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quinta-feira, 15 de janeiro de 2009

Pílulas Cinematográficas, Edição 12

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Dando um tempo nas pílulas temáticas, essa edição conta com filmes que não tem absolutamente nada a ver um com o outro, tirando o fato de serem ótimos. Um é considerado a melhor comédia de todos os tempos, outro é um pesado drama sobre o Vietnã, e o último é um filme divertidíssimo produzido pelo gênio de Woody Allen.
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Quanto Mais Quente Melhor (Some Like It Hot, Billy Wilder, 1959): Dois músicos desempregados presenciam um massacre e passam a ser perseguidos pela máfia. Para fugirem transvestem-se de mulher e vão para Miami junto a uma big band feminina. No fim, até homossexualismo (nonsense) é sugerido. Tudo isso numa comédia. Feita na década de 1950. Ninguém além do diretor nascido na Polônia Billy Wilder poderia ter feito algo desse tipo. O genial cineasta criou nesse filme a comédia considerada pela AFI a melhor de todos os tempos (ao menos entre os filmes americanos, tem cacife para isso) e, independente de listas ou coisas do gênero, um filme fantasticamente engraçado, além de contar com a sempre encantadora presença de Marilyn Monroe. Cheio de piadas dos mais diversos tipos, Quanto Mais Quente Melhor é uma aula de como fazer comédia sem se render aos clichês vigentes e ainda construir um filme cinematograficamente bem feito e poderoso.
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O Franco-Atirador (The Deer Hunter, Michael Cimino, 1978): Os dramas em O Franco-Atirador são de pessoas assustadoramente banais. Não há heroísmos, não há crimes, somente desejo, medo e loucura. Os personagens são os americanos típicos dos anos 70: a geração pós-década-de-60 sentindo ainda as novidades do clima liberal mas vivendo sob a sombra do Vietnã. Esse filme é considerado o melhor sobre os traumas que a Guerra deixou na sociedade americana. Os amigos vão para a guerra, vivem seus horrores, mas ao voltar não conseguem viver suas vidas normalmente, situação assustadoramente atual com as dezenas de notícias, reportagens e filmes sobre o estresse pós-traumático do combatentes do Iraque. O Franco-Atirador mostra, com suas imagens limpas e contundentes, que a contagem de mortos de uma guerra é sempre muito maior do que aquela acusada nas estatísticas.

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Hannah e Suas Irmãs (Hannah and Her Sisters, Woody Allen, 1986): Os filmes de Woody Allen são deliciosos, divertidos e adoráveis. Com simplicidade, humor e humanidade, o diretor transporta todo tipo de vivência e sonho humano para as telas, criando assim obras que são espelho da sociedade e dos seres humanos, que mostram seus defeitos, seus dramas, suas alegrias, sem nunca perder, no entanto, um certo sentimento indefinível de amor à vida. Nada de sair por aí pulando e gritando em transe, dizendo que a vida é maravilhosa. Com Allen, as coisas são mais sutis, mais delicadas. Hannah e Suas Irmãs é o maior exemplo disso: os personagens são cheios de defeitos, por vezes dissimulados, sofrem pra caramba, mas nós nos apaixonamos por eles e no fim as coisas dão certo de um jeito ou de outro. Irresistível e iluminadamente, Allen nos transporta de volta para o nosso mundo.

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quinta-feira, 23 de outubro de 2008

Pílulas Cinematográficas, Edição 6

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Nessa edição das pílulas, o que há de mais em comum entre os filmes é uma verve alternativa: os dois primeiros são de cineastas indies, que fazem seus filmes fora do mainstream (embora a diretora do segundo seja filha de um dos maiores diretores americanos de todos os tempos). Já Woody Allen, diretor do terceiro filme, não é um cineasta alternativo, mas faz os filmes que quer (embora problemas com financiamento o tenham levado a filmar seus últimos filmes na Europa) e, diferente dos outros, é uma lenda viva do cinema.
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Os Excêntricos Tenenbaums (The Royal Tenenbaums, Wes Anderson, 2001): Wes Anderson tem feito bonito desde seu primeiro filme, mas foi com Os Excêntricos Tenenbaums (tradução ruim do título original, renegada até pelo próprio diretor) que ele finalmente alcançou o prestígio. Contando a história de uma família disfuncional (o tema preferido dos cineastas indies), Anderson faz um filme adorável, brilhante, com momentos trágicos e momentos cômicos, mas sempre conduzidos com uma leveza e despretensão dignas do diretor.
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Encontros e Desencontros (Lost in Translation, Sofia Coppola, 2003): Sofia Coppola, também fez um filme estréia elogiado (As Virgens Suicidas), mas foi com Encontros e Desencontros que ela atingiu o reconhecimento. Indicado ao Oscar de melhor filme e diretor (além de ganhador de melhor roteiro original), entre outros, Encontros e Desencontros é um conto tocante sobre a solidão em um mundo desconhecido e sobre o amor que pode nascer sem depender de idade ou desejo sexual. O final do filme é particularmente brilhante: não nos deixando conhecer o que Bob diz para Charlotte, Sofia concede aos seus personagens um momento de intimidade, não se intrometendo nem permitindo que os espectadores voyeurs nos intrometamos naquele momento tão particular, e ainda deixa no ar a pergunta sobre o que foi dito ali, fomentando desse modo o mistério, que diz infinitamente mais do que o conhecido.
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Desconstruindo Harry (Deconstructing Harry, Woody Allen, 1997): Muitos filmes de Woody Allen são parecidos: têm o próprio diretor atuando como protagonista, um homem judeu de meia idade neurótico e depressivo (cuja vida é movimentada por “cinismo e niilismo, sarcasmo e orgasmo”), que acaba usando o filme como uma espécie de sessão de psicanálise na qual nós, espectadores, somos o médico. Esses filmes, porém, não são iguais, como alguns gostam de falar. Em Desconstruindo Harry, por exemplo, está presente um fator fortíssimo de metalinguagem, eco de Oito e Meio, em que Allen aparece como um escritor com bloqueio criativo que conta nos livros por ele escritos versões de sua própria vida. Na minha visão, o filme funciona como uma espécie de “última sessão de análise”, uma catarse em que Allen justifica todos os filmes que fez sendo personagem principal e ainda se livra, de uma vez por todas (ao menos no mundo da arte) de todas as neuroses e obsessões que marcaram sua carreira (e porque não, sua vida).
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domingo, 27 de abril de 2008

A Rosa Púrpura do Cairo

O cinema é uma arte extremamente auto-reflexiva. Junto à pintura e à literatura, creio que seja a que mais esquadrinhou o ato de praticar a arte. De fato, é uma área tão explorada que constitui um gênero. Já falei aqui sobre dois filmes que se enquadram nessa categoria: os magníficos A Noite Americana, de François Truffault, e Cinema Paradiso, de Giuseppe Tornatore. Cada um a seu modo, eles homenageiam a Sétima Arte. Aquele, esmiuçando a prática de filmar, e tudo que isso envolve e acarreta. Este, mostrando como o cinema perpassa a vida de alguém, e qual o significado que adquire.

A Rosa Púrpura do Cairo guarda semelhanças com o último. Fala sobre como o cinema pode ser uma fuga de uma realidade indesejada, e qual é a linha que separa a imaginação e o desejo dessa realidade. Dirigido por Woody Allen, o filme conta a história de Cecília (Mia Farrow), garçonete que, em plena era da Depressão nos EUA, é apaixonada pelo cinema hollywoodiano e explorada pelo marido, o vagabundo Monk (Danny Aiello). Começa então a passar no cinema do bairro “A Rosa Púrpura do Cairo”, filme bem ao estilo dos anos 30, com pessoas ricas se amando em lugares exóticos.

É aí que, subitamente, o filme muda de rumo: um dos personagens da história, por quem Cecília suspirava de amores, salta da tela ao seu encontro. Ele se diz encantado por ela e ambos fogem da sessão. Isso causa um grande constrangimento. Os demais personagens do filme ficam confusos e começam a discutir com a platéia, o dono do cinema tem ataques quando as pessoas começam a pedir seu dinheiro de volta e o produtor do filme é chamado. Preocupado com a repercussão negativa que um fato desses teria, ele e o ator Gil Shepherd (Jeff Daniels), intérprete de Tom Baxter, o personagem fujão, começam a procurar o foragido, para tentar convencê-lo a retornar para o celulóide.

No decorrer do filme (que é curtinho, só 80 minutos), a dicotomia entre o Real e o Fictício será vastamente explorada. Baxter, especialmente, descobrirá as diferenças entre o mundo real e o celulóide, que vão muito além da liberdade de fazer escolhas, como quando descobre que seu dinheiro é falso e os carros precisam de chave para ser ligados no mundo real. Já perto do final, ele dirá: “[Cecilia], eu te amo. Eu sou honesto, carinhoso, corajoso, romântico e beijo muito bem.”, ao que Gil responderá: “E eu sou real.” A escolha de Cecília, e o que disso decorrerá, dizem muito sobre a mensagem do filme. Mas são mesmo os olhos dela brilhando arregalados ao fitar uma tela de cinema no fim do filme que explicam tudo sobre a natureza da sétima arte.