quinta-feira, 21 de janeiro de 2010
Leituras... o retorno
Com a pausa que eu dei no blog em Abril do ano passado acabei parando de escrever não só sobre filmes mas também sobre livros. Por isso, agora faço um apanhado dos livros que li desde então, comentando cada um deles pontualmente. As Leituras devem voltar a aparecer com frequência, embora eu tenha me libertado da obrigação de postar uma por mês ou algo do gênero. Continuem acessando o blog que, quando aparecer, vocês saberão!
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Vineland e Mason & Dixon, de Thomas Pynchon
O que é: Prairie Wheeler, filha do hippie Zoyd, conta com a ajuda de amigos para encontrar Frenesi, sua mãe, que a abandonou por motivos obscuros na infância, antes que a encontre Brock Vond, um agente do FBI completamente maluco por ela.
É fácil entender porque Vineland deixou os fãs de Thomas Pynchon frustrados. Comparado a O Arco-Íris da Gravidade, sua obra-prima anterior (publicada 17 anos antes), Vineland é um livro morno, quase sem-graça. Mas, tomado por si só, Vineland é um livro muito interessante. Mais uma vez, as qualidades de uma obra foram eclipsadas pelas expectativas. Vineland pode não ser um Arco-Íris, mas é indiscutivelmente um livro de Thomas Pynchon: Engraçadíssimo, surreal e recheado de personagens interessantes com nomes maravilhosos como Zoyd Wheeler, Brock Vond ou Hector Zuniga. No entanto, apesar disso, é um livro que evapora fácil da memória. É, dos que eu li, o livro com o enredo mais coeso e concreto do Pynchon, mas é um enredo a que o próprio autor dá pouca importância. Assim, o livro é dominado por cenas em que, apesar das peripécias e passagens serem muito engraçadas e às vezes também significativas, parecem mesmo na maioria das vezes esquetes de um programa de TV maluco, que sobreviveriam relativamente bem por conta própria. Isso dificulta o envolvimento emocional do leitor, e transforma o livro, que traz um retrato e uma discussão fantásticos sobre a Era Reagan e o fascismo ali presente, além da falência da “revolução” dos anos 60, em uma espécie de entretenimento esquecível, o que é bem distante do que ele é de verdade.
(O que é: O reverendo Wicks Cherrycoke conta a seus familiares, para distraí-los, a história dos personagens históricos Charles Mason e Jeremiah Dixon, astrônomo e agrimensor britânicos cujas observações tem lugar na Cidade do Cabo, na ilha de Santa Helena e, principalmente, na América, onde são responsáveis por traçar a Linha que depois levaria seus nomes, divisa entre os estados de Pensilvânia e Maryland e, futuramente, entre o Norte industrializado e o Sul escravista dos EUA.)
Mason & Dixon, por sua vez, é o Livro (novamente entre os que eu li) de maior potência emocional de Pynchon, um Épico delicado, irreverente e saboroso sobre a América, a Amizade, a História, a Escravidão e outros vários temas sobres os quais Pynchon disserta magistralmente. O Livro é um típico Tijolo, tem mais de 800 páginas, e pynchonescamente apresenta Dificuldades na leitura, mas, também pynchonescamente, nos prende de uma maneira quase sobrenatural, fazendo-nos lê-lo avidamente. Aqui, Pynchon faz um pastiche entre seu Estilo hipnótico e a Literatura Setecentista que transforma a Leitura do livro numa experiência deliciosa. Há uma espécie de Leveza graciosa em cada página, mesmo nas que tratam dos Temas mais sérios, um Tom paródico que nos provoca Sorrisos o tempo todo, e detalhes de Estilo, como o ubíquo uso de Letras Maiúsculas, que contribuem para esse Tom alegre. Como já foi muito falado, Mason & Dixon possui os Personagens mais humanos de qualquer Livro de Pynchon, de modo que seu Desfecho pode provocar Lágrimas (quase as provocou em Mim), algo talvez inédito na Obra do Escritor. No entanto, entre Gargalhadas, Sorrisos, Lágrimas e Prazeres Estéticos incalculáveis, o que se tem em Mason & Dixon é um maravilhoso Épico da Alma humana, um livro lindo e foda, para falar as Palavras certas, e é isso.
Fogo Pálido, de Vladimir Nabokov
O que é: Na primeira parte, um poema longo, de 999 versos, aparentemente uma autobiografia do poeta renomado John Shade. Na segunda, o comentário crítico da obra, cujo autor, Charles Kinbote, nos diz ser o poema na verdade a história do rei exilado de Zembla, “distante terra setentrional”, rei que se assemelha de forma surpreendente ao próprio Kinbote.
Esse foi um livro que me deixou um pouco frustrado. Talvez seja um exemplo do problema apontado por Umberto Eco em relação à literatura moderna: freqüentemente, a crítica de uma obra é superior à própria obra, ou, mais recentemente, a sinopse de um romance é melhor que o romance. Não que o livro de Nabokov seja ruim. O poema que dá título ao romance é maravilhoso, e a intriga central em si é fascinante. Mas, novamente, a intriga proposta, cujas possibilidades são inúmeras e de fazer cabeças explodirem, toma forma na realidade da obra como algo um pouco sem graça, repetitivo. Eu não diria mal executado, porque de fato está bem estruturado e há momentos muitos bons. Mas a trama é pouco crível, não possui tensão, o narrador é insuportável e, correndo o risco de soar repetitivo, a principal parte do livro é também repetitiva. Não que não tenha nenhum valor. Tem, é claro, é de fato uma nova possibilidade para o romance. Mas está para ser escrito (ou já foi e eu desconheço) o romance que leve sua proposta a uma realização mais expressiva.
Enquanto agonizo, de William Faulkner
O que é: Addie, matriarca da família Bundren, morre tendo como último desejo ser enterrada ao lado de seus parentes, numa cidade distante de onde vive sua família. Ainda que relutantes, seu marido e seus filhos empreendem a difícil viagem, jornada que coloca em relevo suas diferenças e suas mágoas.
Quando li Enquanto agonizo fui hipnotizado, terminei-o rapidamente, fiquei de queixo caído, acendi uma vela no altar de William Faulkner. Mas hoje, escrevendo sobre ele, percebo que lembro pouco do livro, que ele me marcou muito pouco, o que é uma espécie de decepção. É um pouco temerário dizer isso sobre essa instituição americana, mas nessa balança a forma superou o conteúdo de maneira negativa. Faulkner transforma ações cotidianas em uma narrativa épica, dá vozes expressivas e singulares a seus personagens. Mas estes parecem não ter muito o que dizer. É um trunfo narrativo, sem dúvida. É até mesmo possível dizer que o livro possui uma das narrativas mais impactantes que eu já tive o prazer de ler. Se eu tivesse escrito esse comentário logo após terminar de lê-lo, seria muito mais elogioso com certeza. Mas hoje, com a perspectiva do tempo, não penso em nada para dizer sobre Enquanto agonizo senão que é um trunfo técnico, lindo de morrer mas um tanto vazio.
A vida modo de usar, de Georges Perec
O que é: Um único momento, oito da noite do dia 23 de Junho de 1975, no edifício localizado no número 11 da rua Simon-Crubellier em Paris, retratado à exaustão. Bartlebooth, homem rico desejoso de não deixar um único vestígio na Terra, empreende uma missão de décadas - pintar 500 aquarelas de marinas pelo mundo, transformá-las em puzzles, montar os puzzles e destruir as aquarelas, completando assim um ciclo vazio -, e naquele exato momento morre, montando o 439º puzzle, fracassando portanto, enquanto a Vida acontece nos demais apartamentos do edifício. É essa vida que Perec captura, descrevendo o que está ocorrendo em cada lugar no edifício no momento da morte de Bartlebooth, e contando histórias sobre seus moradores.
Eis aqui um exemplo de técnica usada em função do conteúdo. Claro que a narrativa de A vida modo de usar não é tão vertiginosa quando a de Enquanto agonizo. E nem poderia, já que nesse grande romance não há propriamente um enredo a ser narrado. Mas sua construção precisa (e árdua) é o arcabouço perfeito para o que se diz, assim como o edifício retratado é o cenário para seus moradores. A vida é um épico da descrição, com sua brilhante e nunca repetitiva retratação dos cenários e personagens do edifício número 11 da rua Simon-Crubellier. E também é mais um filho da linhagem de As Mil e Uma Noites, com seu mosaico de histórias que, por mais que se afastem da memória, permanecem na alma. Pode parecer um pouco enfadonho a princípio, mas logo se é fisgado pela mágica sem origem aparente do livro, por seu voyeurismo que, no entanto, nunca é invasivo, mas antes expressivo, e sutil, e por sua alma de mistério nunca desvelado, elemento essencial de toda obra de Arte.
Homem em Queda, de Don DeLillo
O que é: Keith Neudecker, advogado separado da mulher, escapa do atentado às Torres Gêmeas, e o romance acompanha como sua vida se (re)constrói após o evento, assim como discute o impacto que o mesmo tem naqueles ao seu redor.
Outro livro interessante mas pouco marcante. Não é um primor técnico vazio, embora DeLillo seja tecnicamente um escritor fantástico. Tem conteúdo, mas seus personagens são um pouco vagos, por assim dizer, imprecisos. As discussões que apresenta são muito interessantes, mas é como se elas não dessem em nada, como se fossem o retrato de uma discussão filosófica que não chega a um termo e como se essa discussão, paradoxalmente, seja o que de mais importante está acontecendo. O livro é realmente uma obra importante, por ser a primeira realmente artística a lidar com os acontecimentos do 11 de Setembro, mas ficou a um passo de ser bem sucedido em causar todo o impacto que poderia.
Ficções, de Jorge Luis Borges
O que é: União de dois livros de contos de Borges, O jardim de veredas que se bifurcam e Artifícios, com a presença de diversos contos famosos do escritor argentino, como Pierre Menard, autor do Quixote; Tlön, Uqbar, Orbis Tertius; A Biblioteca de Babel e Funes, o Memorioso.
Muitos contos de Borges começam de uma maneira estranha, parecem ser contos ou crônicas, como se ele estivesse narrando uma coisa qualquer da própria vida. Muitos contos de Borges continuam de maneira estranha, parecem ensaios ou análises de um escritor ou obra, descrições de um lugar que ele conhece. Muitos contos de Borges terminam de maneira estranha, o fim parece ter se perdido, está localizado bem antes da última linha, ou bem depois. Mas, juntos, esses começos, fins e entrechos de seus contos formam obras perfeitas, peças únicas de uma literatura que só ele parece ter escrito. Borges era um erudito, e em um dos contos de Ficções ele chega a citar suas maiores influências. Mas, entre influências e influenciados, só Borges foi Borges, e só os contos dele são tão férteis, misteriosos e perfeitos. Podem me apresentar autores parecidos, eu com certeza vou apreciar muito. Mas acho difícil qualquer um desbancar o hermano do posto de meu contista preferido.
Os Detetives Selvagens, de Roberto Bolaño
O que é: Dividido em três partes, o livro acompanha a busca dos poetas Ulises Lima e Arturo Belano, os “detetives selvagens”, pela poeta desaparecida Cesárea Tinajero. Na primeira e terceira partes, a história é contada através do diário de Juan García Madero, jovem poeta da Cidade do México. Na segunda parte, a mais extensa, somos apresentados aos depoimentos especificamente localizados no tempo e no espaço de mais de 50 personagens, que contam longas histórias sobre si mesmos que ocasionalmente se encontram com as trajetórias de Lima e Belano.
É inexato dizer que Os Detetives Selvagens foi uma surpresa. Eu tinha altas expectativas com este livro, por tudo que tenho ouvido da obra de Roberto Bolaño (não Bolaños, o Chaves, mas igualmente genial). O que eu não esperava era ser tragado para dentro da história da maneira que eu fui, e encontrar uma riqueza tão grande de expressão e pensamento. Contraditório ao extremo, Detetives conta várias histórias para contar uma única, e fala de dezenas de personagens para falar de uns poucos (talvez dois ou três). Terminado o livro, resta um questionamento constante, “O que diabos ele quis dizer?”, “Qual é o sentido disso tudo?” e até mesmo “E daí?”. É, de fato, uma história de detetive, na qual o leitor é o detetive, e as pistas, por mais presentes que estejam nas palavras e frases, só encontram coesão entre as linhas, e até mesmo fora do livro, em algum lugar inominado que só a mente alcança. Os Detetives Selvagens é um daqueles livros cuja releitura é obrigatória, e cujo alcance ainda está por ser descoberto. Junto ao Pynchon e ao Borges, o melhor livro dessa lista. Espero ansioso o lançamento do último livro (e alardeada obra-prima) de Bolaño, 2666, publicado postumamente após a prematura morte, em 2003, aos 50 anos, do escritor chileno, e que deve ser lançado em Maior pela Cia. das Letras.
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quarta-feira, 1 de abril de 2009
Leituras: Fevereiro e Março de 2009 - A Montanha Mágica, de Thomas Mann
Em fevereiro não teve aqui no blog o habitual “Leituras” porque eu ainda não havia terminado de ler A Montanha Mágica, o livro daquele mês. De fato, só fui terminar de lê-lo há poucos dias, no final da semana passada, após aproximadamente dois meses de contato com a obra. A justificativa para tamanho alongamento não está em mim, em eventuais problemas que eu tenha tido que me impediram de ler com freqüência. Está, na verdade, no próprio livro, pois como diz o narrador, no “Propósito” que o abre: “Não será, portanto, num abrir e fechar de olhos que o narrador terminará a história de Hans Castorp.” Tal característica, de exigir uma alongada leitura, é intrínseca a A Montanha Mágica, não só pelo seu tamanho – a edição que li tem 950 páginas – mas sobretudo pelo seu espírito, pelo manejo peculiar que faz do tempo de seu enredo e que acaba nos conduzindo a entrarmos nós mesmos em seu ritmo.
Lançado por Thomas Mann em 1924, seis anos após o final da Grande Guerra, o romance é vasto e complexo, e trata dos mais variados temas. Também, pudera: A Montanha Mágica é a crônica do espírito europeu às vésperas da Grande Guerra, das idéias que percorriam o continente e de como a relação entre elas acabou levando a Europa até a Guerra. É, portanto, um livro simbólico – para não dizer alegórico -, cheio de “coisas que significam” e de imagens e pensamentos que se intercruzam e referenciam. No entanto, ao mesmo tempo é uma obra profundamente realista, de um estilo clássico, de prosa bela, reminiscente dos franceses do início do século, de retrato minucioso de personagens e acontecimentos. Assim, percebe-se naturalmente outra característica central do livro: a ambigüidade. Mas, antes de prosseguir nessa toada de exposição das idéias do romance, vamos voltar um pouco no caminho e descobrir do que se trata, afinal, o livro.
A história começa quando Hans Castorp, “jovem singelo” recém-formado em engenharia naval, chega a Davos, na Suíça, para visitar seu primo, Joachim Ziemssen, internado há alguns meses em um sanatório para tuberculosos nas montanhas. Ziemssen quer entrar para o exército, é um rapaz sério e sisudo, enquanto Castorp é um “paisano”, não está preocupado com muitas coisas além de seus charutos honduranos e alguns passeios para espantar o tédio. No entanto, a caminhada do tempo trará mudanças dentro de Hans Castorp, à medida que ele for conhecendo novas pessoas e a si mesmo. Seus pensamentos e experiências, tais como a disputa que os intelectuais Settembrini e Naphta travam por ele, seu amor por madame Chauchat, e a amizade com Mynheer Peeperkorn, cada uma dessas coisas o levará um passo adiante em sua descoberta como indivíduo. No entanto, ao invés de terminar o romance como um indivíduo maduro e experiente, ele desce da Montanha Mágica e vai lutar na Grande Guerra que acaba de estourar, quando é insinuada sua morte nos campos de batalha. Pode-se falar, então, de A Montanha Mágica, como um grande romance de formação, mas, ao mesmo tempo, como a paródia de um romance de formação, pois Hans não completa o ciclo, não atinge o final de sua jornada, já que a Guerra o “tirou do caminho”. Temos aqui, então, mais ambigüidade. Romance de formação ou paródia? Indivíduo pleno ou destruído pelas circunstâncias? Tais perguntas, e outras de natureza semelhante, colocam-se em nossa mente no decorrer da leitura.
A Montanha Mágica é, pois, um livro ambíguo ao máximo, recheado do espírito relativista que impregnou o século XX. Todas as ideologias e atitudes dos personagens são relativizadas. Dão-se longas discussões teóricas mas ninguém “sai vencendo”, tanto um quanto outro argüidor parecem estar ao mesmo tempo certos e errados. Personagens a princípio apresentados como tolos se mostram majestosos, e logo depois como tolos novamente, e assim sucessivamente, numa alternância de tolice e majestade que não chega a um termo a não ser pela violência, assim como as supracitadas discussões filosóficas não encontram vencedor, mas somente o fim, com a violência. São atitudes simbólicas do que aconteceu com a Europa na Primeira Guerra Mundial. Mas, antes de falar do conjunto, voltemos novamente, para falar, dessa vez, dos indivíduos que pontuam a narrativa.
Hans Castorp, o protagonista, passa sete anos no sanatório. Inicialmente, vai para ficar três semanas, mas descobre ter também focos de tuberculose, e acaba permanecendo ali. Ao longo do romance, é ele o centro do enredo, a medida das coisas que são contadas. Sua mente é devassada para nós, num dos trabalhos mais completos e complexos de penetração psicológica já feitos, e acompanhamos as transformações por que ela passa. Nos sete anos que ele passa ali, um dos temas que mais lhe ocupam a mente é o do tempo, a descoberta do que ele é e o que significa. Essa pergunta, no entanto, permanece sem resposta. O mais próximo disso que temos é a constatação de que o tempo passa não segundo o relógio, mas segundo nossa cabeça. Como comentei no início do texto, o tratamento do tempo no romance é singular, justamente por expressar essa situação: os cinco primeiros capítulos – aproximadamente metade do número de páginas – dão conta do primeiro ano de Castorp no sanatório. O sexto capítulo – as duzentas e cinqüenta páginas seguintes – falam dos próximos meses. E o sétimo e último capítulo, que percorre as páginas restantes, fala sobre os outros cinco anos do rapaz do sanatório, anos esses tomados por grande tédio. Assim, é expressa de maneira singular a percepção temporal do protagonista, percepção da qual nós mesmos acabamos compartilhando. Falarei mais de Castorp adiante, mas antes, observemos as figuras que o rodeiam.
As principais, na primeira parte do livro, são Settembrini e Naphta, os intelectuais opositores que disputam o espírito de Hans Castorp. São freqüentemente citados como personificações do pensamento liberal e conservador do início do século, mas não é tão simples. Settembrini é um republicano, um beletrista que sempre fala plasticamente e expõe suas idéias de maneira pedagógica, é um intelectual que quer resolver os problemas da civilização. Naphta, por sua vez, é um descendente de judeus e ex-jesuíta que, embora seja a personificação do radicalismo religioso, antimaterial, é também defensor do comunismo. Digo embora porque hoje, ou mais tardiamente no século XX, o “progressismo” está mais associado à esquerda, enquanto o “conservadorismo” à direita. Independente da vacuidade de tais rótulos, hoje e sempre, é por esse motivo que não se pode chamar o confronto entre Naphta e Settembrini de um confronto entre a ideologia progressista e a conservadora, mas antes entre o confronto de duas visões de mundo bem diferentes. Como se sabe, porém, quando duas pessoas pensam ter idéias totalmente opostas, naturalmente a semelhança entre elas é maior do que imaginam. No caso, Naphta e Settembrini compartilham um certo desprezo pelo indivíduo enquanto tal, e tratam de suas idéias somente no campo da generalização e da lógica pura e simples, sem levar em consideração o sentimento humano.
Para este, Hans Castorp precisa recorrer aos outros dois “coadjuvantes principais” do livro, madame Chauchat e Mynheer Peeperkorn. A primeira é o grande amor de Hans, a mulher que lembra a ele um rapaz que o encantava na infância, uma mulher de ar misterioso que se entrega aos poucos. Peeperkorn, por sua vez, é um homem rico, imponente, com uma vida pautada pelo deleite, uma personalidade absolutamente magnética que, por outro lado, não consegue dizer uma frase que seja por completo, só diz coisas vazias e genéricas. Finalmente, há Joachim Ziemssen, o primo de Castorp, um homem profundamente ligado ao seu dever.
São esses os personagens que orientam a caminhada de Hans Castorp pela Europa do início do século, representada no microcosmo do sanatório. E, ao mesmo tempo, são eles que o conduzem em sua própria caminhada, na jornada de Hans para encontrar a si mesmo. Settembrini é o iluminismo, Naphta é o radicalismo, Joachim é o dever, Chauchat é o amor, Peeperkorn é o hedonismo... mas o mais importante é que eles são Settembrini, Naphta, Joachim, Chauchat e Peeperkorn. Em seus primeiros anos de estada no sanatório, Hans Castorp deixa-se influenciar profundamente pela pedagogia de Settembrini e Naphta, e cresce em sua capacidade filosófica. Em um dado momento, porém, na época que seu primo sai do sanatório para servir no exército, Castorp sai para esquiar na neve e, perdido em uma tempestade, tem uma visão aterradora: pessoas vivendo uma felicidade plena, iluminada, mas atrás delas, no meio daquela felicidade, há um edifício sombrio e misterioso, e ao adentrá-lo Hans Castorp vê duas mulheres velhas de aparência horrível devorando uma criança. Quando acorda do sonho, ele medita um pouco sobre aquilo, renega a influência que Naphta e Settembrini tinham sobre ele, e conclui: “Em consideração à bondade e ao amor, o homem não deve conceder à morte nenhum poder sobre os seus pensamentos.”, que é também a única frase em itálico do livro. Esse é o ápice da formação de Castorp: ao alcançar o topo da Montanha Mágica, ele descobriu uma Verdade. No entanto, quando desce de volta para o sanatório, esquece tudo o que pensara, e a sabedoria alcançada perde-se. Embora após essa experiência Hans Castorp esteja mais maduro, o essencial se perdeu. Aí está a verdade sobre sua formação como indivíduo (e a formação do europeu como indivíduo, por extensão), aí está a triste verdade do espírito da época, o espírito que acabou na Grande Guerra.
Pois, após esse momento, é ladeira abaixo para Hans. Passamos a gostar mais dele, por uma certa serenidade que ele alcança. No entanto, as coisas ao seu redor vão se fragmentando, concedendo-lhe somente um pouco de alegria antes de desaparecer. Joachim retorna ao sanatório, mais doente do que nunca, e acaba por morrer. Chauchat, que partira há anos, volta finalmente, mas acompanhada de Pepperkorn. Tomado pelo ciúme, Hans Castorp chega a desprezar o homem, mas é atraído de tal maneira por ele que se tornam grandes amigos. Essa alegria dura pouco, porém: em seu último discurso, Peeperkorn atinge o auge do vazio ao falar contra o barulho de uma cachoeira e não ser ouvido. Todavia, ironicamente era aquele o discurso mais importante que jamais fizera, pois estava anunciando seu próprio suicídio, que comete no dia seguinte. Após isso, Chauchat parte, deixando a Castorp somente a lembrança de um beijo e uma chapa (de raio-x) de seu pulmão. Mais sozinho que nunca (pois não podia contar nem com a esperança do retorno), Hans vê os anos passarem cada vez mais rápidos, iguais e tediosos ali em cima, e vê as pessoas ao seu redor serem tomadas ao mesmo tempo por um grande tédio e uma grande irritação, que culminam, em sua visão, no bater de armas final, a Grande Guerra. Até mesmo Settembrini e Naphta, até então tão controlados, se ofendem e marcam um duelo, no qual o último, indignado com a atitude do primeiro de atirar para cima, aponta a arma para a própria cabeça e puxa o gatilho. São essas as imagens e os símbolos do que acontecia na Europa. A violência contra si mesmo, a desintegração das unidades, o esvaziamento dos discursos. Como Pynchon escreveria anos depois, sobre a Segunda Guerra (que foi uma extensão da primeira): a Europa afundava nos próprios dejetos.
E ainda assim, há algo para segurar-se. No final, influenciado pela memória do primo e pela audição de A Tília, uma canção de Schubert, Hans conclui que vale a pena lutar e morrer por uma “canção mágica”, morrer com uma “nova palavra de amor” nos lábios. Ele conclui, enfim, que da morte pode surgir a vida e o amor, e que vale a pena morrer e lutar para que, dos destroços do passado, surja um futuro luminoso. Assim, Hans Castorp vai para a Guerra, e na última vez que o vemos ele está em uma batalha, no meio de névoa, chuva e crespúsculo, cantarolando A Tília. Mesmo aí, portanto, nas linhas finais de sua obra-prima, Thomas Mann não cede espaço às certezas e ao absoluto. Mesmo no final há ambigüidade, há dúvida, e por isso ele termina com perguntas. As implícitas, como “Hans Castorp morreu ou não?”; “Há ou não esperança?”; “A vida pode surgir da morte?”; e a definitiva, que toma a última linha, em que somos levados indagar – especialmente hoje, quase meio século após a tragédia, após cem anos de outras tragédias ainda maiores -: “Será que da festa universal da morte, da perniciosa febre que ao nosso redor inflama o céu desta noite chuvosa, surgirá um dia o amor?”
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Esta foi uma singela tentativa de abarcar o espectro geral de A Montanha Mágica. Obviamente, é um resumo/crítica muito falho, especialmente se considerarmos o principal conselho que Thomas Mann dá ao leitor do livro: “leia-o duas vezes”. No entanto, acho que da visão geral dos personagens e acontecimentos consegui extrair alguma coisa. Ainda voltarei, no decorrer dos meus dias, a ler esse livro novamente, com certeza. Por enquanto, porém, contento-me com a lembrança, com os momentos que surgem de repente, me surpreendendo ao saltar detrás de um arbusto da memória, e trazem para mim nos dentes um novo pedaço da compreensão, uma nova partícula da Verdade que eu encontrei – mas esqueci, após menos de um segundo – ao escalar A Montanha Mágica.
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segunda-feira, 16 de março de 2009
100 livros essenciais da literatura mundial
Em 2007, a revista Bravo! publicou uma edição especial com 100 das obras mais importantes da literatura, não se limitando a somente um gênero mas incluindo poemas, romances, peças de teatro e misturas disso tudo. Como principal referência, adotou a obra do crítico Harold Bloom, que em livros como O Cânone Ocidental e Gênio, Os 100 Autores Mais Criativos da História da Literatura definiu as mais importantes peças literárias da nossa história, mas serviu-se também de outras fontes, como listas análogas e obras de referência em geral. No fim, a edição especial acaba sendo uma valorosa fonte de consulta. Embora apresente algumas injustiças e incoerências no que tange aos "melhores" livros, é compreensível que esse tipo de desvio aconteça numa lista com tantas fonte. E além disso, a diversificação daí advinda é um ponto a mais no quesito de inovação, de apresentação de obras que do contrário permaneceriam obscuras, mesmo aos bibliófilos mais constantes.
De minha parte, gosto muito da revista e sempre a consulto quando leio algum dos livros lá presentes. Embora a qualidade dos textos de apresentação seja irregular, eles apresentam muitas informações, que acabam ajudando na hora de formar uma opinião contextualizada sobre uma obra. Dos cem, li vinte e cinco, o que não chega a uma número vultuoso mas é, de qualquer maneira, um bom começo. O tempo se encarregará se trazer os demais aos meus olhos (ou não). Fiquem então com a lista completa (os que eu li estão marcados em negrito).
1) Ilíada - Homero
2) Odisséia – Homero
3) Hamlet – William Shakespeare
4) Dom Quixote – Miguel de Cervantes
5) A Divina Comédia – Dante Alighieri
6) Em Busca do Tempo Perdido – Marcel Proust
7) Ulisses – James Joyce
8) Guerra e Paz – Leon Tolstoi
9) Crime e Castigo – Dostoievski
10) Ensaios – Michel de Montaigne
11) Édipo Rei - Sófocles
12) Otelo - William Shakespeare
13) Madame Bovary – Gustave Flaubert
14) Fausto – Goethe
15) O Processo – Franz Kafka
16) Doutor Fausto – Thomas Mann
17) As Flores do Mal – Charles Baudelaire
18) Som e a Fúria – William Faulkner
19) A Terra Desolada – T. S. Eliot
20) Teogonia – Hesíodo
21) As Metamorfoses - Ovídio
22) O Vermelho e o Negro – Stendhal
23) O Grande Gatsby – F. Scott Fitzgerald
24) Uma Estação no Inferno - Arthur Rimbaud
25) Os Miseráveis - Victor Hugo
26) O Estrangeiro - Albert Camus
27) Medéia - Eurípides
28) A Eneida - Virgílio
29) Noite de Reis - William Shakespeare
30) Adeus às Armas - Ernest Hemingway
31) Coração das Trevas - Joseph Conrad
32) Admirável Mundo Novo - Aldous Huxley
33) Mrs. Dalloway - Virginia Woolf
34) Moby Dick - Herman Melville
35) Histórias Extraordinárias - Edgar Allan Poe
36) A Comédia Humana - Balzac
37) Grandes Esperanças - Charles Dickens
38) O Homem Sem Qualidades - Robert Musil
39) As Viagens de Gulliver - Jonathan Swift
40) Finnegans Wake - James Joyce
41) Os Lusíadas - Luís de Camões
42) Os Três Mosqueteiros - Alexandre Dumas
43) Retrato de Uma Senhora - Henry James
44) Decameron - Bocaccio
45) Esperando Godot - Samuel Beckett
46) 1984 - George Orwell
47) Galileu Galilei - Bertolt Brecht
48) Os Cantos de Maldoror - Lautréamont
49) A Tarde de um Fauno - Mallarmé
50) Lolita - Vladimir Nabokov
51) Tartufo - Molière
52) As Três Irmãs - Anton Tcheckov
53) O Livro das Mil e Uma Noites
54) Don Juan - Tirso de Molina
55) Mensagem - Fernando Pessoa
56) Paraíso Perdido - Jonh Milton
57) Robinson Crusoé - Daniel Defoe
58) Os Moedeiros Falsos - André Gide
59) Memórias Póstumas de Brás Cubas - Machado de Assis
60) O Retrato de Dorian Gray - Oscar Wilde
61) Seis Personagens em Busca de um Autor - Luigi Pirandello
62) Alice no País das Maravilhas - Lewis Carrol
63) A Náusea - Jean-Paul Sartre
64) A Consciência de Zeno - Ítalo Svevo
65) Longa Jornada Noite Adentro - Eugene O'Neill
66) A Condição Humana - André Malraux
67) Os Cantos - Ezra Pound
68) Canções da Inocência /Canções do Exílio - William Blake
69) Um Bonde Chamado Desejo - Tennessee Williams
70) Ficções - Jorge Luis Borges
71) O Rinoceronte - Eugène Ionesco
72) A Morte de Virgílio - Herman Broch
73) As Folhas da Relva - Walt Whitman
74) Deserto dos Tártaros - Dino Buzatti
75) Cem Anos de Solidão - Gabriel García Márquez
76) Viagem ao Fim da Noite - Louis-Ferdinand Céline
77) A Ilustre Casa de Ramires - Eça de Queirós
78) Jogo da Amarelinha - Júlio Cortázar
79) As Vinhas da Ira - John Steinbeck
80) Memórias de Adriano - Marguerite Yourcenar
81) O Apanhador no Campo de Centeio - J.D. Salinger
82) Huckleberry Finn - Mark Twain
83) Contos de Hans Christian Andersen
84) O Leopardo - Tomaso di Lampedusa
85) Vida e Opiniões do Cavaleiro Tristam Shandy - Laurence Sterne
86) Passagem Para a Índia - E.M Forster
87) Orgulho e Preconceito - Jane Austen
88) Trópico de Câncer - Henry Miller
89) Pais e Filhos - Ivan Turgueniev
90) O Náufrago - Thomas Bernhard
91) A Epopéia de Gilgamesh
92) O Mahabharata
93) As Cidades Invisíveis - Italo Calvino
94) On The Road - Jack Kerouac
95) Lobo da Estepe - Hermann Hesse
96) Complexo de Portnoy - Philip Roth
97) Reparação - Ian MacEwan
98) Desonra - J.M. Coetzee
99) As Irmãs Makioka - Junichiro Tanizaki
100) Pedro Páramo - Juan Rulfo
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segunda-feira, 23 de fevereiro de 2009
Grandes Desfechos de Livros 4 (de 5)
Se ficaram incomodados com o final-que-se-recusa-a-sê-lo de Finnegans Wake, certamente o desfecho de O Castelo, de Franz Kafka, há de ser ainda mais assustador. Isso por que esse foi um dos romances que o autor tcheco deixou para a posteridade - na verdade ele não deixou, e sim mandou queimá-los, mas o amigo Max Brod fez questão de contrariá-lo - sem ter terminado. Ainda assim, O Castelo, tal como O Processo, outra de suas obras inacabadas, figura entre as obras-primas do escritor, símbolo de seu estilo, seus temas e suas preocupações.
K. o personagem principal, é um agrimensor que, contratado para trabalhar em um castelo, não consegue sequer entrar lá, ficando à mercê de outros personagens que têm contato com os donos do castelo, e acaba passando o livro todo em uma aldeia próxima. As interpretações do livro são diversas, e não nos aprofundaremos nesse tema. Entretanto, é muito significativo que o livro termine no meio de uma frase, sem que nenhum dos problemas de K. tenha encontrado solução, sem que nenhum resquício de resposta tenha sido deslumbrado. Ironicamente, o romance-inacabado de Kafka é a forma perfeita para os temas que lhe são peculiares, das coisas inescrutáveis, do absurdo, da escuridão além. Por mais que, no fim da vida, Kafka não quisesse, de forma alguma, entregar ao mundo uma obra inacabada, essa "falha" suposta acaba sendo uma das características mais marcantes da obra, um desfecho infinitamente misterioso, infinitamente perturbador, e infinitamente simbólico de tudo o que Kafka explorou.
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O Castelo, de Franz Kafka. Tradução de Modesto Carone.
“A sala na cabana de Gerstacker estava iluminada fracamente só pela chama do fogão e por um toco de vela, sob cuja luz alguém, inclinado num nicho debaixo das traves do teto, que ali se projetavam oblíquas, lia um livro. Era a mãe de Gerstacker. Ela estendeu a K. a mão trêmula e o mandou sentar-se ao seu lado; falava com esforço, era preciso se esforçar para entendê-la, mas o que ela disse”
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segunda-feira, 16 de fevereiro de 2009
Grandes Desfechos de Livros 3 (de 5)
Na primeira semana dos Grandes Desfechos de Livros, vimos uma final que concluía, que recapitulava a narrativa e então a levava a um fecho. Na segunda semana, vimos um final que desaguava no começo, um final que se recusa a sê-lo, o final irremediavelmente ligado ao princípio. Agora, na terceira semana, o final que aparece na lista é de um outro gênero: é um final que responde.
Sem dúvida, ele tem algumas semelhanças estruturais com o final de O Barão nas Árvores, visto que também faz uma espécie de recapitulação. Entretanto, o que temos no final de Grande Sertão: Veredas, este que é o Grande Romance Brasileiro, inegavelmente a obra que mais longe foi em suas pretensões (cumpriu todas, é bom dizer) e abrangência, são palavras gigantescas, que a despeito do tamanho físico contém significados abrangentes, adquiridos durante a narrativa, e que põe um fecho, ainda que já anunciado, nas divagações e dúvidas de Riobaldo, o narrador-herói que vendeu (ou não) a alma para o Diabo, o Fausto jagunço apaixonado pela dualidade personificada no ser amado, Diadorim.
Nessas últimas palavras, Riobaldo afirma suas crenças e conclusões, dando por fim espaço ao símbolo do infinito, ao infinito da travessia que é a troca entre dois opostos, entre dois mundo. A linguagem mágica de Rosa, os significados profundos que ele sonda e o sentido poético que ele dá ao livro fazem do final de Grande Sertão: Veredas um dos mais emblemáticos de toda a literatura mundial, assim como é emblemática essa obra-prima que merece o reconhecimento.
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Grande Sertão: Veredas, de João Guimarães Rosa.
“Cerro. O senhor vê. Contei tudo. Agora estou aqui, quase barranqueiro. Para a velhice vou, com ordem e trabalho. Sei de mim? Cumpro. O Rio de São Francisco – que de tão grande se comparece – parece é um pau grosso, em pé, enorme... Amável o senhor me ouviu, minha idéia confirmou: que o Diabo não existe. Pois não? O senhor é um homem soberano, circunspecto. Amigos somos. Nonada. O diabo não há! É o que eu digo, se for... Existe é homem humano. Travessia.”
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quarta-feira, 4 de fevereiro de 2009
Leituras: Janeiro de 2009
Em janeiro, li dois livros que disputam um posto muito especial, e ainda vago: o de Grande Romance Americano. Ambos já foram colocados nessa posição, mas nunca houve um consenso sobre qual, dentre os dois e dentre outros, obra merece tal título. Ambos, também, cada um à sua maneira, apresentam inovações e dificuldades em sua leitura, embora, como em qualquer livro, elas possam ser superadas com somente boa vontade e dedicação. As semelhanças entre os dois vão um pouco mais longe, ao menos para os exegetas mais obsessivos, mas paremos por aqui. O importante é que, seja pelos mares do mundo caçando um cachalote branco, seja pela Europa devastada pela Segunda Guerra Mundial, os dois livros, como a Literatura em si, proporcionam viagens inesquecíveis, marcantes, insuperáveis... viagens pela nossa própria alma.
Moby Dick, de Herman Melville
Moby Dick é um romance peculiar. De fato, não é exagero dizer que ele é anacrônico. A metade do século XIX (o livro foi lançado em 1851) não parece adequada para esse livro, não mesmo. Moby Dick é uma obra quase um século à frente de seu tempo, um romance moderno encravado no ápice do romantismo. Certo, a linguagem do livro é romântica o bastante, cheia dos exageros e da imagética típico do estilo. Entretanto, a estrutura e a organização do livro são impressionantemente modernas. Vejamos... O enredo, embora emblemático, é um fiapo: Ismael, o narrador, torna-se amigo do arpoador Quiqueg e embarca no baleeiro Pequod, capitaneado pelo capitão Acab (Ahab no original), cuja perna foi arrancada por Moby Dick, um imenso cachalote branco, e portanto empreende essa viagem para se vingar. Então, o barco vai viajando pelo mundo, encontra vários outros baleeiros, mata algumas baleias, e no final encontra Moby Dick, que com sua fúria o destrói e faz toda a tripulação afundar e morrer, à exceção de Ismael, que escapa do naufrágio e muitos anos depois conta a história da viagem... O livro é uma enorme parábola sobre os impulsos da humanidade, e sobre como a obsessão e os sentimentos de um homem podem sozinhos destruir muitas vidas. Está recheado de metáforas fascinantes, de comentários pertinentes sobre o ser humano, de digressões sobre o significado das coisas. Apropriando-se de um enredo até certo ponto trivial, Melville construiu um Grande Romance, um tratado abrangente da alma humana. E, quanto à forma, ele foi pioneiro. A história em si, como já mostrado, é reduzida, mas ao invés de introduzir enredos paralelos para aumentar o livro, Melville o transformou numa verdadeira enciclopédia sobre as baleias, enchendo-o de digressões a respeito da espécie e da atividade baleeira através dos séculos, entre outras coisas. Apesar do livro ser contado em primeira pessoa, há passagens em que se usa a estrutura de uma peça de teatro, e várias outras em que o pensamento de outros personagens se intromete na narrativa, um verdadeiro fluxo de consciência à moda do século XIX que cria, assim, o novíssimo narrador personagem onisciente. Inovador ao extremo, Melville não foi, é claro, compreendido à sua época. Mas o tempo o colocou em seu devido lugar, o posto de um dos maiores escritores que a América já teve, e um dos grandes entendedores do ser humano.
O Arco-Íris da Gravidade, de Thomas Pynchon
Eles adoram dizer que certos livros são ilegíveis. Segundo o lugar-comum oficial, os livros que se encaixam nessa categoria são vários... Ulisses e Finnegans Wake, de James Joyce, Crítica da Razão Pura, de Imannuel Kant, O Arco-Íris da Gravidade, de Thomas Pynchon... mas espere aí. Se o livro estiver escrito (ou traduzido) em uma língua que o leitor conhece (ou domina), que motivos haverá para que ele não consiga lê-lo? Pois é. O conto da “ilegibilidade” de certos livros é facilmente espalhado por todos os cantos, e todo mundo acredita. A questão poderia ser então “Por quem essa história é espalhada?” – e a resposta entraria facilmente em várias suposições, digamos por aqueles que lêem esses tais livros, para afirmarem sua suposta superioridade intelectual, ou pela editora rival da que imprime os livros ilegíveis, para que ninguém os compre -, mas isso não vem ao caso, agora. O que vem ao caso, ou, em outras palavras, o que é realmente importante é: não, nenhum livro é ilegível. Afinal de contas, independente de quais idéias revolucionárias ele possa trazer em seu entrecho, ou de quão complexas elas sejam, um livro é só um livro, e um livro, como já afirmado no início desse texto, é para ser lido, desde que ele e o leitor compartilhem o mesmo tipo de linguagem. Assim, ler um livro não é, por si só, um ato que deveria gerar algum tipo de respeito (ouviram, intelectuais superiores?), mas também é algo cuja destinação básica é, isso mesmo, ler, e portanto não seria nada mal se todos comprassem livros e os lessem (ouviram, editoras rivais?).
Posto isso, podemos passar à próxima etapa dessa resenha: livros não são ilegíveis, certo, mas eles podem, sim, apresentar dificuldades. É o caso de O Arco-Íris da Gravidade. Esta obra monumental é única na literatura mundial, só pareada, em certos níveis, por outros dos livros do autor, Thomas Pynchon, um americano recluso de quem se sabe relativamente pouco, e que possui poucas fotos conhecidas, todas da época em que era jovem. O livro, passado no final da Segunda Guerra Mundial, um período de aproximadamente nove meses entre o fim de 44 e o meio de 45, conta múltiplas histórias e tem inúmeros plots, mas sua linha principal, pode-se dizer, acompanha (ou tende a perseguir, ou gira em torno de, ou ziguezagueia com, ou explode pra todo lado em) Tyrone Slothrop (anagrama de Sloth or Entropy – Preguiça ou Entropia), tenente americano em missão em Londres. Slothrop, na infância, foi cobaia dos experimentos pavlovianos de um cientista alemão chamado Laszlo Jamf, e condicionado a sentir tesão (no vulgar: ficar de pau duro) ao sentir o cheiro de um plástico especial chamado Imipolex G. Agora, no final da Guerra, quando Foguetes alemães com o composto sintético em suas coberturas estão caindo sobre Londres, ele sente a presença do plástico antes mesmo dos foguetes serem lançados e fica excitado, terminando por fazer sexo nos locais onde, dias ou semanas depois, um foguete vai cair. Intrigado com isso, um cientista que trabalha para o governo o envia para a Europa destruída, e Slothrop, o maior paranóico do Universo, assim como são paranóicos todos os outros personagens, começará sua busca por algo que ele ainda nem sabe ao certo o que é... Ou seria uma fuga d’Eles, que o perseguem por toda parte? Será que ele faz isso por vontade própria, ou continua sendo manipulado por Eles? Será que ele terminará a jornada do herói como começou, O Louco que passa pelos 21 Arcanos Maiores, pelos dez sephirah e retorna ao estado inicial, será que ele transcenderá, ou será que acabara se desintegrando no caminho? Maluco, complicado? Sim, e tem mais, muito mais... O livro mergulha fundo na paranóia, nos sistemas de controle, na Entropia e na inevitabilidade, na tendência de todas as coisas para a morte e a desintegração, assim como na Contraforça de tudo isso, a morte que surge da vida, o preso que se liberta, o amor que aquece as pessoas no frio mais pesado...
O site RinkWorks, que apresenta diversos trabalhos ligados à literatura, tem um resumo muito divertido e apropriado para o livro: “Uma coisa que grita atravessa o céu. É um foguete V-2 carregando cinco toneladas de simbolismo, e está vindo cair bem na sua pobre e iludida cabeça pós-moderna.” Ora, o romance é considerado um ícone do pós-modernismo, e não por menos: o livro está cheio de referências estruturais e culturais aos quadrinhos e ao cinema, e reúne também em suas páginas passagens relativas à química e a física modernas, ao mundo corporativo e político alemão na primeira metade do século XX, às teorias psicológicas/sociológicas de Pavlov e Skinner, aos acontecimentos da SG (Segunda Guerra), especialmente no final, a Rossini, Beethoven e Webern, e, principalmente, ao Foguete V-2, personagem principal e razão de ser do romance, tudo isso desempenhando um papel importante e constante na história. A prosa de Pynchon é densa, às vezes até demais, o que leva o livro a ser, por vezes, um pouco opressivo. Mas é, ao mesmo tempo, um livro extremamente engraçado, um dos mais engraçados que eu já li, cheio de momentos inacreditáveis e hilários, descrições pormenorizadas de fetiches sexuais bizarros, musiquetas engraçadinhas que irrompem no meio de uma cena séria, concepções estranhas do mundo e dos acontecimentos... um verdadeiro romance enciclopédico, com mais de 400 personagens e inúmeros acontecimentos sucedendo-se à toque de caixa, e também uma obra totalmente insana, cheia de fluxos de consciência, idas e vindas no tempo, transições de fatos, alucinações, sonhos e lembranças sem aviso, plots que começam e não dão em nada, pistas falsas emergindo o tempo todo....
É, em suma, uma obra exigente. Teoricamente, todo livro exige uma postura participativa do leitor. No entanto, na maioria dos livros, essa necessidade não é uma premissa básica para o seu acompanhamento, o que leva o leitor (qualquer leitor) a acompanhar o enredo passivamente. Já em Pynchon – O Arco-Íris da Gravidade, pelo menos – o envolvimento do leitor – de seu pensamento – é indispensável para acompanhar o que está acontecendo. Não é, repito, nenhuma tarefa impossível: basta boa vontade, e talvez um computador ligado para eventuais consultas, e uma ou outra anotação, se for necessário, e qualquer um poder ler o livro e compreendê-lo, ao menos superficialmente, a contento. Essa é uma leitura imediata, mas pode ser a única desejada para o leitor. Todo grande romance esconde em suas entranhas segredos que exigem muito estudo, pesquisa e dedicação para serem descobertos, e esses livros cheios de mistérios e enigmas, como O Arco-Íris da Gravidade, são especialmente pródigos em estudos e interpretações. Mas, para acessar alguns deles, há diversas teses – acadêmicas ou não – a respeito do livro, basta procurá-las.
Quem deseja ir além da leitura superficial, entender melhor o que aconteceu e procurar significados ocultos nas páginas deste grande livro vai encontrar um material farto, quiçá interminável. O livro, assim como Ulisses, outro grande romance-pedreira do século, está estruturado sobre uma obra clássica, no caso as Elegias do poeta alemão Rainer Maria Rilke. Além dela, também desempenham papel fundamental no livro o Tarô e a Cabala, fontes simbólicas riquíssimas, das quais Pynchon se apropria muito bem. Se quiserem um exemplo de simbolismos e segredos escondidos no livro, tomemos as iniciais de Slothrop, T.S.: porque não dizer que o anti-herói caminha, durante o livro, pela Terra Desolada que é a Europa no final da SG? Analogia perfeitamente possível e significativa, embora, talvez, um tanto quanto fácil para o nível pynchoneano de confusão, mas nada impede que essa seja só uma camada de significado que o nome – o nome! – do protagonista esconde. Da mesma maneira, diversos outros enigmas se apresentam, surgindo sem aviso, indo embora sem deixar rastros, confundindo e ao mesmo tempo fornecendo um certo prazer por sua existência...
Magistral, belíssimo, cômico, trágico, científico, popular, erudito, vulgar, obsceno, violento, mágico e sublime, O Arco-Íris da Gravidade é uma singularidade, um objeto infinitamente pesado que distorce o espaço e atrai tudo para seu interior, sem misericórdia... uma obra-prima da literatura, e o maior livro escrito na segunda metade do século XX, sem dúvida alguma.
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quarta-feira, 7 de janeiro de 2009
Leituras: Dezembro de 2008
Em dezembro, finalmente consegui ler um pouco mais do que vinha lendo nos últimos meses. Esse mês, li três grandes clássicos da literatura universal. O primeiro, uma obra ultramoderna, escrita pelo gênio que ditou algumas regras da atual literatura. O segundo, uma sátira feroz e irônica sobre a humanidade, escrita por um dos maiores satíricos. Em terceiro, finalmente, um envolvente romance de um grande autor inglês, pérola do período romântico.
As Cidades Invisíveis, de Italo Calvino
Com freqüência, obras cuja interpretação é complicada possuem algum trecho chave, que serve ao menos para extrair o sentido essencial (ou superficial) delas. Com Cidades Invisíveis, não é diferente. O romance mais conhecido do italiano Italo Calvino é uma espécie de As Mil e Uma Noites da descrição, em que o maior viajante de todos os tempos, Marco Polo, dirigindo-se ao imperador dos tártaros, Kublai Khan, o ser mais poderoso da terra, discorre sobre as cidades do Império deste, dando-lhe o conhecimento que ele não pode obter, devido à extensão de seus domínios e à quantidade de seus deveres. Partindo daí, Calvino traça um painel com 55 descrições de cidades, divididas em onze temas, tais como “As cidades e a memória”, “As cidades e o desejo”, “As cidades e os mortos”, etc., tudo isso entremeado por trechos das conversas entre Polo e o Imperador, onde investigam o sentido da conversa que estão travando e de outras coisas mais. Num desses trechos, acontece o seguinte: “Marco Polo descreve uma ponte, pedra por pedra. – Mas qual é a pedra que sustenta a ponte? – pergunta Kublai Khan. – A ponte não é sustentada por esta ou aquela pedra – responde Marco -, mas pela curva do arco que estas formam. Kublai Khan permanece em silêncio, refletindo. Depois acrescenta: - Por que falar de pedras? Só o arco me interessa. Polo responde: - Sem pedras o arco não existe.” Eis aí o trecho referido no ínicio desse texto. Como já disse, ele não revela todo o sentido (para isso, só lendo o livro todo), mas é simbólico da natureza da obra. Ora, Cidades Invisíveis é um romance pós-moderno, fragmentado, hipertextual, formado por dezenas de partes que, entretanto, formam um todo poderoso e coeso, se cuidadosamente observado. O trecho supracitado explica essa característica, e dá margem a toda sorte de interpretações. De certa maneira, o próprio sentido do livro também é fragmentado e composto. Podemos extrair três ou quatro temas recorrentes tanto nas conversas de Marco e Kublai quanto nas descrições. Um deles, que eu considero secundário (alguns podem querem me tacar pedras por isso) é o das características negativas de algumas cidades, que espelham vários “dramas urbanos” das cidades modernas. Embora o livro fale de cidades, é ingenuidade achar que é realmente de cidades que ele está falando. Os outros temas, que considero mais importantes, são os seguintes, em ordem dos que mais me interessam: o primeiro e segundo, de certa forma, são o mesmo. Trata-se talvez do aspecto principal do livro, embora não seja o meu preferido. É a questão de abrir espaço, como proferida por Polo na célebre última sentença do livro, de extrair das coisas um sentido ao enxergar o mundo com outros olhos e encontrar aí um espaço para se expandir e tornar as coisas melhores. O outro tema, esse sim o que eu mais gosto, é o mais presente nas descrições das cidades, e adquire tamanha diversidade de formas que é preciso fazer uma lista para enunciá-lo. É uma questão recorrente na obra de Calvino, a da discrepância, do conflito, da relação entre o nome da coisa, a descrição da coisa, a memória que temos da coisa, o que desejamos da coisa, o olho com que vemos a coisa e a Coisa, entre o sonho, o símbolo, o mito, o pensamento, o discurso, a narrativa e a Realidade. Calvino fala, discursa, poetiza, divaga e faz mistério em cima desse tema, o que o torna extremamente atraente e profundo. Enfim, pouca coisa não é, esse é um livro para muitas interpretações. Mas, de qualquer maneira, só por existir e ser lido, já se pode dizer que As Cidades Invisíveis é um ponto que, no meio do inferno, não é inferno, e portanto se deve preservá-lo, e a partir dele, abrir espaço.
As Viagens de Gulliver, de Jonathan Swift:
Jonathan Swift, o “deão furioso”, foi um dos mais violentos satíricos que o mundo já viu. Munido de um visão afiadíssima em relação ao mundo, contudo sem ser amargurado, Swift erigiu em As Viagens de Gulliver uma obra que conseguiu a proeza de ser ao mesmo tempo uma sátira feroz da natureza humana e um livro bem-humorado, que anos depois acabou por se tornar, em sua versão resumida e suavizada, um clássico infantil. Lemuel Gulliver, cirurgião e pai de família, tem um apreço especial pelo mar. Assim, sai durante a vida em várias viagens, que o levam às terras mais estranhas. Em primeiro lugar, vai parar em Liliput, país onde as pessoas tem quinze centímetros de altura e parecem ser, à primeira vista, criaturas adoráveis, ainda que um pouco desconfiadas. O tempo revelará, porém, que elas são traidoras cruéis, capazes de fazer mal até a seus próprios heróis. Depois, Gulliver chega em Brobdingnag, onde os seres são gigantes, e tratam Gulliver como um brinquedo, um animal de estimação. Incomodado com o desprezo que lhe é dirigido, Gulliver parte daquele país. Depois, na terceira parte do livro, visita vários países e cidades, dos quais o mais ilustre é Laputa, a ilha voadora, onde os homens só sabem pensar em música e astronomia e suas mulheres fogem com as mais grotescas criaturas. Ele chega também em Glubbdubdribb, onde conversa com os mortos e descobre que a raça humana está cada vez pior, em Lagado, onde a Academia de Ciências só pesquisa idiotices, e em Luggnagg, terra de amaldiçoados imortais que vão se tornando cada vez mais degenerados à medida que os anos passam. Então, na quarta parte do livro, Gulliver se encontra no país dos Houyhnhnms, cavalos inteligentes e civilizados que “domesticaram” os Yahoos, seres bestiais e repulsivos que nada mais são que humanos em estado selvagem. Por fim, após ser obrigado a sair do país dos Houyhnhnms, Gulliver se torna um misantropo que tem nojo até da própria família. Com isso, Swift dá seu golpe de mestre. No fim do livro, Gulliver, que é o narrador, faz um discurso contra o orgulho humano, mas o fecha rogando que ninguém que possua “esse absurdo vício” (o orgulho) apareça diante dele. Ora, que sinal de orgulho seria maior que esse? Desse modo, Swift satiriza a própria ferramenta de que se havia utilizado para satirizar a humanidade. Após presenciar os costumes de todos os povos acima citados (que nada mais eram que paródias de pessoas e acontecimentos da época de Swift), e por fim observar o último estágio da degeneração humana, chegando até mesmo a usar roupas e objetos feitos das peles de yahoos (ou seja, de sua própria espécie), Gulliver se isola e torna-se ele mesmo um exemplo de tudo aquilo que julgava abominar. Usando-se desse artifício, Swift retroativamente suaviza todas as (pesadíssimas) críticas que havia feito ao longo do romance, e transforma seu livro em obra de gênio, revelando por fim seu verdadeiro discurso: o da valorização do ponto de vista. Não que a humanidade seja desse jeito, mas considerando-a desse ângulo é assim que ela irá parecer. Sofisticado ao último grau, e feito mesmo pra pensar muito depois de ler. Matéria-prima das mais densas para conversas, sejam elas filosóficas ou de botequim.
Grandes Esperanças, de Charles Dickens
Escritores românticos são sempre acusados de criar personagens rasos, caricaturais, exagerados, e colocá-los em situações irreais e exageradas usando para isso uma linguagem floreada e exagerada. Enfim, o supra-sumo do exagero. Embora tenha lastro na verdade, grande parte dessa concepção moderna do romantismo é exagerada, posto que, se tais obras não tivessem valor, não seriam obras-primas da literatura universal, maciçamente presentes no cânone da literatura. Dickens, pois, foi um escritor romântico, talvez o mais célebre romântico inglês. E, embora seu estilo seja sim floreado e exagerado, e haja situações e personagens caricatos e exagerados em seus romances, Dickens também possuía uma grande sensibilidade para o ser humano, e criou, ao menos em Grandes Esperanças, que foi seu único livro que li, uma grande variedade de personagens complexos e tocantes, capazes de dizer muito sobre a sociedade e a humanidade. O maior exemplo disso talvez seja Wemmick, retrato perfeito da confusão de identidades e personalidades tão presente na sociedade atual, mas já despontando na Inglaterra do século XIX. Além dele, Pip, Miss Havisham, Estella, Mr. Jaggers, todos são personagens com mais de um lado, mais de um rosto, mais de uma forma de reagir ao mundo. E, juntos, formam uma tocante e envolvente história, contada num estilo delicioso, ao mesmo tempo emocionante e cômico. Um “livrão”, sem dúvida, gostoso de ler e difícil de largar.
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quarta-feira, 3 de setembro de 2008
Leituras: Agosto de 2008
Esse mês, eu pretendia ter lido mais, mas um monte de coisas acabou reduzindo meu tempo - entre elas, o próprio blog, que tem tido posts quase todos os dias e... bem, esperem que logo haverá novidades - e eu acabei lendo só dois livros. Um deles, ainda no finzinho das férias/começo das aulas, e o outro durante umas duas semanas depois. Além disso, fiquei só na quase-leitura. Mas enfim, sou assim mesmo: tem épocas em que leio freneticamente, e épocas em que mal consigo tocar num livro. De qualquer modo, os comentários sobre os dois livros que eu li no último mês precisam estar aqui. E aqui estão.
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O General do Exército Morto, de Ismail Kadaré
A Segunda Guerra é o tipo de tema que as pessoas vão explorar até o fim dos tempos. Se há uma “Lei” que diz que, quanto mais se prolonga uma discussão, maiores as chances de alguém citar o nazismo, deveria haver uma também que pregasse o fato de a curtos períodos sempre aparecer uma obra de arte, entretenimento ou informação que tem a Segunda Guerra como tema ou pano de fundo. Pois esta guerra é o grande cenário trágico de nossa era, de modo que, seja em filmes sobre os soldados negros (próximo filme de Spike Lee) ou criminosos (próximo filme de Tarantino) na Europa durante a guerra, seja sobre os “heróis” americanos de volta pra casa ou sobre os “mártires” japoneses resistindo e morrendo numa ilha de areias negras (A Conquista da Honra e Cartas de Iwo Jima, de Clint Eastwood), ou em tantos, tantos outros, inumeráveis, filmes, haverá sempre espaço para uma outra abordagem, uma nova visão. Na literatura, também, o tema se multiplica. E, em pelo menos um caso especial, ela revela essa “chaga indelével”, que permanece em nossos corações e mentes, e ainda mais nos daqueles que sofreram de perto as agruras da guerra. É o caso de O General do Exército Morto, de Ismail Kadaré, ilustre autor albanês. No livro, um general italiano, acompanhado de um padre, retorna à Albânia, mais de 20 anos após o término da guerra, para recolher os restos mortais dos soldados italianos que ficaram enterrados no solo daquele país após o fim da guerra. Numa narrativa sombria e melancólica, Kadaré acompanha seus personagens, esmagados entre a súplica das mães e famílias na Itália, as dificuldades logísticas de levar o intento a um termo, e a opressão da presença de tantos mortos, de tantas histórias, de tantas lembranças. O padre e o general chegam recebidos pelo inverno e, dois anos depois, partem enxotados por ele, com muitas cinzas presentes mas muitas faltando, e a sensação de que o fracasso era inevitável, e sempre o será, na contagem dos corpos de uma guerra.
O Grande Gatsby, de F. Scott Fitzgerald
Pouco antes da Segunda Guerra, e logo após a Primeira, os Estados Unidos da América entravam em um período conhecido como Grande Depressão. Um pouco antes do crack da bolsa de Nova York em 1929, porém, os cidadãos americanos, ou, mais especificamente, aqueles pertencentes às classes mais altas, já viviam permanentemente na melancolia. E F. Scott Fitzgerald retratou como ninguém a solidão e a tristeza dessa geração perdida, que viveu na Era do Jazz em meio ao florescimento do sonho americano e às lembranças dos horrores da Grande Guerra. Em O Grande Gatsby, especificamente, Fitzgerald conta a história de Jay Gatsby, homem riquíssimo envolvido com o tráfico de bebidas, e de seu amor por Daisy, mulher rica casada com um homem ainda mais rico. E, no meio deles, o narrador, Nick, que acaba levado pelos humores e anseios de seus amigos. O final é, paradoxalmente, ao mesmo tempo trágico e indiferente, como se os próprios personagens sobre os quais a tragédia recai não se importassem muito com o que lhes acontecera. Com isso, Fitzgerald buscava mostrar o esvaziamento moral dessa classe rica e isolada, ao mesmo tempo em que retratava, com precisão literária milimétrica, a que vales escuros o sonho americano levara aquelas pessoas.
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quarta-feira, 6 de agosto de 2008
Leituras: as Férias
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A Insustentável Leveza do Ser, de Milan Kundera
Livro sensação dos anos 80, A Insustentável Leveza do Ser consegue a proeza de ser, ao mesmo tempo, um estudo sobre o amor e as relações erótico-afetivas humanas; e sobre as conseqüências de um estado totalitário na vida dos indivíduos. Possuindo alguns toques metalingüísticos, especialmente no relativo à criação dos personagens centrais, os casais Tomas/Tereza e Sabina/Franz, o livro gira em torno principalmente de diversas digressões, nada mais que manifestações do olhar agudo que o autor lança sobre suas personagens. As principais idéias que permeiam o livro são a do eterno retorno, personificada na pessoa de Tomas e no ditado Einmal ist keinmal (Uma vez não conta, uma vez é nunca.); a da dicotomia entre peso e leveza; e a do kitsch, “estação intermediária entre o ser e o esquecimento.” Recheado de imagens marcantes e discursos antológicos, de passagens sublimes e passagens perturbadoras, A Insustentável Leveza do Ser é uma dessas obras-primas paradoxais, que carrega dentro de si um peso e uma leveza só compreensíveis para quem está lá, na sua frente, saboreando suas palavras.
Zen e a Arte da Manutenção de Motocicletas – uma investigação sobre valores, de Robert M. Pirsig
A princípio, pode-se pensar que este é um daqueles livros de auto-ajuda disfarçado de contracultura: pelo título pomposo, pelo fato de uma das epígrafes ser uma citação do próprio autor, e pela situação inicial: um pai e um filho, junto a um casal de amigos, viajando de moto pela América (EUA, fique bem claro). Contudo, logo essa impressão de desfaz e o que se revela é um extraordinário tratado filosófico, distribuído com equanimidade por um enredo magnético. Basicamente, o livro retrata a busca de um homem pelo significado do conceito Qualidade – o que é, onde está, etc. -, e no caminho nos presenteia com interpretações das idéias de vários filósofos e, não só isso, com a aplicação dessas idéias na manutenção de motocicletas, ou, mais profundamente, de nós mesmos. Indo do cume de uma montanha até o fundo do oceano, o que o autor nos apresenta é uma chance de pensar e entender melhor o mundo.
O amante de Lady Chatterley, de D.H. Lawrence
Por um desses “acasos” que frequentemente no tomam de assalto, esse livro apresenta algumas coisas em comum com o anterior. Grosso modo, ambos apresentam uma crítica à racionalidade, ao intelectualismo, ou, nas palavras de Lawrence, às “palavras que nos separam da vida”. Entretanto, se no anterior o autor buscava uma conciliação entre uma vida com Qualidade e o progresso, a ciência, a tecnologia, aqui o que se vê é uma crítica feroz à sociedade industrial e tecnológica. Até mesmo as emoções são criticadas. Para o autor, o que temos (ou tínhamos, na década de 20, logo após a Primeira Guerra) são somente cópias grotescas de emoções, emoções falsificadas para conviver sem conflitos com o intelecto. O que ele propõe, com a história do romance entre Lady Chatterley e o guarda-caça da propriedade de seu marido, é que a sociedade trate o sexo de forma mais natural, nem como uma aberração obscena, nem como uma forma de diversão pueril, mas sim como um ritual necessário e sagrado para vida, idéia essa que permanece atual. Ele defende, inclusive num longo posfácio escrito já após as primeiras edições do livro, que recuperemos o contato humano imediato, e assim retornemos a um estado puro, que na marcha do progresso e da tecnologia, teria se perdido.
Ensaio Sobre a Cegueira, de José Saramago
Algumas obras são escritas de tal maneira, que não se dá descanso à alma enquanto não se a termina. Ensaio Sobre a Cegueira é escrita em tal estilo febril e hipnotizante, que percorri suas trezentas páginas em um único dia, numa espécie de frenesi literário, completamente envolvido pela história, pelo estilo, pelos personagens, por tudo! “Parece uma parábola”, diz um dos personagens, e de fato: essa parábola sobre uma inexplicável epidemia de cegueira que acomete a população de um país, e leva o governo a trancar alguns cidadãos sob quarentena em um manicômio, é um assustador relato da barbárie em que vivemos. Retira-se uma de nossas fundações, e tudo desaba: retornamos aos hábitos mais animalescos. Mas não nos enganemos: muito do que julgávamos ser parte da civilização também integra esses hábitos, o que nos obriga a enxergar quão tênue é a linha que separa essa civilização da barbárie, do estado natural das coisas, do inferno na terra. E, mais do que vermos o estado das coisas - a própria epígrafe do livro nos conclama: repara -, temos de repará-las recuperar o que foi perdido, superar o medo e ver as coisas como são. “Dentro de nós há uma coisa que não tem nome, essa coisa é o que somos.”
terça-feira, 26 de fevereiro de 2008
Resenha: Admirável Mundo Novo
A distopia é um gênero crítico por excelência. Elas simplesmente não são escritas sem ter como referência problemas e características do nosso próprio mundo atual. É assim com “A Laranja Mecânica”, é assim com “
O ano é 2540 d.C., mas para os personagens do livro é 632 d.F., ou seja, depois de Ford. Para eles, Henry Ford, criador das linhas de produção, foi o messias, e eles o invocam por meio do sinal de “T”, no peito, em referência ao célebre modelo do inventor. Nessa sociedade, todos vivem sob o imperativo da felicidade. São divididos em castas: os Alfas, Betas, Gamas, Deltas e Ípsilons. As duas primeiras são compostas de indivíduos únicos, mas as restantes passam por um processo que divide seus embriões e produz cerca de oitenta pessoas iguais. Tudo isso para que, trabalhando juntos, haja um sentido de identidade entre eles.
Mas não é só. Não há pais, mães ou relacionamentos duradouros. Os embriões são “montados” em linhas de produção, de acordo com sua casta. Desde o nascimento, são condicionados, seja por hipnopedia (repetição de frases durante o sono) ou outros métodos, a aceitarem a Morte e tratarem o Sexo como algo absolutamente trivial, para ser praticado sempre e com todos. Esse condicionamento os leva também a se sentirem totalmente satisfeitos com sua condição, seja a de pesquisador ou ascensorista. E se, porventura, algo de ruim acontecer, sempre é possível (e aconselhável), recorrer ao soma, droga alucinógena que traz de volta a felicidade.
No início, vemos Bernard Marx, personagem que passou por um trauma quando ainda era um embrião e se sente incomodado em sua posição. Mas consegue que Lenina Crowne, uma donzela assaz pneumática, vá com ele até a Reserva dos Selvagens, onde tribos de índios americanos ainda vivem como nos tempos antigos. Lá, encontram uma mulher Beta, que se perdeu na Reserva há muito tempo, e seu filho crescido. Interessado na fama que isso lhe trará, Bernard o leva para a “civilização”, coisa com que o jovem sempre sonhou, e veremos então o que acontece.
O livro é perturbador por fazer uma reflexão sobre o preço das coisas, e o que nos torna humanos. Para que não nos entristeçamos ou tenhamos que pensar coisas ruins, não há Arte. De modo análogo, a Ciência é suprimida. A única verdade que interessa é a dos Administradores Mundiais. Quem me conhece sabe que eu considero essas duas coisas a grande razão da vida humana. Ver uma sociedade sem essas coisas é como ver uma colônia de robôs. E de fato, são o que os seres desse futuro são: máquinas que reagem a estímulos.
Mas todos são felizes, não? De fato, a felicidade é algo fornecido pelo Estado e irrevogável. Mas em troca de quê? Isso me faz pensar em Cuba, a cujo governo oficial Fidel Castro recentemente renunciou. Uma medicina entre as melhores do mundo. Educação invejável. Garantia de emprego pelo resto da vida. Mas, por outro lado, não há liberdade de pensamento, de expressão. Não há arte no comunismo. Só o que importa é o que acontece, é a jornada do proletariado. Pode parecer algo demasiado subjetivo, vaporoso, comparado a ter saúde e educação, coisas concretas, essenciais. Mas, se sentimos aquele estranho revolver no estômago ao olharmos para esse “Mundo Novo” do livro, é porque de fato aquilo importa.
Shakespeare, a partir do momento em que o Selvagem entra em cena, pontua o livro. Ele é uma das expressões máximas da cultura ocidental. O nosso mundo é shakesperiano. Ele de certa forma criou o ser humano atual. Vê-lo em contraste com os robôs de plástico, todo uns iguais aos outros, é muito significativo. Como disse antes, a distopia é sempre uma alegoria de nossos tempos, um alerta. Olhar para o presente e ver coisas, se não tão assustadoras, assustadoras o suficiente, é motivo de um leve arrepio, de um certo mal-estar. Tenho medo do dia em que deixarmos de ser humanos em troca de casa, comida, e roupa lavada.
“Oh maravilha! Como há aqui seres encantadores! Como é bela a humanidade! Oh! admirável mundo novo, que contém criaturas tais!”
P.S.: A melhor sentença do livro aparece na conversa entre o Selvagem e Mustafá Mond. “Mas eu não quero conforto. Quero Deus, quero a poesia, quero o perigo autêntico, quero a liberdade, quero a bondade. Quero o pecado. [...] Eu reclamo o direito de ser infeliz.” Creio não ser necessário dizer mais nada.
sábado, 5 de janeiro de 2008
Resenha: Um Retrato Do Artista Quando Jovem
A tradição do romance de formação ou Bildungsroman remonta a Goethe e seu “Os Anos de Aprendizagem de Wilhelm Meister.” A história do jovem alemão e suas teorias sobre Hamlet não só influenciou diversos escritores como criou um gênero. Livros como “O Jovem [Aluno] Törless” de Robert Musil, e “Sidarta” de Hermann Hesse são alguns dos expoentes do gênero, embora incontáveis outras obras sejam acrescentadas - ao humor do crítico estiver analisando (Harry Potter inclusive). Ainda que muitas (ou todas) as histórias falem sobre transformação, as características do Bildungsroman são claras e facilmente apreensíveis. Para começar, observe os títulos. Palavras sobre juventude e aprendizado são constantes. Além disso, são romances majoritariamente psicológicos, mais dedicados aos pensamentos e sentimentos do protagonista (notoriamente masculino pelas questões sociais que todos conhecemos, mas obviamente com suas exceções) sobre o que acontece ao seu redor, algo que acaba solitarizando-os.
Joyce adorava o livro de Goethe, e o citou inclusive em sua opus magnum “Ulisses” . Fez assim jus a isso criando um romance de formação – que é frequentemente comparado à autobiografia por semelhanças estilísticas – semi-autobiográfico. A história do “Retrato” é longa. Começou no dia 7 de Janeiro de 1904 (ano fatídico), quando ele escreveu um ensaio autobiográfico intitulado A Portrait of the Artist para a revista Dana, editada pelos escritores John Eglinton e Fred Ryan (também personagens de “Ulisses”), recusado prontamente, pois aquele afirmou: “Não posso imprimir aquilo que não entendo.” Incentivado pela recusa, Joyce se pôs a trabalhar em um romance, com o mesmo tema e história, chamado Stephen Hero, com conteúdo muito mais sociopolítico e extenso, percorrendo 26 capítulos, mas já “estrelado” pelo alterego do autor, Stephen Dedalus. Fragmentos de Stephen Hero seriam publicados depois da morte dele, possibilitando uma análise de seu conteúdo e proposta. Quanto ao “Retrato”, foi metamorfoseado da obra original em algo muito mais psicológico e denso, sendo então publicado em forma de série na revista The Egoist em 1914 e 1915, e depois impresso em forma de livro em 1916.
Como toda a obra de Joyce, o livro pode ser analisado sob muitas facetas. Comecemos pelo protagonista: St. Stephen foi o primeiro mártir cristão, e Dédalo foi o gênio inventor e arquiteto da mitologia grega - que construiu um touro de madeira para a rainha Pasífae copular com um touro campeão, e por isso foi preso pelo rei Minos no labirinto que construíra para o Minotauro, junto com seu filho. Ele então fez dois pares de asas com penas e cera, e as utilizou para fugir. Seu filho, por outro lado, se aproximou muito do sol e caiu, gerando a famosa analogia/metáfora do “vôo de Ícaro” ou da “queda de Ícaro”, tão batida quanto a “ressurreição da Fênix das cinzas” -, o que ilustra perfeitamente a dicotomia do personagem: inicialmente e por um lado um católico contrito, cheio de culpas e arrependimentos, eternamente melancólico; e posteriormente e por outro um pagão, um poeta herético ou, em suas palavras, “um horrível modelo de livre pensamento.” Analisado contra Poldy ou Molly Bloom, Stephen é um personagem um tanto estéril (como o disse Harold Bloom). Quando divide a cena, acaba ficando em segundo plano. Mas “Retrato” é seu livro, sua história, e aqui ele executa perfeitamente bem seus papéis.
E a maneira que ele encontra para tomar posse do livro é a penetração psicológica, aplicada sob a forma do monólogo interior, usado pela primeira vez por Joyce. O método “criado” por Edouard Dujardin foi utilizado por muitos, mas Joyce é o mestre e artesão definitivo do estilo. O monólogo de Molly Bloom em “Ulisses” é especialmente citado, mas já em “Retrato” Joyce explora de mil maneiras o mundo interior do protagonista com o fluxo de consciência. Impossível não entender os dilemas de Stephen, e identificá-lo como humano. A maneira como as coisas vêm pode ser um pouco difícil, mas qualquer leitura atenta desvenda imediatamente toda a - com o perdão da expressão – magia do livro.
Magia esta que toma outras formas. A “formação” ou “evolução” da personagem, o outro grande trunfo do romance, ocorre aqui em paralelo à evolução do livro. O crescendo da sofisticação lingüística e sua representação musical são de fato os verdadeiros retratos de Stephen. Inicialmente sons monocórdios, orações coordenadas, idéias girando em torno de um mesmo conceito. Sim, o início do “Retrato” é o mundo pelos olhos de um bebê. O resto deste primeiro capítulo, um dos mais deliciosos de se ler, também retrata fielmente o pensamente infantil, em sua busca dos porquês e em sua ânsia analítica de entender as coisas e relacioná-las umas às outras. Finda a prótase, vem a epítase: nascem os conflitos, familiares, religiosos e psicológicos, na mente e no mundo de Stephen. A descrição do Inferno, em particular, me marcou profundamente quando o li pela primeira vez, transformando-se no trecho mais perene na minha memória. A catástase, em minha concepção, é sua decisão de ir embora, de romper de vez com sua família, e ir morar em Paris, sendo todo esse conflito permeado por suas discussões estéticas e políticas com colegas estudantes.
Antes que se consuma o fim, já se formou na memória qual foi a “formação” pela qual Stephen passou: um garotinho estudante de um colégio jesuíta passa por um momento de quebra (a falência de seu pai) e se entrega à promiscuidade como refúgio (e como descoberta). Mas as reminiscências do passado religioso renascem quando ele volta à escola, e se descobre um pecador, fechando-se então cada vez mais em seu desespero profano. Acomodado, encontra um ponto de segurança, mas continua preso e fechado. Finalmente, vai se libertando, se desprendendo de sua família que o prende, de suas culpas que fecham, de seus medos que o vedam. Como aquele do qual tomou o nome, ele escapa de um labirinto - onde em cada parede se encontra uma frustração -, estende suas asas, e alça vôo, para descobrir novos ares e tentar novas empreitadas. É a catástrofe, o desfecho, o amadurecimento do jovem aprendiz. Independente do que vier a mais, ele se encontrou definitivamente, e se transformou no que viveu para ser. E para que, quando encontrasse novos grilhões, novas barreiras, pudesse voar novamente, pede, nas linhas que encerram o romance: Velho pai, velho artífice, valha-me agora e sempre.
sexta-feira, 4 de janeiro de 2008
Again e Agian.
É difícil falar sobre algo que provoca tantos sentimentos contraditórios. Again e Agian não é minha obra preferida, não é meu xodó, e nem de longe é algo muito bem escrito. É razoável, e de certa forma, assim mesmo foi criado e assim deveria se manter. Um dia, numa conversa casual com o lendário Holygriever, ao tentar dizer "ah, e assim por diante, again and again..." um simplório erro de digitação levou a "again and agian..." Prontamente, meu interlocutor exigiu que eu criasse uma história para isso. Em princípio, quis criar uma história nonsense, como se atesta nos primeiros posts desse tópico; mas acabei criando também uma história diferente, épica, bem ao estilo daquelas que todos nós nerds gostamos. Ela começava assim: "Era uma pálida noite de um rigoroso inverno, quando os gêmeos foram concebidos." Agora, um ano, dezoito capítulos (juro que esse número foi sem querer!) e cinquenta e cinco páginas depois, eis que "Again e Agian" se encontra acabado. Claro, como qualquer coisa escrita, ela carece - e muito diga-se de passagem - de revisão, de uma reescrita, todos aqueles pormenores que transformam uma massa de palavras em algo realmente bem acabado e interessante. Mas a matéria bruta - bem, sejamos uma pouco condescendentes conosco mesmo: ela já está uma bocado dilapidada - está aí, gigante em seu esplendor. Como eu disse antes, não é minha melhor obra, nem minha preferida, mas é muito querida, porque é meu primeiro grande épico (oh, até parece) e mais: a primeira história extensamente planejada que eu de fato escrevo. Por um lado, ao terminar "Again e Agian", fica um vazio. Mas eu sei que foi mais uma causa conquistada e mais um passo a um amadurecimento deste que vos escreve como escritor.


