sexta-feira, 30 de outubro de 2009

Todo Dia, III - Histórias

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Bromélio, 80 anos, vive há mais de 20 no condomínio. Sua barba já lhe valeu, ao longo do tempo, os apelidos mais óbvios e diversos. Gandalf, Papai Noel, até mesmo Pai-Mei – esse vindo de um cidadão com alguma dificuldade em discernir entre os diversos tipos de pêlo facial. Como um bom ancião, tem as manias mais inconvenientes e irredutíveis. Uma delas, talvez a mais inofensiva, e ao mesmo tempo a mais característica de sua personalidade, é a de usar o vocativo “minha filha” para se referir a todas as pessoas. Quando ele encontra Joana, sua única descendente, parida pela mãe há 47 anos, pouco antes que a referida morresse, diz, com a voz elevando-se:

- Joana, minha filha!, há quanto tempo!

Do mesmo modo, ao encontrar a síndica, Sra. Fomm, entregando a correspondência, ele pergunta, com o mesmo tom de voz:

- Sra. Fomm, minha filha!, tem alguma coisa para mim?

Ocasionalmente, Bromélio desce para tomar um pouco de sol e apreciar o ar fresco de sua rua movimentada. Aproxima-se lentamente da portaria, pé ante bengala, e com um toque mole de seu punho na portinhola da casinha do porteiro, proclama, fazendo-se ouvir.

- Seu Zé, minha filha!, pode abrir a porta da rua para mim?

Uma vez por semana, o ancião visita a própria mãe, de 99 anos, no asilo municipal. Nesses dias, ele é tomado pela melancolia, triste de não poder ficar com a mãe por ele próprio precisar de cuidados, e ciente de que em poucos anos Joana, sua filha, o colocará num asilo também, e também ela somente lhe concederá a presença, o bálsamo para a saudade, uma vez por semana. Bromélio caminha lentamente, receoso, pelos corredores pastel do asilo, e quando a enfermeira abre a porta do quarto de sua mãe, e revela a imagem daquela mulher curvada sobre uma cadeira de rodas, olhando serenamente para o jardim, ele sorri, e com a voz mansa, diz soprando para ela:

- Mãe, minha filha, como você está linda!
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quinta-feira, 22 de outubro de 2009

Todo Dia, II - Divagações

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Vou criar um novo movimento, a estética do fragmento, baseado nas obras de Eliot, Cortázar e Perec, e nas Mil e Uma Noites. Nosso lema será “Bons artistas copiam, grandes artistas roubam.”, proferida no passado incerto por Pablo Picasso, portanto fundador avant la lettre do movimento. Se houver qualquer coisa, dentre os nosso escritos, que se aproxime de uma unidade total, pretendida, não baseada na multiplicidade caótica das formas, ela será apagada, destroçada, desmembrada em mil pedaços e depois enfiada nos cantos mais inadequados de tudo quanto nos for soprado pelas musas invisíveis. Esse movimento não terá dono, nem nome adequado, cada um o chamará como achar conveniente. Muitos dirão a arte dos pilantras, alguns o ofício dos não-criativos, outros ainda ourivesaria de destroços, mas se foi em fragmentos que TS escorou suas ruínas, tudo é ruína, o mundo é ruína, e não olhamos para o futuro sobre os ombros de gigantes, mas sobre o empilhamento dos destroços de nossos antepassados.

Vejo agora pois à minha frente os dias de glória, recebidos com serenidade e têmpera pelo meu temperamento temperado. Três, quatro dias de supremo ócio, ainda que as preocupações do futuro – sempre incerto – ainda se abatam, de leve, sobre mim. Verei as sombras elétricas, os espectros coloridos dos mortos, vivendo histórias que não as deles, usando vozes que não as suas, somente a aparência igual, quase igual na verdade, desde aquele instante e para sempre perdida, posto que no seguinte momento já se tem outra.
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sexta-feira, 16 de outubro de 2009

Todo Dia, I - Divagações

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Tenho vontade de escrever mas não posso pois minhas mãos estão atadas pelo peso das ambições. Começo mil e uma coisa mas elas não passam da primeira linha, ou do primeiro parágrafo, ou da primeira página. Meu computador, minha caixa de escritos, é um amontoado de textos mortos, iniciados num instante de empolgação, de inspiração, de fúria criativa, e abandonados ao primeiro sopro da brisa fria da falta de idéias, do medo de errar, da preguiça. Ambição, arrogância, procrastinação: atam-me as mãos. Quero muito, inicio querendo muito, ambicionando tudo. Mas logo paro e então ali fico, por medo de continuar, por medo de não conseguir atender à minha ambição e destruir minha obra, pois o uma vez escrito, por arrogância, ou ainda algum outro medo que desconheço, permanece escrito. Assim, aliada à preguiça, minha ambição alimenta a procrastinação, que, como muito bem dito pelo japonês voador, se como masturbação no começo é bom, logo percebe-se que só se está fodendo a si mesmo. Num rampante ataco o texto, e o desfio, e o termino. Mas ele me parece agora muito abaixo do que deveria ser, do que poderá ter sido, do que eu queria que fosse. Mas é isso, escrever é necessário. Digo:

- Meus diálogos são uma merda.

Ela diz:

- Então não escreva diálogos.

Tão simples. Mas e se eles forem necessários? E se for necessário criar tensão através deles, mostrar uma alma, discutir idéias? E se eles forem inescapáveis, o que fazer? Simples, deixe-os fluir, deixe a escrita fluir, deixe tudo fluir. Que fique um lixo. Depois você pode começar de novo, você pode apagar o passado e escrever ainda uma vez (a última antes da próxima) como se você nunca tivesse escrito. É assim que farei, doravante: sem planejar, somente ir. Aqui vou despejar meu anseio pelas palavras. Sentado, os dedos atacando as teclas, e o resultado oculto, escondido do mundo, pela vergonha de ser ruim ou de ser bom, pior ainda. (Mas não tenho coragem, o revelo por ansiedade, vontade de resposta)

Digamos, por que não ater-me à narrativa dos fatos cotidianos, tão naturalmente providos de profundidade, realidade e beleza? É o que aconteceu, através de meus olhos ainda incertos, ainda indecisos, ainda travados pelo que há de sistemático em mim, mas que buscam saber o que olhar. Para onde dirigir o meu olhar? Para o que acontece agora, o que acontecerá, talvez, ou para o que já aconteceu mas mal me lembro?

- Bom dia.

Treinarei diálogos. É o que disse ele ao sorrir-me de manhã.

- Bom dia, tudo bom?

- Tudo tranqüilo.

- Vocês vão pra Bariloche depois de amanhã, né?

Ainda é difícil reproduzir a verdade, várias vozes se sobrepõe na minha lembrança. Vou removê-las, não as quero mais aqui, somente as palavras fictícias, que revelem o sentido real, assim seja!

- Vou, o ônibus sai daqui 5 horas.

- Hahaha, vocês vão de ônibus pra Bariloche?

- Hahahah, é, isso ae...

- Viagenzinha longa hein?

- Pois é, minha irmã falou que daqui até Buenos Aires dá umas 35 horas.

- Então porra, Bariloche é lá no cu da Patagônia... deve dar uns três dias de viagem se o ônibus
não parar um segundo.

- Sim... mas melhor isso que a classe econômica de um avião por 4 horas.

Ué, costumava ser mais difícil. Será que é porque eu tenho essa mania “cinematográfica” de descrever cada movimento facial, cada expressão de sentimento dos locutores? Sim, porra. Por que você não deixa as porcarias das falas falarem pelos personagens? Você não precisa descrever tudo, isso não é cinema, é literatura, caralho, são palavras, PALAVRAS, você só tem que escrever, dizer o que eles dizem, não criar imagens clichê de seus rostos contorcidos.
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sábado, 10 de outubro de 2009

Agaion, o Terceiro - Prólogo, Parte 1: O Vento

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Alguns devem se lembrar de Again e Agian, uma história que eu escrevi há uns dois anos atrás, publiquei num fórum, e depois linkei aqui no blog. Para os que não se lembram, eis o link da postagem que eu fiz aqui e do tópico onde postei a história no Fórum Jovem Nerd. Pois bem. Depois de um longo período de gestação, finalmente a primeira fase da desova: terminei o primeiro capítulo da continuação de Again e Agian, ou seja, Agaion o Terceiro. Ei-lo, portanto.
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Há um terceiro, sempre há um terceiro...

As palavras de Lucius Brutus Maximiliano, há muito perdidas para os ouvidos humanos, sufocadas no estrépito e estrondo de bombas explodindo, soldados marchando e o último suspiro de um traidor, encontram seu refúgio nos anais do Livro do Tempo. Numa nota de rodapé do capítulo A Morte do Universo Intangível, perfeitamente alocada na página que descreve as ligações entre o fim daquele Universo e certos eventos ocorridos em um outro, fonte dele, lê-se claramente as últimas palavras daquele agente ingênuo do apocalipse, do homem que fez malabarismos com forças muito acima de seu controle – e compreensão.

As palavras dele, já esquecidas dos lábios que as proferiram, vagam pelo vácuo, revolvendo em torvelinhos no Tempo que permanece, e acabam por encontrar, inadvertidas, os ouvidos sensíveis de alguém que ali sentara à beira de um caminho esperando o destino passar para agarrar-lhe a cauda. A chegada súbita daquele rebotalho serpeante de som que ecoa assusta alguém que ali sentara com os ouvidos disponíveis. Uma leve perplexidade o alcança e deixa em alerta seus músculos e seus pensamentos. Agora... lentamente ele percebe, sim, é isso mesmo, ele vê o significado daquelas palavras, ele lembra de coisas que aconteceram – há muito tempo diria um mortal; ainda acontecem para ele – e de outras que foram ditas, e com a chegada desse último fragmento de palavras-estertor, tudo se encaixa.

O destino tenta passar despercebido, correndo rápido, mas alguém estende a mão para agarrar-lhe a cauda, e é levado num trambolhão.

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Estamos de volta aos dias do passado, aos dias de um outro tempo, de um outro mundo, quando e onde os desertos gelados, desde recentemente casa para uma estranha estrutura alienígena, recebiam indiferentes os gritos do nascimento de três bebês. Algo havia dado errado. Tantos cálculos feitos, refeitos, rabiscados em lousas sujas, aquela história, aquele enredo, tão pormenorizadamente engendrado por ele, para criar suas duas cobaias, suas duas ferramentas, seus estudos de caso, e no ponto crucial as coisas não saíram como ele esperava. Não, a mulher não dera à luz dois bebês, dois pólos de um átomo, dois lados de uma moeda – encontre suas analogias -, mas sim três! Toda sua tecnologia, toda sua sabedoria, toda sua criatividade; nada disso havia sido suficiente para controlar ou sequer prever o que aconteceria. A Dra. Adha havia retirado o primeiro bebê da barriga de Thillia, e também o segundo, e depois dispensara seus assistentes. Mas Thillia soltara um forte gemido, e estremecera. Algo estava errado. Adha se aproximou e percebeu que a vagina de Thillia ainda estava dilatada. Mais uma criança estava a caminho. Assustada, Adha ficou parada por um instante, tremendo, pensando em como aquilo poderia ter acontecido. Haviam feito diversos exames, até mesmo observado o útero de Thillia com o ultrassom, e sempre somente dois bebês haviam se mostrado. Lucius escrevera tudo aquilo, a história daquele mundo. Ele escrevera que num inverno gelado a mulher de um nobre daria à luz dois gêmeos, que seriam levados por invasores de outro mundo. Como podia ser que a História se rebelasse contra a vontade de seu criador?

Tudo isso ela pensou num instante, cada dúvida uma pontada lhe fazendo doer a cabeça. Mas ela não podia mais hesitar. Foi até Thillia e retirou dela a terceira criança, mais um menino. Apática, assustada com a situação, sem compreender o que acontecia, Adha ouviu a mulher moribunda perguntar se seus filhos ficariam bem, e ofereceu a vida como garantia. Depois, Thillia morreu, e Adha chamou os assistentes de volta para ajudarem-na.

Foi com receio que ela se dirigiu à sala de Lucius, para informá-lo de que algo havia dado errado. O comandante da missão a esperava quieto, observando serenamente as luzes que cortavam o céu. Virou somente os olhos, suavemente, quando ela chamou seu nome. “Lucius...” – ele sentiu a insegurança em sua voz, contraiu as sobrancelhas – “Os bebês nasceram, Thillia morreu, as crianças estão bem, mas... Lucius, não são dois gêmeos. Lucius, as crianças nasceram, mas não são duas, como você havia criado, mas três!” Ainda com as sobrancelhas contraídas, sem alterar nem um centímetro a expressão, ele virou o corpo para a mulher e colocou as mãos sobre a mesa. “Trigêmeos? Nascidos juntos de Thillia?” – “Sim.”, Adha respondeu. Lucius desanuviou o olhar e somente sorriu, para depois dispensar com um gesto a doutora. Mas quando ela saiu ele se ergueu, o ódio precipitando-se sobre sua alma.

Como aquilo era possível? Estaria seu Universo se rebelando contra ele? Até aquele momento, tudo correra segundo sua mente planejara. Toda a história daquele Universo – eles o chamavam Intangível, no Instituto – fora criada por ele, desde o primeiro instante, desde o t = 0 daquele Universo, até aquele momento preciso em que os dois gêmeos nasciam para servir aos seus objetivos... Era isso! Sim, o ódio súbito cessou e Lucius deixou-se cair de volta em sua cadeira, amaldiçoando-se. Era isso. Ele não dera todos os nós. Deixara algo aberto. Ele só criara História daquele lugar até o momento em que o segundo gêmeo nascia. Ele só dizia, em sua obra-prima, que duas crianças haviam nascido e sido levadas embora por invasores de outro plano. Mas nada dissera sobre haver ou não uma terceira criança, sobre outro “messias” para seu conto de fadas. Por isso, aquele desastre acontecera. Agora havia três crianças, e isso punha em risco todo o arcabouço de seu plano. Era preciso fazer algo em relação a isso, dar um jeito... Dar um jeito? Que espécie de jeito poderia ser dada em uma criança recém-nascida? A morte? O abandono? O exílio? Não, era preciso algo mais definitivo, uma garantia de que aquele terceiro elemento, aquele evento inesperado na curva de sua história, não alteraria a linha desta dali pra frente.

Lucius pegou o telefone de cima de sua mesa e discou um número que conhecia bem.

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O vento vergastava os pilares de trigo da pradaria. Até onde ele podia enxergar, as espigas dançavam, obedecendo a um comando arbitrário e aleatório daquela força da natureza. Num mesmo espaço reduzido os pés se inclinavam em várias direções diferentes, como se não fosse um o vento que os estava oprimindo, mas dezenas. A visão daquela imagem peculiar fazia bem aos olhos de Again. A falta de padrões, a serenidade dos movimentos, a impassibilidade das espigas, que sequer gemiam ao passar o vento... Tudo aquilo deixava seus olhos tranqüilos, repousava sua mente. Ele seria capaz de permanecer horas ali, parado, de pé, somente observando os movimentos do campo de trigo.

Fazia muito tempo que ele caminhava por aqueles campos. Quanto? Ele não era capaz de se lembrar. Anos, talvez... Os dias se perdiam em sua memória. Só o que atestava o passar do tempo eram as pequenas mudanças que ele sentia em seu corpo, as dores ocasionais nas costas ou nas pernas, o cansaço repentino depois de poucas horas de caminhada. Durante todo aquele tempo em que caminhara, desde o dia em que dera o primeiro passo, encontrara pouquíssimas pessoas. O caminho o levava por pastagens sem fim, onde animais espocavam, solitários, de tempos em tempos, e celeiros de repente se erguiam no meio dos trigais. Mas os animais permaneciam distantes, e os celeiros estavam sempre vazios. Chegou a encontrar alguns viajantes, mas passava por eles sem levantar a cabeça. Só chegou a trocar palavras com outro ser humano nas vezes – em suas lembranças ele sabia terem sido menos de cinco – em que não dormira sob o céu ou dentro de um celeiro vazio, mas em alguma choupana onde encontrara repouso. Em todas as ocasiões, os moradores eram dois ou três, pessoas velhas e silenciosas, que não fizeram muitas perguntas, somente ouviram as parcas palavras de Again e lhe desejaram boa noite. Ele nunca sentiu desejo de ficar, de permanecer entre aquela gente. O mundo para ele era um lugar depois do fim. Os corpos que encontrava eram só uma matéria distante, e mesmo que tivessem alma com certeza seria algo bem diferente do simulacro que ele próprio chamara de espírito, aquela criação egoísta que levara à tragédia.

Tragédia... Por que ele trilhava aquele caminho? Disso ele se lembrava. Não havia noite em que não sonhasse com seu irmão. Algumas vezes Agian sorria, e o perdoava, e mostrava a eles belezas que ele não poderia contemplar acordado. Outras, o irmão somente o encarava silencioso, com o rosto sombrio e triste, e não falava nada. Nesses dias, em que o irmão parecia acusá-lo em seus sonhos, Again não comia, somente bebia a água dos rios. Ficava tão cheio de culpa, cheio do assassinato de seu irmão, que não era capaz de matar um coelho ou sequer roubar uma fruta para comer. Quando chegava a noite, ele demorava a dormir, com medo de ver seu irmão o acusando novamente, mas quando ele adormecia o irmão vinha até ele sorrindo, e lhe mostrava mais um pedaço do mundo encantado em que parecia viver. Então, por dias, Again permanecia calmo, sonhando com imagens da infância ou de coisas que imaginava terem passado juntos. Até numa noite qualquer que tivesse baixo a guarda a expressão inescrutável viesse novamente assombrá-lo.

Assim ele vivia, caminhando pelos campos, pela desolação do fim de seu mundo, carregando sempre consigo a lembrança de seu irmão. Esperava um dia tornar-se leve, esvaziar-se de tudo que o preenchia. Continuava andando com a esperança de passar a não ser, de tornar-se nulo, uma pluma de nulidade no mundo vazio. Então ele poderia esperar deitado, sorridente, sabendo que sem esforço conseguiria chegar aonde seu irmão o aguardava. O vento o levaria.
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sexta-feira, 25 de setembro de 2009

Um Conto de Duas Pessoas (XVII)

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Eu, sei, faz tempo. Mas as coisas acontecem na hora certa. Para os que se lembram, o caminho continua aberto: "Tudo e Nada". Para os que não se lembram, melhor começar por aqui: "Amortescimento".

Dito isso, façam bom proveito.
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Ei, onde está todo mundo? Venha, venha cá, sim, isso mesmo, aí, pode parar. Pronto. Todos aqui, a escuridão lá fora, aqui dentro um pouquinho, luz não sei de onde. Lanternas nas mãos, meus amigos! Ajeitem os capacetes, não tenham medo, vamos! Esperem... esperem um pouquinho... só mais um instante... isso! É, o Senhor das Moscas já passou, o Anfitrião atrás dele, a alma do nosso amigo... onde está? Tenho a impressão de tê-la visto em algum lugar. Precisamos procurá-la, crianças, é de vital importância. O Sr. Pifrosineliano está ansioso, espera-nos lá fora para começar as buscas. Não, aí não Dicksie! Eu falei para ficarmos juntos, é melhor não mexer em coisas que não conhecemos direito. A chamada: Poncho? Presente, muito bem. Felício? Está aqui também, ótimo. Dicksie já está aí que eu sei, seu pachola. Cumparsito? Ótimo. Barff e Anísio, lado a lado como sempre, ok. E Todd, e pra terminar, eu! Preto de carvão e seus sete anõezinhos, sim, muito bem. Vamos lá pra cima agora, garotos, vamos nos ver. Veremos a luz lá em cima mas também muitas coisas feias e tristes, é isso. Preparem-se por favor, estão bem? Todos os equipamentos nas mãos, e as lanternas, não se esqueçam. Pronto, é isso, venham. Sigam-me, sim?

O homem de capote, míope como era, não reparou nas criaturas que passaram entre seus pés. Para ele era somente a noite de raios e a chuva contra o couro de sua capa e de seu chapéu. E a seus pés o corpo, seu primeiro mistério. Mexendo os braços, sem ligar para chuva, pegou uma caderneta em seu bolso, uma caneta, e começou a escrever. Não esboçou reação frente ao papel encharcado e à tinta que escorria. Em sua mente, ele via muito bem. Havia ali dois mistérios:

1. O Mistério do Homem
2. O Mistério do Sentido

Os destrincharia com habilidade, como sempre fizera, vejamos. O Mistério do Homem, mistério universal do homem. Também o chamava Mistério do Corpo. Perguntas se multiplicavam em sua mente. Quem era aquele homem (e por que estava morto, qual fora sua vida, o que em sua história o levara àquele momento)? Alguém o matara (e se sim, por que, e quem, e como, e quando, e de que forma o levara até ali)? Em que espécie de conspiração nefasta estaria envolvido para ter o corpo jogado à frente de uma catedral? A tinta escorria pela caderneta, que já se espedaçava sob o peso da água, e o homem finalmente desistiu de escrever. Agora deveria pensar no mistério do sentido.

Era isso: qual o sentido disso tudo? Qual o sentido dessa história, desses acontecimentos? Quem é o Meu Amigo? Quem é o Senhor das Moscas? Quem é o(a) Anfitriã(o)? Quem é o Sr. Pifroniseliano, quem é Preto de Carvão, quem são Poncho, Felício, Dicksie, Cumparsito, Barff e Anísio, e Todd? Quem são os moradores dos 13 Quartos da mansão do(a) Anfitriã(o)? Quem o corpo, qual a catedral, quem o assassino? Quem é o detetive? Quem sou eu, quem é você, qual é o sentido disso tudo?

Não é hora, ainda, das respostas. Mas a chuva não se importa, e cai violentamente.
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A Cidade e as Serras - Eça de Queirós

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Citação de Sexta excepcional por esse trecho fabuloso.
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“Na cidade (como notou Jacinto), nunca se olham, nem lembram os astros – por causa dos candeeiros de gás ou dos globos de eletricidade que os ofuscam. Por isso (como eu notei) nunca se entra nessa comunhão com o universo que é a única glória e única consolação da vida. Mas na serra, sem prédios disformes de seis andares, sem a fumaraça que tapa Deus, sem os cuidados que, como pedaços de chumbo, puxam a alma para o pós rasteiro – um Jacinto, um Zé Fernandes, livres, bem jantados, fumando nos poiais de uma janela, olham para os astros e os astros olham para eles. Uns, certamente, com olhos de sublime imobilidade ou de sublime indiferença. Mas outros curiosamente, ansiosamente, com uma luz que acena, uma luz que chama, como se tentassem, de tão longe, revelar os seus segredos, ou de tão longe compreender os nossos...

- Ó Jacinto, que estrela é esta, aqui, tão viva, sobre o beiral do telhado?


- Não sei... E aquela, Zé Fernandes, além, por cima do pinheiral?


- Não sei.


Não sabíamos. Eu por causa da espessa crosta de ignorância com que saí do ventre de Coimbra, minha mãe espiritual. Ele, porque na sua biblioteca possuía trezentos e oito tratados sobre astronomia, e o saber, assim acumulado, forma um monte que nunca se transpõe nem se desbasta. Mas que nos importava que aquele astro além se chamasse Sírio e aquele outro Aldebarã? Que lhes importava a eles que um de nós fosse Jacinto, outro Zé? Eles tão imensos, nós tão pequeninos, somos a obra da mesma vontade. E todos, Uranos ou Lorenas de Noronha e Sande, constituímos modos diversos de um ser único, e as nossas diversidades esparsas somam na mesma compacta unidade. Moléculas do mesmo todo, governadas pela mesma lei, rolando para o mesmo fim... Do astro ao homem, do homem à flor do trevo, da flor do trevo ao mar sonoro – tudo é o mesmo corpo, onde circula, como um sangue, o mesmo Deus. E nenhum frêmito de vida, por menor, passa em uma fibra desse sublime corpo, que se não repercuta em todas, até às mais humildes, até às que parecem inertes e invitais. Quando um sol que não avisto, nunca avistarei, morre de inanição nas profundidades, esse esguio galho de limoeiro, em baixo na horta, sente um secreto arrepio de morte: - e, quando eu bato uma patada no soalho de Tormes, além o monstruoso Saturno estremece, e esse estremecimento percorre o inteiro universo! Jacinto abateu rijamente a mão no rebordo da janela. Eu gritei:


- Acredita!... O sol tremeu.


E depois (como eu notei) devíamos considerar que, sobre cada um desses grãos de pó luminoso, existia uma criação, que incessantemente nasce, perece, renasce. Neste instante, outros Jacintos, outros Zés Fernandes, sentados às janelas de outras Tormes contemplam o céu noturno, e nele um pequenininho ponto de luz, que é a nossa possante terra por nós tanto sublimada. Não terão todos esta nossa forma, bem frágil, bem desconfortável, e (a não ser no Apolo do Vaticano, na Vênus de Milo e talvez na Princesa de Carman) singularmente feia e burlesca. Mas, horrendos ou de inefável beleza; colossais e de uma carne mais dura que o granito, ou leves como gases e ondulando na luz, todos eles são seres pensantes e têm consciência da vida – porque decerto cada mundo possui o seu Descartes, ou já o nosso Descartes os percorreu a todos com o seu método, a sua escura capa, a sua agudeza elegante, formulando a única certeza talvez certa, o grande
Penso, logo existo. Portanto todos nós, habitantes dos mundos, às janelas dos nossos casarões, além nos Saturnos, ou aqui na nossa terrícula, constantemente perfazemos um ato sacrossanto que nos penetra e nos funde – que é sentirmos no pensamento o núcleo comum das nossas modalidades, e portanto realizarmos um momento, dentro da consciência, a unidade do universo! – Hem, Jacinto?...”

-A Cidade e as Serras, Eça de Queirós
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quinta-feira, 24 de setembro de 2009

Por certo tempo não gostei de Clarice

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Por certo tempo não gostei de Clarice, suas paranóias, seus medos, seus sussurros desesperados e sem sentido. Não gostava dela, vi sua entrevista e não gostava, não gostei nem ali nem depois, seu olhar solto, sua expressão de mau humor, as palavras saindo com muito esforço da boca, a fala entrecortada, as frases ásperas e curtas que denotavam aos meus olhos um certo enfado, uma arrogância de achar a vida desnecessária e o mundo feio e chato demais. Não gostei dela ali nem depois. As pessoas que gostavam dela, também dessas não gostava, não gostava de ninguém que se sentisse atraído por aqueles lábios retorcidos para fora, os olhos rasgados no rosto, a fala, a fala... Não gostava de sua idéia, ou de seu livro que ia falar sobre uma retirante, sobre uma moça e a miséria e como a sociedade brasileira é injusta e isso tudo (não tinha, ainda, lido). Por certo tempo não gostei de Clarice, pois tinha preconceito, não imaginava o mundo que ela revela, a dor, tantas vezes repetida, que ela abre, a pergunta sem fim que ela faz a si e a mim e ao mundo sem parar nem por um instante, uma ansiedade da dúvida, a dúvida sem resposta, o assombro permanente do que não é entendido, não imaginava, não sabia, não gostava de Clarice.
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Mas agora eu gosto.
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terça-feira, 15 de setembro de 2009

!?

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Abandonei a poesia pelas coisas que não têm som. De agora em diante não haverá mais “ais”, “ós” ou “uaus” para mim, somente a impassibilidade dos signos. Sob meus dedos estão eles, as curvas, os traços, os pontos na página branca, tocando-se de diferentes maneiras, desenhando variadas formas. Mas nenhum deles pode ser expresso pela língua que se bate contra os dentes ou pelas cordas que vibram no abismo da garganta. Eles não podem alcançar nenhum ouvido, estou sozinho na terra dos cegos, não há sequer um rei caolho para ver aquilo que digo. Os signos sem som trazem toda a solidão para dentro de nós, onde não podemos alcançá-la, e até mesmo dela somos apartados, sou apartado, eu sozinho, nem a solidão por companheira, somente o dedo sujo de tinta que rabisca signos sem som na folha cinza. Antes havia o som do mundo, e a alegria da bulha das coisas. Ai, ai, ai, ui, ui, ui, hein, hein, hein e as onomatopéias que brotavam sem ser vistas. Toc, ping, pow, tlec, clap, fung, oinc, atchim, auau, bang, grrrr, nhec, miau, cocoricó, zzzz, kablam, psiu,ô, ê, a, sons reduzidos à sua essência mais irredutível, situados no tempo entre o abrir e o fechar dos lábios, no tempo o tempo, antes do tempo de significar, tic, tac. E depois os dedos sujos, as paredes manchadas, aquelas coisas que eram pra ser aquelas coisas que eram. O “á”, “ê”, “ô” virando AEIOU as vogais todas e as consoantes entre elas, rabiscos de curvas, traços, pontos nas paredes e tabuletas de argila, signos para o som que eles ouviam. Tic, tac, som e sentido, mais sons, mais sentidos, os signos se unem e desse conúbio de símbolos nascem símbolos novos, filhos dos símbolos de antes. E a música é a pintura é a escrita é a poesia que é música, pintura, escrita, ver ouvir sentir na união de tudo que nós temos na cabeça e na pele e das coceguinhas que sentimos nas têmporas. Os signos de dedos sujos onde antes havia nada agora querem dizer tudo, eles estão ansiosos, são ansiosos por dizer, dizem antes mesmo de alguém ouvi-los ou sequer dar-lhes um instante de atenção, dizem tudo de uma vez, já disseram, já está tudo dito, nós é que ouvimos com atraso, atrasados somos. Por isso os sentidos se perdem, os sons deixam de ecoar, somente os signos permanecem, sem som, insignificantes, uma expressão próxima do vazio de todo aquele nada que há em nossos próprios ocos. Faz silêncio na estação, onde escrevo signos sem som no papel; é o resto. Os signos já correram em direção a seus sentidos, e os sentidos correram em direção à realidade, e o Som está nisso tudo, mas não em nós. Ficamos todos para trás, fiquei eu, estou sozinho na estação vazia, não há estação, somente eu e o meu redor, cheio de signos de exclamação e surpresa, de espanto e dúvida, e eles não fazem som, somente permanecem, frios, enquanto os encaro. E o meu redor sou eu.
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terça-feira, 1 de setembro de 2009

Na Biblioteca...

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Já publiquei algumas vezes aqui pedaços de coisas que escrevi ou que ainda não terminei. Mais uma vez, lá vamos nós. Mais um dos começos de romance que descansam no disco rígido à espera de que a procrastinação cesse de todo e a vontade sonhadora faça-se em vontade prática para dar à luz o feito ou desastre literário que ainda agora é nada mais que um retalho e uma idéia.
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Os degraus do Lugar Sagrado nos disseram as horas, quando perguntados, mas havia muita fumaça ali, pouco se via, e a bulha dos carros passando, como fundo para o silêncio de nós quatro, recortava aquela imagem de um carro do passado parado no meio fio, as portas recém-fechadas, Pauline receosa de continuar - ela tem medo, sempre teve, seus olhos abrem-se ao menos uma vez por dia de algum espanto ou receio, seus olhos lindos, imensos, tão grandes e tão adequados à sua face e à sua cabeça linda e incomum -, Andrei e Fischer junto dela, um de cada lado, as mãos deles paradas no ar prestes a agarrar os cotovelos da moça, e eu ali, também receoso, também com medo, indeciso sobre continuar subindo e talvez não mais retornar ou deixar-me levar pela aflição, pelo desejo de continuar ao lado dela, de não deixá-la, e no entanto eu já estou no primeiro degrau, não há mais volta, um tremor de terra, sentido parece somente por mim, badalam os sinos da Catedral, já não posso atrasar, não pode haver mais medo, viro e mecânico dou o primeiro passo, é uma longa subida, lembro da imagem dos mosteiros e dos templos nas montanhas, construções encravadas nos picos mais altos, enterradas na pedra e na neve, acessíveis somente pela Escadaria que parece não ter fim, aquela sucessão estreita e desencontrada de planos irregulares de rocha, nada convidativos, iguais em distância à que hoje me desafia, ainda que ao todo situadas no lado oposto dessa, imensa e ameaçadora, de degraus tão altos e tão largos que é preciso escalá-los, jogar os braços por cima deles e se arrastar impotente pelo mármore ocre, humilhar-se voluntariamente para poder atravessar os portais que lá em cima nos aguardam, um mera sombra aqui de baixo, uma sombra absoluta na chegada, lá, de onde não se pode mais olhar pra trás, somente em frente, somente afundar-se na sombra que desde aqui da base, desse recanto ensolarado e enevoado de mundo, já posso sentir.
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Para cada degrau, um enigma. Em minha pequenez observo no alto de cada degrau letras que não conheço, hieróglifos guardiões da senda que segue acima, o caminho críptico para o Portal e a Sombra, desvelado passo a passo, degrau por degrau, pela solução daqueles enigmas.
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quarta-feira, 12 de agosto de 2009

Nepotismo digital

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Pequeno parêntese em todas as "elucubrações" "filosóficas", "críticas" "cinematográficas" e "pequenas" "obras" "literárias" deste "blog".

Minha irmã agora tem uma dessas coisas ultrapassadas (Twitter is the thing now bitch) chamadas blogs. Com vocês, Cereja Cor-de-Rosa:

http://cerejacorderosa.blogspot.com/
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