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segunda-feira, 8 de dezembro de 2008

Grandes Inícios de Livros 5 (de 5)

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Para terminar essa série com grandes inícios de livros (meus preferidos), um tesouro nacional. Aproveitando que comemoramos esse ano o centenário do grande Machado de Assis, que este está sendo constantemente lembrado e que amanhã, 9 de Dezembro, estréia a minissérie Capitu, de Luiz Fernando Carvalho, baseada no ilustre Dom Casmurro, o último (ao menos por enquanto) grande início de livro é também o grande início da carreira de romancista genial de Machado.

Embora já tivesse escrito outros romances, eram todos românticos e, no contexto de sua obra, menores. Foi somente com Memórias Póstumas de Brás Cubas que Joaquim Maria alcançou o tom e o estilo que o consagrariam: realista, irônico, metalingüístico, digressivo. Desde o início, o romance já mostra a que veio: é um livro de memórias, mas contado do além-túmulo, e ainda se dá ao luxo de fazer comparações sobre "si próprio" num tom adoravelmente casual.

Para quem acha que o Brasil não foi a pátria de nenhum grande gênio, indispensável.
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Memórias Póstumas de Brás Cubas, de Machado de Assis.

“Algum tempo hesitei se devia abrir estas memórias pelo princípio ou pelo fim, isto é, se poria em primeiro lugar o meu nascimento ou a minha morte. Suposto o uso vulgar seja começar pelo nascimento, duas considerações me levaram a adotar diferente método: a primeira é que eu não sou propriamente um autor defunto, mas um defunto autor, para quem a campa foi outro berço; a segunda é que o escrito ficaria assim mais galante e mais novo. Moisés, que também contou a sua morte, não a pôs no intróito, mas no cabo; diferença radical entre este livro e o Pentateuco.”
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segunda-feira, 1 de dezembro de 2008

Grandes Inícios de Livros 4 (de 5)

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Um início perfeito para um livro sem fim. O Homem Sem Qualidades, obra prima inacabada do alemão Robert Musil, é apresentada num tom delicioso, uma mistura um pouco irônica do positivismo do fim do século XIX/começo do XX, das correntes ideológicas nacionalistas que se fortaleciam e do estilo literário do autor.

O capítulo I, "Do qual singularmente nada se depreende", é exatamente assim: uma apresentação rigorosa e divertida do que virá pela frente. Descrevendo de uma forma original e completa as condições do dia em que a narrativa começa, Musil nos brinda com uma parágrafo nada menos que extraordinário.
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Um Homem Sem Qualidades, de Robert Musil. Tradução de Lya Luft e Carlos Abbenseth.

"I - Do qual singularmente nada se depreende

Uma pressão barométrica mínima pairava sobre o Atlântico; dirigia-se para leste, rumo à pressão máxima instalada sobre a Rússia, e ainda não mostrava tendencia de se desviar dela para o norte. As isotermas e isóteras cumpriam suas funções. A temperatura do ar estava numa relação correta com a temperatura média do ano, a do mês mais frio e a do mês mais quente e a oscilação aperiódica mensal. O nascer e o pôr do Sol e da Lua, a variação do brilho da Lua, de Vênus, do anel de Saturno, e outros fenômenos importantes transcorriam segundo as previsões dos anuários de astronomia. O vapor d'água no ar estava na fase de maior distensão, a umidade era baixa. Numa frase que, embora antiquada, descreve bem as condições: era um belo dia de agosto de 1913."
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segunda-feira, 24 de novembro de 2008

Grandes Inícios de Livros 3 (de 5)

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Quaisquer que sejam as crenças e convicções de alguém, a Bíblia tem para essa pessoa ao menos um valor: o literário. Seja você ateu ou crente, panteísta ou monoteísta, a Bíblia (e os livros sagrados em geral) possui grande valor pelo menos enquanto literatura.

No meu caso, sou apaixonado pelo Eclesiastes, um dos livros poéticos e sapienciais da Bíblia. Nesse livro, atribuído a Salomão, há uma belíssima e valorosa reflexão sobre o valor da vida, do conhecimento, e das coisas que fazemos aqui no mundo.

Vou colocar somente o primeiro capítulo, mas recomendo a leitura do livro inteiro que, por sinal, é bem curto. Espero que mesmo aqueles que não tem nunhuma proximidade com a fé judaico-cristã possam identificar o valor desse livro e aproveitar o que ele oferece.
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Bíblia - Tradução Ecumênica - Eclesiastes, 1

"1. Palavras do Eclesisastes, filho de David, rei em Jerusalém
2. Vaidade das vaidades, diz o Eclesiastes, vaidade das vaidades, tudo é vaidade.
3. Que proveito tira o homem de todos os trabalhos com que se afadiga sob o sol?
4. Uma geração passa, outra vem, e a terra permanece sempre.
5. O sol se levanta, o sol se põe, procurando o lugar de onde se erguerá de novo.
6. O vento vai para o sul e vira para o norte, gira, gira e vai embora, sempre retoma o seu curso, o vento.
7. Os rios todos correm para o mar e o mar nunca fica cheio; para o lugar onde correm os rios, para lá retornam.
8. Todas as palavras estão gastas, não se consegue mais dizê-las; o olho não se sacia do que vê, o ouvido não se enche do que ouve.
9. O que foi é o que será, o que se fez é o que se fará: nada de novo sob o sol!
10. Se algo existe de que se possa dizer: "Vede, isto é novo!", - já existe desde os séculos que houve antes de nós.
11. Dos tempos antigos não resta lembrança, e quanto aos frutos que virão, também deles não restará lembrança para os que vierem depois.
12. Eu, o Eclesiastes, fui rei sobre Israel, em Jerusalém.
13. Tomei a peito investigar e sondar, mediante a sabedoria, tudo o que se faz sob o sol. Tarefa ingrata essa, que Deus entregou aos filhos de Adão, para nela se aplicarem.
14. Vi todas as obras que se fazem sob o sol: pois bem, é tudo vaidade e perseguir vento.
15. O que está torto não se pode endireitar, o que falta não pode ser calculado.
16. Eu disse a mim mesmo: "Eis que fiz crescer e progredir a sabedoria mais que todos os que, antes de mim, reinaram sobre Jerusalém". Experimentei muita sabedoria e ciência,
17. apliquei o coração a conhecer a sabedoria, e a conhecer os desvarios e as loucuras, e concluí que isso também é perseguir vento.
18. Pois em muita sabedoria há muita aflição; quem aumenta o saber aumenta a dor."

Outra tradução: Bíblia Ave Maria
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segunda-feira, 17 de novembro de 2008

Grandes Inícios de Livros 2 (de 5)

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Continuando a lista dos inícios de livros que eu mais gosto, falo hoje sobre um livro do qual já falei aqui, na primeira resenha de livro publicada por esse blog. Trata-se de Um Retrato do Artista Quando Jovem, primeira obra-prima do irlandês James Joyce.

Esse parágrafo inicial é um símbolo da obra de Joyce: traz coisas clássicas/do passado e as rearranja de uma maneira incrivelmente moderna e à frente de seu tempo, por um lado, e é um tipo de fluxo de consciência, por outro. O parágrafo prenuncia, também, todo o estilo narrativo do livro: ao usar uma sintaxe de pensamento infantil, Joyce representa perfeitamente a consciência de uma criança. E essa sintaxe, durante o livro, irá mudar, evoluir, para representar as diferentes fases da consciência do personagem principal, matéria básica e essencial para um romance de formação como o que o Retrato é.

Enjoy.
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Um Retrato do Artista Quando Jovem, de James Joyce. Tradução de Bernardina da Silveira Pinheiro.

"Era uma vez e uma vez muito bonita mesmo uma vaquinha-mu que vinha andando pela estrada e a vaquinha-mu que vinha andando pela estrada encontrou um garotinho engrachadinho chamado bebê tico-taco.

Seu pai lhe contava aquela história: seu pai olhava para ele através dos óculos; ele tinha um rosto peludo."
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segunda-feira, 10 de novembro de 2008

Grandes Inícios de Livros 1 (de 5)

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A partir de hoje, postarei trechos iniciais de livros (pode ser uma frase, um parágrafo, ou mais) dos quais gosto muito. A idéia é, depois disso, fazer também uma reunião com os melhores desfechos. Os trechos serão postados um por semana, às segundas, sempre com uma informação sobre o livro do qual foi retirado.

Hoje, começamos com o primeiro capítulo (bem curto, por sinal) de Lolita, obra-prima de Vladimir Nabokov, da qual já tratei aqui. Nabokov foi um mestre do estilo, e, mesmo sendo russo, aprendeu o inglês e tornou-se um dos maiores estilistas da língua, estando no mesmo nível de muitos estilistas clássicos e legitimamente ingleses.

Obviamente, e ainda mais com livros muito calcados no estilo, muito se perde na tradução. Contudo, não postarei os trechos originais aqui, para manter a lista mais acessível. Só que é fácil de achar na internet o texto original, então procurem. E nesse caso, especialmente, temos a sorte de contar com um tradutor como Jorio Dauster para Nabokov, um verdadeiro artista da transcriação.

Aproveitem, então, o trecho, e, também peço, procurem ler o romance todo. É espetacular!
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Lolita, de Vladimir Nabokov. Tradução de Jorio Dauster. Parte 1, Capítulo 1:

“Lolita, luz de minha vida, labareda em minha carne. Minha alma, minha lama. Lo-li-ta: a ponta da língua descendo em três saltos pelo céu da boca para tropeçar de leve, no terceiro, contra os dentes. Lo. Li. Ta.

Pela manhã ela era Lô, não mais que Lô, com seu metro e quarenta e sete de altura e calçando uma única meia soquete. Era Lola ao vestir os jeans desbotados. Era Dolly na escola. Era Dolores sobre a linha pontilhada. Mas em meus braços sempre foi Lolita.


Será que teve uma precursora? Sim, de fato teve. Na verdade, talvez jamais teria existido uma Lolita se, em certo verão, eu não houvesse amado uma menina primordial. Num principado à beira-mar. Quando foi isso? Cerca de tantos anos antes de Lolita haver nascido quantos eu tinha naquele verão. Ninguém melhor que um assassino para exibir um estilo floreado.


Senhoras e senhores membros do júri, o item número um da acusação é aquilo que invejavam os serafins –os desinformados e simplórios serafins de nobres asas. Vejam este emaranhado de espinhos.”

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