.
Nas últimas 4 semanas, coloquei aqui no blog os trechos finais de quatro grandes livros. Cada um tinha algo de peculiar e único, que se relacionava com sua maneira de ser. Dois eram conclusivos. O de O Barão nas Árvores fazia uma recapitulação sentimental dos acontecimentos narrados e da própria narração dos acontecimentos. O de Grande Sertão: Veredas, por sua vez, era conclusivo no sentido em que respondia, de uma maneira profunda e de múltiplos significados, a questão que o romance se colocava. Os outros dois finais eram, ao contrário desses, escandalosamente abertos. O de Finnegans Wake terminava numa frase e se ligava, como que por mágica, ao início do livro, enquanto o de O Castelo também terminava numa frase, mas não se ligava a nada, somente nos deixava, sozinhos, frente ao desconhecido.
Já o final que escolhi para finalizar essa lista é ainda mais singular. De uma certa maneira, ele une a recapitulação, a conclusão e a abertura para criar um dos desfechos mais enigmáticos de toda a literatura. Como eu já havia alertado no início da lista, e como fica claro pela proposta dela, são os finais dos livros, o que é bem diferente dos começos, e esses finais, embora não estraguem em geral, a experiência da leitura, podem ser prejudiciais para alguns, dependendo da opinião de cada um.
No caso de O Arco-Íris da Gravidade, o último final (ao menos dessa edição da lista), o último trecho do livro é tão rico e exemplar que pode, sim, revelar algumas coisas. Eu mesmo evitei lê-lo, e só o fiz após ter lido o livro todo. No entanto, o final está tão intrinsicamente ligado ao resto do livro que lê-lo para apreciar sua forma não estraga, de fato, em nada o prazer da leitura, mas antes cria uma expectativa ainda maior a medida que as páginas se sucedem.
Dito isso, podemos prosseguir ao que o torna único, e bem, devo confessar que fico um pouco sem palavras. Embora seja o número cinco - esse número é só para efeito de organização, e não de hierarquia -, posso dizer que é o meu final preferido de livro. Na última divisão apresentada por Pynchon, os trechos ganham títulos, imensamente significativos, e o carrossel deflagrado por tempo e espaço pelo Foguete culmina numa ascensão além do zero, antes de começar a cair, após o Brennschluss, e por fim encontra seu fim em uma explosão silenciosa sobre um velho cinema. Lançando mão de técnica, ritmo, significado e precisão espantosos, Pynchon coroa sua obra-prima com esse final que, a cada vez que eu leio, me causa mais assombro. Acompanhem a bolinha.
___________________________
"Queda
As palmas rítmicas ressoam entre estas paredes, duras e luzidias como carvão: É ho-ra! Co-me-ça! É ho-ra! Co-me-ça! A tela é uma página pálida estendida ante nossos olhos, alva e calma. O filme está partido, ou então queimou a lâmpada do projetor. Era difícil até para nós, velhos fãs que sempre vivemos no cinema (não é?), saber o que aconteceu antes de a escuridão enlaçar a sala. A última imagem era imediata demais para ser registrada pelo olhar de quem quer que fosse. Talvez uma figura humana, sonhando com um fim de tarde em cada grande capital luminoso o bastante para lhe dizer que ele jamais morrerá, indo à rua para fazer um desejo diante da primeira estrela. Mas não era uma estrela, estava caindo, um luminoso anjo da morte. E na extensão terrível da tela, cada vez mais escura, alguma coisa persiste, um filme que aprendemos a não ver... agora é o close de um rosto, um rosto que todos conhecemos –
E é bem nesse ponto, este quadro escuro e mudo, que a ponta do Foguete, caindo a um quilômetro e meio por segundo, absoluta e eternamente sem som, alcança seu último imensurável intervalo acima do telhado deste velho cinema, o último delta-t.
Há tempo, se este conforto lhe parece necessário, de tocar a pessoa a seu lado, ou de pôr a mão entre as suas próprias pernas frias... ou, se é preciso cantar, eis uma canção que Eles jamais ensinaram a ninguém, um hino de William Slothrop, há séculos esquecido e jamais reeditado, para ser cantado com a melodia simples e agradável de uma ária da época. Acompanhe a bolinha:
É a Mão que faz o tempo andar,
Ainda que em tua Ampulheta se esvaia a areia,
‘Té que a luz que abateu as Torres altas
Chegue à Alma Preterida derradeira...
‘Té que os Viandantes durmam à beira
De toda vida desta Zona estropiada
Com um rosto em cada encosta de monte,
E uma Alma em cada pedra da estrada...
Agora todo mundo – "
___________________
Sua vez! Veja o resto do Top e contribua, dizendo quais os finais mais marcantes para você.
.
Mostrando postagens com marcador Grandes Desfechos de Livros. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Grandes Desfechos de Livros. Mostrar todas as postagens
segunda-feira, 2 de março de 2009
segunda-feira, 23 de fevereiro de 2009
Grandes Desfechos de Livros 4 (de 5)
.
Se ficaram incomodados com o final-que-se-recusa-a-sê-lo de Finnegans Wake, certamente o desfecho de O Castelo, de Franz Kafka, há de ser ainda mais assustador. Isso por que esse foi um dos romances que o autor tcheco deixou para a posteridade - na verdade ele não deixou, e sim mandou queimá-los, mas o amigo Max Brod fez questão de contrariá-lo - sem ter terminado. Ainda assim, O Castelo, tal como O Processo, outra de suas obras inacabadas, figura entre as obras-primas do escritor, símbolo de seu estilo, seus temas e suas preocupações.
K. o personagem principal, é um agrimensor que, contratado para trabalhar em um castelo, não consegue sequer entrar lá, ficando à mercê de outros personagens que têm contato com os donos do castelo, e acaba passando o livro todo em uma aldeia próxima. As interpretações do livro são diversas, e não nos aprofundaremos nesse tema. Entretanto, é muito significativo que o livro termine no meio de uma frase, sem que nenhum dos problemas de K. tenha encontrado solução, sem que nenhum resquício de resposta tenha sido deslumbrado. Ironicamente, o romance-inacabado de Kafka é a forma perfeita para os temas que lhe são peculiares, das coisas inescrutáveis, do absurdo, da escuridão além. Por mais que, no fim da vida, Kafka não quisesse, de forma alguma, entregar ao mundo uma obra inacabada, essa "falha" suposta acaba sendo uma das características mais marcantes da obra, um desfecho infinitamente misterioso, infinitamente perturbador, e infinitamente simbólico de tudo o que Kafka explorou.
__________________
O Castelo, de Franz Kafka. Tradução de Modesto Carone.
“A sala na cabana de Gerstacker estava iluminada fracamente só pela chama do fogão e por um toco de vela, sob cuja luz alguém, inclinado num nicho debaixo das traves do teto, que ali se projetavam oblíquas, lia um livro. Era a mãe de Gerstacker. Ela estendeu a K. a mão trêmula e o mandou sentar-se ao seu lado; falava com esforço, era preciso se esforçar para entendê-la, mas o que ela disse”
___________________
Para ver o resto do Top, clique aqui.
.
Se ficaram incomodados com o final-que-se-recusa-a-sê-lo de Finnegans Wake, certamente o desfecho de O Castelo, de Franz Kafka, há de ser ainda mais assustador. Isso por que esse foi um dos romances que o autor tcheco deixou para a posteridade - na verdade ele não deixou, e sim mandou queimá-los, mas o amigo Max Brod fez questão de contrariá-lo - sem ter terminado. Ainda assim, O Castelo, tal como O Processo, outra de suas obras inacabadas, figura entre as obras-primas do escritor, símbolo de seu estilo, seus temas e suas preocupações.
K. o personagem principal, é um agrimensor que, contratado para trabalhar em um castelo, não consegue sequer entrar lá, ficando à mercê de outros personagens que têm contato com os donos do castelo, e acaba passando o livro todo em uma aldeia próxima. As interpretações do livro são diversas, e não nos aprofundaremos nesse tema. Entretanto, é muito significativo que o livro termine no meio de uma frase, sem que nenhum dos problemas de K. tenha encontrado solução, sem que nenhum resquício de resposta tenha sido deslumbrado. Ironicamente, o romance-inacabado de Kafka é a forma perfeita para os temas que lhe são peculiares, das coisas inescrutáveis, do absurdo, da escuridão além. Por mais que, no fim da vida, Kafka não quisesse, de forma alguma, entregar ao mundo uma obra inacabada, essa "falha" suposta acaba sendo uma das características mais marcantes da obra, um desfecho infinitamente misterioso, infinitamente perturbador, e infinitamente simbólico de tudo o que Kafka explorou.
__________________
O Castelo, de Franz Kafka. Tradução de Modesto Carone.
“A sala na cabana de Gerstacker estava iluminada fracamente só pela chama do fogão e por um toco de vela, sob cuja luz alguém, inclinado num nicho debaixo das traves do teto, que ali se projetavam oblíquas, lia um livro. Era a mãe de Gerstacker. Ela estendeu a K. a mão trêmula e o mandou sentar-se ao seu lado; falava com esforço, era preciso se esforçar para entendê-la, mas o que ela disse”
___________________
Para ver o resto do Top, clique aqui.
.
Marcadores:
Franz Kafka,
Grandes Desfechos de Livros,
Listas,
Livros,
Trechos
segunda-feira, 16 de fevereiro de 2009
Grandes Desfechos de Livros 3 (de 5)
.
Na primeira semana dos Grandes Desfechos de Livros, vimos uma final que concluía, que recapitulava a narrativa e então a levava a um fecho. Na segunda semana, vimos um final que desaguava no começo, um final que se recusa a sê-lo, o final irremediavelmente ligado ao princípio. Agora, na terceira semana, o final que aparece na lista é de um outro gênero: é um final que responde.
Sem dúvida, ele tem algumas semelhanças estruturais com o final de O Barão nas Árvores, visto que também faz uma espécie de recapitulação. Entretanto, o que temos no final de Grande Sertão: Veredas, este que é o Grande Romance Brasileiro, inegavelmente a obra que mais longe foi em suas pretensões (cumpriu todas, é bom dizer) e abrangência, são palavras gigantescas, que a despeito do tamanho físico contém significados abrangentes, adquiridos durante a narrativa, e que põe um fecho, ainda que já anunciado, nas divagações e dúvidas de Riobaldo, o narrador-herói que vendeu (ou não) a alma para o Diabo, o Fausto jagunço apaixonado pela dualidade personificada no ser amado, Diadorim.
Nessas últimas palavras, Riobaldo afirma suas crenças e conclusões, dando por fim espaço ao símbolo do infinito, ao infinito da travessia que é a troca entre dois opostos, entre dois mundo. A linguagem mágica de Rosa, os significados profundos que ele sonda e o sentido poético que ele dá ao livro fazem do final de Grande Sertão: Veredas um dos mais emblemáticos de toda a literatura mundial, assim como é emblemática essa obra-prima que merece o reconhecimento.
________________
Grande Sertão: Veredas, de João Guimarães Rosa.
“Cerro. O senhor vê. Contei tudo. Agora estou aqui, quase barranqueiro. Para a velhice vou, com ordem e trabalho. Sei de mim? Cumpro. O Rio de São Francisco – que de tão grande se comparece – parece é um pau grosso, em pé, enorme... Amável o senhor me ouviu, minha idéia confirmou: que o Diabo não existe. Pois não? O senhor é um homem soberano, circunspecto. Amigos somos. Nonada. O diabo não há! É o que eu digo, se for... Existe é homem humano. Travessia.”
___________________
Para ver o resto do Top, clique aqui.
.
Na primeira semana dos Grandes Desfechos de Livros, vimos uma final que concluía, que recapitulava a narrativa e então a levava a um fecho. Na segunda semana, vimos um final que desaguava no começo, um final que se recusa a sê-lo, o final irremediavelmente ligado ao princípio. Agora, na terceira semana, o final que aparece na lista é de um outro gênero: é um final que responde.
Sem dúvida, ele tem algumas semelhanças estruturais com o final de O Barão nas Árvores, visto que também faz uma espécie de recapitulação. Entretanto, o que temos no final de Grande Sertão: Veredas, este que é o Grande Romance Brasileiro, inegavelmente a obra que mais longe foi em suas pretensões (cumpriu todas, é bom dizer) e abrangência, são palavras gigantescas, que a despeito do tamanho físico contém significados abrangentes, adquiridos durante a narrativa, e que põe um fecho, ainda que já anunciado, nas divagações e dúvidas de Riobaldo, o narrador-herói que vendeu (ou não) a alma para o Diabo, o Fausto jagunço apaixonado pela dualidade personificada no ser amado, Diadorim.
Nessas últimas palavras, Riobaldo afirma suas crenças e conclusões, dando por fim espaço ao símbolo do infinito, ao infinito da travessia que é a troca entre dois opostos, entre dois mundo. A linguagem mágica de Rosa, os significados profundos que ele sonda e o sentido poético que ele dá ao livro fazem do final de Grande Sertão: Veredas um dos mais emblemáticos de toda a literatura mundial, assim como é emblemática essa obra-prima que merece o reconhecimento.
________________
Grande Sertão: Veredas, de João Guimarães Rosa.
“Cerro. O senhor vê. Contei tudo. Agora estou aqui, quase barranqueiro. Para a velhice vou, com ordem e trabalho. Sei de mim? Cumpro. O Rio de São Francisco – que de tão grande se comparece – parece é um pau grosso, em pé, enorme... Amável o senhor me ouviu, minha idéia confirmou: que o Diabo não existe. Pois não? O senhor é um homem soberano, circunspecto. Amigos somos. Nonada. O diabo não há! É o que eu digo, se for... Existe é homem humano. Travessia.”
___________________Para ver o resto do Top, clique aqui.
.
Marcadores:
Clássicos da Literatura,
Grandes Desfechos de Livros,
Guimarães Rosa,
Livros
segunda-feira, 9 de fevereiro de 2009
Grandes Desfechos de Livros 2 (de 5)
.
Dando sequência à lista de melhor desfechos de romances, vem hoje o ubíquo Joyce. Ao contrário do final da semana passada, recapitulador e conclusivo, o final de hoje é de uma natureza bem diferente, único, eu diria. Finnegans Wake, como já tratei aqui no blog, é um romance singular, então nada mais adequado que seu final ser singular também.
Acontece que, nesse colossal labirinto ainda por ser desvendado, a última frase de suas linhas é nada menos que o começo da primeira frase do livro. Ou, em outras palavras: a última frase termina na primeira página, e a primeira frase começa na última página. Joyce, assim, dá ao livro um aspecto circular, interminável, perfeitamente adequado às idéias do filósofo Giambattista Vico, das quais Joyce tirou um pouco da estrutura do romance.
Além disso, como é marcante no escritor, que fez isso tanto em Ulisses quanto neste Finnegans Wake, o romance termina numa torrente, um fluxo de consciência feminino, e nesse caso, literalmente um rio caudaloso desaguando no mar. ALP, Anna Lívia Plurabelle, o espírito do Liffey, a consciência feminina do ser humano, do mundo, de todo o universo, flui nas páginas entre nossos dedos, e por fim une suas águas às de seu pai, o mar, desintegrando-se e dando lugar a um novo começo que se personifica em sua filha, e na primeira linha do romance, que volta a fluir, reiniciando o ciclo. De deixar boquiaberto qualquer um não?
No Brasil, o título foi traduzido como Finnicius Revém pelos irmãos Campos, que também traduziram alguns trechos em seu Panaroma de Finnegans Wake. Anos depois, o gaúcho Donaldo Schüler tomaria para si a tarefa de traduzir o livro integralmente, tarefa que executou de forma sublime. Deixo aqui, portanto, as últimas linhas do Finnicius Revém, a "versão brasileira", de Donaldo Schüler, para a odisséia lingüística, simbólica, filosófica e artística de Joyce.
_________________________
Finnegans Wake, de James Joyce. Tradução de Donaldo Schüler.
“Estou de partida. Que amargo fim! Sorrateiramente partirei antes que acordem. Não vão me ver. Nem saber. Nem recordar-me. E é velha e velha é triste e velha é triste e exausta volto a ti, velhegélido pai, velhegélido indômito pai, meu velhegélido indômito, patético pai, até a mara vista da mera forma dele, as miolhas e miolhas dele, monotonando, me ressalgam, me ressacam e me arremesso, meu início, em teus braços. Eisque seelevam! Salvem-me desses tríveis dentes! Dos más uno dos homomentos mais. Só. Avelaval. Minhas folhas derivam de mim. Todas. Só esta me resta. Paro e porto comigo. Pra remembrança de. Lff! Suave esta manhã, tanto, a nossa. Sim. Leva-me contigo, papito, como quando quedos percorremos a feira dos brinquedos! Se eu o visse baixar sobre mim sob suas alvestendidas asas como que vindo de Arkângelos, penso que pensa findaria a seus pés, húmil, dúbil, débil, laudante. Sim, tá em tempo. Cá estamos. Início. Passamos pastagens, basculhem o bosque a. Vvôo! Gaivvota. Gaivvootas. Apelos do pai. Já vvou, pai. Eis o fim. Nós então. Finn, revém! Toma. Serenamente, remememora-me! Té que thausentes. Lps. As chaves a. Cá tens! A via a lenta a leve a leta a long a”
_____________________
Para ver o resto do Top, clique aqui.
.
Dando sequência à lista de melhor desfechos de romances, vem hoje o ubíquo Joyce. Ao contrário do final da semana passada, recapitulador e conclusivo, o final de hoje é de uma natureza bem diferente, único, eu diria. Finnegans Wake, como já tratei aqui no blog, é um romance singular, então nada mais adequado que seu final ser singular também.
Acontece que, nesse colossal labirinto ainda por ser desvendado, a última frase de suas linhas é nada menos que o começo da primeira frase do livro. Ou, em outras palavras: a última frase termina na primeira página, e a primeira frase começa na última página. Joyce, assim, dá ao livro um aspecto circular, interminável, perfeitamente adequado às idéias do filósofo Giambattista Vico, das quais Joyce tirou um pouco da estrutura do romance.
Além disso, como é marcante no escritor, que fez isso tanto em Ulisses quanto neste Finnegans Wake, o romance termina numa torrente, um fluxo de consciência feminino, e nesse caso, literalmente um rio caudaloso desaguando no mar. ALP, Anna Lívia Plurabelle, o espírito do Liffey, a consciência feminina do ser humano, do mundo, de todo o universo, flui nas páginas entre nossos dedos, e por fim une suas águas às de seu pai, o mar, desintegrando-se e dando lugar a um novo começo que se personifica em sua filha, e na primeira linha do romance, que volta a fluir, reiniciando o ciclo. De deixar boquiaberto qualquer um não?
No Brasil, o título foi traduzido como Finnicius Revém pelos irmãos Campos, que também traduziram alguns trechos em seu Panaroma de Finnegans Wake. Anos depois, o gaúcho Donaldo Schüler tomaria para si a tarefa de traduzir o livro integralmente, tarefa que executou de forma sublime. Deixo aqui, portanto, as últimas linhas do Finnicius Revém, a "versão brasileira", de Donaldo Schüler, para a odisséia lingüística, simbólica, filosófica e artística de Joyce.
_________________________
Finnegans Wake, de James Joyce. Tradução de Donaldo Schüler.
“Estou de partida. Que amargo fim! Sorrateiramente partirei antes que acordem. Não vão me ver. Nem saber. Nem recordar-me. E é velha e velha é triste e velha é triste e exausta volto a ti, velhegélido pai, velhegélido indômito pai, meu velhegélido indômito, patético pai, até a mara vista da mera forma dele, as miolhas e miolhas dele, monotonando, me ressalgam, me ressacam e me arremesso, meu início, em teus braços. Eisque seelevam! Salvem-me desses tríveis dentes! Dos más uno dos homomentos mais. Só. Avelaval. Minhas folhas derivam de mim. Todas. Só esta me resta. Paro e porto comigo. Pra remembrança de. Lff! Suave esta manhã, tanto, a nossa. Sim. Leva-me contigo, papito, como quando quedos percorremos a feira dos brinquedos! Se eu o visse baixar sobre mim sob suas alvestendidas asas como que vindo de Arkângelos, penso que pensa findaria a seus pés, húmil, dúbil, débil, laudante. Sim, tá em tempo. Cá estamos. Início. Passamos pastagens, basculhem o bosque a. Vvôo! Gaivvota. Gaivvootas. Apelos do pai. Já vvou, pai. Eis o fim. Nós então. Finn, revém! Toma. Serenamente, remememora-me! Té que thausentes. Lps. As chaves a. Cá tens! A via a lenta a leve a leta a long a”
_____________________
Para ver o resto do Top, clique aqui.
.
Marcadores:
Grandes Desfechos de Livros,
James Joyce,
Listas,
Trechos
segunda-feira, 2 de fevereiro de 2009
Grandes Desfechos de Livros 1 (de 5)
.
Em Novembro passado, fiz um top semanal com cinco dos Inícios de Livros que eu mais gostava. Agora, tomo o lado oposto, fazendo uma lista com cinco dos melhores finais de livros (romances) para mim. Com certeza, colocar o final de um livro em uma lista é bem diferente de colocar o começo, mas eu adoro desfechos de livros e acredito que, tendo um destino como os que eu colocarei nesse top, a viagem torna-se ainda mais agradável. E além do mais, não é um último parágrafo que vai estragar nada de uma história.
Para começar a lista, um final clássico, do tipo conclusivo. Um dos livros da trilogia Os nossos antepassados, O Barão nas Árvores, que já foi analisado por esse blog, tem um enredo interessante: o barão Cosme Chuvasco de Rondó, após discutir com a família, sobe em uma árvore e de lá não desce nunca mais - mesmo. Entremeando o livro, narrado pelo irmão de Cosme, há várias passagens digressivas, sobre as florestas, as pessoas, o estado antigo das coisas...
É uma característica comum da trilogia de Italo Calvino: gente que presenciou de perto os acontecimentos narrados lembrando e contando algo que faz parte de sua própria história, embora os narradores não sejam os personagens principais. É uma trilogia que, embora engraçada, divertida e aventuresca, é sobretudo melancólica, um painel pitoresco e delicado de uma Europa durante a Idade Média até o fim do século XVIII, uma Europa que se perdeu. Assim, nada mais adequado para encerrar um livro (ou a trilogia) do que um parágrafo como o que posto a seguir.
_______________________
O Barão nas Árvores, de Italo Calvino. Tradução de Nilson Moulin.
“Penúmbria não existe mais. Olhando para o céu vazio, pergunto-me se terá existido algum dia. Aquele recorte de galhos e folhas, bifurcações, copas, miúdo e sem fim, e o céu apenas em clarões irregulares e retalhos, talvez existisse só porque ali passava meu irmão com seu leve passo de abelheiro, era um bordado feito no nada que se assemelha a esse fio de tinta, que deixei escorrer por páginas e páginas, cheio de riscos, de indecisões, de borrões nervosos, de manchas, de lacunas, que por vezes se debulha em grandes pevides claros, por vezes se adensa em sinais minúsculos como sementes puntiformes, ora se contorce sobre si mesmo, ora se bifurca, ora une montes de frases com contornos de folhas ou de nuvens, e depois se interrompe, e depois recomeça a recontorcer-se, e corre e corre e floresce e envolve um último cacho insensato de palavras idéias sonhos e acaba.”
_______________________
Para ver o resto do Top, clique aqui.
.
Em Novembro passado, fiz um top semanal com cinco dos Inícios de Livros que eu mais gostava. Agora, tomo o lado oposto, fazendo uma lista com cinco dos melhores finais de livros (romances) para mim. Com certeza, colocar o final de um livro em uma lista é bem diferente de colocar o começo, mas eu adoro desfechos de livros e acredito que, tendo um destino como os que eu colocarei nesse top, a viagem torna-se ainda mais agradável. E além do mais, não é um último parágrafo que vai estragar nada de uma história.
Para começar a lista, um final clássico, do tipo conclusivo. Um dos livros da trilogia Os nossos antepassados, O Barão nas Árvores, que já foi analisado por esse blog, tem um enredo interessante: o barão Cosme Chuvasco de Rondó, após discutir com a família, sobe em uma árvore e de lá não desce nunca mais - mesmo. Entremeando o livro, narrado pelo irmão de Cosme, há várias passagens digressivas, sobre as florestas, as pessoas, o estado antigo das coisas...
É uma característica comum da trilogia de Italo Calvino: gente que presenciou de perto os acontecimentos narrados lembrando e contando algo que faz parte de sua própria história, embora os narradores não sejam os personagens principais. É uma trilogia que, embora engraçada, divertida e aventuresca, é sobretudo melancólica, um painel pitoresco e delicado de uma Europa durante a Idade Média até o fim do século XVIII, uma Europa que se perdeu. Assim, nada mais adequado para encerrar um livro (ou a trilogia) do que um parágrafo como o que posto a seguir.
_______________________
O Barão nas Árvores, de Italo Calvino. Tradução de Nilson Moulin.
“Penúmbria não existe mais. Olhando para o céu vazio, pergunto-me se terá existido algum dia. Aquele recorte de galhos e folhas, bifurcações, copas, miúdo e sem fim, e o céu apenas em clarões irregulares e retalhos, talvez existisse só porque ali passava meu irmão com seu leve passo de abelheiro, era um bordado feito no nada que se assemelha a esse fio de tinta, que deixei escorrer por páginas e páginas, cheio de riscos, de indecisões, de borrões nervosos, de manchas, de lacunas, que por vezes se debulha em grandes pevides claros, por vezes se adensa em sinais minúsculos como sementes puntiformes, ora se contorce sobre si mesmo, ora se bifurca, ora une montes de frases com contornos de folhas ou de nuvens, e depois se interrompe, e depois recomeça a recontorcer-se, e corre e corre e floresce e envolve um último cacho insensato de palavras idéias sonhos e acaba.”
_______________________
Para ver o resto do Top, clique aqui.
.
Marcadores:
Grandes Desfechos de Livros,
Italo Calvino,
Listas,
Trechos
Assinar:
Postagens (Atom)


