sexta-feira, 13 de fevereiro de 2009

Citação de Sexta: Ambigüidades covalentes


“Na última terça parte de sua vida, Laszlo Jamf adquiriu – era a impressão que tinham os que, nas arquibancadas de madeira do anfiteatro, viam suas pálpebras pouco a pouco tornar-se granulosas, manchas e rugas estampar-se em sua imagem, desintegrando-a em direção à velhice – uma hostilidade, um estranho ódio pessoal dirigido à ligação covalente. A convicção de que, para que a síntese tivesse futuro, era necessário aperfeiçoar – alguns alunos chegavam a entender que o sentido era “transcender” – a ligação. Para Jamf, a idéia de que uma coisa tão mutável, tão frágil, quanto um compartilhamento de elétrons constituía o âmago da vida, da sua vida, parecia uma humilhação cósmica. Compartilhar? Era tão mais forte, tão mais duradoura, a ligação iônica – em que os elétrons não são compartilhados e sim capturados. Tomados! – e aprisionados! polarizados, positivos ou negativos, esses átomos, sem ambigüidades... como ele amava aquela clareza: sua estabilidade, sua teimosia mineral!”

- Thomas Pynchon, O Arco-Íris da Gravidade
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quinta-feira, 12 de fevereiro de 2009

Pílulas Cinematográficas, Edição 13: Especial Orson Welles

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Na véspera de uma sexta-feira 13, a décima terceira edição das Pílulas! Hoje, mais uma edição especial, dessa vez com os filmes de um diretor único: Orson Welles. Welles é uma figura estranha. Seu primeiro filme é o melhor de todos os tempos por excelência, e o segundo poderia ter chegado lá, não fosse a interferência do estúdio. Ele tem ainda, em sua filmografia, ao menos duas obras-primas do cinema noir, duas obras-primas baseadas em Shakespeare, e uma obra-prima expressionista. Entretanto, o diretor nem sempre é lembrado como um dos maiores de todos os tempos, o que de fato é. De qualquer forma, com esta edição das pílulas presto pela primeira vez tributo ao gênio de Welles, que, indiscutivelmente, transformou o cinema que veio depois dele.
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Cidadão Kane (Citizen Kane, 1941): Nove em cada dez listas de melhores de todos os tempos o colocam no topo, e a razão disso é bem simples: nunca um filme inovou tanto. Aproveitando-se de sua experiência no rádio e no teatro, Welles imprimiu no filme inovações na edição do som, utilizando-o para marcar a transição de uma cena para a outra. Além disso, inovou também nos ângulos de câmera, na montagem e, sobretudo, na narrativa. Ao contar a história da vida de Charles Foster Kane (corajosamente inspirada em um personagem real – William Randolph Hearst), Welles não poupou flashbacks nem a platéia, exigindo dela menos passividade e mais cérebro para acompanhar o que se desenrola na tela. Acumulando as funções de diretor, produtor, ator e co-roteirista, Welles realizou todas com perfeição, entregando ao público uma obra perfeitamente engendrada, infinitamente original e, cada vez mais, mítica.
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A Dama de Xangai (The Lady from Shanghai, 1948): A primeira obra-prima noir de Welles foi um fracasso retumbante, mas afinal, as bilheterias nunca foram mesmo muito amigas dele. Aqui, pela primeira vez, Welles investiga a fundo as crueldades da alma humana, e o faz em grande estilo. Rita Hayworth, linda e loira, interpreta uma femme fatale misteriosa, inescrutável, que envolve Michael, o personagem de Welles, em uma intrincadíssima trama de traição e suspeita. Com habilidade, Welles revela o aspecto "tubarão" do ser humano, sem no entanto deixar de investigar os motivos e mecanismos que levam as pessoas a agirem como bestas ouriçadas pelo sangue dos iguais. No final, ainda somos presenteados com uma cena emblemática, cheia de significado e beleza.
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A Marca da Maldade (Touch of Evil, 1958): Dez anos depois, Welles volta ao noir e aos recôncavos escuros do ser humano (metafisicamente falando, por favor). Mas dessa vez ele está ainda mais sombrio. Num memorável plano-sequência, ele inicia o filme apresentando-nos várias informações importantes que terão seu reflexo durante a narrativa. A partir desse ponto, personagens apresentados, ele se aprofundará neles, exercendo seu talento quase incomparável de sondar o caráter e as motivações dos personagens utilizando-se da linguagem cinematográfica. Nesse filme já parece haver uma guinada em seu discurso sobre as ações humanas, ao introduzir as instituições e mecanismos sociais como símbolos da corrupção, e os seres humanos como meros peões que, embora possam, sim, fazer as tais escolhas, às vezes simplesmente estão no lugar errado, na hora errada, fazendo a pior coisa possível...
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O Processo (The Trial, 1962): Adaptação do romance de Fraz Kafka, O Processo é uma obra expressionista condizente com o livro do autor tcheco. Anthony Perkins, o Norman Bates de Psicose, interpreta Josef K., que certamente foi caluniado por alguém, visto que certa manhã o prendem, sem que tenha feito qualquer mal. De uma hora para a outra, K. é introduzido no mundo da Lei e dos tribunais, e conhece personagens típicos desse mundo. Em momento algum ele descobre de que é acusado, e mal tem direito de defesa. O romance de Kafka permaneceu inacabado, mas o escritor chegou a escrever um capítulo que poderia ser o último do livro, com K. sendo executado por dois oficiais da polícia a facadas, “como um cachorro!”. Welles optou por alterar um pouco esse final, mantendo K. desafiador até o último segundo. No filme, os policiais não têm coragem de esfaqueá-lo, e acabam sendo alvos da pilhéria de K.. Por fim, eles jogam uma dinamite no buraco em que o homem estava e o explodem. Welles justificou essa adaptação como uma atualização do romance para depois do Holocausto, mas o fato é que o filme é uma visão pessoal do diretor sobre a obra de Kafka. Extremamente claustrofóbico e escuro, o filme é visualmente impactante, e memorável. A interpretação de Perkins é fabulosa, e o clima que Welles impõe ao filme é exato. Ver a obra como uma alegoria contra a Lei e o sistema penal é reduzi-la, embora sem dúvida ela passe por isso. O mais correto (e impactante) é absorvê-la como se fosse a própria escuridão que ela tange, e entender que lá se esconde toda a culpa, a da alma, a do corpo, a do ser humano, do cidadão, do inocente...
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quarta-feira, 11 de fevereiro de 2009

A Roda #10 - Panorama do Vale de Legium, parte 5


por Lobato Légio

- Ontem fará trinta anos que eu não terei visto meu pai.

- Tudo isso? Meu amigo, não lembrava que já fazia tanto tempo.

- A última vez que encarei aqueles olhos foi há trinta longos anos. Nunca os havia penetrado tão profundamente, mas no último momento mergulhei neles e quando saí já estava a uma grande distância do homem que me criou.

- Também me lembro disso, de estar ao seu lado antes de você sair para encontrá-lo, de te encorajar a ser franco sobre seus sentimentos.

- Não há meio de agradecê-lo por isso, foi a melhor coisa que eu poderia ter feito, mas foi o suficiente somente para diminuir a dor, não para acabar com ela.

- A dor... ainda hoje você a sente não?

- Hoje, propriamente, não sei, mas a sinto em ciclos que se repetem pelos meus anos. Não se pode pensar na dor em termos científicos, claros. Ela não diminui nem aumenta com o tempo, ela é um movimento constante, repetitivo. Após a partida de meu pai, ela foi crescendo, e depois diminuiu, e desde então assim se repete seu movimento, picos que surgem, arrasadores, cercados por todos os lados de sentimentos mais amenos... Tranqüilidade e boa nostalgia pontuadas por instantes excruciantes, breves no tempo contado mas imensos nas horas que passam dentro de mim.

- É como se de repente o tempo mudasse e você se visse de volta ao instante chave, ao momento da ruptura, e toda a dor daquele fato caísse de novo sobre você.

- Mas é isso mesmo, exatamente isso... como sabe?

- Meu amigo, você entende. Todos nós já vivemos isso.

- Sim, como não saber? É uma verdade tão universal, tão agarrada em nossa pobre alma estropiada.

- É uma verdade do tempo e da memória, e do sangue e das lágrimas, e dos sinais elétricos que se repetem em nossos corpos, reforçando a mesma mensagem, criando fantasmas na nossa carne...

- Como eu gostaria de poder ter evitado tudo o que aconteceu, de ter percebido antes o rumo que as coisas estavam tomando, de ter enxergado a tempo a que fim meus atos levariam...

- Você não pôde, amigo, nem poderia, de maneira nenhuma. Você pôde reparar os sentimentos, mas não os fatos. Você deixou seu pai em paz, e assim encontrou sua própria paz, mas nunca teria podido mudar o destino que havia escolhido para si.

- O tempo é tão estranho... Nos momentos de dor, quando o aperto surge silencioso e recrudescente, um bolero cruel, eu sinto que estou de novo mergulhando nos olhos do meu pai, e lá dentro eu encontro momentos da minha infância, quando ele vinha quieto me ver brincar, e ficava lá, parado num canto, sorrindo e deixando que as imagens do filho se gravassem em suas retinas, em sua memória. É exatamente como se eu voltasse àquele momento, e enquanto a dor perdura, vivo uma vida inteira de novo, mas quando a dor termina, nem um minuto se passou.

- O tempo não existe a não ser dentro da gente, a não ser na nossa alma. O único contador de tempo confiável é nossa própria consciência. E ainda assim, esse pedaço da existência, esse movimento indecifrável, o tempo, não tem nada de humano. O tempo é implacável, irredimível, irreversível, e por mais que nos postemos firmes contra ele, acabamos devorados de dentro pra fora, reduzidos sem perdão a uma última camada de pó.

- E no entanto, permanecemos.
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terça-feira, 10 de fevereiro de 2009

A Fonte da Donzela

Inspirado em uma fábula sueca medieval, A Fonte da Donzela traz claros os sinais de sua ascendência, mas ao tempo se encaixa perfeitamente na cinematografia de Ingmar Bergman, ao tratar de seus temas majoritários: a religiosidade e as relações humanas/familiares. A história da virgem que vai à igreja do vilarejo levar velas na sexta-feira santa e é estuprada e morta por pastores que depois encontrarão abrigo na casa de seus pais funciona não só como um drama contundente e arrasador, mas também como uma reflexão, à maneira bergmaniana, sobre violência e vingança.

Trata-se, é bom dizer, de um dos filmes mais acessíveis do diretor. A história é direta, linear e contida em um curto espaço de tempo. Ganhou o Globo de Ouro e o Oscar de melhor filme estrangeiro, além de uma menção especial no Festival de Cannes, mas não é um dos filmes mais adorados pelo diretor. Entretanto, considerando de quem estamos falando, mesmo um filme renegado pode adquirir status de obra magnífica.

As duas protagonistas do longa representam, de certa maneira, embora não em todos os sentidos, posto que o filme não é uma alegoria, as duas forças espirituais que ainda contrastavam na Suécia da Idade Média: o paganismo e o cristianismo. Karin, a donzela do título, é a única filha viva de uma família cristã devota, e recebe muito carinho do pai e da mãe. Embora seja um pouco mimada (e saidinha), é amorosa e boa com todos. Sempre sorrindo, inocente, tem a pele clara, os cabelos louros, e olhos brilhantes. Ingeri, por sua vez, é filha da empregada da casa. Suas aparições são sempre um pouco assombreadas, e ela está sempre suja e com a cara fechada. Pagã, adoradora de Odin, está grávida, de pai desconhecido, e vive amargurada.

Quando Karin é mandada pelo pai para levar as velas, leva Ingeri junto, e o decorrer dos acontecimentos revela que as duas não são, afinal, tão diferentes assim. A narrativa é pontuada por situações simbólicas. Ao preparar o pão de Karin para a viagem, Ingeri coloca um sapo dentro, para descontar na outra sua inveja e raiva. Como ela revelará depois, ela desejava, naquele momento, que algo ruim acontecesse a Karin, que ela fosse tomada por algum homem para aprender a não brincar com fogo. Depois, quando já estão no caminho, Ingeri, que sempre se portara como conhecedora de coisas que Karin nem imaginava, fica com medo da floresta escura e deixa a outra prosseguir, sozinha e despreocupada. Karin então é abordada pelos pastores – dois homens e uma criança -, que a levam para tomar um lanche em uma clareira. A tensão começa a aparecer, mas a donzela percebe tudo muito lentamente. Finalmente, ao oferecer mais um pão aos homens, o sapo salta de dentro dele – símbolo da “maldição” de Ingeri-, e Karin é estuprada e morta, enquanto a serva, que se decidira a segui-la até ali, acompanha tudo perplexa e sem ação.

Bergman demonstra, assim, as fraquezas e idiossincrasias de cada uma das moças, e o que suas atitudes provocam, em si mesmas e nos outros. Depois, quando os pastores chegam à casa dos pais de Karin, são muito bem recebidos, embora os pais estejam preocupados com a demora da filha em voltar para casa. Nesse último ato do filme, os protagonistas são o garoto, irmão dos pastores que acompanhou o ato criminoso dos mais velhos em silêncio, e Töre, pai de Karin. Um senta na frente do outro, à mesa, na hora da refeição noturna. O garoto não consegue comer nada e permanece inquieto, enquanto Töre permanece em silêncio sentado em sua cadeira de patriarca. Os fatos se desenrolam e a mãe de Karin acaba por descobrir que os pastores mataram a filha, o que corre para contar ao marido.

Töre, a partir desse instante, revelará o que o atormenta, deixando pouco a pouco seus sentimentos, que até então permaneciam escondidos, serem expressos por seus lábios e por suas ações. Acontece que Töre, a despeito do fervor da mulher, era um homem prático, sem grandes arroubos de fé. Ao saber da morte da filha, no entanto, começa a se desequilibrar, e sua praticidade se converte em desejo de vingança. Com a ajuda de Ingeri, que retornara e permanecia desesperada, culpando a si própria pela morte de Karin, Töre pratica um ritual pagão para ter forças em sua vingança. Invade o salão onde os pastores dormiam, os acorda e apunhala os dois mais velhos, para depois, sem piedade, atirar o mais novo contra a parede e assim matá-lo. Imediatamente depois, ele roga piedade pela primeira vez, e sua mulher abraça o corpo da criança.

Esses são os acontecimentos mais fortes usados para denotar a questão da vingança e do conflito entre cristianismo e paganismo. Töre é cristão, mas quando a praticidade e os sentimentos "exigem" retorna ao paganismo, para executar sua vingança. Depois, ao encontrar o corpo da filha, se prostra de joelhos e questiona a Deus o porquê daquilo estar acontecendo. Mesmo sabendo que era errado, ele matou por vingança, e Deus deixou que ele o fizesse, assim como deixou que os pastores estuprassem e matassem sua filha. Ainda assim, Töre promete que, para reparar seus pecados, construirá com as próprias mãos uma igreja, no exato lugar em que a filha morreu.

Bergman, no entanto, mais uma vez à sua maneira, deixa que algo novo aconteça, após o manifesto de desolação do pai. Ao retirarem o corpo de Karin do chão, começa a jorrar água de onde estava sua cabeça, água que desce até riacho que corre ao lado, e faz alguns se encolherem em adoração, enquanto o fade out engole suas imagens. Bergman, pois, não dá respostas fáceis, mesmo em seu filme mais acessível, nem absolutas. Bondade e crueldade se sobrepõem, amor e ódio. A mesma pessoa é capaz de praticar atos belos e atos maus, e Deus é capaz de deixar que o pior aconteça, assim como de acalentar os corações dilacerados com uma fonte de águas claras. O fato de a fonte ser a última coisa a aparecer no filme o coloca como uma mensagem de esperança, mesmo diante do vazio e da dor, mas, novamente, não existem respostas fáceis, nem absolutas: existe o mundo, e nós seres humanos, e o que fazemos dele, e por fim as conseqüências, sejam elas quais forem.
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segunda-feira, 9 de fevereiro de 2009

Grandes Desfechos de Livros 2 (de 5)

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Dando sequência à lista de melhor desfechos de romances, vem hoje o ubíquo Joyce. Ao contrário do final da semana passada, recapitulador e conclusivo, o final de hoje é de uma natureza bem diferente, único, eu diria. Finnegans Wake, como já tratei aqui no blog, é um romance singular, então nada mais adequado que seu final ser singular também.

Acontece que, nesse colossal labirinto ainda por ser desvendado, a última frase de suas linhas é nada menos que o começo da primeira frase do livro. Ou, em outras palavras: a última frase termina na primeira página, e a primeira frase começa na última página. Joyce, assim, dá ao livro um aspecto circular, interminável, perfeitamente adequado às idéias do filósofo Giambattista Vico, das quais Joyce tirou um pouco da estrutura do romance.

Além disso, como é marcante no escritor, que fez isso tanto em Ulisses quanto neste Finnegans Wake, o romance termina numa torrente, um fluxo de consciência feminino, e nesse caso, literalmente um rio caudaloso desaguando no mar. ALP, Anna Lívia Plurabelle, o espírito do Liffey, a consciência feminina do ser humano, do mundo, de todo o universo, flui nas páginas entre nossos dedos, e por fim une suas águas às de seu pai, o mar, desintegrando-se e dando lugar a um novo começo que se personifica em sua filha, e na primeira linha do romance, que volta a fluir, reiniciando o ciclo. De deixar boquiaberto qualquer um não?

No Brasil, o título foi traduzido como Finnicius Revém pelos irmãos Campos, que também traduziram alguns trechos em seu Panaroma de Finnegans Wake. Anos depois, o gaúcho Donaldo Schüler tomaria para si a tarefa de traduzir o livro integralmente, tarefa que executou de forma sublime. Deixo aqui, portanto, as últimas linhas do Finnicius Revém, a "versão brasileira", de Donaldo Schüler, para a odisséia lingüística, simbólica, filosófica e artística de Joyce.
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Finnegans Wake, de James Joyce. Tradução de Donaldo Schüler.

“Estou de partida. Que amargo fim! Sorrateiramente partirei antes que acordem. Não vão me ver. Nem saber. Nem recordar-me. E é velha e velha é triste e velha é triste e exausta volto a ti, velhegélido pai, velhegélido indômito pai, meu velhegélido indômito, patético pai, até a mara vista da mera forma dele, as miolhas e miolhas dele, monotonando, me ressalgam, me ressacam e me arremesso, meu início, em teus braços. Eisque seelevam! Salvem-me desses tríveis dentes! Dos más uno dos homomentos mais. Só. Avelaval. Minhas folhas derivam de mim. Todas. Só esta me resta. Paro e porto comigo. Pra remembrança de. Lff! Suave esta manhã, tanto, a nossa. Sim. Leva-me contigo, papito, como quando quedos percorremos a feira dos brinquedos! Se eu o visse baixar sobre mim sob suas alvestendidas asas como que vindo de Arkângelos, penso que pensa findaria a seus pés, húmil, dúbil, débil, laudante. Sim, tá em tempo. Cá estamos. Início. Passamos pastagens, basculhem o bosque a. Vvôo! Gaivvota. Gaivvootas. Apelos do pai. Já vvou, pai. Eis o fim. Nós então. Finn, revém! Toma. Serenamente, remememora-me! Té que thausentes. Lps. As chaves a. Cá tens! A via a lenta a leve a leta a long a”
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sexta-feira, 6 de fevereiro de 2009

A Roda #9 - Tratado Universalizante da Xurepa, Prelúdio


por Lobato Légio

Xurepa, jureva, czureta. Xurepa, jureva, czureta. Xurepa, jureva, czureta. Vem, língua-mãe do Universo. Dai-nos palavra, eloqüência e sentido. Pa lavra e Loqüência sem tido. Dainos, palavraeloqüênciasentido.

Doravante a visão da Xurepa em glória, terror e delícia do Universo, a Palavra-Sagrada. As línguas revolvam nas bocas, os palatos tremam e soem, os dentes estalem e as cordas vocais vibrem! Cavalguem as canetas, dancem as penas, os lápis pululem e as teclas batam! Divulguem todos a linguagem que É.

Dita, proferida, proclamada, composta, escrita, desenhada, imaginada, pensada, gritada, cantada seja! Ouçamo-la com os ouvidos, ouçamo-la com a mente, ouçamo-la com o coração, ouçamo-la com a Alma! Eis a Idéia, eis a História, eis a Língua!

Xurepa que Fala, conceda-nos ouvir-te.
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quinta-feira, 5 de fevereiro de 2009

Entre Dois Amores

A África é, provavelmente, o maior “problema” que a civilização globalizada tem em mãos. Esse continente destroçado – em primeiro lugar pela colonização e escravidão impostas pela Europa durante cinco séculos, e depois por todos os males decorrentes desse processo... miséria, guerra, violência étnica, epidemias... -, ainda que riquíssimo em vários aspectos, precisa de uma solução. Talvez esta seja deixá-los em paz, talvez seja ajudá-los, talvez seja voltar no tempo e desfazer todos os erros que levaram o continente até onde está hoje... espera-se que ela seja descoberta a tempo.

Mas, desde muito tempo, a África foi cenário, personagem ou objeto de muitas obras de arte "ocidentais", desde os romances de Kipling e Verne até filmes como Hotel Ruanda ou Senhor das Armas, extremamente contundentes e críticos sobre a situação da terra que é a origem da humanidade. Algumas obras, porém, são mais sutis, preferindo usar a África como pano de fundo para uma história, mas sem deixar, claro, de fazer algum comentário sobre o que foi feito dela... é o caso de Entre Dois Amores (Out of Africa, no original), filme de Sidney Pollack com Meryl Streep e Robert Redford que venceu o Oscar em 1986 (concorrendo com A Cor Púrpura – que eu acho melhor).

Streep é Karen Blixen, dinamarquesa com algum dinheiro que se casa com Bror Von Blixen, um barão, para receber um título de nobreza. Os dois se mudam então para África, onde pretendem ter uma fazendo de leite. Bror porém logo muda os planos e planta café, o que deixa Karen nervosa a princípio. Apesar das constantes ausências de Bror, que sai para caçar, uma paixão se desenvolve no meio do casamento de conveniência dos dois, até que Karen pega sífilis do marido infiel. Depois desse episódio, a relação dos dois fica estremecida, e Bror acaba se mudando da fazenda e indo morar na cidade. A partir daí, Karen terá uma longa paixão com o aventureiro inglês Denys Finch-Hatton (Redford), ao mesmo tempo que administrará a fazenda e sua relação com os empregados, nativos da tribo dos quicuios. Com o tempo, o idílico equilíbrio que se estabelece entre essas coisas começa pouco a pouco a ceder, e tudo culminará num final trágico que forçará Karen a voltar, mais uma vez solitária, para sua terra, onde se tornará uma renomada escritora...

Essa história é real, e o filme é uma adaptação da biografia da escritora Karen Blixen. Com calma, e muito bem apoiado nas interpretações de seus protagonistas, Pollack constrói um belo melodrama, versando sobre a solidão e sobre como as relações humanas se desenvolvem dentro de um jogo entre liberdades e compromissos individuais. Ao mesmo tempo, sem colocar a África no centro dos acontecimentos, Pollack aproveita para mostrar a postura dos colonizadores em relação ao continente, e como seus desígnios se davam, sendo Karen e Denys, de maneiras diferentes, duas das únicas vozes solitárias que se erguiam para defender os nativos e seus modos de vida. Assim, unindo drama e crítica, o filme nos entrega duas horas e quarenta que, se não passam voando, são muito bem aproveitadas.
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quarta-feira, 4 de fevereiro de 2009

Leituras: Janeiro de 2009

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Em janeiro, li dois livros que disputam um posto muito especial, e ainda vago: o de Grande Romance Americano. Ambos já foram colocados nessa posição, mas nunca houve um consenso sobre qual, dentre os dois e dentre outros, obra merece tal título. Ambos, também, cada um à sua maneira, apresentam inovações e dificuldades em sua leitura, embora, como em qualquer livro, elas possam ser superadas com somente boa vontade e dedicação. As semelhanças entre os dois vão um pouco mais longe, ao menos para os exegetas mais obsessivos, mas paremos por aqui. O importante é que, seja pelos mares do mundo caçando um cachalote branco, seja pela Europa devastada pela Segunda Guerra Mundial, os dois livros, como a Literatura em si, proporcionam viagens inesquecíveis, marcantes, insuperáveis... viagens pela nossa própria alma.

Moby Dick, de Herman Melville

Moby Dick é um romance peculiar. De fato, não é exagero dizer que ele é anacrônico. A metade do século XIX (o livro foi lançado em 1851) não parece adequada para esse livro, não mesmo. Moby Dick é uma obra quase um século à frente de seu tempo, um romance moderno encravado no ápice do romantismo. Certo, a linguagem do livro é romântica o bastante, cheia dos exageros e da imagética típico do estilo. Entretanto, a estrutura e a organização do livro são impressionantemente modernas. Vejamos... O enredo, embora emblemático, é um fiapo: Ismael, o narrador, torna-se amigo do arpoador Quiqueg e embarca no baleeiro Pequod, capitaneado pelo capitão Acab (Ahab no original), cuja perna foi arrancada por Moby Dick, um imenso cachalote branco, e portanto empreende essa viagem para se vingar. Então, o barco vai viajando pelo mundo, encontra vários outros baleeiros, mata algumas baleias, e no final encontra Moby Dick, que com sua fúria o destrói e faz toda a tripulação afundar e morrer, à exceção de Ismael, que escapa do naufrágio e muitos anos depois conta a história da viagem... O livro é uma enorme parábola sobre os impulsos da humanidade, e sobre como a obsessão e os sentimentos de um homem podem sozinhos destruir muitas vidas. Está recheado de metáforas fascinantes, de comentários pertinentes sobre o ser humano, de digressões sobre o significado das coisas. Apropriando-se de um enredo até certo ponto trivial, Melville construiu um Grande Romance, um tratado abrangente da alma humana. E, quanto à forma, ele foi pioneiro. A história em si, como já mostrado, é reduzida, mas ao invés de introduzir enredos paralelos para aumentar o livro, Melville o transformou numa verdadeira enciclopédia sobre as baleias, enchendo-o de digressões a respeito da espécie e da atividade baleeira através dos séculos, entre outras coisas. Apesar do livro ser contado em primeira pessoa, há passagens em que se usa a estrutura de uma peça de teatro, e várias outras em que o pensamento de outros personagens se intromete na narrativa, um verdadeiro fluxo de consciência à moda do século XIX que cria, assim, o novíssimo narrador personagem onisciente. Inovador ao extremo, Melville não foi, é claro, compreendido à sua época. Mas o tempo o colocou em seu devido lugar, o posto de um dos maiores escritores que a América já teve, e um dos grandes entendedores do ser humano.

O Arco-Íris da Gravidade, de Thomas Pynchon

Eles adoram dizer que certos livros são ilegíveis. Segundo o lugar-comum oficial, os livros que se encaixam nessa categoria são vários... Ulisses e Finnegans Wake, de James Joyce, Crítica da Razão Pura, de Imannuel Kant, O Arco-Íris da Gravidade, de Thomas Pynchon... mas espere aí. Se o livro estiver escrito (ou traduzido) em uma língua que o leitor conhece (ou domina), que motivos haverá para que ele não consiga lê-lo? Pois é. O conto da “ilegibilidade” de certos livros é facilmente espalhado por todos os cantos, e todo mundo acredita. A questão poderia ser então “Por quem essa história é espalhada?” – e a resposta entraria facilmente em várias suposições, digamos por aqueles que lêem esses tais livros, para afirmarem sua suposta superioridade intelectual, ou pela editora rival da que imprime os livros ilegíveis, para que ninguém os compre -, mas isso não vem ao caso, agora. O que vem ao caso, ou, em outras palavras, o que é realmente importante é: não, nenhum livro é ilegível. Afinal de contas, independente de quais idéias revolucionárias ele possa trazer em seu entrecho, ou de quão complexas elas sejam, um livro é só um livro, e um livro, como já afirmado no início desse texto, é para ser lido, desde que ele e o leitor compartilhem o mesmo tipo de linguagem. Assim, ler um livro não é, por si só, um ato que deveria gerar algum tipo de respeito (ouviram, intelectuais superiores?), mas também é algo cuja destinação básica é, isso mesmo, ler, e portanto não seria nada mal se todos comprassem livros e os lessem (ouviram, editoras rivais?).

Posto isso, podemos passar à próxima etapa dessa resenha: livros não são ilegíveis, certo, mas eles podem, sim, apresentar dificuldades. É o caso de O Arco-Íris da Gravidade. Esta obra monumental é única na literatura mundial, só pareada, em certos níveis, por outros dos livros do autor, Thomas Pynchon, um americano recluso de quem se sabe relativamente pouco, e que possui poucas fotos conhecidas, todas da época em que era jovem. O livro, passado no final da Segunda Guerra Mundial, um período de aproximadamente nove meses entre o fim de 44 e o meio de 45, conta múltiplas histórias e tem inúmeros plots, mas sua linha principal, pode-se dizer, acompanha (ou tende a perseguir, ou gira em torno de, ou ziguezagueia com, ou explode pra todo lado em) Tyrone Slothrop (anagrama de Sloth or Entropy – Preguiça ou Entropia), tenente americano em missão em Londres. Slothrop, na infância, foi cobaia dos experimentos pavlovianos de um cientista alemão chamado Laszlo Jamf, e condicionado a sentir tesão (no vulgar: ficar de pau duro) ao sentir o cheiro de um plástico especial chamado Imipolex G. Agora, no final da Guerra, quando Foguetes alemães com o composto sintético em suas coberturas estão caindo sobre Londres, ele sente a presença do plástico antes mesmo dos foguetes serem lançados e fica excitado, terminando por fazer sexo nos locais onde, dias ou semanas depois, um foguete vai cair. Intrigado com isso, um cientista que trabalha para o governo o envia para a Europa destruída, e Slothrop, o maior paranóico do Universo, assim como são paranóicos todos os outros personagens, começará sua busca por algo que ele ainda nem sabe ao certo o que é... Ou seria uma fuga d’Eles, que o perseguem por toda parte? Será que ele faz isso por vontade própria, ou continua sendo manipulado por Eles? Será que ele terminará a jornada do herói como começou, O Louco que passa pelos 21 Arcanos Maiores, pelos dez sephirah e retorna ao estado inicial, será que ele transcenderá, ou será que acabara se desintegrando no caminho? Maluco, complicado? Sim, e tem mais, muito mais... O livro mergulha fundo na paranóia, nos sistemas de controle, na Entropia e na inevitabilidade, na tendência de todas as coisas para a morte e a desintegração, assim como na Contraforça de tudo isso, a morte que surge da vida, o preso que se liberta, o amor que aquece as pessoas no frio mais pesado...

O site RinkWorks, que apresenta diversos trabalhos ligados à literatura, tem um resumo muito divertido e apropriado para o livro: “Uma coisa que grita atravessa o céu. É um foguete V-2 carregando cinco toneladas de simbolismo, e está vindo cair bem na sua pobre e iludida cabeça pós-moderna.” Ora, o romance é considerado um ícone do pós-modernismo, e não por menos: o livro está cheio de referências estruturais e culturais aos quadrinhos e ao cinema, e reúne também em suas páginas passagens relativas à química e a física modernas, ao mundo corporativo e político alemão na primeira metade do século XX, às teorias psicológicas/sociológicas de Pavlov e Skinner, aos acontecimentos da SG (Segunda Guerra), especialmente no final, a Rossini, Beethoven e Webern, e, principalmente, ao Foguete V-2, personagem principal e razão de ser do romance, tudo isso desempenhando um papel importante e constante na história. A prosa de Pynchon é densa, às vezes até demais, o que leva o livro a ser, por vezes, um pouco opressivo. Mas é, ao mesmo tempo, um livro extremamente engraçado, um dos mais engraçados que eu já li, cheio de momentos inacreditáveis e hilários, descrições pormenorizadas de fetiches sexuais bizarros, musiquetas engraçadinhas que irrompem no meio de uma cena séria, concepções estranhas do mundo e dos acontecimentos... um verdadeiro romance enciclopédico, com mais de 400 personagens e inúmeros acontecimentos sucedendo-se à toque de caixa, e também uma obra totalmente insana, cheia de fluxos de consciência, idas e vindas no tempo, transições de fatos, alucinações, sonhos e lembranças sem aviso, plots que começam e não dão em nada, pistas falsas emergindo o tempo todo....

É, em suma, uma obra exigente. Teoricamente, todo livro exige uma postura participativa do leitor. No entanto, na maioria dos livros, essa necessidade não é uma premissa básica para o seu acompanhamento, o que leva o leitor (qualquer leitor) a acompanhar o enredo passivamente. Já em Pynchon – O Arco-Íris da Gravidade, pelo menos – o envolvimento do leitor – de seu pensamento – é indispensável para acompanhar o que está acontecendo. Não é, repito, nenhuma tarefa impossível: basta boa vontade, e talvez um computador ligado para eventuais consultas, e uma ou outra anotação, se for necessário, e qualquer um poder ler o livro e compreendê-lo, ao menos superficialmente, a contento. Essa é uma leitura imediata, mas pode ser a única desejada para o leitor. Todo grande romance esconde em suas entranhas segredos que exigem muito estudo, pesquisa e dedicação para serem descobertos, e esses livros cheios de mistérios e enigmas, como O Arco-Íris da Gravidade, são especialmente pródigos em estudos e interpretações. Mas, para acessar alguns deles, há diversas teses – acadêmicas ou não – a respeito do livro, basta procurá-las.

Quem deseja ir além da leitura superficial, entender melhor o que aconteceu e procurar significados ocultos nas páginas deste grande livro vai encontrar um material farto, quiçá interminável. O livro, assim como Ulisses, outro grande romance-pedreira do século, está estruturado sobre uma obra clássica, no caso as Elegias do poeta alemão Rainer Maria Rilke. Além dela, também desempenham papel fundamental no livro o Tarô e a Cabala, fontes simbólicas riquíssimas, das quais Pynchon se apropria muito bem. Se quiserem um exemplo de simbolismos e segredos escondidos no livro, tomemos as iniciais de Slothrop, T.S.: porque não dizer que o anti-herói caminha, durante o livro, pela Terra Desolada que é a Europa no final da SG? Analogia perfeitamente possível e significativa, embora, talvez, um tanto quanto fácil para o nível pynchoneano de confusão, mas nada impede que essa seja só uma camada de significado que o nome – o nome! – do protagonista esconde. Da mesma maneira, diversos outros enigmas se apresentam, surgindo sem aviso, indo embora sem deixar rastros, confundindo e ao mesmo tempo fornecendo um certo prazer por sua existência...

Magistral, belíssimo, cômico, trágico, científico, popular, erudito, vulgar, obsceno, violento, mágico e sublime, O Arco-Íris da Gravidade é uma singularidade, um objeto infinitamente pesado que distorce o espaço e atrai tudo para seu interior, sem misericórdia... uma obra-prima da literatura, e o maior livro escrito na segunda metade do século XX, sem dúvida alguma.
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terça-feira, 3 de fevereiro de 2009

Fale Com Ela

Na arte, o trivial torna-se único, o comum torna-se excepcional, o momento se transforma em eternidade. Às vezes, a única tarefa de uma obra de arte é conceder as condições ideais para um evento corriqueiro e ver o que acontece, mover as cordas de maneira precisa para formar um quadro em que a vida, embora ficcional, flui perfeitamente, e acaba desembocando em nosso coração...

Alguns artistas preferem ser mais frios, outros mais céticos, outros mais realistas, mas nenhum nos toca tanto quanto o que nos toma pela mão e nos vai conduzindo por nossa própria vida, por nossas próprias experiências, transformando-as em nossa memória em obras de arte, assim como é obra de arte aquilo que apreciamos na tela, na página, no palco...

Pedro Almodóvar é um dos principais cineastas a surgir a partir da década de oitenta, e um dos maiores talentos do cinema espanhol em todos os tempos. Em Fale Com Ela, ele dirige uma de suas obras mais emblemáticas, a história de quatro vidas que [insira o barulho da agulha arranhando o disco milhões de vezes tocado do clichê] se cruzam e constroem entre si suas significâncias. Ou mais ou menos isso. Na verdade, temos quatro personagens. Alicia, bailarina, filha de um psicólogo, sofreu um acidente de carro e entrou em estado vegetativo. Benigno, um trintão que por vinte anos cuidou de sua mãe adoentada, sem se relacionar com mais ninguém, sempre observava Alicia na academia de balé da janela de sua casa, e torna-se enfermeiro da moça, por quem nutre uma paixão platônica. Lydia, toureira renomada, está vivendo um momento complicado na vida, após romper um relacionamento com o maior toureiro da Espanha, e acaba se envolvendo com Marco, jornalista apaixonado por música brasileira que saiu de um relacionamento recentemente e se emociona muito fácil. Então, Lydia acaba sendo atingida por um touro e também entra em coma, o que leva esses quatro personagens a se encontrarem na mesma clínica. A partir daí, eles vão começar a se relacionar e coisas vão acontecer...

É impressionante a sutileza com que Almodóvar trata o tema. Esse é o primeiro filme dele que eu vejo, e imagino que seja uma marca sua. A despeito dos aspectos técnicos, que são primorosos (fotografia belíssima, trilha sonora, com participação ao vivo de Caetano Veloso, espetacular, etc.), a maneira com que ele conta sua história é ao mesmo tempo tranqüila e divertida. Sem ser didático, ele vai mostrando os acontecimentos e deixando para nós inferirmos algumas relações entre sentimentos e ações. Como o próprio diretor declarou, o filme é sobre comunicação e solidão, e ele exemplifica isso de maneira tocante e preciosa. Os personagens, mesmo os que cometem as piores asneiras, tornam-se simpáticos aos nossos olhos, nos atraem de alguma maneira. Sem arroubos sentimentais, ele naturalmente deixa que o sentimento tome conta da tela, com passagens sutis mas plenas de amor, de carinho.

Embora seja, por seu enredo, trágico, o filme é, por sua condução, caloroso, gostoso de assistir e ao mesmo tempo fomentador de idéias, de pensamentos novos, de reflexões sobre a vida, o amor, e tudo mais.
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segunda-feira, 2 de fevereiro de 2009

Grandes Desfechos de Livros 1 (de 5)

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Em Novembro passado, fiz um top semanal com cinco dos Inícios de Livros que eu mais gostava. Agora, tomo o lado oposto, fazendo uma lista com cinco dos melhores finais de livros (romances) para mim. Com certeza, colocar o final de um livro em uma lista é bem diferente de colocar o começo, mas eu adoro desfechos de livros e acredito que, tendo um destino como os que eu colocarei nesse top, a viagem torna-se ainda mais agradável. E além do mais, não é um último parágrafo que vai estragar nada de uma história.

Para começar a lista, um final clássico, do tipo conclusivo. Um dos livros da trilogia Os nossos antepassados, O Barão nas Árvores, que já foi analisado por esse blog, tem um enredo interessante: o barão Cosme Chuvasco de Rondó, após discutir com a família, sobe em uma árvore e de lá não desce nunca mais - mesmo. Entremeando o livro, narrado pelo irmão de Cosme, há várias passagens digressivas, sobre as florestas, as pessoas, o estado antigo das coisas...

É uma característica comum da trilogia de Italo Calvino: gente que presenciou de perto os acontecimentos narrados lembrando e contando algo que faz parte de sua própria história, embora os narradores não sejam os personagens principais. É uma trilogia que, embora engraçada, divertida e aventuresca, é sobretudo melancólica, um painel pitoresco e delicado de uma Europa durante a Idade Média até o fim do século XVIII, uma Europa que se perdeu. Assim, nada mais adequado para encerrar um livro (ou a trilogia) do que um parágrafo como o que posto a seguir.
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O Barão nas Árvores, de Italo Calvino. Tradução de Nilson Moulin.

“Penúmbria não existe mais. Olhando para o céu vazio, pergunto-me se terá existido algum dia. Aquele recorte de galhos e folhas, bifurcações, copas, miúdo e sem fim, e o céu apenas em clarões irregulares e retalhos, talvez existisse só porque ali passava meu irmão com seu leve passo de abelheiro, era um bordado feito no nada que se assemelha a esse fio de tinta, que deixei escorrer por páginas e páginas, cheio de riscos, de indecisões, de borrões nervosos, de manchas, de lacunas, que por vezes se debulha em grandes pevides claros, por vezes se adensa em sinais minúsculos como sementes puntiformes, ora se contorce sobre si mesmo, ora se bifurca, ora une montes de frases com contornos de folhas ou de nuvens, e depois se interrompe, e depois recomeça a recontorcer-se, e corre e corre e floresce e envolve um último cacho insensato de palavras idéias sonhos e acaba.”
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