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Não. O silêncio.
Meu corpo estendido na cama cheio de preguiça, o rosto contra o travesseiro, o braço esticado pelo prazer do movimento, o som alto que vem da TV, música e conversas e barulhos em vão. Está escuro no quarto mas ainda há som, o som da TV que entra pela porta aberta da sala iluminada, logo ali, onde ela se senta imóvel olhando para o brilho que brilha mais que a luz e vendo o som que aparece mais que o vento. Meu corpo, estendido na cama, sem nenhum corpo que o estenda de si.
Levanto, venho pelo corredor, aquele mesmo passo molenga, os ombros caídos, a corcunda ali mas sem mãe que diga “Olha a postura” ou qualquer um que comente “Erga os ombros!” Passo molenga e ombros caídos para através da porta de volta para o meu quarto, procurando afazeres para preencher o momento vazio. Amigos de sempre, os livros agora, nesse momento de desejo de movimento, não me agradam, palavras palavras palavras. Tento a poesia, mas também ela vai se arrastando pelos meus olhos até parar e uma canseira vir se abater sobre o coração.
As coisas que eu escrevo, dessas também já cansei, tantas vezes já lidas, raramente terminadas, deixe-as lá que é o lugar delas, paradas sem fim fracassadas por enquanto.
Penso nos meus fracassos, mas afasto esses pensamentos. Há sempre a incapacidade que nos ronda, ela ergue seu porrete e afasta qualquer um que deseje se aproximar. Estou aqui ainda, mas sozinho, não alcanço os que estão à distância de um braço porque... hein? Covardia fraqueza indecisão cansaço preguiça medo ou o quê?
Os dedos no teclado, as letras se escrevem. É noite. Estou aqui ainda, mas já-já vou embora. Passos de volta, passo molenga, a corcunda, ombros caídos. Ela ainda lá, parada, em frente ao brilho. Vou entrando pela porta aberta, no quarto escuro, mas sem silêncio. “Ei, criança, o que você tem?”
Não, nada.
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quinta-feira, 19 de novembro de 2009
segunda-feira, 16 de novembro de 2009
Todo Dia, VI
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Quem é você e o que você está fazendo, o que você está fazendo, o que você está fazendo? Quem é você e o que você está fazendo, o que você está fazendo, o que você está fazendo? Quem é você e o que você está fazendo, o que você está fazendo, está fazendo? Quem é você? O que você está fazendo? Quem é você e o que está fazendo?
Três pedras. Uma pra cima. Pra cima que sobe sobe sobe sobe. Uma pra baixo. Pra baixo que desce desce desce desce. Uma pra água que afunda e vibra e gira e dá a volta no mundo e polui os oceanos e macula os rios e transforma as águas em matéria negra e as areias em matéria bruta e dá vida e mata e mistura e faz um caldo pra surgir barro pra surgir lama pra você se arrastar para os seres se arrastarem para todos se arrastarem para se arrastar e dá a volta e vem por trás e te acerta na cabeça te matando num esguicho de sangue. Uma pedra.
Dois livros. Um para ler e um para queimar. Um para ler para abri-lo e seguir suas páginas e página após página seguindo-o e suas letras e suas leituras um livro grande como não sei se existe enorme muito grande mesmo mal dá pra carregar mal consigo vê-lo por inteiro um livro que eu abro e sigo para você abrir e seguir mas é muito grande mal dá pra vê-lo ou carregá-lo e me engole. Um para queimar pequenino assim de bolso como um papel amassado uma nota fiscal já sem serventia que você tira do bolso de trás e joga ao fogo displicentemente assim como se jogasse uma moeda em uma fonte ou para uma criança ou um mendigo você joga o livro pega no bolso de trás e nem olha para ele só joga no fogo e num instante de luz ardente ele pisca e desaparece assim uma faísca tão rápido que mal dá pra ver mas o fogo apaga e sobram cinzas e a chuva molha e o vento sopra e as letras as letras tão negras no fundo branco do papel como no fundo negro das cinzas elas se levantam e se reúnem e vêm rastejantes até onde você dorme e sobem pelos pés da cama e sobem pelos seus pés e seus pés são meus e as letras me envolvem e me agarram e me engolem. Um livro.
Um mundo. Não seremos como os deuses, não somos, não somos mais. A seta flamejante aponta a saída, e cabisbaixos com vergonha vamos andando, sim, de cabeça baixa, nus, devagar, sim, é noite mas quase dia é a hora mágica e vêm os raios e vem o sol e vem a luz e já não é noite. E eu levanto a cabeça e você e levanto os olhos e vejo que Ele, a partir de agora e para todo o sempre, está à nossa frente. Um mundo.
Mas quem é você e o que você está fazendo?
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Quem é você e o que você está fazendo, o que você está fazendo, o que você está fazendo? Quem é você e o que você está fazendo, o que você está fazendo, o que você está fazendo? Quem é você e o que você está fazendo, o que você está fazendo, está fazendo? Quem é você? O que você está fazendo? Quem é você e o que está fazendo?
Três pedras. Uma pra cima. Pra cima que sobe sobe sobe sobe. Uma pra baixo. Pra baixo que desce desce desce desce. Uma pra água que afunda e vibra e gira e dá a volta no mundo e polui os oceanos e macula os rios e transforma as águas em matéria negra e as areias em matéria bruta e dá vida e mata e mistura e faz um caldo pra surgir barro pra surgir lama pra você se arrastar para os seres se arrastarem para todos se arrastarem para se arrastar e dá a volta e vem por trás e te acerta na cabeça te matando num esguicho de sangue. Uma pedra.
Dois livros. Um para ler e um para queimar. Um para ler para abri-lo e seguir suas páginas e página após página seguindo-o e suas letras e suas leituras um livro grande como não sei se existe enorme muito grande mesmo mal dá pra carregar mal consigo vê-lo por inteiro um livro que eu abro e sigo para você abrir e seguir mas é muito grande mal dá pra vê-lo ou carregá-lo e me engole. Um para queimar pequenino assim de bolso como um papel amassado uma nota fiscal já sem serventia que você tira do bolso de trás e joga ao fogo displicentemente assim como se jogasse uma moeda em uma fonte ou para uma criança ou um mendigo você joga o livro pega no bolso de trás e nem olha para ele só joga no fogo e num instante de luz ardente ele pisca e desaparece assim uma faísca tão rápido que mal dá pra ver mas o fogo apaga e sobram cinzas e a chuva molha e o vento sopra e as letras as letras tão negras no fundo branco do papel como no fundo negro das cinzas elas se levantam e se reúnem e vêm rastejantes até onde você dorme e sobem pelos pés da cama e sobem pelos seus pés e seus pés são meus e as letras me envolvem e me agarram e me engolem. Um livro.
Um mundo. Não seremos como os deuses, não somos, não somos mais. A seta flamejante aponta a saída, e cabisbaixos com vergonha vamos andando, sim, de cabeça baixa, nus, devagar, sim, é noite mas quase dia é a hora mágica e vêm os raios e vem o sol e vem a luz e já não é noite. E eu levanto a cabeça e você e levanto os olhos e vejo que Ele, a partir de agora e para todo o sempre, está à nossa frente. Um mundo.
Mas quem é você e o que você está fazendo?
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sexta-feira, 13 de novembro de 2009
Todo Dia, V
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Faz tempo existia esse condado no final da estrada, um rincão de terra rodeado por uma cerca viva onde bois pastavam o dia todo mugindo alegres para as nuvens brancas passeantes pelo céu azul anil destacado contra os morros do horizonte alargado. A estrada virava viela e a terra ia seguindo numa trilha que cortava a vida verde até uma casa meio escondida entre as árvores, de tijolo de barro, uma casa grande de janelas largas cheia de sombras com poucas luzes entrando pelos umbrais. Mês e outro reuniam-se ali ao lado para comemorar a vida e a luz que ainda vinha, montavam bandeirolas esticavam o fio entre o teto e uns postes, uns paus de madeira colocados longe e embaixo uma fogueira que ardia até as primeiras luzes do esvanecer da madrugada. Fim de festa e todos eles caminhando devagar, o pé se arrastando ao outro, casais e homens sozinhos e pequenas filas familiares caminhando não sei pra onde, um andar vago, somente para tomar distância da casa velha e vazia onde Ele morava. Ele dava a festa e organizava tudo e colocava os paus e os fios e as bandeirolas e a fogueira e mandava trazer comida e doces e violas e ficava olhando as moças dançar sem falar uma única palavra. Os olhos iam se cansando e ele tirava cochilos ali mesmo à janela, em pé, encostado, e as pessoas fingiam não reparar, e continuavam dançando até o quase-amanhecer. Iam embora e fim de festa e ficavam as cinzas e a bruma e aquele cheiro de manhã cansada, e Ele meio acordado meio dormindo voltava pras sombras pra deitar no chão pra fechar os olhos mais uma vez pra ficar ali pra ficar sozinho pra ficar dormindo sozinho deitado nas sombras num depois de fim de festa.
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Faz tempo existia esse condado no final da estrada, um rincão de terra rodeado por uma cerca viva onde bois pastavam o dia todo mugindo alegres para as nuvens brancas passeantes pelo céu azul anil destacado contra os morros do horizonte alargado. A estrada virava viela e a terra ia seguindo numa trilha que cortava a vida verde até uma casa meio escondida entre as árvores, de tijolo de barro, uma casa grande de janelas largas cheia de sombras com poucas luzes entrando pelos umbrais. Mês e outro reuniam-se ali ao lado para comemorar a vida e a luz que ainda vinha, montavam bandeirolas esticavam o fio entre o teto e uns postes, uns paus de madeira colocados longe e embaixo uma fogueira que ardia até as primeiras luzes do esvanecer da madrugada. Fim de festa e todos eles caminhando devagar, o pé se arrastando ao outro, casais e homens sozinhos e pequenas filas familiares caminhando não sei pra onde, um andar vago, somente para tomar distância da casa velha e vazia onde Ele morava. Ele dava a festa e organizava tudo e colocava os paus e os fios e as bandeirolas e a fogueira e mandava trazer comida e doces e violas e ficava olhando as moças dançar sem falar uma única palavra. Os olhos iam se cansando e ele tirava cochilos ali mesmo à janela, em pé, encostado, e as pessoas fingiam não reparar, e continuavam dançando até o quase-amanhecer. Iam embora e fim de festa e ficavam as cinzas e a bruma e aquele cheiro de manhã cansada, e Ele meio acordado meio dormindo voltava pras sombras pra deitar no chão pra fechar os olhos mais uma vez pra ficar ali pra ficar sozinho pra ficar dormindo sozinho deitado nas sombras num depois de fim de festa.
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quinta-feira, 12 de novembro de 2009
Melhores músicas dos Beatles com nomes de mulheres
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Faz um bom tempo que eu não falo sobre música aqui, mas não vou perder a oportunidade. Estava pensando noutro dia sobre as músicas dos Beatles com nomes de mulher no título, inclusive tendo algumas idéias interessantes para fazer com elas.
Resolvi então fazer um ranking (vocês sabem que eu adoro isso) com a minha ordem de preferência. Duas delas são covers, as do início da carreira deles. Das demais, a maioria está no White Album, pródigo em músicas desse tipo. Fiquem à vontade para concordar ou discordar de mim nos comentários.
1 - Martha My Dear (White Album)
2 - Dear Prudence (White Album)
3 - Eleanor Rigby (Revolver)
4 - Michelle (Rubber Soul)
5 - Julia (White Album)
6 - Anna (Please Please Me)
7 - Sexy Sadie (White Album)
8 - Lovely Rita (Sgt. Pepper's Lonely Hearts Club Band)
9 - Polythene Pam (Abbey Road)
10 - Dizzy Miss Lizzie (Help!)
11 - Lucy In The Sky With Diamonds (Sgt. Pepper's Lonely Hearts Club Band)
12 - Maggie Mae (Let It Be)
Ah, e pra finalizar: diferente do que muitos pensam, inclusive eu durante muito tempo, Penny Lane não é uma mulher, mas um lugar!
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Faz um bom tempo que eu não falo sobre música aqui, mas não vou perder a oportunidade. Estava pensando noutro dia sobre as músicas dos Beatles com nomes de mulher no título, inclusive tendo algumas idéias interessantes para fazer com elas.
Resolvi então fazer um ranking (vocês sabem que eu adoro isso) com a minha ordem de preferência. Duas delas são covers, as do início da carreira deles. Das demais, a maioria está no White Album, pródigo em músicas desse tipo. Fiquem à vontade para concordar ou discordar de mim nos comentários.
1 - Martha My Dear (White Album)
2 - Dear Prudence (White Album)
3 - Eleanor Rigby (Revolver)
4 - Michelle (Rubber Soul)
5 - Julia (White Album)
6 - Anna (Please Please Me)
7 - Sexy Sadie (White Album)
8 - Lovely Rita (Sgt. Pepper's Lonely Hearts Club Band)
9 - Polythene Pam (Abbey Road)
10 - Dizzy Miss Lizzie (Help!)
11 - Lucy In The Sky With Diamonds (Sgt. Pepper's Lonely Hearts Club Band)
12 - Maggie Mae (Let It Be)
Ah, e pra finalizar: diferente do que muitos pensam, inclusive eu durante muito tempo, Penny Lane não é uma mulher, mas um lugar!
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sábado, 7 de novembro de 2009
Todo Dia, IV
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Esculpir é um dos ofícios mais fascinantes que existem, a metáfora mais perfeita do ofício artístico. De modo geral há duas maneiras de encarar a arte. Uma delas é vê-la como criação, construção, como Proust construindo sua catedral de memórias ou quaisquer grandes autores criando seus mundos particulares que, por mais semelhantes ao mundo real sejam, lhe são próprios. A outra maneira é ver a arte como uma “filtragem” da realidade. Já falei sobre isso quando escrevi sobre a crítica, sobre como a crítica é um ponto de vista da obra de arte tal qual a obra de arte é um ponto de vista da Realidade. Mas não havia ainda encontrado uma metáfora que me concedesse tão perfeitamente a imagem do que consiste o lide artístico. Encontrei lendo o fabuloso livro de Andrei Tarkovsky, “Esculpir o Tempo”, onde a metáfora do escultor é usada, e aqui a reproduzo e expando. Esculpir consiste, pois, não em sobrepor elementos para criar um todo, mas em retirar do bloco concreto aquilo que não pertence à obra de arte. Seja mármore, gesso, ou granito, o elemento componente da escultura é várias vezes filtrado até atingir seu estado final, a perfeição ou ao menos o objetivo, o ponto em que se pára do escultor. Deus cria o mundo e nele coloca o mineral. O trabalhador vai até a mina e recorta um bloco de mármore ou o que quer que seja, o qual é levado até o artista. O escultor se vê então frente a frente com a impassibilidade ebúrnea da rocha, e com sua alma enxerga ali somente o futuro, somente o sublime que nasce do bruto. Começa então seu trabalho de artesão, o sentido de sacrifício da criação artística, pelo qual ele retira do bloco sólido tudo que é supérfluo, tudo o que não pertence à obra de arte. Assim também se pode dizer dos demais artistas, o pintor que retira cores do branco até encontrar o tom exato; o ator que retira o vazio do vazio e lhe imprime movimento e som; o poeta que retira a brancura da folha e o desespero do silêncio.
Construir ou filtrar? Qual é o verdadeiro processo de criação da arte?
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Esculpir é um dos ofícios mais fascinantes que existem, a metáfora mais perfeita do ofício artístico. De modo geral há duas maneiras de encarar a arte. Uma delas é vê-la como criação, construção, como Proust construindo sua catedral de memórias ou quaisquer grandes autores criando seus mundos particulares que, por mais semelhantes ao mundo real sejam, lhe são próprios. A outra maneira é ver a arte como uma “filtragem” da realidade. Já falei sobre isso quando escrevi sobre a crítica, sobre como a crítica é um ponto de vista da obra de arte tal qual a obra de arte é um ponto de vista da Realidade. Mas não havia ainda encontrado uma metáfora que me concedesse tão perfeitamente a imagem do que consiste o lide artístico. Encontrei lendo o fabuloso livro de Andrei Tarkovsky, “Esculpir o Tempo”, onde a metáfora do escultor é usada, e aqui a reproduzo e expando. Esculpir consiste, pois, não em sobrepor elementos para criar um todo, mas em retirar do bloco concreto aquilo que não pertence à obra de arte. Seja mármore, gesso, ou granito, o elemento componente da escultura é várias vezes filtrado até atingir seu estado final, a perfeição ou ao menos o objetivo, o ponto em que se pára do escultor. Deus cria o mundo e nele coloca o mineral. O trabalhador vai até a mina e recorta um bloco de mármore ou o que quer que seja, o qual é levado até o artista. O escultor se vê então frente a frente com a impassibilidade ebúrnea da rocha, e com sua alma enxerga ali somente o futuro, somente o sublime que nasce do bruto. Começa então seu trabalho de artesão, o sentido de sacrifício da criação artística, pelo qual ele retira do bloco sólido tudo que é supérfluo, tudo o que não pertence à obra de arte. Assim também se pode dizer dos demais artistas, o pintor que retira cores do branco até encontrar o tom exato; o ator que retira o vazio do vazio e lhe imprime movimento e som; o poeta que retira a brancura da folha e o desespero do silêncio.
Construir ou filtrar? Qual é o verdadeiro processo de criação da arte?
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sexta-feira, 30 de outubro de 2009
Todo Dia, III
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Bromélio, 80 anos, vive há mais de 20 no condomínio. Sua barba já lhe valeu, ao longo do tempo, os apelidos mais óbvios e diversos. Gandalf, Papai Noel, até mesmo Pai-Mei – esse vindo de um cidadão com alguma dificuldade em discernir entre os diversos tipos de pêlo facial. Como um bom ancião, tem as manias mais inconvenientes e irredutíveis. Uma delas, talvez a mais inofensiva, e ao mesmo tempo a mais característica de sua personalidade, é a de usar o vocativo “minha filha” para se referir a todas as pessoas. Quando ele encontra Joana, sua única descendente, parida pela mãe há 47 anos, pouco antes que a referida morresse, diz, com a voz elevando-se:
- Joana, minha filha!, há quanto tempo!
Do mesmo modo, ao encontrar a síndica, Sra. Fomm, entregando a correspondência, ele pergunta, com o mesmo tom de voz:
- Sra. Fomm, minha filha!, tem alguma coisa para mim?
Ocasionalmente, Bromélio desce para tomar um pouco de sol e apreciar o ar fresco de sua rua movimentada. Aproxima-se lentamente da portaria, pé ante bengala, e com um toque mole de seu punho na portinhola da casinha do porteiro, proclama, fazendo-se ouvir.
- Seu Zé, minha filha!, pode abrir a porta da rua para mim?
Uma vez por semana, o ancião visita a própria mãe, de 99 anos, no asilo municipal. Nesses dias, ele é tomado pela melancolia, triste de não poder ficar com a mãe por ele próprio precisar de cuidados, e ciente de que em poucos anos Joana, sua filha, o colocará num asilo também, e também ela somente lhe concederá a presença, o bálsamo para a saudade, uma vez por semana. Bromélio caminha lentamente, receoso, pelos corredores pastel do asilo, e quando a enfermeira abre a porta do quarto de sua mãe, e revela a imagem daquela mulher curvada sobre uma cadeira de rodas, olhando serenamente para o jardim, ele sorri, e com a voz mansa, diz soprando para ela:
- Mãe, minha filha, como você está linda!
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Bromélio, 80 anos, vive há mais de 20 no condomínio. Sua barba já lhe valeu, ao longo do tempo, os apelidos mais óbvios e diversos. Gandalf, Papai Noel, até mesmo Pai-Mei – esse vindo de um cidadão com alguma dificuldade em discernir entre os diversos tipos de pêlo facial. Como um bom ancião, tem as manias mais inconvenientes e irredutíveis. Uma delas, talvez a mais inofensiva, e ao mesmo tempo a mais característica de sua personalidade, é a de usar o vocativo “minha filha” para se referir a todas as pessoas. Quando ele encontra Joana, sua única descendente, parida pela mãe há 47 anos, pouco antes que a referida morresse, diz, com a voz elevando-se:
- Joana, minha filha!, há quanto tempo!
Do mesmo modo, ao encontrar a síndica, Sra. Fomm, entregando a correspondência, ele pergunta, com o mesmo tom de voz:
- Sra. Fomm, minha filha!, tem alguma coisa para mim?
Ocasionalmente, Bromélio desce para tomar um pouco de sol e apreciar o ar fresco de sua rua movimentada. Aproxima-se lentamente da portaria, pé ante bengala, e com um toque mole de seu punho na portinhola da casinha do porteiro, proclama, fazendo-se ouvir.
- Seu Zé, minha filha!, pode abrir a porta da rua para mim?
Uma vez por semana, o ancião visita a própria mãe, de 99 anos, no asilo municipal. Nesses dias, ele é tomado pela melancolia, triste de não poder ficar com a mãe por ele próprio precisar de cuidados, e ciente de que em poucos anos Joana, sua filha, o colocará num asilo também, e também ela somente lhe concederá a presença, o bálsamo para a saudade, uma vez por semana. Bromélio caminha lentamente, receoso, pelos corredores pastel do asilo, e quando a enfermeira abre a porta do quarto de sua mãe, e revela a imagem daquela mulher curvada sobre uma cadeira de rodas, olhando serenamente para o jardim, ele sorri, e com a voz mansa, diz soprando para ela:
- Mãe, minha filha, como você está linda!
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quinta-feira, 22 de outubro de 2009
Todo Dia, II
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Vou criar um novo movimento, a estética do fragmento, baseado nas obras de Eliot, Cortázar e Perec, e nas Mil e Uma Noites. Nosso lema será “Bons artistas copiam, grandes artistas roubam.”, proferida no passado incerto por Pablo Picasso, portanto fundador avant la lettre do movimento. Se houver qualquer coisa, dentre os nosso escritos, que se aproxime de uma unidade total, pretendida, não baseada na multiplicidade caótica das formas, ela será apagada, destroçada, desmembrada em mil pedaços e depois enfiada nos cantos mais inadequados de tudo quanto nos for soprado pelas musas invisíveis. Esse movimento não terá dono, nem nome adequado, cada um o chamará como achar conveniente. Muitos dirão a arte dos pilantras, alguns o ofício dos não-criativos, outros ainda ourivesaria de destroços, mas se foi em fragmentos que TS escorou suas ruínas, tudo é ruína, o mundo é ruína, e não olhamos para o futuro sobre os ombros de gigantes, mas sobre o empilhamento dos destroços de nossos antepassados.
Vejo agora pois à minha frente os dias de glória, recebidos com serenidade e têmpera pelo meu temperamento temperado. Três, quatro dias de supremo ócio, ainda que as preocupações do futuro – sempre incerto – ainda se abatam, de leve, sobre mim. Verei as sombras elétricas, os espectros coloridos dos mortos, vivendo histórias que não as deles, usando vozes que não as suas, somente a aparência igual, quase igual na verdade, desde aquele instante e para sempre perdida, posto que no seguinte momento já se tem outra.
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Vou criar um novo movimento, a estética do fragmento, baseado nas obras de Eliot, Cortázar e Perec, e nas Mil e Uma Noites. Nosso lema será “Bons artistas copiam, grandes artistas roubam.”, proferida no passado incerto por Pablo Picasso, portanto fundador avant la lettre do movimento. Se houver qualquer coisa, dentre os nosso escritos, que se aproxime de uma unidade total, pretendida, não baseada na multiplicidade caótica das formas, ela será apagada, destroçada, desmembrada em mil pedaços e depois enfiada nos cantos mais inadequados de tudo quanto nos for soprado pelas musas invisíveis. Esse movimento não terá dono, nem nome adequado, cada um o chamará como achar conveniente. Muitos dirão a arte dos pilantras, alguns o ofício dos não-criativos, outros ainda ourivesaria de destroços, mas se foi em fragmentos que TS escorou suas ruínas, tudo é ruína, o mundo é ruína, e não olhamos para o futuro sobre os ombros de gigantes, mas sobre o empilhamento dos destroços de nossos antepassados.
Vejo agora pois à minha frente os dias de glória, recebidos com serenidade e têmpera pelo meu temperamento temperado. Três, quatro dias de supremo ócio, ainda que as preocupações do futuro – sempre incerto – ainda se abatam, de leve, sobre mim. Verei as sombras elétricas, os espectros coloridos dos mortos, vivendo histórias que não as deles, usando vozes que não as suas, somente a aparência igual, quase igual na verdade, desde aquele instante e para sempre perdida, posto que no seguinte momento já se tem outra.
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sexta-feira, 16 de outubro de 2009
Todo Dia, I
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Tenho vontade de escrever mas não posso pois minhas mãos estão atadas pelo peso das ambições. Começo mil e uma coisa mas elas não passam da primeira linha, ou do primeiro parágrafo, ou da primeira página. Meu computador, minha caixa de escritos, é um amontoado de textos mortos, iniciados num instante de empolgação, de inspiração, de fúria criativa, e abandonados ao primeiro sopro da brisa fria da falta de idéias, do medo de errar, da preguiça. Ambição, arrogância, procrastinação: atam-me as mãos. Quero muito, inicio querendo muito, ambicionando tudo. Mas logo paro e então ali fico, por medo de continuar, por medo de não conseguir atender à minha ambição e destruir minha obra, pois o uma vez escrito, por arrogância, ou ainda algum outro medo que desconheço, permanece escrito. Assim, aliada à preguiça, minha ambição alimenta a procrastinação, que, como muito bem dito pelo japonês voador, se como masturbação no começo é bom, logo percebe-se que só se está fodendo a si mesmo. Num rampante ataco o texto, e o desfio, e o termino. Mas ele me parece agora muito abaixo do que deveria ser, do que poderá ter sido, do que eu queria que fosse. Mas é isso, escrever é necessário. Digo:
- Meus diálogos são uma merda.
Ela diz:
- Então não escreva diálogos.
Tão simples. Mas e se eles forem necessários? E se for necessário criar tensão através deles, mostrar uma alma, discutir idéias? E se eles forem inescapáveis, o que fazer? Simples, deixe-os fluir, deixe a escrita fluir, deixe tudo fluir. Que fique um lixo. Depois você pode começar de novo, você pode apagar o passado e escrever ainda uma vez (a última antes da próxima) como se você nunca tivesse escrito. É assim que farei, doravante: sem planejar, somente ir. Aqui vou despejar meu anseio pelas palavras. Sentado, os dedos atacando as teclas, e o resultado oculto, escondido do mundo, pela vergonha de ser ruim ou de ser bom, pior ainda. (Mas não tenho coragem, o revelo por ansiedade, vontade de resposta)
Digamos, por que não ater-me à narrativa dos fatos cotidianos, tão naturalmente providos de profundidade, realidade e beleza? É o que aconteceu, através de meus olhos ainda incertos, ainda indecisos, ainda travados pelo que há de sistemático em mim, mas que buscam saber o que olhar. Para onde dirigir o meu olhar? Para o que acontece agora, o que acontecerá, talvez, ou para o que já aconteceu mas mal me lembro?
- Bom dia.
Treinarei diálogos. É o que disse ele ao sorrir-me de manhã.
- Bom dia, tudo bom?
- Tudo tranqüilo.
- Vocês vão pra Bariloche depois de amanhã, né?
Ainda é difícil reproduzir a verdade, várias vozes se sobrepõe na minha lembrança. Vou removê-las, não as quero mais aqui, somente as palavras fictícias, que revelem o sentido real, assim seja!
- Vou, o ônibus sai daqui 5 horas.
- Hahaha, vocês vão de ônibus pra Bariloche?
- Hahahah, é, isso ae...
- Viagenzinha longa hein?
- Pois é, minha irmã falou que daqui até Buenos Aires dá umas 35 horas.
- Então porra, Bariloche é lá no cu da Patagônia... deve dar uns três dias de viagem se o ônibus
não parar um segundo.
- Sim... mas melhor isso que a classe econômica de um avião por 4 horas.
Ué, costumava ser mais difícil. Será que é porque eu tenho essa mania “cinematográfica” de descrever cada movimento facial, cada expressão de sentimento dos locutores? Sim, porra. Por que você não deixa as porcarias das falas falarem pelos personagens? Você não precisa descrever tudo, isso não é cinema, é literatura, caralho, são palavras, PALAVRAS, você só tem que escrever, dizer o que eles dizem, não criar imagens clichê de seus rostos contorcidos.
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Tenho vontade de escrever mas não posso pois minhas mãos estão atadas pelo peso das ambições. Começo mil e uma coisa mas elas não passam da primeira linha, ou do primeiro parágrafo, ou da primeira página. Meu computador, minha caixa de escritos, é um amontoado de textos mortos, iniciados num instante de empolgação, de inspiração, de fúria criativa, e abandonados ao primeiro sopro da brisa fria da falta de idéias, do medo de errar, da preguiça. Ambição, arrogância, procrastinação: atam-me as mãos. Quero muito, inicio querendo muito, ambicionando tudo. Mas logo paro e então ali fico, por medo de continuar, por medo de não conseguir atender à minha ambição e destruir minha obra, pois o uma vez escrito, por arrogância, ou ainda algum outro medo que desconheço, permanece escrito. Assim, aliada à preguiça, minha ambição alimenta a procrastinação, que, como muito bem dito pelo japonês voador, se como masturbação no começo é bom, logo percebe-se que só se está fodendo a si mesmo. Num rampante ataco o texto, e o desfio, e o termino. Mas ele me parece agora muito abaixo do que deveria ser, do que poderá ter sido, do que eu queria que fosse. Mas é isso, escrever é necessário. Digo:
- Meus diálogos são uma merda.
Ela diz:
- Então não escreva diálogos.
Tão simples. Mas e se eles forem necessários? E se for necessário criar tensão através deles, mostrar uma alma, discutir idéias? E se eles forem inescapáveis, o que fazer? Simples, deixe-os fluir, deixe a escrita fluir, deixe tudo fluir. Que fique um lixo. Depois você pode começar de novo, você pode apagar o passado e escrever ainda uma vez (a última antes da próxima) como se você nunca tivesse escrito. É assim que farei, doravante: sem planejar, somente ir. Aqui vou despejar meu anseio pelas palavras. Sentado, os dedos atacando as teclas, e o resultado oculto, escondido do mundo, pela vergonha de ser ruim ou de ser bom, pior ainda. (Mas não tenho coragem, o revelo por ansiedade, vontade de resposta)
Digamos, por que não ater-me à narrativa dos fatos cotidianos, tão naturalmente providos de profundidade, realidade e beleza? É o que aconteceu, através de meus olhos ainda incertos, ainda indecisos, ainda travados pelo que há de sistemático em mim, mas que buscam saber o que olhar. Para onde dirigir o meu olhar? Para o que acontece agora, o que acontecerá, talvez, ou para o que já aconteceu mas mal me lembro?
- Bom dia.
Treinarei diálogos. É o que disse ele ao sorrir-me de manhã.
- Bom dia, tudo bom?
- Tudo tranqüilo.
- Vocês vão pra Bariloche depois de amanhã, né?
Ainda é difícil reproduzir a verdade, várias vozes se sobrepõe na minha lembrança. Vou removê-las, não as quero mais aqui, somente as palavras fictícias, que revelem o sentido real, assim seja!
- Vou, o ônibus sai daqui 5 horas.
- Hahaha, vocês vão de ônibus pra Bariloche?
- Hahahah, é, isso ae...
- Viagenzinha longa hein?
- Pois é, minha irmã falou que daqui até Buenos Aires dá umas 35 horas.
- Então porra, Bariloche é lá no cu da Patagônia... deve dar uns três dias de viagem se o ônibus
não parar um segundo.
- Sim... mas melhor isso que a classe econômica de um avião por 4 horas.
Ué, costumava ser mais difícil. Será que é porque eu tenho essa mania “cinematográfica” de descrever cada movimento facial, cada expressão de sentimento dos locutores? Sim, porra. Por que você não deixa as porcarias das falas falarem pelos personagens? Você não precisa descrever tudo, isso não é cinema, é literatura, caralho, são palavras, PALAVRAS, você só tem que escrever, dizer o que eles dizem, não criar imagens clichê de seus rostos contorcidos.
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sábado, 10 de outubro de 2009
Agaion, o Terceiro - Prólogo, Parte 1: O Vento
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Alguns devem se lembrar de Again e Agian, uma história que eu escrevi há uns dois anos atrás, publiquei num fórum, e depois linkei aqui no blog. Para os que não se lembram, eis o link da postagem que eu fiz aqui e do tópico onde postei a história no Fórum Jovem Nerd. Pois bem. Depois de um longo período de gestação, finalmente a primeira fase da desova: terminei o primeiro capítulo da continuação de Again e Agian, ou seja, Agaion o Terceiro. Ei-lo, portanto.
____
Há um terceiro, sempre há um terceiro...
As palavras de Lucius Brutus Maximiliano, há muito perdidas para os ouvidos humanos, sufocadas no estrépito e estrondo de bombas explodindo, soldados marchando e o último suspiro de um traidor, encontram seu refúgio nos anais do Livro do Tempo. Numa nota de rodapé do capítulo A Morte do Universo Intangível, perfeitamente alocada na página que descreve as ligações entre o fim daquele Universo e certos eventos ocorridos em um outro, fonte dele, lê-se claramente as últimas palavras daquele agente ingênuo do apocalipse, do homem que fez malabarismos com forças muito acima de seu controle – e compreensão.
As palavras dele, já esquecidas dos lábios que as proferiram, vagam pelo vácuo, revolvendo em torvelinhos no Tempo que permanece, e acabam por encontrar, inadvertidas, os ouvidos sensíveis de alguém que ali sentara à beira de um caminho esperando o destino passar para agarrar-lhe a cauda. A chegada súbita daquele rebotalho serpeante de som que ecoa assusta alguém que ali sentara com os ouvidos disponíveis. Uma leve perplexidade o alcança e deixa em alerta seus músculos e seus pensamentos. Agora... lentamente ele percebe, sim, é isso mesmo, ele vê o significado daquelas palavras, ele lembra de coisas que aconteceram – há muito tempo diria um mortal; ainda acontecem para ele – e de outras que foram ditas, e com a chegada desse último fragmento de palavras-estertor, tudo se encaixa.
O destino tenta passar despercebido, correndo rápido, mas alguém estende a mão para agarrar-lhe a cauda, e é levado num trambolhão.
***
Estamos de volta aos dias do passado, aos dias de um outro tempo, de um outro mundo, quando e onde os desertos gelados, desde recentemente casa para uma estranha estrutura alienígena, recebiam indiferentes os gritos do nascimento de três bebês. Algo havia dado errado. Tantos cálculos feitos, refeitos, rabiscados em lousas sujas, aquela história, aquele enredo, tão pormenorizadamente engendrado por ele, para criar suas duas cobaias, suas duas ferramentas, seus estudos de caso, e no ponto crucial as coisas não saíram como ele esperava. Não, a mulher não dera à luz dois bebês, dois pólos de um átomo, dois lados de uma moeda – encontre suas analogias -, mas sim três! Toda sua tecnologia, toda sua sabedoria, toda sua criatividade; nada disso havia sido suficiente para controlar ou sequer prever o que aconteceria. A Dra. Adha havia retirado o primeiro bebê da barriga de Thillia, e também o segundo, e depois dispensara seus assistentes. Mas Thillia soltara um forte gemido, e estremecera. Algo estava errado. Adha se aproximou e percebeu que a vagina de Thillia ainda estava dilatada. Mais uma criança estava a caminho. Assustada, Adha ficou parada por um instante, tremendo, pensando em como aquilo poderia ter acontecido. Haviam feito diversos exames, até mesmo observado o útero de Thillia com o ultrassom, e sempre somente dois bebês haviam se mostrado. Lucius escrevera tudo aquilo, a história daquele mundo. Ele escrevera que num inverno gelado a mulher de um nobre daria à luz dois gêmeos, que seriam levados por invasores de outro mundo. Como podia ser que a História se rebelasse contra a vontade de seu criador?
Tudo isso ela pensou num instante, cada dúvida uma pontada lhe fazendo doer a cabeça. Mas ela não podia mais hesitar. Foi até Thillia e retirou dela a terceira criança, mais um menino. Apática, assustada com a situação, sem compreender o que acontecia, Adha ouviu a mulher moribunda perguntar se seus filhos ficariam bem, e ofereceu a vida como garantia. Depois, Thillia morreu, e Adha chamou os assistentes de volta para ajudarem-na.
Foi com receio que ela se dirigiu à sala de Lucius, para informá-lo de que algo havia dado errado. O comandante da missão a esperava quieto, observando serenamente as luzes que cortavam o céu. Virou somente os olhos, suavemente, quando ela chamou seu nome. “Lucius...” – ele sentiu a insegurança em sua voz, contraiu as sobrancelhas – “Os bebês nasceram, Thillia morreu, as crianças estão bem, mas... Lucius, não são dois gêmeos. Lucius, as crianças nasceram, mas não são duas, como você havia criado, mas três!” Ainda com as sobrancelhas contraídas, sem alterar nem um centímetro a expressão, ele virou o corpo para a mulher e colocou as mãos sobre a mesa. “Trigêmeos? Nascidos juntos de Thillia?” – “Sim.”, Adha respondeu. Lucius desanuviou o olhar e somente sorriu, para depois dispensar com um gesto a doutora. Mas quando ela saiu ele se ergueu, o ódio precipitando-se sobre sua alma.
Como aquilo era possível? Estaria seu Universo se rebelando contra ele? Até aquele momento, tudo correra segundo sua mente planejara. Toda a história daquele Universo – eles o chamavam Intangível, no Instituto – fora criada por ele, desde o primeiro instante, desde o t = 0 daquele Universo, até aquele momento preciso em que os dois gêmeos nasciam para servir aos seus objetivos... Era isso! Sim, o ódio súbito cessou e Lucius deixou-se cair de volta em sua cadeira, amaldiçoando-se. Era isso. Ele não dera todos os nós. Deixara algo aberto. Ele só criara História daquele lugar até o momento em que o segundo gêmeo nascia. Ele só dizia, em sua obra-prima, que duas crianças haviam nascido e sido levadas embora por invasores de outro plano. Mas nada dissera sobre haver ou não uma terceira criança, sobre outro “messias” para seu conto de fadas. Por isso, aquele desastre acontecera. Agora havia três crianças, e isso punha em risco todo o arcabouço de seu plano. Era preciso fazer algo em relação a isso, dar um jeito... Dar um jeito? Que espécie de jeito poderia ser dada em uma criança recém-nascida? A morte? O abandono? O exílio? Não, era preciso algo mais definitivo, uma garantia de que aquele terceiro elemento, aquele evento inesperado na curva de sua história, não alteraria a linha desta dali pra frente.
Lucius pegou o telefone de cima de sua mesa e discou um número que conhecia bem.
***
O vento vergastava os pilares de trigo da pradaria. Até onde ele podia enxergar, as espigas dançavam, obedecendo a um comando arbitrário e aleatório daquela força da natureza. Num mesmo espaço reduzido os pés se inclinavam em várias direções diferentes, como se não fosse um o vento que os estava oprimindo, mas dezenas. A visão daquela imagem peculiar fazia bem aos olhos de Again. A falta de padrões, a serenidade dos movimentos, a impassibilidade das espigas, que sequer gemiam ao passar o vento... Tudo aquilo deixava seus olhos tranqüilos, repousava sua mente. Ele seria capaz de permanecer horas ali, parado, de pé, somente observando os movimentos do campo de trigo.
Fazia muito tempo que ele caminhava por aqueles campos. Quanto? Ele não era capaz de se lembrar. Anos, talvez... Os dias se perdiam em sua memória. Só o que atestava o passar do tempo eram as pequenas mudanças que ele sentia em seu corpo, as dores ocasionais nas costas ou nas pernas, o cansaço repentino depois de poucas horas de caminhada. Durante todo aquele tempo em que caminhara, desde o dia em que dera o primeiro passo, encontrara pouquíssimas pessoas. O caminho o levava por pastagens sem fim, onde animais espocavam, solitários, de tempos em tempos, e celeiros de repente se erguiam no meio dos trigais. Mas os animais permaneciam distantes, e os celeiros estavam sempre vazios. Chegou a encontrar alguns viajantes, mas passava por eles sem levantar a cabeça. Só chegou a trocar palavras com outro ser humano nas vezes – em suas lembranças ele sabia terem sido menos de cinco – em que não dormira sob o céu ou dentro de um celeiro vazio, mas em alguma choupana onde encontrara repouso. Em todas as ocasiões, os moradores eram dois ou três, pessoas velhas e silenciosas, que não fizeram muitas perguntas, somente ouviram as parcas palavras de Again e lhe desejaram boa noite. Ele nunca sentiu desejo de ficar, de permanecer entre aquela gente. O mundo para ele era um lugar depois do fim. Os corpos que encontrava eram só uma matéria distante, e mesmo que tivessem alma com certeza seria algo bem diferente do simulacro que ele próprio chamara de espírito, aquela criação egoísta que levara à tragédia.
Tragédia... Por que ele trilhava aquele caminho? Disso ele se lembrava. Não havia noite em que não sonhasse com seu irmão. Algumas vezes Agian sorria, e o perdoava, e mostrava a eles belezas que ele não poderia contemplar acordado. Outras, o irmão somente o encarava silencioso, com o rosto sombrio e triste, e não falava nada. Nesses dias, em que o irmão parecia acusá-lo em seus sonhos, Again não comia, somente bebia a água dos rios. Ficava tão cheio de culpa, cheio do assassinato de seu irmão, que não era capaz de matar um coelho ou sequer roubar uma fruta para comer. Quando chegava a noite, ele demorava a dormir, com medo de ver seu irmão o acusando novamente, mas quando ele adormecia o irmão vinha até ele sorrindo, e lhe mostrava mais um pedaço do mundo encantado em que parecia viver. Então, por dias, Again permanecia calmo, sonhando com imagens da infância ou de coisas que imaginava terem passado juntos. Até numa noite qualquer que tivesse baixo a guarda a expressão inescrutável viesse novamente assombrá-lo.
Assim ele vivia, caminhando pelos campos, pela desolação do fim de seu mundo, carregando sempre consigo a lembrança de seu irmão. Esperava um dia tornar-se leve, esvaziar-se de tudo que o preenchia. Continuava andando com a esperança de passar a não ser, de tornar-se nulo, uma pluma de nulidade no mundo vazio. Então ele poderia esperar deitado, sorridente, sabendo que sem esforço conseguiria chegar aonde seu irmão o aguardava. O vento o levaria.
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Alguns devem se lembrar de Again e Agian, uma história que eu escrevi há uns dois anos atrás, publiquei num fórum, e depois linkei aqui no blog. Para os que não se lembram, eis o link da postagem que eu fiz aqui e do tópico onde postei a história no Fórum Jovem Nerd. Pois bem. Depois de um longo período de gestação, finalmente a primeira fase da desova: terminei o primeiro capítulo da continuação de Again e Agian, ou seja, Agaion o Terceiro. Ei-lo, portanto.
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Há um terceiro, sempre há um terceiro...
As palavras de Lucius Brutus Maximiliano, há muito perdidas para os ouvidos humanos, sufocadas no estrépito e estrondo de bombas explodindo, soldados marchando e o último suspiro de um traidor, encontram seu refúgio nos anais do Livro do Tempo. Numa nota de rodapé do capítulo A Morte do Universo Intangível, perfeitamente alocada na página que descreve as ligações entre o fim daquele Universo e certos eventos ocorridos em um outro, fonte dele, lê-se claramente as últimas palavras daquele agente ingênuo do apocalipse, do homem que fez malabarismos com forças muito acima de seu controle – e compreensão.
As palavras dele, já esquecidas dos lábios que as proferiram, vagam pelo vácuo, revolvendo em torvelinhos no Tempo que permanece, e acabam por encontrar, inadvertidas, os ouvidos sensíveis de alguém que ali sentara à beira de um caminho esperando o destino passar para agarrar-lhe a cauda. A chegada súbita daquele rebotalho serpeante de som que ecoa assusta alguém que ali sentara com os ouvidos disponíveis. Uma leve perplexidade o alcança e deixa em alerta seus músculos e seus pensamentos. Agora... lentamente ele percebe, sim, é isso mesmo, ele vê o significado daquelas palavras, ele lembra de coisas que aconteceram – há muito tempo diria um mortal; ainda acontecem para ele – e de outras que foram ditas, e com a chegada desse último fragmento de palavras-estertor, tudo se encaixa.
O destino tenta passar despercebido, correndo rápido, mas alguém estende a mão para agarrar-lhe a cauda, e é levado num trambolhão.
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Estamos de volta aos dias do passado, aos dias de um outro tempo, de um outro mundo, quando e onde os desertos gelados, desde recentemente casa para uma estranha estrutura alienígena, recebiam indiferentes os gritos do nascimento de três bebês. Algo havia dado errado. Tantos cálculos feitos, refeitos, rabiscados em lousas sujas, aquela história, aquele enredo, tão pormenorizadamente engendrado por ele, para criar suas duas cobaias, suas duas ferramentas, seus estudos de caso, e no ponto crucial as coisas não saíram como ele esperava. Não, a mulher não dera à luz dois bebês, dois pólos de um átomo, dois lados de uma moeda – encontre suas analogias -, mas sim três! Toda sua tecnologia, toda sua sabedoria, toda sua criatividade; nada disso havia sido suficiente para controlar ou sequer prever o que aconteceria. A Dra. Adha havia retirado o primeiro bebê da barriga de Thillia, e também o segundo, e depois dispensara seus assistentes. Mas Thillia soltara um forte gemido, e estremecera. Algo estava errado. Adha se aproximou e percebeu que a vagina de Thillia ainda estava dilatada. Mais uma criança estava a caminho. Assustada, Adha ficou parada por um instante, tremendo, pensando em como aquilo poderia ter acontecido. Haviam feito diversos exames, até mesmo observado o útero de Thillia com o ultrassom, e sempre somente dois bebês haviam se mostrado. Lucius escrevera tudo aquilo, a história daquele mundo. Ele escrevera que num inverno gelado a mulher de um nobre daria à luz dois gêmeos, que seriam levados por invasores de outro mundo. Como podia ser que a História se rebelasse contra a vontade de seu criador?
Tudo isso ela pensou num instante, cada dúvida uma pontada lhe fazendo doer a cabeça. Mas ela não podia mais hesitar. Foi até Thillia e retirou dela a terceira criança, mais um menino. Apática, assustada com a situação, sem compreender o que acontecia, Adha ouviu a mulher moribunda perguntar se seus filhos ficariam bem, e ofereceu a vida como garantia. Depois, Thillia morreu, e Adha chamou os assistentes de volta para ajudarem-na.
Foi com receio que ela se dirigiu à sala de Lucius, para informá-lo de que algo havia dado errado. O comandante da missão a esperava quieto, observando serenamente as luzes que cortavam o céu. Virou somente os olhos, suavemente, quando ela chamou seu nome. “Lucius...” – ele sentiu a insegurança em sua voz, contraiu as sobrancelhas – “Os bebês nasceram, Thillia morreu, as crianças estão bem, mas... Lucius, não são dois gêmeos. Lucius, as crianças nasceram, mas não são duas, como você havia criado, mas três!” Ainda com as sobrancelhas contraídas, sem alterar nem um centímetro a expressão, ele virou o corpo para a mulher e colocou as mãos sobre a mesa. “Trigêmeos? Nascidos juntos de Thillia?” – “Sim.”, Adha respondeu. Lucius desanuviou o olhar e somente sorriu, para depois dispensar com um gesto a doutora. Mas quando ela saiu ele se ergueu, o ódio precipitando-se sobre sua alma.
Como aquilo era possível? Estaria seu Universo se rebelando contra ele? Até aquele momento, tudo correra segundo sua mente planejara. Toda a história daquele Universo – eles o chamavam Intangível, no Instituto – fora criada por ele, desde o primeiro instante, desde o t = 0 daquele Universo, até aquele momento preciso em que os dois gêmeos nasciam para servir aos seus objetivos... Era isso! Sim, o ódio súbito cessou e Lucius deixou-se cair de volta em sua cadeira, amaldiçoando-se. Era isso. Ele não dera todos os nós. Deixara algo aberto. Ele só criara História daquele lugar até o momento em que o segundo gêmeo nascia. Ele só dizia, em sua obra-prima, que duas crianças haviam nascido e sido levadas embora por invasores de outro plano. Mas nada dissera sobre haver ou não uma terceira criança, sobre outro “messias” para seu conto de fadas. Por isso, aquele desastre acontecera. Agora havia três crianças, e isso punha em risco todo o arcabouço de seu plano. Era preciso fazer algo em relação a isso, dar um jeito... Dar um jeito? Que espécie de jeito poderia ser dada em uma criança recém-nascida? A morte? O abandono? O exílio? Não, era preciso algo mais definitivo, uma garantia de que aquele terceiro elemento, aquele evento inesperado na curva de sua história, não alteraria a linha desta dali pra frente.
Lucius pegou o telefone de cima de sua mesa e discou um número que conhecia bem.
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O vento vergastava os pilares de trigo da pradaria. Até onde ele podia enxergar, as espigas dançavam, obedecendo a um comando arbitrário e aleatório daquela força da natureza. Num mesmo espaço reduzido os pés se inclinavam em várias direções diferentes, como se não fosse um o vento que os estava oprimindo, mas dezenas. A visão daquela imagem peculiar fazia bem aos olhos de Again. A falta de padrões, a serenidade dos movimentos, a impassibilidade das espigas, que sequer gemiam ao passar o vento... Tudo aquilo deixava seus olhos tranqüilos, repousava sua mente. Ele seria capaz de permanecer horas ali, parado, de pé, somente observando os movimentos do campo de trigo.
Fazia muito tempo que ele caminhava por aqueles campos. Quanto? Ele não era capaz de se lembrar. Anos, talvez... Os dias se perdiam em sua memória. Só o que atestava o passar do tempo eram as pequenas mudanças que ele sentia em seu corpo, as dores ocasionais nas costas ou nas pernas, o cansaço repentino depois de poucas horas de caminhada. Durante todo aquele tempo em que caminhara, desde o dia em que dera o primeiro passo, encontrara pouquíssimas pessoas. O caminho o levava por pastagens sem fim, onde animais espocavam, solitários, de tempos em tempos, e celeiros de repente se erguiam no meio dos trigais. Mas os animais permaneciam distantes, e os celeiros estavam sempre vazios. Chegou a encontrar alguns viajantes, mas passava por eles sem levantar a cabeça. Só chegou a trocar palavras com outro ser humano nas vezes – em suas lembranças ele sabia terem sido menos de cinco – em que não dormira sob o céu ou dentro de um celeiro vazio, mas em alguma choupana onde encontrara repouso. Em todas as ocasiões, os moradores eram dois ou três, pessoas velhas e silenciosas, que não fizeram muitas perguntas, somente ouviram as parcas palavras de Again e lhe desejaram boa noite. Ele nunca sentiu desejo de ficar, de permanecer entre aquela gente. O mundo para ele era um lugar depois do fim. Os corpos que encontrava eram só uma matéria distante, e mesmo que tivessem alma com certeza seria algo bem diferente do simulacro que ele próprio chamara de espírito, aquela criação egoísta que levara à tragédia.
Tragédia... Por que ele trilhava aquele caminho? Disso ele se lembrava. Não havia noite em que não sonhasse com seu irmão. Algumas vezes Agian sorria, e o perdoava, e mostrava a eles belezas que ele não poderia contemplar acordado. Outras, o irmão somente o encarava silencioso, com o rosto sombrio e triste, e não falava nada. Nesses dias, em que o irmão parecia acusá-lo em seus sonhos, Again não comia, somente bebia a água dos rios. Ficava tão cheio de culpa, cheio do assassinato de seu irmão, que não era capaz de matar um coelho ou sequer roubar uma fruta para comer. Quando chegava a noite, ele demorava a dormir, com medo de ver seu irmão o acusando novamente, mas quando ele adormecia o irmão vinha até ele sorrindo, e lhe mostrava mais um pedaço do mundo encantado em que parecia viver. Então, por dias, Again permanecia calmo, sonhando com imagens da infância ou de coisas que imaginava terem passado juntos. Até numa noite qualquer que tivesse baixo a guarda a expressão inescrutável viesse novamente assombrá-lo.
Assim ele vivia, caminhando pelos campos, pela desolação do fim de seu mundo, carregando sempre consigo a lembrança de seu irmão. Esperava um dia tornar-se leve, esvaziar-se de tudo que o preenchia. Continuava andando com a esperança de passar a não ser, de tornar-se nulo, uma pluma de nulidade no mundo vazio. Então ele poderia esperar deitado, sorridente, sabendo que sem esforço conseguiria chegar aonde seu irmão o aguardava. O vento o levaria.
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sexta-feira, 25 de setembro de 2009
Um Conto de Duas Pessoas (XVII)
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Eu, sei, faz tempo. Mas as coisas acontecem na hora certa. Para os que se lembram, o caminho continua aberto: "Tudo e Nada". Para os que não se lembram, melhor começar por aqui: "Amortescimento".
Dito isso, façam bom proveito.
___
Ei, onde está todo mundo? Venha, venha cá, sim, isso mesmo, aí, pode parar. Pronto. Todos aqui, a escuridão lá fora, aqui dentro um pouquinho, luz não sei de onde. Lanternas nas mãos, meus amigos! Ajeitem os capacetes, não tenham medo, vamos! Esperem... esperem um pouquinho... só mais um instante... isso! É, o Senhor das Moscas já passou, o Anfitrião atrás dele, a alma do nosso amigo... onde está? Tenho a impressão de tê-la visto em algum lugar. Precisamos procurá-la, crianças, é de vital importância. O Sr. Pifrosineliano está ansioso, espera-nos lá fora para começar as buscas. Não, aí não Dicksie! Eu falei para ficarmos juntos, é melhor não mexer em coisas que não conhecemos direito. A chamada: Poncho? Presente, muito bem. Felício? Está aqui também, ótimo. Dicksie já está aí que eu sei, seu pachola. Cumparsito? Ótimo. Barff e Anísio, lado a lado como sempre, ok. E Todd, e pra terminar, eu! Preto de carvão e seus sete anõezinhos, sim, muito bem. Vamos lá pra cima agora, garotos, vamos nos ver. Veremos a luz lá em cima mas também muitas coisas feias e tristes, é isso. Preparem-se por favor, estão bem? Todos os equipamentos nas mãos, e as lanternas, não se esqueçam. Pronto, é isso, venham. Sigam-me, sim?
O homem de capote, míope como era, não reparou nas criaturas que passaram entre seus pés. Para ele era somente a noite de raios e a chuva contra o couro de sua capa e de seu chapéu. E a seus pés o corpo, seu primeiro mistério. Mexendo os braços, sem ligar para chuva, pegou uma caderneta em seu bolso, uma caneta, e começou a escrever. Não esboçou reação frente ao papel encharcado e à tinta que escorria. Em sua mente, ele via muito bem. Havia ali dois mistérios:
1. O Mistério do Homem
2. O Mistério do Sentido
Os destrincharia com habilidade, como sempre fizera, vejamos. O Mistério do Homem, mistério universal do homem. Também o chamava Mistério do Corpo. Perguntas se multiplicavam em sua mente. Quem era aquele homem (e por que estava morto, qual fora sua vida, o que em sua história o levara àquele momento)? Alguém o matara (e se sim, por que, e quem, e como, e quando, e de que forma o levara até ali)? Em que espécie de conspiração nefasta estaria envolvido para ter o corpo jogado à frente de uma catedral? A tinta escorria pela caderneta, que já se espedaçava sob o peso da água, e o homem finalmente desistiu de escrever. Agora deveria pensar no mistério do sentido.
Era isso: qual o sentido disso tudo? Qual o sentido dessa história, desses acontecimentos? Quem é o Meu Amigo? Quem é o Senhor das Moscas? Quem é o(a) Anfitriã(o)? Quem é o Sr. Pifroniseliano, quem é Preto de Carvão, quem são Poncho, Felício, Dicksie, Cumparsito, Barff e Anísio, e Todd? Quem são os moradores dos 13 Quartos da mansão do(a) Anfitriã(o)? Quem o corpo, qual a catedral, quem o assassino? Quem é o detetive? Quem sou eu, quem é você, qual é o sentido disso tudo?
Não é hora, ainda, das respostas. Mas a chuva não se importa, e cai violentamente.
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Eu, sei, faz tempo. Mas as coisas acontecem na hora certa. Para os que se lembram, o caminho continua aberto: "Tudo e Nada". Para os que não se lembram, melhor começar por aqui: "Amortescimento".
Dito isso, façam bom proveito.
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Ei, onde está todo mundo? Venha, venha cá, sim, isso mesmo, aí, pode parar. Pronto. Todos aqui, a escuridão lá fora, aqui dentro um pouquinho, luz não sei de onde. Lanternas nas mãos, meus amigos! Ajeitem os capacetes, não tenham medo, vamos! Esperem... esperem um pouquinho... só mais um instante... isso! É, o Senhor das Moscas já passou, o Anfitrião atrás dele, a alma do nosso amigo... onde está? Tenho a impressão de tê-la visto em algum lugar. Precisamos procurá-la, crianças, é de vital importância. O Sr. Pifrosineliano está ansioso, espera-nos lá fora para começar as buscas. Não, aí não Dicksie! Eu falei para ficarmos juntos, é melhor não mexer em coisas que não conhecemos direito. A chamada: Poncho? Presente, muito bem. Felício? Está aqui também, ótimo. Dicksie já está aí que eu sei, seu pachola. Cumparsito? Ótimo. Barff e Anísio, lado a lado como sempre, ok. E Todd, e pra terminar, eu! Preto de carvão e seus sete anõezinhos, sim, muito bem. Vamos lá pra cima agora, garotos, vamos nos ver. Veremos a luz lá em cima mas também muitas coisas feias e tristes, é isso. Preparem-se por favor, estão bem? Todos os equipamentos nas mãos, e as lanternas, não se esqueçam. Pronto, é isso, venham. Sigam-me, sim?
O homem de capote, míope como era, não reparou nas criaturas que passaram entre seus pés. Para ele era somente a noite de raios e a chuva contra o couro de sua capa e de seu chapéu. E a seus pés o corpo, seu primeiro mistério. Mexendo os braços, sem ligar para chuva, pegou uma caderneta em seu bolso, uma caneta, e começou a escrever. Não esboçou reação frente ao papel encharcado e à tinta que escorria. Em sua mente, ele via muito bem. Havia ali dois mistérios:
1. O Mistério do Homem
2. O Mistério do Sentido
Os destrincharia com habilidade, como sempre fizera, vejamos. O Mistério do Homem, mistério universal do homem. Também o chamava Mistério do Corpo. Perguntas se multiplicavam em sua mente. Quem era aquele homem (e por que estava morto, qual fora sua vida, o que em sua história o levara àquele momento)? Alguém o matara (e se sim, por que, e quem, e como, e quando, e de que forma o levara até ali)? Em que espécie de conspiração nefasta estaria envolvido para ter o corpo jogado à frente de uma catedral? A tinta escorria pela caderneta, que já se espedaçava sob o peso da água, e o homem finalmente desistiu de escrever. Agora deveria pensar no mistério do sentido.
Era isso: qual o sentido disso tudo? Qual o sentido dessa história, desses acontecimentos? Quem é o Meu Amigo? Quem é o Senhor das Moscas? Quem é o(a) Anfitriã(o)? Quem é o Sr. Pifroniseliano, quem é Preto de Carvão, quem são Poncho, Felício, Dicksie, Cumparsito, Barff e Anísio, e Todd? Quem são os moradores dos 13 Quartos da mansão do(a) Anfitriã(o)? Quem o corpo, qual a catedral, quem o assassino? Quem é o detetive? Quem sou eu, quem é você, qual é o sentido disso tudo?
Não é hora, ainda, das respostas. Mas a chuva não se importa, e cai violentamente.
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