada que nos limiiite
Nos parece que você gosta de mandar
E talvez até de os outros humilhar.
Mas nós não gostamos disso aqui não
Por isso nós vamos te dar uma lição:

Assim que ele cantou o último verso, os outros três se levantaram e também saltaram sobre a mesa. Suas bengalas descreviam círculos no ar e, acompanhando a batida sincopada dos sapatos, seus braços faziam movimento de alavanca para tirar e voltar a pôr suas cartolas.

Nós não sabemos o seu problema,
Mas sabemos o que ele caaausa
Quando se sentir cansado e deprimido
Por favor dê uma paaausa
Trate bem os outros, sorria pra eles,
Sua vida vai ser melhor assim.
Se precisar de algum conselho, venha até mim.

E continuando:

Ouça-nos com atenção, o que vamos te falar:
Quando ajudamos um irmão, ele consegue se curar.
Sua dor tem solução, basta querer se ajudar.
Nós te damos uma mão, mas você tem que andar.

Ringo, que estava na frente dos outros, pulou para o lado esquerdo da mesa, assim como Django, enquanto Clint e Giuliano pularam para o direito. Mexendo os braços e as mãos numa dança que lembrava vagamente o charleston, os quatro foram se aproximando de Madusky, que ainda estava paralisado, e terminaram por reunir-se atrás dele, cada um dos quatro com uma das mãos sobre um ombro de Madusky e a outra levantada, com a palma aberta, vibrando no ritmo da música.

Quando te jogarem ou você cair,
Lembre-se desses conselhos:
Para o seu mundo colorir
Ignore a dor em seus joelhos.

E então, para terminar, todos juntos num crescendo:

Só o que você deve (você deve!)
Só o que você deve (você deve!)
Só o que você deve fazeeeer,
É SOR-RIIIIII
IIIIIIIIIII
IIIII
III
I
R
!

Após o que voltaram para seus lugares e sentaram-se absortos.
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quarta-feira, 24 de fevereiro de 2010

A Série - S01E10

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Dizem que a coisa mais importante numa série de TV são os roteiristas, mas na verdade os criadores principais é que recebem todos os louros, enquanto o vasto time de co-roteiristas, que mesmo não inventando histórias faz a coisa acontecer escrevendo diálogos e organizando cenas, é muito pouco lembrado. No caso da Série os Co-Roteiristas são quatro, quatro homens de família, casados e felizes, que trabalham juntos já há um bom tempo entre Nós.

Não são todos os dias que eles vêm ao estúdio, mas quando vêm estão sempre do mesmo jeito. Vestidos elegantemente, de fraque e cartola (as gravatas borboleta enfeitam rigorosamente seus colarinhos), eles entram em fila, batendo suas bengalas no chão do galpão e rumando sorridentes para o Departamento de Roteiro.

A primeira reunião que eles tiveram com o Autor se deu ali, em volta de uma mesa com um tampo de mogno largo, logo que Eles designaram o galpão perto de Wild Sierra para a gravação da Série. Os quatro entraram em fila pela porta pontualmente no horário combinado, o primeiro virou para a direita, o segundo para a esquerda, o terceiro para a direita, o quarto para a esquerda, e sentaram-se dos dois lados da mesa oval, o primeiro (que na verdade se chama Ringo) e o terceiro (que na verdade se chama Django) de um lado, e o segundo (que na verdade se chama Giuliano) e o quarto (que na verdade se chama Clint) do outro.

Vinte minutos depois, o Autor (que na verdade se chama Martin Madusky) apareceu, vestindo um sobretudo preto e óculos escuros, e carregando uma pasta em uma das mãos. Ele sentou, colocou a pasta sobre a mesa e tirou os óculos, revelando seus olhos apertados e vermelhos. Pigarreando, disse:

- Erhm, nós estamos aqui para que eu apresente a vocês o que a série vai ser, e para combinarmos algumas coisas que deverão acontecer agora, os produtores já falaram com vocês sobre isso, eu acho...

Ringo, o primeiro, tomou a palavra.

- Ahm, bom dia, você é Martin Madusky, eu presumo. Muito prazer, meu nome é Ringo Gillespie, e esses – ele disse, apontando para o segundo, o quarto e o terceiro, sucessivamente – são Giuliano Ellington, Clint Parker e Django Reinhardt. Nós somos os co-roteiristas da sua série.

- Sim, erhm, muito prazer, é para isso que estamos aqui, sim.

Ringo sorriu. Madusky ficou em silêncio, depois falou.

- Não sei muito sobre trabalho com co-roteiristas, é a primeira que eu trabalho com eles, erhm, vocês. Eu escrevi “The Brotherhood of Heaven and Hell” sozinho. Mas me disseram que o padrão desse tipo de trabalho é eu dizer para vocês tudo sobre minhas idéias para que vocês possam executá-las o mais perfeitamente possível.

Martin foi falando cada vez mais baixo até sua voz ser engolida pelo silêncio. Percebeu que enquanto falava os outros não manifestavam nenhum tipo de reação. Ringo ficou sorrindo e os outros permaneceram quietos, imóveis e sem expressão, somente os olhos voltados em direção a ele. Quando ele terminou de falar, manteve a boca aberta, prestes a proferir algum outro discurso, mas não disse nada. Após um momento de quietude absoluta, Ringo alargou seu sorriso e falou, pontuando as sílabas:

- Senhor, permite-nos?...

Após o que ele levantou-se de um salto e, apontando para Madusky, começou a cantar.

Você parece precisar de algo em especial
Pois agora eu vou cantar pra subir sua moral!
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quarta-feira, 17 de fevereiro de 2010

A Série - S01E09

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Apresentação sucinta do Brilhante Elenco de Coadjuvantes:

ROY BUFFALO (Homem de uns quarenta anos), ator de longa carreira, 30 anos da última vez que contei, perfeitamente alocável na “regra Stanton-Walsh”, segundo a qual nenhum filme com Harry Dean Stanton ou M. Emmet Walsh em papéis de coadjuvante pode ser ruim, no caso nenhum filme com Roy Buffalo (alterego de Ronald Oxfield, Jr.), portanto “regra Stanton-Walsh-Buffalo”. “Estreou na frente das câmeras em ‘Cavalgar das Estações’ (Mrs. Winnipig no original), no papel do menino que oferece seu brownie com chantili para a Sra. Winnipig, após o que atuou em algumas propagandas para a televisão e dizendo uma ou duas falas em episódios de telenovela. Depois disso ele viajou com sua família pelo mundo - seu pai era diplomata – passando algum tempo na França, na Argélia e no Camboja. Voltando de lá co-estrelou por 6 anos a série ‘Carlos: Matador’ (Hitman Carlos), em que interpretava o jovem assistente e pupilo do personagem do grande astro Mexicano Carlos Naranja-Lima. Sua volta ao cinema se deu com o papel do médico em ‘Rotina Avassaladora’ (Days at the Hospital), que é forçado a ajudar o protagonista, um paciente terminal, a reencontrar sentido na vida. Após esse retorno ele atuou em diversos filmes de grandes diretores do passado e contemporâneos, até ser chamado a atuar na nova série do criador de ‘The Brotherhood of Heaven and Hell’, Martin Madusky.” (Fonte: Press-release)

TINA TORNADO (Os homens dizem Aaahh, as mulheres dizem Hmmm), atriz pornô de formação, depois cristã renascida, enfim atriz competente de (no começo) telenovelas e (atualmente) séries semanais. Falemos mais dela num futuro qualquer.

JUSTIN CASE (O topete loiro tem uns cinco dedos de altura, a pele e os olhos estão sempre brilhando), que não é tão charmoso quanto dizem as pré-, pós- e adolescentes desvairadas, nem tão gay quanto afirmam seus namorados e amigos. De fato, passou bem da carreira infantil, como uma das crianças do programa de “Birno, o tricerátops amarelo”, pela pré-adolescente, como um dos irmãos de “Enzo e Romeo”, até a teen, onde agora se encontra, como ídolo midialógico capaz de acelerar o despertar hormonal das pubescentes.

LIA LISPECK (Esses olhos sonhadores, perdidos no nada, que me dão ganas de... Espere, eu falei isso?), “cantriz e atora”, uma espécie de contraparte feminina de Justin Case conquanto mais polivalente, dado sua habilidade de canto e com o violão. Seu álbum de baladas folk, lançado mais ou menos na época de uma versão para o cinema da série de TV que ela estrelava, “Garotas da Praia” (Girls from Dalmoly County Bay), embora não seja exatamente audível, tem algumas notas interessantes que, recombinadas, poderiam constituir um grande sucesso futuro.
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quarta-feira, 10 de fevereiro de 2010

A Série - S01E08

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MiNHA DEUsa, estrela solitária de todas as telas, quer as de cinema quer as da televisão, única real virtude de todo o exército de rostos e corpos e pérfidos artifícios, único ser verdadeiro deles todos.

Conheço a história de sua vida parte por parte, não porque ela foi esmiuçada em “Flor de Verão”, sua primeira biografia, que a tratou bem mas não conseguiu expressar sua Verdade; não pelas falsas acusações contra ela empreendidas em sua segunda biografia, “Estrela Opaca”, cujo venenoso autor tem vendido até a alma para pagar as indenizações por danos morais a minha deusa; nem mesmo pela autobiografia que ela com tanta bondade escreveu, “Samantha Simplesmente”, cujos francos depoimentos desmentem todas as acusações do outro livreco insidioso; mas tão somente porque a história de Samantha Sugarcane está impressa em cada frame projetado pelo homem da sala iluminada sobre a tela branca, para o deleite dos mortais que se alinham para vê-lA nas poltronas da sala escura.

O rosto dEla transparece o que ela é, seus gestos exprimem verdades indizíveis, sua voz sussurra segredos sagrados.

Eu a vejo nas fotos das revistas de celebridades, cujo papel pobre e má impressão não fazem jus à sua beleza (e quão perigosas são essas revistas, cheias de boatos e mentiras!).

Eu a vejo na telinha da televisão, nas entrevistas generosas que ela concede para os repórteres de programas de fofocas, nos programas de auditório que ela tão assiduamente freqüenta, para o deleite de seus adoradores, nas séries, minisséries, novelas e telefilmes em que ela atua, tão francamente sendo ela mesma por meio de ser sua personagem.

Eu a vejo ao vivo, olhos nos olhos, sempre que possível. Me meto no meio de seus outros fiéis, estendo os braços, grito, e frequentemente a toco, num momento de êxtase. Ela emite um brilho suave natural, e já tenho centenas de autógrafos com sua letra.

Eu a vejo, e ai, não há maior êxtase que esse, nem momento mais sublime e indizível, na grande tela do cinema. A música ambiente para, as luzes se apagam, os créditos rolam desinteressantes, paisagens, rostos, e então ela surge, em toda sua glória, uma visão divina, uma rosa flamejante enorme sorrindo para mim, seu perfeito rosto aumentado impossivelmente até ocupar toda a tela.

Minha deusa, como eu te desejo e adoro! Espero um dia poder provar do seu melaço.
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quarta-feira, 3 de fevereiro de 2010

A Série - S01E07

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Olá tudo bem nome é John. Claro que eu poderia me valer da famosa “fórmula James Bond” e me apresentar falando meu sobrenome, depois meu nome e sobrenome juntos. Mas eu sou proibido de falar meu sobrenome, por isso não falo. Sobrenome, sobrenome, sobrenome. Ninguém o conhece, só Eles, que assinam meus contratos. O resto das pessoas me conhece por John B., o diretor de “Dois Caminhos para Bortelega”, que é o título mais decente para essa Série que fui contratado para dirigir. Claro que o autor, Martin M., tinha outros títulos em mente, assim como eu cheguei a sugerir um ou dois além desse que eu já citei. Mas Eles resolveram por [censurado], que é uma bosta de título, convenhamos.

Sempre me perguntam por que eu não posso falar meu sobrenome, então eu já tenho meio que uma história pronta. Você ainda não perguntou, mas como eu já tenho meio que uma história pronta, não custa nada contar.

Você provavelmente conhece Eles, e Eles na verdade são sempre muito parecidos. Mas cada Emissora e Estúdio tem seus Eles, a despeito do que possa parecer. A questão é que se cada um dEles resolvesse agir de um jeito, Eles iriam perder força, por isso Eles têm seus próprios Eles, que na verdade são Eles mesmos, só que juntados numa coisa só. Essa Coisa são os Eles de tudo que existe, e a Coisa tem várias Coisas-menores ligadas a ela. Uma dessas Coisas-menores é nossa indústria de, como chama mesmo?, Cinema e TV!, e os Eles dessa coisa-menor, juntos com os Eles da Coisa, que na verdade são os mesmos Eles, criaram algumas regras para essa coisa-menor, que são regras que têm tudo a ver com as regras da Coisa.

Uma dessas regras é a de que diretores com o mesmo nome (especialmente diretores chamados John) não podem ter sobrenomes começados com a mesma letra, para não confundir o público. Por isso, existe uma Lista, elaborada por Eles, a Lista Secreta de Johns, que lista o diretor John de cada letra. Assim, no topo da lista há o John A..., e no fim o John Z..., e no meio todos os outros. As concessões feitas por eles são as seguintes: Johns de épocas diferentes podem tem sobrenomes iniciados com a mesma letra, assim como Johns de mídias diferentes. Frankenheimer, que foi um diretor sobretudo televisivo, podia conviver na indústria com Ford, que era mais antigo e cinematográfico. Ainda assim, frequentemente há disputa entre Johns pelo controle da primeira letra do sobrenome. Frankenheimer, quando decidiu dirigir filmes de cinema, desafiou Ford para uma luta no Ringue Lamacento dos Johns, mas, por cima de seus óculos redondos, o bom e velho Ford fustigou-o com o olhar e se negou a praticar tal baixeza. Foi aí que Eles decidiram ser mais flexíveis quanto à temporalidade dos diretores, e resolveram que somente Johns contemporâneos não poderiam ter o sobrenome começado com uma letra repetida. Isso livrou Cassavetes e Carpenter de lutarem na lama, assim como Huston e Hughes. Mas não livrou a mim.

Comecei a dirigir, produzido por Ruther Cardigan, no meio dos anos 60 (anos de amor e barato), na mesma época em que Boorman solidificava sua carreira. Como ele era um estrangeiro desbravador da indústria-do-cinema de NGP, e eu somente um dos muitos aspirantes a diretor patrocinados por Cardigan, desafiei-o para uma luta no Ringue Lamacento dos Johns. Essas lutas costumam seguir um padrão muito rígido, ditado por um dos Apêndices da Lista Secreta dos Johns. Os dois diretores devem estar usando somente meias brancas e uma sunga-calção de borracha, e deve haver somente uma fonte de luz no recinto, ou seja, a lâmpada da luminária que pende do teto. A luta se dá dentro de uma piscina de dois mil litros repleta de lama (i.e., água com terra) sem impurezas. O raio de um metro da borda da piscina deve permanecer vazio, e após este a platéia pode se amontoar à vontade. A posição inicial é os dois oponentes com as mãos nos ombros do outro (a menos que um deles não tenha um ou mais braços, nesse caso o candidato com o maior número de braços leva o sobrenome), e ganha quem mantiver o outro com a cara sob a lama por um minuto primeiro, embora a luta possa, segundo o Apêndice, continuar após isso.

Como atesta o fato de Boorman ostentar vergonhosamente seu sobrenome por aí, enquanto eu preciso me esconder atrás desse enigmático e pobre John B., eu fui derrotado. Dei uma bela surra nele, é verdade, mas antes disso ele me manteve sob a lama tempo suficiente para garantir a vitória. Desse modo, hoje eu ando por aí sem sobrenome, somente uma letra que pode levar a um número quase infinito de caminhos, até os mais idiotas, tipo “Bostão” ou “Bastardo”, só porque o Boorman enfiou minha cara na lama durante um minuto. Merda. Odeio lembrar essa história, mas fazer o que, é a Verdade. Pelo menos meus filmes são melhores que os dele.

Addendum: Esqueci de dizer que a Lista Secreta de Johns só contempla os diretores de Nosso Grande País, ou que trabalharam sobretudo por aqui, por isso caras como Woo não precisam competir com Waters; e obviamente não há nenhum conflito em haver cineastas chamados João, Giovani, Juan, Ivan ou mesmo o ubíquo Jean, que domina a Gália com seus Epstein, Renoir, Cocteau, Vigo, Luc Godard, etc., ad infinitum, e provavelmente tem sua própria Lista de Controle.
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quarta-feira, 27 de janeiro de 2010

A Série - S01E06

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Kurt parece ter aderido de vez ao blasé. O sacana não fala mais comigo, mesmo; passa sem cumprimentar e fica horas trancado no seu trailer-camarim gigante. Só sai de lá quando o John B. chama o elenco para os ensaios. O diretor tem feito isso todos os dias, ele chama os astros e os coadjuvantes e fica ensaiando com eles cenas novas, mas não gravam nunca. Às vezes ele resolve discutir os personagens e começa a falar sem parar, gesticulando e falando alto e parando no meio das frases. Nessas horas o Kurt se afasta e fica sentado na cadeira que tem o seu nome, esparramado. Quando eu estou por ali fico observando e percebo que ele sempre age da mesma maneira, ele abre a boca e dá um sorriso forçado e faz bico

O ) *

repetidamente, sempre a mesma sequência de expressões. Não sei se é algum tipo de alongamento, os atores têm disso, ou se é mais uma mania dele. Só sei que a cada dia ele fica menos interessado nos ensaios, e gasta mais tempo com esse exercício, hmm, perturbador.

Apesar disso, acho que ele está tendo sucesso em entrar no personagem. Quando ele participa dos ensaios as atitudes dele são bem verdadeiras. Ele diz as falas com uma certeza um pouco alucinada – eu ouvi falar que o personagem dele é meio pirado mesmo, um cara obcecado ou paranóico. O John B. tenta orientar a Samantha, mostrando a ela como deve atuar, e diz gritando numa voz esganiçada “Ferdinand, o que você está fazendo!?” – ao que o Kurt responde, com a cabeça abaixada, a voz ríspida, olhando fixo pra ele: “Estou tentando nos tirar daqui!”

Ontem eu tomei coragem para falar com ele, ver se mesmo assim ele iria ignorar minha existência, e quando ele passou eu disse, levantando a mão, “Ei, Kurt, como vai?”. Mas o que ele fez foi parar, as mãos nos bolsos, e olhando em minha direção dizer, sem nenhuma emoção na voz:

- Meu nome é Ferdinand.
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quarta-feira, 20 de janeiro de 2010

A Série - S01E05

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Eles apareceram na casa de Martin no começo de Abril. Não Eles, claro, em pessoa ou o que quer que sejam, mas dois de seus Agentes. Um negro alto que parecia saído de uma discoteca dos anos 70, com roupas coloridas e brilhantes, e um branquelo baixote vestindo um terno novo mas grande demais para seu corpo, praticamente um franciscano em termos capilares, com a diferença de que ele não possuía franja e seus curtos fios cinzentos iam até a nuca. Apareceram na porta da improvável casa suburbana de Madusky, pisando em sua grama bem aparada - ele fazia uma bela figura, o Autor, com seu sobretudo preto e de óculos escuros passeando para lá e para cá com o cortador de grama vermelho e cinza - e limpando os pés no tapete da entrada.

Vinham com um convite oficial para que Martin Madusky, “escritor respeitado”, visitasse a Emissora para discutirem um projeto que Eles imaginavam para ele. Martin acabara de sair de um projeto fílmico conturbado, a filmagem de seu roteiro “Massacre Sangrento” (Rising of the Solitary Corpses, no original) pelo mestre underground Ruther Cardigan, que tivera várias de suas cenas mais intensas ou impactantes emocionalmente cortadas pelos “Eles” do filme sob a justificativa de que “Eram só umas cenas enormes com os zumbis olhando para o horizonte e andando por lugares vazios sem fazer nada. Que importância isso tinha para a história?” Por isso, ficou um pouco hesitante de embarcar num novo projeto que dependesse de “Eles”.

Os dois Agentes, porém, convenceram-no de que esses Eles seriam muito liberais com o projeto, e que, ademais, o convite era somente para uma reunião, onde discutiriam possíveis histórias e conceitos, e poderiam negociar o controle que Eles teriam sobre a parte criativa da produção. MM ponderou por instantes e prometeu comparecer. Na semana seguinte, saiu da Emissora com as linhas gerais de “The Brotherhood of Heaven and Hell” debaixo do braço, não sabendo ao certo se devia sorrir pelo futuro promissor ou permanecer com o cenho franzido, perturbado pela cláusula do pré-contrato que estipulava ser dEles a palavra final em todos os “conflitos criativos”.
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