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segunda-feira, 9 de fevereiro de 2009

Grandes Desfechos de Livros 2 (de 5)

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Dando sequência à lista de melhor desfechos de romances, vem hoje o ubíquo Joyce. Ao contrário do final da semana passada, recapitulador e conclusivo, o final de hoje é de uma natureza bem diferente, único, eu diria. Finnegans Wake, como já tratei aqui no blog, é um romance singular, então nada mais adequado que seu final ser singular também.

Acontece que, nesse colossal labirinto ainda por ser desvendado, a última frase de suas linhas é nada menos que o começo da primeira frase do livro. Ou, em outras palavras: a última frase termina na primeira página, e a primeira frase começa na última página. Joyce, assim, dá ao livro um aspecto circular, interminável, perfeitamente adequado às idéias do filósofo Giambattista Vico, das quais Joyce tirou um pouco da estrutura do romance.

Além disso, como é marcante no escritor, que fez isso tanto em Ulisses quanto neste Finnegans Wake, o romance termina numa torrente, um fluxo de consciência feminino, e nesse caso, literalmente um rio caudaloso desaguando no mar. ALP, Anna Lívia Plurabelle, o espírito do Liffey, a consciência feminina do ser humano, do mundo, de todo o universo, flui nas páginas entre nossos dedos, e por fim une suas águas às de seu pai, o mar, desintegrando-se e dando lugar a um novo começo que se personifica em sua filha, e na primeira linha do romance, que volta a fluir, reiniciando o ciclo. De deixar boquiaberto qualquer um não?

No Brasil, o título foi traduzido como Finnicius Revém pelos irmãos Campos, que também traduziram alguns trechos em seu Panaroma de Finnegans Wake. Anos depois, o gaúcho Donaldo Schüler tomaria para si a tarefa de traduzir o livro integralmente, tarefa que executou de forma sublime. Deixo aqui, portanto, as últimas linhas do Finnicius Revém, a "versão brasileira", de Donaldo Schüler, para a odisséia lingüística, simbólica, filosófica e artística de Joyce.
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Finnegans Wake, de James Joyce. Tradução de Donaldo Schüler.

“Estou de partida. Que amargo fim! Sorrateiramente partirei antes que acordem. Não vão me ver. Nem saber. Nem recordar-me. E é velha e velha é triste e velha é triste e exausta volto a ti, velhegélido pai, velhegélido indômito pai, meu velhegélido indômito, patético pai, até a mara vista da mera forma dele, as miolhas e miolhas dele, monotonando, me ressalgam, me ressacam e me arremesso, meu início, em teus braços. Eisque seelevam! Salvem-me desses tríveis dentes! Dos más uno dos homomentos mais. Só. Avelaval. Minhas folhas derivam de mim. Todas. Só esta me resta. Paro e porto comigo. Pra remembrança de. Lff! Suave esta manhã, tanto, a nossa. Sim. Leva-me contigo, papito, como quando quedos percorremos a feira dos brinquedos! Se eu o visse baixar sobre mim sob suas alvestendidas asas como que vindo de Arkângelos, penso que pensa findaria a seus pés, húmil, dúbil, débil, laudante. Sim, tá em tempo. Cá estamos. Início. Passamos pastagens, basculhem o bosque a. Vvôo! Gaivvota. Gaivvootas. Apelos do pai. Já vvou, pai. Eis o fim. Nós então. Finn, revém! Toma. Serenamente, remememora-me! Té que thausentes. Lps. As chaves a. Cá tens! A via a lenta a leve a leta a long a”
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segunda-feira, 17 de novembro de 2008

Grandes Inícios de Livros 2 (de 5)

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Continuando a lista dos inícios de livros que eu mais gosto, falo hoje sobre um livro do qual já falei aqui, na primeira resenha de livro publicada por esse blog. Trata-se de Um Retrato do Artista Quando Jovem, primeira obra-prima do irlandês James Joyce.

Esse parágrafo inicial é um símbolo da obra de Joyce: traz coisas clássicas/do passado e as rearranja de uma maneira incrivelmente moderna e à frente de seu tempo, por um lado, e é um tipo de fluxo de consciência, por outro. O parágrafo prenuncia, também, todo o estilo narrativo do livro: ao usar uma sintaxe de pensamento infantil, Joyce representa perfeitamente a consciência de uma criança. E essa sintaxe, durante o livro, irá mudar, evoluir, para representar as diferentes fases da consciência do personagem principal, matéria básica e essencial para um romance de formação como o que o Retrato é.

Enjoy.
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Um Retrato do Artista Quando Jovem, de James Joyce. Tradução de Bernardina da Silveira Pinheiro.

"Era uma vez e uma vez muito bonita mesmo uma vaquinha-mu que vinha andando pela estrada e a vaquinha-mu que vinha andando pela estrada encontrou um garotinho engrachadinho chamado bebê tico-taco.

Seu pai lhe contava aquela história: seu pai olhava para ele através dos óculos; ele tinha um rosto peludo."
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segunda-feira, 4 de agosto de 2008

Meus 10 romances preferidos

Hoje, seguindo a "tradição" das listas de segundas, trago aquela que indica os romances que mais me marcaram. Eles são, em sua totalidade, romances modernos, no século XX, mas isso não foi nenhuma escolha premeditada. É que, por um lado, não li muitos romances mais antigos, do século XIX ou anterior, e por outro, é possível que eu me identifique mais com uma linguagem mais próxima de mim, mesmo que só cronologicamente. Enfim: mistério, mistério, mistério... Leiam a lista, leiam os livros nela contida, e também façam as suas próprias e postem aqui! Estarei esperando.
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1. Ulisses, de James Joyce: O melhor e mais importante livro do século XX é também aquele que marcou o ponto de virada na minha vida de leitor. Antes dele, dedicava-me quase que somente a épicos de fantasia e ficção científica. Depois dele, o mundo da literatura descortinou-se diante dos meus olhos, e eu descobri o prazer da forma e do estilo. Já falei um bocado sobre Ulisses aqui neste blog, inclusive menos de dois meses atrás, quando foi comemorado o Bloomsday. Portanto, me abstenho de tecer maiores comentários a respeito deste monumento: o que nos cabe é lê-lo, e multiplicar assim seu alcance.

2. Grande Sertão: Veredas, de João Guimarães Rosa: Outra obra transcendental, extremamente marcante para mim. Guimarães Rosa é, de longe, meu escritor brasileiro preferido (não à toa, ele é considerado o Joyce tupiniquim). O estilo místico, mítico e poético de Rosa, misturado ao valor que ele dá à linguagem, fazem de Grande Sertão uma referência, um motivo, como eu li em algum lugar, para que, daqui a alguns séculos, quando talvez o português for uma língua morta, as pessoas aprenderem-no somente para ler a obra. E, além disso, há o lado humano, universal, que trata dos nossos grandes temas, e o coloca ao lado de Dom Quixote, de Fausto, do Ulisses supracitado... Grande Sertão: Veredas é um triunfo, e precisa ser lido e celebrado.

3. O Senhor dos Anéis, de J.R.R. Tolkien: Embora seja menosprezado por muitos dos ditos intelectuais, pela inteligentsia que o vê como uma obra infanto-juvenil, O Senhor dos Anéis é talvez o épico definitivo. Ele resgata os arquétipos e valores da infância da humanidade, quando obras como Beowulf, a Ilíada, a Odisséia, o Kalevala e outros poemas épicos surgiram,e os condensa em um único romance, cuidadosamente trabalhado e concebido. Já li O Senhor dos Anéis seis vezes, e a cada vez ele se me apresenta melhor, mais divertido, mais gostoso de ler. Marcou a minha vida de leitor, foi o meu "grande início", e por isso me é tão caro.

4. No Caminho de Swann, de Marcel Proust: Único livro de Em Busca do Tempo Perdido que eu li até agora, é também o primeiro volume. Atualmente, espero a sequência de publicação das ótimas edições da Globo para retomar (do início) a leitura, e então ir até o final. De qualquer modo, No Caminho de Swann já é, por si só, uma obra prima. O estilo lento e rebuscado do autor serve de instrumento para imergir totalmente o leitor em sua prosa. E o último páragrafo do livro, que remete cataforicamente ao final da série, é uma pérola que guardo permanentemente em minha lista de citações.

5. Lolita, de Vladimir Nabokov: O livro mais conhecido de Nabokov é, o que é injusto com a obra, conhecido principalmente por seu conteúdo polêmico. A história do professor que gosta de garotinhas, e empreende com uma delas uma viagem pela América escandalizou a sociedade da época, embora não contenha passagens explicitamente eróticas, como outro clássico polêmico, O amante de Lady Chatterley (do qual tratarei quarta-feira). Os grandes triunfos do livro são, em primeiro lugar, o fato de ser narrado pelo próprio professor pedófilo, o que exige do leitor uma atenção e uma concentração imensas em relação ao que é dito, caso contrário ele pode se ver enredado pelo discurso de Humber Humbert, tornando-se simpático a ele; e em segundo lugar pelo seu estilo, rebuscado, milimétrico e extremamente divertido.

6. O Processo, de Franz Kafka: Kafka, quando em vida, foi um completo fracasso. Mas seu legado, garantido ao mundo pela traição do amigo Max Brod, o colocou entre os melhores e mais importantes romancistas do século XX. Diferente de Proust ou Nabokov, o estilo de Kafka é seco, e diferente do de Joyce ou Rosa, direto. Ainda assim, ele opera verdadeiros milagres, com contruções hipnóticas e capítulos impossíveis de largar. Neste livro, Kafka antecipa a onda de regimes autoritários que assomaria a Europa após sua morte, com a história não terminada de um homem, Josef K., que é acusado de algum crime que desconhece, e acaba conhecendo as engrenagens de uma máquina escrupulosamente lógica, ainda que irracional e inumana. Assim como Flaubert em Bouvard e Pécuchet, Musil em Um Homem Sem Qualidades, e alguns outros gênios, Kafka chegou talvez em O Processo tão perto da Verdade que foi obrigado a parar.

7. Se um viajante numa noite de inverno, de Italo Calvino: Calvino tinha ligações com a corrente literária OuLiPo (Ouvroir de Littérature Potentiel, algo como oficina de literatura em potencial), e por isso gostava de experimentações em seus livros. Também gostava de escrever histórias curtas, contos formando um todo, como aparece em As Cidades Invisíveis e O Castelo dos Destinos Cruzados. Ambas as características estão presentes nesse Seu viajante... um dos livros mais originais da história da literatura. Pra começar, ele é o único livro narrado em segunda pessoa que eu conheço. Isso mesmo: Você, o Leitor, é o personagem principal, e a história começa justamente com Você lendo Se um viajante numa noite de inverno, o novo romance de Italo Calvino. Entretanto, Você logo percebe que há um problema de impressão no seu exemplar, e com isso um outro livro começa. Sucessivamente, Você vai percorrendo diversos romances, tentando ler cada um até o fim, inutilmente. Por meio desse recurso, Calvino exercita sua escrita em diversos estilos, e faz uma reflexão fascinante sobre a leitura, a literatura, e a maneira de contar histórias.

8. Cem Anos de Solidão, de Gabriel García Márquez: A saga dos Buendía na mitológica Macondo é um ao mesmo tempo melancólico e encantador romance. Os cem anos de solidão que a estirpe vive sobre a terra são o pano de fundo para diversos acontecimentos em que Márquez desenha lugares e personagens extraordinários, pessoas que têm suas vidas entremeadas com uma matéria onírica, que ao mesmo tempo é capaz de proporcionar alegrias e conquistas fora do comum, e caminhadas até o mais profundo vale de sombras. O estilo de Márquez é particularmente notável, um registro que, pela "indiferença", é capaz de encantar muito mais que alguns palavrórios desconjuntados.

9. Um Retrato do Artista Quando Jovem, de James Joyce: Primeiro livro de Joyce que eu li de cabo a rabo, após o retumbante fracasso com a primeira tentativa de leitura de Dublinenses, O Retrato do Artista Quando Jovem já foi alvo da análise deste blog. Atualmente, empreendo a leitura no original em inglês, para poder sentir de maneira mais imediata a força que o som e as palavras têm nesse livro, característica que só faria aumentar nas obras subsequentes do escritor.

10. Admirável Mundo Novo, de Aldous Huxley: Outro livro que já foi objeto de resenha do Amortescimento, Admirável Mundo Novo é uma deveras admirável construção que mistura ficção científica, totalitarismo, Shakespeare e até um certo misticismo para retratar um mundo onde a felicidade e a satisfação são imperativos, e o conceito "humanidade" é algo tão puramente científico e racional que se torna inócuo. Assustador e, ao mesmo tempo, revelador, como todas as distopias devem ser, Admirável Mundo Novo é uma obra que mistura uma linguagem poética e sutil com um pesado conteúdo, mistura que dá muito mais do que certo.

segunda-feira, 16 de junho de 2008

O dia em que o romance morreu

Este post faz parte do Bloom-Blogsday, um evento que busca festejar a obra de James Joyce, especialmente o Ulisses, na blogosfera brasileira. Estando esse ano na quarta edição, o evento consiste em diversas postagens sobre o tema em diversos blogs, com o intuito de divulgar e comemorar neste dia a própria literatura. Para mais informações, visitem o Odisséia Literária, que é o grande vértice do acontecimento.


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Há 104 anos, neste mesmo dia, estava acontecendo algo que mudaria para sempre a história da literatura. Era um acontecimento ínfimo, imperceptível, como uma pedrinha jogada num lago, mas cujas ondas se espalhariam lentamente até que, chegando às margens, já seriam vagas imponentes. Tratava-se do enlace amoroso entre duas pessoas, James Joyce e Nora Barnacle, que ao praticar aquele coito incompleto, não imaginavam que seriam, um século depois, objeto de observação de pessoas como eu e você, meu caro leitor.

Naquele 16 de Junho de 1904, uma quinta-feira, James fez-se homem e Nora, mulher. Alguns anos depois, ele escolheria a data para situar a ação de um dos maiores romances de todos os tempos, o “romance para acabar com os romances”, Ulisses. Passado nesse único dia, o livro gira basicamente em torno de três personagens: Leopold Bloom, que sabe que sua mulher, Molly Bloom, o trairá com o empresário naquele dia, e fica a perambular pela cidade, visitando pubs, restaurantes, o hospital e a biblioteca da cidade, entre outros lugares. Ao fim do dia, ele encontra Stephen Dedalus, que acolhe e ajuda como a um filho.

Nesse percurso, contudo, dezenas, até centenas de personagens se interporão no caminho, e as mais diversas situações serão narradas. A obra tem um lado extremamente popular e obsceno, que levou-a a ser proibida em diversos países, retratando as mais diversas perversões e hábitos íntimos que a literatura dificilmente se propõe a narrar, mas que são tão comuns como respirar: Leopold flatula, defeca (peida... caga...), se masturba, tem sonhos com estátuas de pedra de deusas... enfim, nada que um ser humano normal não faça.

Está aí um dos aspectos mais importantes da obra: ser uma extraordinária comédia humana, que reinaugura o realismo. O crítico Edmund Wilson disse que Ulisses é “talvez a mais fiel radiografia já feita da consciência humana”. De fato, todos os personagens que passam pelas páginas (muitos saídos da vida real de Dublin) são palpáveis, encorpados, eles nos dão a impressão de existir. Outra faceta extremamente humana é o estilo de narração pontuado por monólogos interiores, cheio de impressões, desde as completamente instintivas e emocionais até as mais racionais e criteriosas.

Por outro lado, a obra tem um aspecto completamente erudito e mitológico. Sendo uma grande paródia, o livro condensa uma quantidade imensa de referências e nos permite inúmeras associações. Como foi revelado por Wilson em seu ensaio sobre o romance, Ulisses leva esse nome por ser estruturado em cima da Odisséia, de Homero. Na infância, Joyce escreveu um ensaio intitulado “Meu Herói Preferido”, sobre o Ulisses da Odisséia. Depois, com o pensamento amadurecido, diria que ele é o mais completo herói clássico, por ser “filho de Laerte, pai de Telêmaco, marido de Penélope, amante de Calipso, companheiro de armas dos guerreiros em Tróia e rei de Ítaca.”

Assim, os dezoito capítulos do livro têm uma correspondência em algum episódio da Odisséia, e associados a si uma cor, arte ou ciência e órgão do corpo humano. Mas esse é somente um dos níveis de paródia. O primeiro capítulo, por exemplo, também parodia o Hamlet de Shakespeare. Cada capítulo, por sinal, é uma obra-prima em si. Escritos cada um em um estilo diferente, mimetizam a história da língua inglesa e da própria cultura ocidental. Esse estilo caleidoscópico de referências influenciou grandemente o modernismo do século XX e uma gama imensa de autores deve suas obras a Joyce.

A recepção inicial à obra não foi das melhores, mas esse é mesmo o destino das grandes coisas. Os leitores em geral não estavam preparados para tamanha sinceridade obscena, para tamanho volume de referências e para o estilo de narração de Joyce. Os monólogos interiores, que constituem o elemento principal de narração da obra, foram recebidos com estranhamento, e ninguém entendeu nada. Entretanto, a partir do ensaio de Wilson e da defesa do livro por alguns apaixonados, ela acabou conquistando todos os que se aventuravam a enfrentá-la. Pois, se Ulisses não é uma leitura difícil, é uma leitura exigente, que pede do leitor que mergulhe e se abandone em suas páginas. Embora se referisse mais ao Finnegans Wake, vale aqui também a máxima de Joyce segundo a qual seu leitor ideal teria uma insônia ideal.

No Brasil, o livro ganhou já duas traduções publicadas. A primeira, de Antônio Houaiss, não li ainda, mas diz-se que tornou ainda mais hermético o texto de Joyce, tornando-o por demais sisudo e matando seu lado bufão. A segunda, de Bernardina da Silveira Pinheiro, é mais coloquial e se aproxima do tom de Joyce, mas peca na tradução de alguns jogos de palavras e trocadilhos. Há uma terceira, em vias de ser publicada, de Caetano Waldrigues Galindo, que aparentemente mantém o tom jocoso da obra e também seu aspecto de riqueza lexical e lingüística.

De qualquer modo, vale sempre buscar a leitura no original, pois Joyce foi um gênio de envergadura inigualável, e não há nada como ouvir suas próprias palavras. Ulisses, quando foi lançado, em 1922, pode sim ter acabado com o romance. Ao levar a literatura aos últimos limites, eliminando inclusive a figura do narrador nos dois últimos capítulos de Ulisses, e posteriormente construindo algo ainda indecifrável no Finnegans Wake, Joyce de fato matou o romance. Mas ele imediatamente ressuscitou. Mais do que cometer um crime, esse gênio expandiu os limites do que conhecemos como literatura, e permitiu que ainda por alguns séculos busquemos as próximas margens, até que venha um novo gênio para alargá-las novamente. Nesse Bloomsday, comemoramos a vinda ao mundo desse “Livro Azul inutilmente ilegível ". Ora, nada melhor para festejar um livro do que lê-lo. Vamos então dizer sim à verdade da vida humana e da arte e, quando te perguntarem se você quer ler o Ulisses, responder “yes i will Yes”.

sábado, 5 de janeiro de 2008

Resenha: Um Retrato Do Artista Quando Jovem

A tradição do romance de formação ou Bildungsroman remonta a Goethe e seu “Os Anos de Aprendizagem de Wilhelm Meister.” A história do jovem alemão e suas teorias sobre Hamlet não só influenciou diversos escritores como criou um gênero. Livros como “O Jovem [Aluno] Törless” de Robert Musil, e “Sidarta” de Hermann Hesse são alguns dos expoentes do gênero, embora incontáveis outras obras sejam acrescentadas - ao humor do crítico estiver analisando (Harry Potter inclusive). Ainda que muitas (ou todas) as histórias falem sobre transformação, as características do Bildungsroman são claras e facilmente apreensíveis. Para começar, observe os títulos. Palavras sobre juventude e aprendizado são constantes. Além disso, são romances majoritariamente psicológicos, mais dedicados aos pensamentos e sentimentos do protagonista (notoriamente masculino pelas questões sociais que todos conhecemos, mas obviamente com suas exceções) sobre o que acontece ao seu redor, algo que acaba solitarizando-os.

Joyce adorava o livro de Goethe, e o citou inclusive em sua opus magnum “Ulisses” . Fez assim jus a isso criando um romance de formação – que é frequentemente comparado à autobiografia por semelhanças estilísticas – semi-autobiográfico. A história do “Retrato” é longa. Começou no dia 7 de Janeiro de 1904 (ano fatídico), quando ele escreveu um ensaio autobiográfico intitulado A Portrait of the Artist para a revista Dana, editada pelos escritores John Eglinton e Fred Ryan (também personagens de “Ulisses”), recusado prontamente, pois aquele afirmou: “Não posso imprimir aquilo que não entendo.” Incentivado pela recusa, Joyce se pôs a trabalhar em um romance, com o mesmo tema e história, chamado Stephen Hero, com conteúdo muito mais sociopolítico e extenso, percorrendo 26 capítulos, mas já “estrelado” pelo alterego do autor, Stephen Dedalus. Fragmentos de Stephen Hero seriam publicados depois da morte dele, possibilitando uma análise de seu conteúdo e proposta. Quanto ao “Retrato”, foi metamorfoseado da obra original em algo muito mais psicológico e denso, sendo então publicado em forma de série na revista The Egoist em 1914 e 1915, e depois impresso em forma de livro em 1916.

Como toda a obra de Joyce, o livro pode ser analisado sob muitas facetas. Comecemos pelo protagonista: St. Stephen foi o primeiro mártir cristão, e Dédalo foi o gênio inventor e arquiteto da mitologia grega - que construiu um touro de madeira para a rainha Pasífae copular com um touro campeão, e por isso foi preso pelo rei Minos no labirinto que construíra para o Minotauro, junto com seu filho. Ele então fez dois pares de asas com penas e cera, e as utilizou para fugir. Seu filho, por outro lado, se aproximou muito do sol e caiu, gerando a famosa analogia/metáfora do “vôo de Ícaro” ou da “queda de Ícaro”, tão batida quanto a “ressurreição da Fênix das cinzas” -, o que ilustra perfeitamente a dicotomia do personagem: inicialmente e por um lado um católico contrito, cheio de culpas e arrependimentos, eternamente melancólico; e posteriormente e por outro um pagão, um poeta herético ou, em suas palavras, “um horrível modelo de livre pensamento.” Analisado contra Poldy ou Molly Bloom, Stephen é um personagem um tanto estéril (como o disse Harold Bloom). Quando divide a cena, acaba ficando em segundo plano. Mas “Retrato” é seu livro, sua história, e aqui ele executa perfeitamente bem seus papéis.

E a maneira que ele encontra para tomar posse do livro é a penetração psicológica, aplicada sob a forma do monólogo interior, usado pela primeira vez por Joyce. O método “criado” por Edouard Dujardin foi utilizado por muitos, mas Joyce é o mestre e artesão definitivo do estilo. O monólogo de Molly Bloom em “Ulisses” é especialmente citado, mas já em “Retrato” Joyce explora de mil maneiras o mundo interior do protagonista com o fluxo de consciência. Impossível não entender os dilemas de Stephen, e identificá-lo como humano. A maneira como as coisas vêm pode ser um pouco difícil, mas qualquer leitura atenta desvenda imediatamente toda a - com o perdão da expressão – magia do livro.

Magia esta que toma outras formas. A “formação” ou “evolução” da personagem, o outro grande trunfo do romance, ocorre aqui em paralelo à evolução do livro. O crescendo da sofisticação lingüística e sua representação musical são de fato os verdadeiros retratos de Stephen. Inicialmente sons monocórdios, orações coordenadas, idéias girando em torno de um mesmo conceito. Sim, o início do “Retrato” é o mundo pelos olhos de um bebê. O resto deste primeiro capítulo, um dos mais deliciosos de se ler, também retrata fielmente o pensamente infantil, em sua busca dos porquês e em sua ânsia analítica de entender as coisas e relacioná-las umas às outras. Finda a prótase, vem a epítase: nascem os conflitos, familiares, religiosos e psicológicos, na mente e no mundo de Stephen. A descrição do Inferno, em particular, me marcou profundamente quando o li pela primeira vez, transformando-se no trecho mais perene na minha memória. A catástase, em minha concepção, é sua decisão de ir embora, de romper de vez com sua família, e ir morar em Paris, sendo todo esse conflito permeado por suas discussões estéticas e políticas com colegas estudantes.

Antes que se consuma o fim, já se formou na memória qual foi a “formação” pela qual Stephen passou: um garotinho estudante de um colégio jesuíta passa por um momento de quebra (a falência de seu pai) e se entrega à promiscuidade como refúgio (e como descoberta). Mas as reminiscências do passado religioso renascem quando ele volta à escola, e se descobre um pecador, fechando-se então cada vez mais em seu desespero profano. Acomodado, encontra um ponto de segurança, mas continua preso e fechado. Finalmente, vai se libertando, se desprendendo de sua família que o prende, de suas culpas que fecham, de seus medos que o vedam. Como aquele do qual tomou o nome, ele escapa de um labirinto - onde em cada parede se encontra uma frustração -, estende suas asas, e alça vôo, para descobrir novos ares e tentar novas empreitadas. É a catástrofe, o desfecho, o amadurecimento do jovem aprendiz. Independente do que vier a mais, ele se encontrou definitivamente, e se transformou no que viveu para ser. E para que, quando encontrasse novos grilhões, novas barreiras, pudesse voar novamente, pede, nas linhas que encerram o romance: Velho pai, velho artífice, valha-me agora e sempre.

sexta-feira, 21 de dezembro de 2007

Leituras para o feriado

Meus queridos, deixei-lhes sem posts por dois dias, mas foi por uma boa causa. Queria dar tempo para que leitores com menos tempo não ficassem afogados em meio a posts demais. Mas agora, farei excepcionalmente três postagens. Afinal, amanhã viajo e só volto terça feira. Então, deixo um volume maior de texto para os que sentirem necessidade.

Pra começar, váários links de textos sobre Joyce e Ulisses. Aproveitem. =)

Ulysses integral, em inglês.

Ulisses por Houais (ensaio).

Joyce na Wiki.

Textos sobre Joyce na Folha de S. Paulo.

Crítica (um pouco chatinha e pedante, mas muuito interessante) das traduções de "Ulisses", com trechos inclusive.

Outro blog, outros links.

Ulysses for Dummies.

Gostou da Bernardina.

Ninguém foi além de Joyce.

Quem tem medo de James Joyce? (VEJA).

Opiniões sobre as traduções.

Volta ao Dia em 80 Mundos.

2 + 2 = 4

That's all folks!

terça-feira, 18 de dezembro de 2007

Joycoisas

"Joyce é o início, a travessia e o fim da literatura. Há mais conhecimento em um de seus capítulos do que na obra inteira da maioria dos escritores. Seus livros, aliás, são tanto o ponto de partida como o de chegada do conhecimento humano, dada sua abrangência e pluralidade. Entre os escritores, Joyce é Deus."
- Légio, Lobato. Crítica e Comentários à Produção Literária Humana, Vol. III. Paris, Trieste, Zurique. Editado por Papirus Guttenberg. p. 56

Acabei de reler "Um Retrato do Artista Quando Jovem", e agora estou relendo "Ulisses", para depois mergulhar de vez no "Finnegans Wake". Para comemorar, republico um texto que escrevi sobre Joyce, que acredito ser uma ótima apresentação dele para os leigos. Ei-lo:

"Era uma vez e uma vez muito boa mesmo uma vaquinha-mu que vinha andando pela estrada e a vaquinha-mu que vinha andando pela estrada encontrou um garotinho engrachadinho chamado bebê tico-taco."
-Um Retrato do Artista Quando Jovem

"Majestoso, o gorducho Buck Mulligan apareceu no topo da escada, trazendo na mão uma tigela com espuma sobre a qual repousavam, cruzados, uma espelho e uma navalha de barba. Um penhoar amarelo, desamarrado, flutuando suavemente atrás dele no ar fresco da manhã. Ele ergueu a tigela e entoou:
-Introibo ad altare Dei."
- Ulisses

"rollarriuanna e passa por Nossenhora d'Ohmen's, roçando a praia, beirando ABahia, reconduz-nos por commódios corminhos recorrentes de vico ao de Howth Castelo Earredores."
-Finnegans Wake

Assim começam os três romances de James Joyce, obras-primas da literatura mundial, figurando entre os melhores livros de todos os tempos, obras realmente absolutas e revolucionárias saídas da mente de um gênio entre os gênios.

A primeira delas, "A Portrait of the Artist as a Young Man", é uma semi-autobiografia de Joyce. Conta a história de Stephen Dedalus, jovem irlandês que passa a infância no colégio tradicional jesuíta Conglowes. Essa primeira parte do livro é focada em mostrar suas raízes, e sua formação católica. Posteriormente, começam a surgir desejos e ambições nada santos na mente de Stephen, que se torna atormentado pela idéia de pecado e punição. Finalmente, ao fim do livro, Stephen entra na Universidade, contrariando sua suposta vocação para o sacerdócio, e abandona de vez as virtudes cristãs para se tornar um poeta quase pagão. "Retrato" pode ser descrito como uma grande sinfonia, visto que o som e o ritmo das palavras desempenha um papel fundamental no estilo narrativo.

Já "Ulysses" é considerado um dos três maiores livros da literatura mundial. Conta um dia, 16 de Junho de 1904, na vida de Dublin, o "centro da paralisia", como definiu Joyce quando do lançamento de sua coletânea de contos, "Dublinenses". Seu protagonista é o judeu e irlandês Leopold Bloom, o Poldy, junto a sua mulher, Molly Bloom, e ao próprio Stephen Dedalus de "Retrato". Na verdade, muitos personagens na obra de Joyce aparecem em vários livros, visto que eles abrangem um Universo até certo ponto real na Dublin do início do século XX. "Ulysses" é, antes de tudo, uma paródia da "Odisséia" de Homero, relacionando Bloom com Odisseu/Ulisses, Molly com Penélope e Stephen com Telêmaco, da obra grega. Seus 18 capítulos correspondem cada um a uma passagem da obra original, e tem elementos de ligação com a mesma. Nessa obra, considerada o tratado definitivo sobre as emoções humanas, Joyce emprega o fluxo de consciência, um monólogo interior dos personagens, caracterizado de acordo com o perfil psicológico de cada um. A profusão de estilos é outra coisa marcante neste livro, sendo que em alguns capítulos ele percorre desde os genêros jornalístico, épico, científico, etc., até as diversas fases da língua inglesa e mundial, começando nos oradores latinos e indo até as gírias da Dublin "atual". "Ulisses" é um colosso ao qual, como disse T.S. Elliot, "todos somos devedores, e nenhum de nós pode escapar".

E há Finnegans Wake.

Poderia me limitar a essa frase, tal qual Neil Gaiman com a Morte em Sandman, não me aventurando a explicar o inexplicável. Mas vou prosseguir ainda um pouco. "Finnegans Wake" é o "Livro dos livros", uma obra tão plural e aterradora que até hoje, mais de 50 anos após suas publicação, ela ainda não foi totalmente compreendida, e provavelmente, nunca será, pois "FW" foi concebido para ser um livro infinito: sua primeira frase tem início na última página, e sua última frase, portanto, termina na primeira página. Isso compõe um ciclo, que tem raízes na teoria na qual o livro fundamenta parte de sua idéia, de Giambattista Vico, que propunha a divisão da história em Caos- Idades dos Deuses - Idade dos Heróis - Idade dos Homens - Caos, num infinito ciclo de criação e destruição. Dando voz a essa idéia:
"riverrun, past Eve and Adam's, from swerve of shore to bend of bay, bring us, by a commodius vicus of recirculation back to Howth Castle and Environs./ A way a lone a last a loved a long the"
Ei-las: primeira e última frases, que constituem uma somente. Poderia ainda falar das palavras criadas a partir de trechos de mais de 65 línguas, de Finn MacCool e Tim Finnegan e dos muitos nomes de HCE e ALP e de Shem e Shaun e Tristrão e Isolda, mas a complexidade de Finnegans Wake/Finnicius Revém é tão desproporcional que não cabe em um texto. Prefiro então deixar essa pequena amostra para despertar a curiosidade dos mais afoitos, assim como a minha foi despertada.

Hic cubat edilis. Apud libertinam parvulam.

Finis.