sexta-feira, 16 de janeiro de 2009

Citação de Sexta: [In]san[t]idade


"Assim, a loucura dos seres humanos é o juízo celeste; e, ao se afastar de toda a razão mortal, o homem alcança por fim o pensamento celeste, que, para a razão, é absurdo e louco; e, tanto na prosperidade como na dor, sente-se então sem compromissos, indiferente como o seu Deus."

-Herman Melville, Moby Dick
.

quinta-feira, 15 de janeiro de 2009

Pílulas Cinematográficas, Edição 12

.
Dando um tempo nas pílulas temáticas, essa edição conta com filmes que não tem absolutamente nada a ver um com o outro, tirando o fato de serem ótimos. Um é considerado a melhor comédia de todos os tempos, outro é um pesado drama sobre o Vietnã, e o último é um filme divertidíssimo produzido pelo gênio de Woody Allen.
________________________

Quanto Mais Quente Melhor (Some Like It Hot, Billy Wilder, 1959): Dois músicos desempregados presenciam um massacre e passam a ser perseguidos pela máfia. Para fugirem transvestem-se de mulher e vão para Miami junto a uma big band feminina. No fim, até homossexualismo (nonsense) é sugerido. Tudo isso numa comédia. Feita na década de 1950. Ninguém além do diretor nascido na Polônia Billy Wilder poderia ter feito algo desse tipo. O genial cineasta criou nesse filme a comédia considerada pela AFI a melhor de todos os tempos (ao menos entre os filmes americanos, tem cacife para isso) e, independente de listas ou coisas do gênero, um filme fantasticamente engraçado, além de contar com a sempre encantadora presença de Marilyn Monroe. Cheio de piadas dos mais diversos tipos, Quanto Mais Quente Melhor é uma aula de como fazer comédia sem se render aos clichês vigentes e ainda construir um filme cinematograficamente bem feito e poderoso.
_________________________

O Franco-Atirador (The Deer Hunter, Michael Cimino, 1978): Os dramas em O Franco-Atirador são de pessoas assustadoramente banais. Não há heroísmos, não há crimes, somente desejo, medo e loucura. Os personagens são os americanos típicos dos anos 70: a geração pós-década-de-60 sentindo ainda as novidades do clima liberal mas vivendo sob a sombra do Vietnã. Esse filme é considerado o melhor sobre os traumas que a Guerra deixou na sociedade americana. Os amigos vão para a guerra, vivem seus horrores, mas ao voltar não conseguem viver suas vidas normalmente, situação assustadoramente atual com as dezenas de notícias, reportagens e filmes sobre o estresse pós-traumático do combatentes do Iraque. O Franco-Atirador mostra, com suas imagens limpas e contundentes, que a contagem de mortos de uma guerra é sempre muito maior do que aquela acusada nas estatísticas.

___________________________

Hannah e Suas Irmãs (Hannah and Her Sisters, Woody Allen, 1986): Os filmes de Woody Allen são deliciosos, divertidos e adoráveis. Com simplicidade, humor e humanidade, o diretor transporta todo tipo de vivência e sonho humano para as telas, criando assim obras que são espelho da sociedade e dos seres humanos, que mostram seus defeitos, seus dramas, suas alegrias, sem nunca perder, no entanto, um certo sentimento indefinível de amor à vida. Nada de sair por aí pulando e gritando em transe, dizendo que a vida é maravilhosa. Com Allen, as coisas são mais sutis, mais delicadas. Hannah e Suas Irmãs é o maior exemplo disso: os personagens são cheios de defeitos, por vezes dissimulados, sofrem pra caramba, mas nós nos apaixonamos por eles e no fim as coisas dão certo de um jeito ou de outro. Irresistível e iluminadamente, Allen nos transporta de volta para o nosso mundo.

.

quarta-feira, 14 de janeiro de 2009

A Roda #7 - Panorama do Vale de Legium, parte 4


por Lobato Légio

Inelutável a atração que Ponto provoca nas mentes humanas. Chama, bradando, e as envolve num amplexo poderoso. Muitas coisas evocam o mar, muitas coisas o mar evoca. De um mero momento, água caindo potente sobre a cabeça, respingando nas paredes, nasce uma idéia. É a consciência, que flui, e desemboca no mar.
.
Há um ponto entre os ladrilhos. É uma encruzilhada. Há uma árvore morta. Tombada sobre o caminho que vem do norte. Há morte, no caminho do norte, me diz um corvo. Ele espreita, entre os galhos ressequidos de uma vida passada, hoje só um esqueleto no urzal. É longa a autoestrada. Autoestrada. Eu não tenho uma estrada. Os caminhos se bifurcam, não sei para onde. Qualquer um serve.

Água escorre da parede. O xampu me cega, e seu gosto ruim provoca uma careta. Uma carreta colide com a árvore morta a caminho da horta. O pára-choque entorta. Mais um cadáver.

Alô? – hesito – Preciso conversar.

Sim? – êxito – diga.

Silêncio. Estática. Sem lenço as lágrimas me escorrem ao chão. Elas vêm, em ondas. Eu não sou uma onda. Eu sou o mar. O mar. Imenso. Ordem. Onda. Chuá. Onda. Chuá. A arrebentação faz-me doerem as pontas dos dedos. Eu resisto. Agora é o gosto salgado que me oprime.

Não serei mais aquilo. Serei ira. Das profundezas, e a elas, vem uma voz, que ecoa e destrói as paredes de pedra da enseada. Os grãos de areia suplicam, aterrorizados. Oh não por favor oh não por favor. Rochas imensas caem sobre eles. Rochas pantagruélicas, transubstanciando-se em titãs do tamanho do mundo. Não do tamanho do mar.

Imagem do infinito: o mar. Sem bordas, sem praias, sem um porto seguro onde chegar. Sim, sim! Sou grandessíssimo. Titânico. Colossal. Me ergo e firo a tessitura da terra, para então cair no infinito.

Acordo. Nove nove nove. Seis seis seis. Um dois. Tuu. Tuu. Alô?

Tartamudeando, falo.

O tártaro é o Inferno. Lugar das almas penadas. O lago de fogo eterno. Imagem da eternidade: Cada grão de areia ou gota do oceano, pena dos pássaros ou pêlo dos mamíferos, escama de réptil ou folha das árvores. Cada quark, trinado de gaivota ou manhê. Num monte sem medida. Um pássaro, o corvo do caminho do norte. Vem, a cada giga-ano, levar uma partícula embora. Ao fim do monte, não se passou sequer um segundo da eternidade. Desespero eterno no tártaro.

Mude. Morte e vida cara e coroa começo e fim. Não há diferença. A destruição é a matéria que alimenta as estrelas. Mude. Não há mudança. Somos os mesmos. Somos a esmo. Somos, mesmo que. Mude. Ga-ga-ga.

Andei, andei, andei, andei. Nada nada nada nada encontrei. A estrada que vem do norte está plena de morte. A estrada que vem do oeste nada traz senão o ar marinho. Eu venho de lá? É por isso que almejo esse caminho? Não, não faz diferença. O oeste está fechado, do leste vem a peste, no norte há só morte e o sul é azul. Nenhuma rima ou canção é ouvida pelos lados do pôr-do-sol.

Falo. Não digo. Falo. O dom que recebemos daquele completo, repleto, inexorável, amoroso, divino, ouvidor, rápido Ser. Crescei-vos e multiplicai-vos. Ouvidor. Houve dor. O falo causou a dor. Você é! Eu faço. Ouço um grito, é a dor.

Acordo. Fiz um acordo com ele. Parei de gaguejar e disse: eu sou o mar. Oh não, por favor!
.

terça-feira, 13 de janeiro de 2009

Aguirre, a cólera dos deuses

O cinema de Werner Herzog é um cinema de conflito, o conflito entre o indivíduo e o meio. Seus protagonistas são todos sonhadores, loucos, solitários. Talvez por isso ele goste tanto de filmar em locações e tenha feito tantos filmes com Klaus Kinski, o ator mais desvairado de todos.

Em Aguirre, um de seus filmes mais célebres, Herzog leva sua equipe para a Amazônia a fim de filmar os sonhos e a loucura de um homem que fez tudo para levar adiante seus delírios de grandeza. Dom Lope de Aguirre (Kinski) é um oficial da expedição de Pizarro na América do Sul, empreendida para encontrar El Dorado. Ao se encontrarem isolados na floresta, os exploradores decidem enviar uma equipe rio abaixo para encontrar uma saída. Aguirre é escolhido para ser o segundo em comando, logo após Dom Pedro de Ursua (interpretado pelo cineasta brasileiro Ruy Guerra), e assim eles partem.

Ao longo da jornada, eles serão atacados por índios, abandonarão companheiros à própria sorte, e Aguirre conspirará para tomar o comando e dar à expedição os destinos que lhe parecerem mais apropriados. Por fim, todos acabarão loucos e mortos, e Aguirre terminará o filme solitário e destruído, contudo ainda acreditando que será o imperador do mundo.

Por essas características, pode-se traçar paralelos entre essa obra e o romance Moby Dick (do qual falarei mês que vem). Em ambas, um homem move um grupo de pessoas adiante para de alguma forma saciar uma obsessão monomaníaca. Entretanto, enquanto o capitão Acab é um homem atormentado por não conseguir se livrar de sua obsessão, Aguirre parece antes um louco que acredita estar enxergando o pote de ouro no fim do arco-íris.

Outro paralelo que pode ser traçado entre as obras é com relação ao conflito entre o homem e a natureza. Como já citado no início do texto, Herzog gosta do tema homem versus ambiente. Em Fitzcarraldo, o homem enfrenta a natureza com impulso civilizatório. Em O Enigma de Kaspar Hauser, por outro lado, o personagem-título confronta sua simplicidade/ingenuidade/ignorância com as idiossincrasias da civilização. Já em Aguirre, a Natureza continua sendo a inimiga, mas no caso se a enfrenta com ambição e loucura, sendo ela um símbolo do desconhecido, de uma fonte de riquezas de todo tipo, dos deuses.

O primeiro e o último planos denotam isso. Logo no ínicio, vemos de longe uma paisagem, e quando a câmera se aproxima revela uma minúscula fileira de homens descendo por uma montanha. Assim, Herzog mostra o homem diminuído ante a imensidão do mundo. No final do filme, Aguirre está erguido sozinho em seu barco, único sobrevivente e ainda assim lançando desafios e impropérios contra a natureza. Nesse momento, a câmera o fita mais de perto, mas depois se afasta e gira ao redor de Dom Lope, mostrando que por todos os lados só o que há é árvores e céu, que ele está sozinho, que a natureza o derrotou.

Entre esses dois momentos, vemos a civilização humana imiscuir-se no meio selvagem, com todas as suas violências, traições, ganâncias, delírios de grandeza, conspirações e (ai, os paradoxos) selvageria. E tudo isso personificado na imagem de Aguirre, o homem que se achava invencível, o que homem que se achava a cólera dos deuses, o homem que se achava Deus, mas acabou no fim derrotado e sozinho, esperando em silêncio a morte chegar.

.

segunda-feira, 12 de janeiro de 2009

Melhores romances em inglês do século XX - Modern Library

.
Lista da editora americana Modern Library com os 100 melhores romances em inglês do século XX segundo escolha dela mesma e de seus leitores. Alguns desses livros já foram comentados por aqui então vou somente repassar os links para vocês.

Segundo o conselho editorial, os melhores romances são:

1. Ulisses de James Joyce
2. O Grande Gatsby de F. Scott Fitzgerald
3. Um Retrato do Artista Quando Jovem de James Joyce
4. Lolita de Vladimir Nabokov
5. Admirável Mundo Novo de Aldous Huxley
6. O Som e a Fúria de William Faulkner
7. Ardil-22 de Joseph Heller
8. O Zero e o Infinito de Arthur Koestler
9. Filhos e Amantes de D. H. Lawrence
10. As Vinhas da Ira de John Steinbeck

Para os leitores, por sua vez, os melhores romances são estes:

1. Quem é John Galt? de Ayn Rand
2. A Nascente de Ayn Rand
3. A Reconquista de L. Ron Hubbard
4. O Senhor dos Anéis de J. R. R. Tolkien
5. O Sol É Para Todos de Harper Lee
6. 1984 de George Orwell
7. Anthem de Ayn Rand
8. We The Living de Ayn Rand
9. Missão Terra de L. Ron Hubbard
10. Fear de L. Ron Hubbard

A lista completa pode ser conferida em: http://www.randomhouse.com/modernlibrary/100bestnovels.html

Há também a lista dos livros de não-ficção: http://www.randomhouse.com/modernlibrary/100bestnonfiction.html

Finalmente, há um interessante link com as resenhas do The New York Times para vários dos livros citados na lista: http://www.nytimes.com/library/books/072098best-novels-list.html
.

sexta-feira, 9 de janeiro de 2009

Citação de Sexta: Os Mortos

Foto: Bruna Pimenta

“Chega um momento da vida em que, entre todas as pessoas que conhecemos, os mortos são mais numerosos que os vivos. E a mente se recusa a aceitar outras fisionomias, outras expressões: em todas as faces novas que encontra, imprime os velhos desenhos, para cada uma descobre a máscara que melhor se adapta.”


- Italo Calvino, As Cidades Invisíveis

.

quinta-feira, 8 de janeiro de 2009

Pílulas Cinematográficas, Edição 11: Especial Steven Spielberg

.
De todos os cineastas de sua geração, Steven Spielberg é com certeza o mais popular e eclético. Falando somente de seus pares mais próximos, George Lucas ganhou e continua ganhando bilhões com Star Wars, mas seus outros filmes são bem mais anônimos, e Martin Scorsese e Francis Ford Coppola fazem um cinema mais adulto, com menos apelo junto às massas. Já Spielberg fez filmes de todos os tipos, para todas as idades, com as mais diversas qualidades e defeitos. Nessa edição das pílulas, falarei de três. Dois deles fazem parte dos dramas épicos sérios de Spielberg, e tem em comum pelo menos a longa duração. O outro é um filme diferente dos outros dois, mas talvez ainda mais emblemático que eles na carreira do cineasta.
___________________________

A Lista de Schindler (Schindler’s List, 1993): Baseado no romance de Thomas Keneally sobre o empresário alemão que salvou milhares de judeus do holocausto, esse longa deu a Spielberg o Oscar e é considerado por muitos sua obra-prima. Longo, belo e dramático, o filme é uma daquelas obras quase unânimes, realmente únicas. Não chorar ou ao menos se emocionar em alguns momentos, especialmente no final, é sinal de que não se tem muito apreço pelo ser humano. A Lista de Schindler permanece como um dos filmes mais importantes sobre o Holocausto, embora nunca se possa falar em registros “definitivos” desse episódio negro da história da humanidade. O que se pode dizer é que, além de drama histórico tocante e humano, o filme é um grito, um apelo pela identificação com o sofrimento alheio e pela postura ativa em defesa da vida, pois aquele que salva uma vida, salva todo o mundo.
___________________________

Contatos Imediatos do Terceiro Grau (Close Encounters of the Third Kind, 1977): Diferente dos outros filmes dessa lista, Contatos não é a adaptação de um romance. Por isso, é um projeto mais pessoal de Spielberg, e apresenta algumas idéias muito caras ao diretor. Longas em que os alienígenas são seres amistosos, buscando comunicação, e não predadores interestelares sedentos de sangue, eram uma raridade, mas Contatos entrou para a história como um desses filmes. Spielberg põe em prática aqui suas especialidades: pessoas comuns em situações extraordinárias, dramas familiares, e a utilização consciente dos efeitos especiais, que servem somente de escada para o verdadeiro encanto do filme. À medida que Roy fica mais obcecado por sua visão, Claude Lacombe descobre mais coisas sobre os avistamentos de OVNI’s e Gillian chega mais perto de encontrar seu filho, a tensão cresce, até culminar no espetacular e emocionante final, uma dessas cenas atemporais e cheias de significado e magia que fazem a sétima arte valer a pena.
____________________________

A Cor Púrpura (The Color Purple, 1985): Apaixonante. Difícil definir de outra forma essa outra obra-prima de Spielberg, e também o filme que eu mais gostei desses três das Pílulas. Como disse o crítico Roger Ebert, “não existe uma cena que não reflita o amor dessas pessoas por este filme”, e de fato, cada frame do longa pulsa, tamanho o sentimento que diretor, roteiristas, elenco, e o compositor da trilha sonora, Quincy Jones, depositaram nesta obra. Baseado no romance epistolar de Alice Walker, A Cor Púrpura retrata a vida de uma pessoa que era definida por todos os adjetivos ligados ao “elo fraco” da sociedade. Como diz um personagem do filme, Celie, a protagonista, é “preta, pobre e mulher”, e portanto não tem como se dar bem na vida. As passagens em que o filme retrata a opressão contra quem possui essas características são uma denúncia contundente contra os malditos machistas e racistas, e se encaixariam perfeitamente em qualquer filme denúncia. Porém, esse não é o caso aqui, A Cor Púrpura é uma história de seres humanos, e não de massas rotuladas. Ao contrário do que o começo do filme pode dar a entender, o enredo não conta uma seqüência de tragédias, mas sim a vida de alguém que, embora sofra muito, persiste sempre. As cenas finais do longa - desde a ceia de Ação de Graças, passando pelo coro da igreja, até chegar ao reencontro – são todas catárticas, e dão aquele aperto no coração que só quem conhece muito bem a alma humana, como Spielberg, pode proporcionar.
.

quarta-feira, 7 de janeiro de 2009

Leituras: Dezembro de 2008

.
Em dezembro, finalmente consegui ler um pouco mais do que vinha lendo nos últimos meses. Esse mês, li três grandes clássicos da literatura universal. O primeiro, uma obra ultramoderna, escrita pelo gênio que ditou algumas regras da atual literatura. O segundo, uma sátira feroz e irônica sobre a humanidade, escrita por um dos maiores satíricos. Em terceiro, finalmente, um envolvente romance de um grande autor inglês, pérola do período romântico.

As Cidades Invisíveis, de Italo Calvino

Com freqüência, obras cuja interpretação é complicada possuem algum trecho chave, que serve ao menos para extrair o sentido essencial (ou superficial) delas. Com Cidades Invisíveis, não é diferente. O romance mais conhecido do italiano Italo Calvino é uma espécie de As Mil e Uma Noites da descrição, em que o maior viajante de todos os tempos, Marco Polo, dirigindo-se ao imperador dos tártaros, Kublai Khan, o ser mais poderoso da terra, discorre sobre as cidades do Império deste, dando-lhe o conhecimento que ele não pode obter, devido à extensão de seus domínios e à quantidade de seus deveres. Partindo daí, Calvino traça um painel com 55 descrições de cidades, divididas em onze temas, tais como “As cidades e a memória”, “As cidades e o desejo”, “As cidades e os mortos”, etc., tudo isso entremeado por trechos das conversas entre Polo e o Imperador, onde investigam o sentido da conversa que estão travando e de outras coisas mais. Num desses trechos, acontece o seguinte: “Marco Polo descreve uma ponte, pedra por pedra. – Mas qual é a pedra que sustenta a ponte? – pergunta Kublai Khan. – A ponte não é sustentada por esta ou aquela pedra – responde Marco -, mas pela curva do arco que estas formam. Kublai Khan permanece em silêncio, refletindo. Depois acrescenta: - Por que falar de pedras? Só o arco me interessa. Polo responde: - Sem pedras o arco não existe.” Eis aí o trecho referido no ínicio desse texto. Como já disse, ele não revela todo o sentido (para isso, só lendo o livro todo), mas é simbólico da natureza da obra. Ora, Cidades Invisíveis é um romance pós-moderno, fragmentado, hipertextual, formado por dezenas de partes que, entretanto, formam um todo poderoso e coeso, se cuidadosamente observado. O trecho supracitado explica essa característica, e dá margem a toda sorte de interpretações. De certa maneira, o próprio sentido do livro também é fragmentado e composto. Podemos extrair três ou quatro temas recorrentes tanto nas conversas de Marco e Kublai quanto nas descrições. Um deles, que eu considero secundário (alguns podem querem me tacar pedras por isso) é o das características negativas de algumas cidades, que espelham vários “dramas urbanos” das cidades modernas. Embora o livro fale de cidades, é ingenuidade achar que é realmente de cidades que ele está falando. Os outros temas, que considero mais importantes, são os seguintes, em ordem dos que mais me interessam: o primeiro e segundo, de certa forma, são o mesmo. Trata-se talvez do aspecto principal do livro, embora não seja o meu preferido. É a questão de abrir espaço, como proferida por Polo na célebre última sentença do livro, de extrair das coisas um sentido ao enxergar o mundo com outros olhos e encontrar aí um espaço para se expandir e tornar as coisas melhores. O outro tema, esse sim o que eu mais gosto, é o mais presente nas descrições das cidades, e adquire tamanha diversidade de formas que é preciso fazer uma lista para enunciá-lo. É uma questão recorrente na obra de Calvino, a da discrepância, do conflito, da relação entre o nome da coisa, a descrição da coisa, a memória que temos da coisa, o que desejamos da coisa, o olho com que vemos a coisa e a Coisa, entre o sonho, o símbolo, o mito, o pensamento, o discurso, a narrativa e a Realidade. Calvino fala, discursa, poetiza, divaga e faz mistério em cima desse tema, o que o torna extremamente atraente e profundo. Enfim, pouca coisa não é, esse é um livro para muitas interpretações. Mas, de qualquer maneira, só por existir e ser lido, já se pode dizer que As Cidades Invisíveis é um ponto que, no meio do inferno, não é inferno, e portanto se deve preservá-lo, e a partir dele, abrir espaço.

As Viagens de Gulliver, de Jonathan Swift:

Jonathan Swift, o “deão furioso”, foi um dos mais violentos satíricos que o mundo já viu. Munido de um visão afiadíssima em relação ao mundo, contudo sem ser amargurado, Swift erigiu em As Viagens de Gulliver uma obra que conseguiu a proeza de ser ao mesmo tempo uma sátira feroz da natureza humana e um livro bem-humorado, que anos depois acabou por se tornar, em sua versão resumida e suavizada, um clássico infantil. Lemuel Gulliver, cirurgião e pai de família, tem um apreço especial pelo mar. Assim, sai durante a vida em várias viagens, que o levam às terras mais estranhas. Em primeiro lugar, vai parar em Liliput, país onde as pessoas tem quinze centímetros de altura e parecem ser, à primeira vista, criaturas adoráveis, ainda que um pouco desconfiadas. O tempo revelará, porém, que elas são traidoras cruéis, capazes de fazer mal até a seus próprios heróis. Depois, Gulliver chega em Brobdingnag, onde os seres são gigantes, e tratam Gulliver como um brinquedo, um animal de estimação. Incomodado com o desprezo que lhe é dirigido, Gulliver parte daquele país. Depois, na terceira parte do livro, visita vários países e cidades, dos quais o mais ilustre é Laputa, a ilha voadora, onde os homens só sabem pensar em música e astronomia e suas mulheres fogem com as mais grotescas criaturas. Ele chega também em Glubbdubdribb, onde conversa com os mortos e descobre que a raça humana está cada vez pior, em Lagado, onde a Academia de Ciências só pesquisa idiotices, e em Luggnagg, terra de amaldiçoados imortais que vão se tornando cada vez mais degenerados à medida que os anos passam. Então, na quarta parte do livro, Gulliver se encontra no país dos Houyhnhnms, cavalos inteligentes e civilizados que “domesticaram” os Yahoos, seres bestiais e repulsivos que nada mais são que humanos em estado selvagem. Por fim, após ser obrigado a sair do país dos Houyhnhnms, Gulliver se torna um misantropo que tem nojo até da própria família. Com isso, Swift dá seu golpe de mestre. No fim do livro, Gulliver, que é o narrador, faz um discurso contra o orgulho humano, mas o fecha rogando que ninguém que possua “esse absurdo vício” (o orgulho) apareça diante dele. Ora, que sinal de orgulho seria maior que esse? Desse modo, Swift satiriza a própria ferramenta de que se havia utilizado para satirizar a humanidade. Após presenciar os costumes de todos os povos acima citados (que nada mais eram que paródias de pessoas e acontecimentos da época de Swift), e por fim observar o último estágio da degeneração humana, chegando até mesmo a usar roupas e objetos feitos das peles de yahoos (ou seja, de sua própria espécie), Gulliver se isola e torna-se ele mesmo um exemplo de tudo aquilo que julgava abominar. Usando-se desse artifício, Swift retroativamente suaviza todas as (pesadíssimas) críticas que havia feito ao longo do romance, e transforma seu livro em obra de gênio, revelando por fim seu verdadeiro discurso: o da valorização do ponto de vista. Não que a humanidade seja desse jeito, mas considerando-a desse ângulo é assim que ela irá parecer. Sofisticado ao último grau, e feito mesmo pra pensar muito depois de ler. Matéria-prima das mais densas para conversas, sejam elas filosóficas ou de botequim.

Grandes Esperanças, de Charles Dickens

Escritores românticos são sempre acusados de criar personagens rasos, caricaturais, exagerados, e colocá-los em situações irreais e exageradas usando para isso uma linguagem floreada e exagerada. Enfim, o supra-sumo do exagero. Embora tenha lastro na verdade, grande parte dessa concepção moderna do romantismo é exagerada, posto que, se tais obras não tivessem valor, não seriam obras-primas da literatura universal, maciçamente presentes no cânone da literatura. Dickens, pois, foi um escritor romântico, talvez o mais célebre romântico inglês. E, embora seu estilo seja sim floreado e exagerado, e haja situações e personagens caricatos e exagerados em seus romances, Dickens também possuía uma grande sensibilidade para o ser humano, e criou, ao menos em Grandes Esperanças, que foi seu único livro que li, uma grande variedade de personagens complexos e tocantes, capazes de dizer muito sobre a sociedade e a humanidade. O maior exemplo disso talvez seja Wemmick, retrato perfeito da confusão de identidades e personalidades tão presente na sociedade atual, mas já despontando na Inglaterra do século XIX. Além dele, Pip, Miss Havisham, Estella, Mr. Jaggers, todos são personagens com mais de um lado, mais de um rosto, mais de uma forma de reagir ao mundo. E, juntos, formam uma tocante e envolvente história, contada num estilo delicioso, ao mesmo tempo emocionante e cômico. Um “livrão”, sem dúvida, gostoso de ler e difícil de largar.
.

terça-feira, 6 de janeiro de 2009

A Felicidade Não Se Compra

Muito se discute sobre quais seriam os critérios universais para avaliar a Arte, e o cinema não escapa disso. Sempre se pergunta onde mora a qualidade artística, o que faz de um filme bom e de outro ruim, e por que o gosto subjetivo muitas vezes não tem nada a ver com essa avaliação. Alguns gostam também de procurar um objetivo para o cinema, de saber para que ele serve, se o propósito é divertir, emocionar, refletir, fazer pensar, ou simplesmente existir como objeto de, hmm... apreciação artística.

Pois bem. Dentre os diretores ítalo-americanos a despontar em Hollywood, um dos mais adorados, embora menos conhecido pelo público brasileiro, foi Frank Capra. Capra fez filmes com os grandes atores da sua época, Cary Grant, Gary Cooper, Clark Gable e, especialmente, James Stewart. Não era um estilista, não usava grandes truques de câmera nem fazia tomadas belíssimas, mas na mesa de edição foi insuperável, criando montagens dinâmicas, envolventes e perfeitamente adequadas às suas histórias. Isso fez dele um dos maiores cineastas da história.

Nesse filme, sua obra mais célebre, em plena véspera de Natal um homem, George Bailey, resolve se suicidar, pois acredita valer mais vivo do que morto. Um anjo então é enviado para a terra, com o objetivo de salvá-lo, e a isso segue-se um flashback que toma quase todo o filme, contando a vida de George desde a infância até os eventos que o fizeram desejar a morte. Para tirar de sua cabeça que se ele morresse a vida das pessoas da cidade seria melhor, o anjo “realiza seu desejo”, e mostra a ele como as coisas teriam acontecido se ele não tivesse nascido.

É a obra máxima do otimismo, o que a fez ser colocada na primeira posição entre os filmes mais inspiradores de todos os tempos pelo American Film Institute. Entretanto, não é boba nem piegas, mas sim divertida e emocionante, pois todos os envolvidos com a produção fizeram seu trabalho de maneira esplendorosa. Claro, as coisas como acontecem na história só acontecem mesmo no cinema, isso é inegável, e apesar de descobrir uma lição muito valiosa no final do filme, George desistiu de seus sonhos. Mas quem se apega a esse tipo de coisa está só querendo ser chato, posto que o filme é uma obra do coração, e seus efeitos devem ser sentidos pelo coração, não pela mente, ou corre-se o risco de acontecer algum conflito de linguagens.

Quem, porém, se desligar desse tipo de pensamento (que não costuma acometer muita gente, só mesmo quem quer ver coisas desse tipo) irá descobrir de novo como a vida é simples, como viver vale a pena, e como o amor pelo próximo, em todas as suas formas – fraternal, romântico, caridoso, etc. -, é a maior riqueza do homem. Sim, são coisas que, ditas assim, todo mundo sabe, mas na arte os conceitos triviais se transformam em verdades concretas, em verdades sensíveis, cativantes, catárticas. E é pra isso, afinal, que o cinema serve, para isso que ele foi criado... nos incutir coisas – histórias, sentimentos, idéias. E só por ter servido de veículo a um filme tão especial como A Felicidade Não Se Compra, a sétima arte já cumpriu seu papel nesse mundo. Que venham os lucros!
.

segunda-feira, 5 de janeiro de 2009

Os melhores filmes de 2008

.
Em julho do ano passado fiz aqui no blog uma lista provisória com os melhores filmes que estrearam no Brasil em 2008. Agora, passados quase seis meses, posso dizer que pouco mudou na lista. Isso se deve principalmente ao fato de que os filmes que concorrem ao Oscar são lancados no começo do ano, e os meses de junho, julho e agosto são os mais prolíficos em bons blockbusters.


Assim, coloco aqui a lista "definitiva", embora não tenha visto muitos dos filmes considerados ótimos pela crítica em 2008. Junto aos itens, um pequeno comentário sobre cada filme, e no final os filmes potencialmente bons, que ainda precisam ser vistos por mim mas que desde já são recomendados em algum nível.

1. Sangue Negro, de Paul Thomas Anderson: Obra-prima moderna do cinema americano, Sangue Negro é um desses filmes que tende a cresce com o tempo e com novas interpretações.

2. WALL-E, de Andrew Stanton: Acharei uma pena se esta, que possivelmente é a melhor animação americana já feita, não for indicada ao Oscar de melhor filme. É um longa sensível e adorável, que você adora e não quer mais largar.

3. Batman - Cavaleiro das Trevas, de Christopher Nolan: O retrato definitivo do Coringa já valeria o filme, mas há ainda a tensão, a ação, o drama, enfim, um Filmão, com "F"maiúsculo.

4. Onde Os Fracos Não Têm Vez, de Joel e Ethan Coen: Uma das obras máximas dos Coen, esta adaptação do romance de Cormac McCarthy merece todas as honras, assim como merece ser visto e revisto, para que com o tempo ser aperceba melhor seu significado.

5. Não Estou Lá, de Todd Haynes: Experimental e fragmentado, o filme é um prato cheio para os fãs do bardo moderno, mas também guarda muitas surpresas para os cinéfilos em geral.

6. Indiana Jones e o Reino da Caveira de Cristal, de Steven Spielberg: Parecia impossível, mas Spielberg conseguiu recuperar o clima e o tom das antigas aventuras do arqueólogo mais famoso do cinema.

7. Juno, de Jason Reitman: Filme indie típico em sua base, foi capaz porém de superar as armadilhas e lugares-comuns do gênero, transformando-se em um longa extremamente envolvente e tocante.

8. Homem de Ferro, de Jon Favreau: A dupla Favreau e Downey Jr. deu aos fãs de quadrinhos do mundo todo um presentão, que instantaneamente se tornou referência para os filmes adaptados das histórias em quadrinhos.

9. Cloverfield, de Matt Reeves: Retrato tenso e frenético da modernidade, com suas câmeras digitais e YouTube's da vida, Cloverfield (assim como o Batman) criou um fênomeno cultural que foi muito além das telas de cinema.

10. Trovão Tropical, de Ben Stiller: No lugar de Desejo e Reparação, que continua sendo um dos melhores do ano passado, coloco aqui esta espetacular comédia que por sua mistura de nonsense e paródia me conquistou, embora tenha deixado muita gente decepcionada.

Além desses, cito o Desejo e Reparação renegado nessa nova lista, as comédias ótimas Segurando as Pontas, que infelizmente não foi lançado nos cinemas por aqui, Vicky Cristina Barcelona, filme divertidíssimo de Woody Allen, e Queime Depois de Ler, hilariante obra dos Coen, o competente faroeste Os Indomáveis, o terror O Orfanato, o cruel (no "bom" sentido) O Nevoeiro e o musical Sweeney Todd, último filme do Tim Burton. Às escuras, falo dos que acho que valem a pena: Antes Que o Diabo Saiba Que Você Está Morto, do Sidney Lumet, Ensaio Sobre a Cegueira, do Fernando Meirelles, Linha de Passe, do Walter Salles e da Daniela Thomas, O Escafandro e a Borboleta, de Julian Schnabel e Senhores do Crime, de David Cronenberg.

Pois então, é isso. 2008 foi um ótimo ano, cinematograficamente falando, e espero que 2009 seja ainda melhor. Esperemos, e veremos!
.