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O cinema, mais do que qualquer outra, é uma arte coletiva. Até é possível fazer um filme sozinho, mas seria algo bem difícil, e com certeza experimental. Por isso, as parcerias nesse meio são inúmeras, entre diretores e roteiristas, roteiristas e atores, produtores e diretores ou roteiristas ou atores, diretores e atores... como essa última é a face mais visível das parcerias, me aterei a ela. As colaborações entre um diretor visionário e um ator expressivo são essenciais: às vezes o diretor precisa de um ator capaz de comunicar certas idéias e sentimentos; às vezes o ator precisa de um diretor que lhe proporcione um veículo artisticamente significativo.
Para essa lista, adotei como critério meramente os filmes que os diretores e atores fizeram juntos: analisar o quanto a parceria foi significativa para o filme, o quanto um ajudou o outro, etc. seria mais difícil, talvez até impossível de mensurar. Assim, fiquemos com o critério de quão fértil a parceria foi em obras-primas da sétima arte.
1. Akira Kurosawa e Toshiro Mifune: O maior ator japonês se uniu ao melhor diretor japonês e ambos construíram uma obra imensa. Muitos dos melhores filmes de Kurosawa contam com a presença de Mifune, cujas atuações vagueiam sempre entre o sublime e o inesquecível.
Filmes juntos: 16 – O Anjo Embriagado; A Luta Solitária; Cão Danado; O Escândalo; Rashomon; O Idiota; O Sete Samurais; Trono Manchado de Sangue; Vivo no Medo; Ralé; A Fortaleza Escondida; Homem Mau Dorme Bem; Yojimbo ou O Guarda-Costas; Sanjuro; Céu e Inferno; O Barba Ruiva.
2. John Ford e John Wayne: Talvez a parceira mais icônica da história do cinema, a união dos dois Johns construiu o que se pode chamar de um mito americano no cinema. Se John Ford é o deus do cinema americano, John Wayne é seu avatar, uma imagem que transcende a pessoa, que vira ícone, e fica indelevelmente cravada no imaginário dos EUA – e do mundo.
Filmes juntos: 15 (22) – Rastros de Ódio; No Tempo das Diligências; Depois do Vendaval; O Homem Que Matou o Facínora; Sangue de Heróis; Rio Grande; Legião Invencível; Fomos os Sacrificados; Marcha de Heróis; A Longa Viagem de Volta; O Céu Mandou Alguém; A Conquista do Oeste; Asas de Águias; O Aventureiro do Pacífico; além de outros 7 filmes em que teve participação como extra, não creditada.
3. Ingmar Bergman e Max Von Sydow: Von Sydow é mais conhecido pelo personagem título de O Exorcista, mas foi com Bergman que ele fez seus trabalhos mais significativos, e se tornou respeitável. O semblante do ator expressava perfeitamente os conflitos e emoções que os filmes do diretor precisavam, e por isso ele acabou indissociavelmente ligado a eles.
Filmes juntos: 11 – O Sétimo Selo; Morangos Silvestres; A Fonte da Donzela; Através de um Espelho; O Rosto; Os Comungantes; A Hora do Amor; No Limiar da Vida; A Paixão de Ana; Vergonha; A Hora do Lobo.
4. Martin Scorsese e Robert De Niro: A parceria mais recente é também uma das melhores. De Niro é o melhor ator de sua geração, e Scorsese encontrou nele o veículo ideal para o seu estilo. De gângster violento a lutador de boxe decadente, De Niro viveu todos os seus papéis com perfeição, e Scorsese engendrou os filmes perfeitos em que De Niro brilhou.
Filmes juntos: 8 – Caminhos Perigosos; Taxi Driver; New York, New York; Touro Indomável; O Rei da Comédia; Os Bons Companheiros; Cabo do Medo; Cassino.
5. François Truffaut e Jean-Pierre Léaud: Um caso especial, a parceria de Truffaut e Léaud se destaca pelo ator ter vivido o alterego do diretor francês em cinco filmes – o chamado ciclo Antoine Doinel. De Os Incompreendidos a Amor em Fuga, Truffaut passou a Jean-Pierre o difícil encargo de interpretar o mesmo personagem várias vezes, e com o agravante desse personagem ser o próprio diretor.
Filmes juntos: 7 – Os Incompreendidos; Antoine e Colette (segmento de O Amor aos Vinte Anos); Beijos Roubados; Domicílio Conjugal; Amor em Fuga; A Noite Americana; As Duas Inglesas e o Amor.
6. Federico Fellini e Marcello Mastroianni: Mastroianni encarnou Fellini em Oito e Meio e trabalhou em dois dos três melhores filmes do diretor. Embora tenha trabalhado em muitos outros ótimos filmes com diretores ilustres, Marcello nunca alcançou o mesmo brilhantismo que teve ao lado de Federico.
Filmes juntos: 6 – A Doce Vida; 8 ½; Roma; Cidade das Mulheres ; Ginger e Fred; Entrevista.
7. Werner Herzog e Klaus Kinski: A mais conturbada das parcerias, esta rendeu até um documentário, Meu Melhor Inimigo, em que Herzog analisa sua relação conturbada com Kinski. A história de que o diretor usou um rifle para impedir Kinski de ir embora das gravações de Fitzcarraldo resume muito bem o que a parceria dos dois foi em termo de amenidades e amizade – embora em termos artísticos a coisa tenha ido muito melhor.
Filmes juntos: 5 – Aguirre, a Cólera dos Deuses; Fitzcarraldo; Nosferatu: O Vampiro da Noite; Cobra Verde; Woyzeck.
8. Alfred Hitchcock e James Stewart: Stewart teve a sorte (ou o talento) de estar em parcerias produtivas com outros dois grandes diretores: Anthony Mann e Frank Capra. Mas foi graças a Hitchcock que ele se tornou mais conhecido, e foi com ele que Hitchcock fez seus melhores filmes, suas obras-primas do suspense.
Filmes juntos: 4 – Festim Diabólico; Janela Indiscreta; Um Corpo Que Cai; O Homem Que Sabia Demais.
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segunda-feira, 19 de janeiro de 2009
domingo, 3 de agosto de 2008
Pílulas Cinematográficas, Edição 4: Especial Hitchock
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Até há pouco tempo, só havia visto, para meu desgosto, um único filme do mestre Alfred Hitchcock: Os Pássaros. Ficava envergonhado de ser um cinéfilo e não ter assistido a nenhuma outra obra-prima do mestre. Felizmente, o “acaso” permitiu que eu visse outros quatro filmes do grande Hitch. Em comemoração a isso, faço essa edição especial das Pílulas Cinematográficas, totalmente dedicadas aos filmes de Alfred. Já foram 5! Agora, faltam só uns cinqüenta...
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Psicose (Psycho, 1960): Obra-prima definitiva do suspense, esse é provavelmente o filme mais conhecido de Hitchcock, imortalizado principalmente devido à famosa cena do assassinato do chuveiro, um milagre de técnica e tensão primorosamente filmado durante uma semana, 70 ângulos de câmera e muito sangue. A história é muito simples: uma secretária é tentada por alguns milhares de dólares que caem em sua mão (seu MacGuffin) e foge da cidade, acabando por parar em um motel de beira de estrada quase abandonado. Ali, é assassinada no banho, o que gera uma investigação que acabará por revelar algumas coisas bem assombrosas. Embora o final seja um pouco estranho, até totalmente diferente do resto da película, Psicose é uma obra-prima do suspense, coisa bem comum, por sinal, na filmografia do mestre do gênero.
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Um Corpo Que Cai (Vertigo, 1958): Assim como Psicose,
este filme mostra a vocação de alguns filmes de Hitchcock para parecerem um episódio dos Simpsons na estrutura: do começo até o meio, o filme é um. A partir daí, ele muda completamente. Entretanto, isso acaba servindo para Hitchcock mostrar sua versatilidade e seu domínio da linguagem, contando uma história ao mesmo tempo totalmente coerente e totalmente diversificada. Aqui, a investigação de um ex-policial (James Stewart) que sofre de acrofobia sobre a mulher de um antigo conhecido leva a um redemoinho de acontecimentos, dúvidas e emoções que gera uma verdadeira vertigem. O filme, considerado um dos melhores de todos os tempos, e verdadeiramente “mais uma” obra-prima do mestre, faz uma reflexão sobre a imagem, e conta ainda com uma extraordinária Kim Novak interpretando brilhantemente três papéis diferentes.
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Festim Diabólico (Rope, 1948): Um dos filmes que Hitchcock propôs a si mesmo como desafios, Festim Diabólico é filmado como se fosse um único plano-seqüência, ou seja, sem cortes. Na época, os rolos de filme só tinham espaço para oito minutos de filmagem. Assim, quando era necessário “cortar”, Hitchcock passava a câmera por algum elemento do cenário (de um baú até os paletós dos personagens) que fosse negro, criando assim a ilusão de que não houvera cortes. O filme é, portanto, diferente de Arca Russa, em que a tecnologia permitiu que, de fato, duas horas de filmes fossem filmadas como um único plano-sequência, mas é igualmente impressionante. Na história, dois amigos assassinam um terceiro, por se crerem seres superiores. Depois, dão uma pequena festa familiar, com o pai e a tia do morto, a noiva dele, um outro amigo, a empregada e um antigo professor. O enredo é baseado em uma história real e, embora a atuação dos atores (mesmo a de James Stewart, que interpreta o professor) não seja muito boa, a tensão criada nesse filme é quase insuportável. A presença do corpo dentro de um baú, misturada à movimentação dos convidados pela sala, faz o coração vir à boca, e chegamos mesmo a torcer para que ninguém descubra o corpo, por mais odiosos que os assassinos sejam. Festim Diabólico é uma extraordinária mostra de como manipular as emoções de uma platéia, coisa que Hitchcock fazia melhor do que ninguém.
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Frenesi (Frenzy, 1972): Penúltimo filme de Hitchcock, não chega a ser uma obra-prima, algo que se destaque, mas mantém todas as boas qualidades do mestre. É um suspense com uma história envolvente, que nos deixa atentos até o final. Uma característica peculiar desse filme é o fato de mostrar cenas de um teor erótico mais acentuado, diferente do que é comum na filmografia de Hitchcock. Algumas cenas de nudez e até mesmo uma cena de estupro estão presentes no filme, o que o diferencia um bocado do geralmente conservador em relação ao sexo diretor.
Até há pouco tempo, só havia visto, para meu desgosto, um único filme do mestre Alfred Hitchcock: Os Pássaros. Ficava envergonhado de ser um cinéfilo e não ter assistido a nenhuma outra obra-prima do mestre. Felizmente, o “acaso” permitiu que eu visse outros quatro filmes do grande Hitch. Em comemoração a isso, faço essa edição especial das Pílulas Cinematográficas, totalmente dedicadas aos filmes de Alfred. Já foram 5! Agora, faltam só uns cinqüenta...
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Psicose (Psycho, 1960): Obra-prima definitiva do suspense, esse é provavelmente o filme mais conhecido de Hitchcock, imortalizado principalmente devido à famosa cena do assassinato do chuveiro, um milagre de técnica e tensão primorosamente filmado durante uma semana, 70 ângulos de câmera e muito sangue. A história é muito simples: uma secretária é tentada por alguns milhares de dólares que caem em sua mão (seu MacGuffin) e foge da cidade, acabando por parar em um motel de beira de estrada quase abandonado. Ali, é assassinada no banho, o que gera uma investigação que acabará por revelar algumas coisas bem assombrosas. Embora o final seja um pouco estranho, até totalmente diferente do resto da película, Psicose é uma obra-prima do suspense, coisa bem comum, por sinal, na filmografia do mestre do gênero.____________________________
Um Corpo Que Cai (Vertigo, 1958): Assim como Psicose,
este filme mostra a vocação de alguns filmes de Hitchcock para parecerem um episódio dos Simpsons na estrutura: do começo até o meio, o filme é um. A partir daí, ele muda completamente. Entretanto, isso acaba servindo para Hitchcock mostrar sua versatilidade e seu domínio da linguagem, contando uma história ao mesmo tempo totalmente coerente e totalmente diversificada. Aqui, a investigação de um ex-policial (James Stewart) que sofre de acrofobia sobre a mulher de um antigo conhecido leva a um redemoinho de acontecimentos, dúvidas e emoções que gera uma verdadeira vertigem. O filme, considerado um dos melhores de todos os tempos, e verdadeiramente “mais uma” obra-prima do mestre, faz uma reflexão sobre a imagem, e conta ainda com uma extraordinária Kim Novak interpretando brilhantemente três papéis diferentes.__________________________
Festim Diabólico (Rope, 1948): Um dos filmes que Hitchcock propôs a si mesmo como desafios, Festim Diabólico é filmado como se fosse um único plano-seqüência, ou seja, sem cortes. Na época, os rolos de filme só tinham espaço para oito minutos de filmagem. Assim, quando era necessário “cortar”, Hitchcock passava a câmera por algum elemento do cenário (de um baú até os paletós dos personagens) que fosse negro, criando assim a ilusão de que não houvera cortes. O filme é, portanto, diferente de Arca Russa, em que a tecnologia permitiu que, de fato, duas horas de filmes fossem filmadas como um único plano-sequência, mas é igualmente impressionante. Na história, dois amigos assassinam um terceiro, por se crerem seres superiores. Depois, dão uma pequena festa familiar, com o pai e a tia do morto, a noiva dele, um outro amigo, a empregada e um antigo professor. O enredo é baseado em uma história real e, embora a atuação dos atores (mesmo a de James Stewart, que interpreta o professor) não seja muito boa, a tensão criada nesse filme é quase insuportável. A presença do corpo dentro de um baú, misturada à movimentação dos convidados pela sala, faz o coração vir à boca, e chegamos mesmo a torcer para que ninguém descubra o corpo, por mais odiosos que os assassinos sejam. Festim Diabólico é uma extraordinária mostra de como manipular as emoções de uma platéia, coisa que Hitchcock fazia melhor do que ninguém._________________________
Frenesi (Frenzy, 1972): Penúltimo filme de Hitchcock, não chega a ser uma obra-prima, algo que se destaque, mas mantém todas as boas qualidades do mestre. É um suspense com uma história envolvente, que nos deixa atentos até o final. Uma característica peculiar desse filme é o fato de mostrar cenas de um teor erótico mais acentuado, diferente do que é comum na filmografia de Hitchcock. Algumas cenas de nudez e até mesmo uma cena de estupro estão presentes no filme, o que o diferencia um bocado do geralmente conservador em relação ao sexo diretor.
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sábado, 2 de agosto de 2008
O MacGuffin
No passado, Hitchcock não era visto como um grande diretor pelos críticos, por fazer filmes de suspense, considerado um gênero menor. Foi necessário que um diretor francês, François Truffaut, apaixonado pela obra do britânico, mostrasse ao mundo a genialidade de Hitch. Durante uma semana, eles conversaram dez horas todos os dias, que foram gravadas e posteriormente reunidas em um livro, acabando por convencer a todos que Alfred Hitchcock estava no mesmo patamar de Fellini, Buñuel, Renoir e Bergman, os maiores gênios da Sétima Arte. Nas entrevistas, o diretor de Os Pássaros falava sobre seu processo criativo, seus métodos de filmagem, suas idéias estéticas e, também, sobre o MacGuffin...
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Hitchcock: A famosa cláusula secreta era o nosso MacGuffin. Precisamos falar do MacGuffin!
Truffaut: O MacGuffin é um pretexto, é isso?
Hitchcock: É um expediente, um truque, um recurso para uma situação problemática, é o que se chama um gimmick. Então, a história do MacGuffin é a seguinte. Você sabe que Kipling costumava escrever sobre a Índia e os britânicos que lutavam contra os nativos na fronteira do Afeganistão. Todas as histórias de espionagem escritas nesse ambiente eram invariavelmente sobre o roubo dos planos da fortaleza. Isso era o MacGuffin. Portanto, MacGuffin é o nome que se dá a esse tipo de ação: roubar... os papéis; roubar... os documentos; roubar... um segredo. Na prática, isso não tem a menor importância, e os lógicos estão errados em procurar a verdade no MacGuffin. No meu trabalho, sempre pensei que os "papéis" ou os "documentos" ou os "segredos" de construção da fortaleza devem ser extremamente importantes para os personagens do filme mas sem nenhuma importância para mim, o narrador.
Agora, de onde vem o termo MacGuffin? Ele evoca um nome escocês e pode-se imaginar uma conversa entre dois homens num trem. Um diz ao outro: "O que é esse embrulho que você colocou no bagageiro?". O outro: "Ah, isso! É um MacGuffin". Então, o primeiro: "O que é um MacGuffin?". O outro: "Pois bem! É um aparelho para pegar leões nas montanhas Adirondak". O primeiro: "Mas não há leões nas Adirondak". Então o outro conclui: "Nesse caso, não é um MacGuffin". Essa anedota mostra o vazio do MacGuffin...
(...)
Um fenômeno curioso acontece invariavelmente quando trabalho pela primeira vez com um roteirista; ele tende a concentrar toda a sua atenção no MacGuffin e tenho de lhe explicar que isso não tem a menor importância. Tomemos o exemplo de Os 39 degraus: o que os espiões procuram? O homem que não tem um dedo?... E a mulher no início, o que ela procura?... Será que ela chegou tão perto do grande segredo que foi preciso apunhalá-la pelas costas no apartamento de outra pessoa?
Truffaut: É que deve haver uma espécie de lei dramática quando o personagem está realmente em perigo; durante o seu percurso, a sobrevivência desse protagonista passa a ser tão preocupante que o MacGuffin é completamente esquecido. Mas, seja como for, deve haver um perigo, pois em certos filmes, quando se chega, no final, à cena da explicação, portanto quando se revela o MacGuffin, os espectadores debocham, vaiam ou reclamam. Mas creio que uma de suas astúcias é revelar o MacGuffin, não bem no finzinho, mas após dois terços ou três quartos de filme, o que lhe permite evitar um final explicativo.
Hitchcock: Meu melhor MacGuffin -- e, por melhor, entendo o mais vazio, o mais inexistente, o mais irrisório -- é o de Intriga internacional. É um filme de espionagem e a única pergunta feita pelo roteiro é: "O que procuram esses espiões?". Ora, durante a cena no campo de aviação em Chicago, o homem da CIA explica tudo a Cary Grant, que lhe pergunta, referindo-se ao personagem de James Mason: "O que é que ele faz?". O outro responde: "Digamos que é um sujeito que faz export-import". "Mas o que é que ele vende?" "Ah!... só segredos do governo!" Você vê que, aí, reduzimos o MacGuffin à sua mais pura expressão: nada.
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Hitchcock: A famosa cláusula secreta era o nosso MacGuffin. Precisamos falar do MacGuffin!
Truffaut: O MacGuffin é um pretexto, é isso?
Hitchcock: É um expediente, um truque, um recurso para uma situação problemática, é o que se chama um gimmick. Então, a história do MacGuffin é a seguinte. Você sabe que Kipling costumava escrever sobre a Índia e os britânicos que lutavam contra os nativos na fronteira do Afeganistão. Todas as histórias de espionagem escritas nesse ambiente eram invariavelmente sobre o roubo dos planos da fortaleza. Isso era o MacGuffin. Portanto, MacGuffin é o nome que se dá a esse tipo de ação: roubar... os papéis; roubar... os documentos; roubar... um segredo. Na prática, isso não tem a menor importância, e os lógicos estão errados em procurar a verdade no MacGuffin. No meu trabalho, sempre pensei que os "papéis" ou os "documentos" ou os "segredos" de construção da fortaleza devem ser extremamente importantes para os personagens do filme mas sem nenhuma importância para mim, o narrador.
Agora, de onde vem o termo MacGuffin? Ele evoca um nome escocês e pode-se imaginar uma conversa entre dois homens num trem. Um diz ao outro: "O que é esse embrulho que você colocou no bagageiro?". O outro: "Ah, isso! É um MacGuffin". Então, o primeiro: "O que é um MacGuffin?". O outro: "Pois bem! É um aparelho para pegar leões nas montanhas Adirondak". O primeiro: "Mas não há leões nas Adirondak". Então o outro conclui: "Nesse caso, não é um MacGuffin". Essa anedota mostra o vazio do MacGuffin...
(...)
Um fenômeno curioso acontece invariavelmente quando trabalho pela primeira vez com um roteirista; ele tende a concentrar toda a sua atenção no MacGuffin e tenho de lhe explicar que isso não tem a menor importância. Tomemos o exemplo de Os 39 degraus: o que os espiões procuram? O homem que não tem um dedo?... E a mulher no início, o que ela procura?... Será que ela chegou tão perto do grande segredo que foi preciso apunhalá-la pelas costas no apartamento de outra pessoa?
Truffaut: É que deve haver uma espécie de lei dramática quando o personagem está realmente em perigo; durante o seu percurso, a sobrevivência desse protagonista passa a ser tão preocupante que o MacGuffin é completamente esquecido. Mas, seja como for, deve haver um perigo, pois em certos filmes, quando se chega, no final, à cena da explicação, portanto quando se revela o MacGuffin, os espectadores debocham, vaiam ou reclamam. Mas creio que uma de suas astúcias é revelar o MacGuffin, não bem no finzinho, mas após dois terços ou três quartos de filme, o que lhe permite evitar um final explicativo.
Hitchcock: Meu melhor MacGuffin -- e, por melhor, entendo o mais vazio, o mais inexistente, o mais irrisório -- é o de Intriga internacional. É um filme de espionagem e a única pergunta feita pelo roteiro é: "O que procuram esses espiões?". Ora, durante a cena no campo de aviação em Chicago, o homem da CIA explica tudo a Cary Grant, que lhe pergunta, referindo-se ao personagem de James Mason: "O que é que ele faz?". O outro responde: "Digamos que é um sujeito que faz export-import". "Mas o que é que ele vende?" "Ah!... só segredos do governo!" Você vê que, aí, reduzimos o MacGuffin à sua mais pura expressão: nada.
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