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quarta-feira, 2 de julho de 2008

Pílulas Cinematográficas, Edição 1

Tenho visto muitos filmes ultimamente. Vou então fazer comentários breves sobre alguns deles.
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Butch Cassidy (Butch Cassidy and the Sundance Kid, George Roy Hill, 1969): Filme que repete a parceria do diretor George Roy Hill com a dupla Paul Newman e Robert Redford. É um faroeste com tons de comédia extremamente divertido, que conta a história dos dois pistoleiros do título. Possui passagens interessantes em tons carregados de sépia, além de duas das cenas mais famosas do cinema. O passeio de bicicleta de Newman ao som de Raindrops Keep Fallin’ On My Head. E o final, antológico.
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Fargo, uma Comédia de Erros (Fargo, Joel [e Ethan] Coen, 1996): Um dos mais famosos do Irmãos Coen, e guarda muitas semelhanças com o último deles, o oscarizado Onde Os Fracos Não Têm Vez. Os temas são muito parecidos, os arquétipos de um encontram sua contraparte no outro, há uma maleta com dinheiro... aqui, porém, os tons são frios, gelados na verdade, ao contrário do calor do faroeste pós-moderno. O humor, embora negríssimo, também está mais presente aqui, e a cena final, de certa forma, é o exato oposto da de Onde os Fracos Não Têm Vez: é a mulher que fala, e há muito otimismo e conforto, diferente do desespero e
da entrega à derrota do outro. Parece que os Coen perderam de vez a esperança.
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Um Estranho no Ninho (One Flew Over the Cuckoo’s Nest, Milos Forman, 1975): É um dos únicos três filmes a conquistar as cinco principais categorias no Oscar: Filme, Diretor, Roteiro, Ator e Atriz. Os outros dois foram Aconteceu Naquela Noite, de Frank Capra, e O Silêncio dos Inocentes, de Jonathan Demme. É também um filme fabuloso, com atuações extraordinárias de todo o elenco e uma poderosa mensagem contra o conformismo. A cena final é particularmente emocionante, mas o filme todo é de cair o queixo. Imperdível.

terça-feira, 4 de março de 2008

Onde Os Fracos Não Têm Vez

A idade simplifica o homem. De certo modo, é a segunda vez em uma semana que ouço idéia parecida. A primeira foi no recém-resenhado “Admirável Mundo Novo”: dois personagens discutem sobre Deus, e um deles diz que, quando estamos velhos, Deus é algo a que nos apegamos, por ser concreto, imutável, absoluto. Por outro lado, em “Onde os Fracos Não Têm Vez”, vencedor do Oscar de Melhor Filme, Direção, Roteiro Adaptado e Ator Coadjuvante, o mesmo personagem que diz a frase que inicia esse texto constata, em dado momento: “Eu sempre achei que, quando ficasse velho, Deus entraria em minha vida de alguma forma. Mas ele não o fez."

Tal personagem se trata de Ed Tom Bell, xerife em uma pequena cidade no Texas. Com uma narração sua, somos introduzidos ao filme. O Oeste não é mais o mesmo. No passado, os xerifes impunham respeito somente com sua presença, sua autoridade. Hoje, mesmo armados até os dentes precisam suar muito para parar os criminosos. Estes que estão cada vez piores e mais insanos, praticando crimes hediondos como finalidade em si.

Na verdade, o filme é muito mais do que aparenta ser. A sinopse geral dá conta que um soldador, Llewelyn Moss, quando estava caçando, topou por acaso com uma chacina, quilos de drogas, e um moribundo implorando por água. Ele encontra também uma maleta, repleta por dois milhões de dólares. Obviamente, esse dinheiro tem dono. Mas quem vem atrás de Llewelyn é uma besta, a personificação da Morte, um assassino chamado Anton Chigurh. Caberá ao xerife tentar salvar Llewelyn e parar Chigurh.

Mas, quem assistir ao filme esperando que tudo realmente gire em torno dessa história, irá odiá-lo. Seguindo a toada de muitos filmes atuais (provável reflexo de seu tempo), o final desse filme é ambíguo, e até mesmo anti-climático. Para extrair dele seu real sentido, é preciso compreender que a história do filme é só uma figura, uma imagem para os temas em torno dos quais o filme gira: a passagem do tempo, a mudança, e a própria natureza humana e da violência, com seus intermináveis mistérios.

No filme, o maior desses mistérios é justamente Chigurh. Nunca ficamos sabendo para quem ele trabalha (ou se trabalha para alguém), o porquê de ter começado a caçar Moss, ou as motivações para suas ações posteriores. Ele de certa forma representa o acaso. Mas um acaso que tem regras muito rígidas. O modo de ser e pensar dele pode ser completamente estranho a qualquer um, mas ele ainda assim segue uma lógica própria. Isso é traduzido em uma das melhores cenas da obra, em que um personagem conversa com Chigurh, e, encurralado, diz:

- Você tem idéia do quanto é louco?
- Você se refere à natureza desta conversa?
- Eu me refiro à natureza de sua pessoa.

E o acaso se torna ainda mais emblemático na penúltima cena do filme, última de Chigurh no longa. Não vou contar aqui para não estragar, mas tudo que a envolve nos faz pensar em como o acaso é poderoso. Mas, ainda assim, não age sozinho. Como fora afirmado logo antes, é tudo uma questão de escolhas. O acaso existe, sim, mas são nossas escolhas que determinarão seu reflexo. Moss, todo estropiado, tendo que pagar para conseguir um casaco, enquanto Chigurh o conseguiria de graça, se quisesse, é a imagem dessa lei.

Enquanto filme, ainda, “Fracos” entra no grupo daqueles inclassificáveis. “Sangue Negro” ou “Desejo e Reparação”, são dramas ao seu próprio modo. Mas “Fracos” é uma mistura estranha de ação, suspense, drama e um humor negro, cruel por vezes, mas muito engraçado. Uma das melhores frases do filme é quando Moss diz: “Gastei 1,5 milhão em prostitutas e uísque. resto, eu desperdicei. Mas é melhor eu parar por aqui, não vou entregar tudo de bom que o filme tem. Essa foi uma das críticas mais longas que eu já escrevi, e mais detalhadas, justamente pelo filme suscitar tamanho número de perguntas e dúvidas. Entretanto, meu objetivo é que vocês se sintam incentivados a ver os filmes resenhados, para que depois quem sabe possamos falar sobre eles.

Enfim: “Onde os Fracos Não Têm Vez” é sim uma obra prima dos Irmãos Coen, e mereceu ganhar o Oscar, embora “Sangue Negro” também seja espetacular. Será necessária uma segunda audiência do filme para entendê-lo melhor, mas assim, direto e fresco na memória, já é impactante o suficiente. Na última cena, meu coração disparou de expectativa, algo até um pouco estranho considerando que, como já dito, ela é extremamente anti-climática. Mas isso não impede que seja perfeita, afinal, a arte sempre nos surpreende. E a surpresa, aqui, é extremamente ambígua, e por isso tão tensa. Ao final da sessão, é difícil decidir se aquilo foi algum restolho de esperança, ou a simples constatação do vazio.

P.S.: Poema de Yeats de onde o título origianl do livro (e do filme, portanto), foi retirado: http://poetry.poetryx.com/poems/1575/