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Em Novembro passado, fiz um top semanal com cinco dos Inícios de Livros que eu mais gostava. Agora, tomo o lado oposto, fazendo uma lista com cinco dos melhores finais de livros (romances) para mim. Com certeza, colocar o final de um livro em uma lista é bem diferente de colocar o começo, mas eu adoro desfechos de livros e acredito que, tendo um destino como os que eu colocarei nesse top, a viagem torna-se ainda mais agradável. E além do mais, não é um último parágrafo que vai estragar nada de uma história.
Para começar a lista, um final clássico, do tipo conclusivo. Um dos livros da trilogia Os nossos antepassados, O Barão nas Árvores, que já foi analisado por esse blog, tem um enredo interessante: o barão Cosme Chuvasco de Rondó, após discutir com a família, sobe em uma árvore e de lá não desce nunca mais - mesmo. Entremeando o livro, narrado pelo irmão de Cosme, há várias passagens digressivas, sobre as florestas, as pessoas, o estado antigo das coisas...
É uma característica comum da trilogia de Italo Calvino: gente que presenciou de perto os acontecimentos narrados lembrando e contando algo que faz parte de sua própria história, embora os narradores não sejam os personagens principais. É uma trilogia que, embora engraçada, divertida e aventuresca, é sobretudo melancólica, um painel pitoresco e delicado de uma Europa durante a Idade Média até o fim do século XVIII, uma Europa que se perdeu. Assim, nada mais adequado para encerrar um livro (ou a trilogia) do que um parágrafo como o que posto a seguir.
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O Barão nas Árvores, de Italo Calvino. Tradução de Nilson Moulin.
“Penúmbria não existe mais. Olhando para o céu vazio, pergunto-me se terá existido algum dia. Aquele recorte de galhos e folhas, bifurcações, copas, miúdo e sem fim, e o céu apenas em clarões irregulares e retalhos, talvez existisse só porque ali passava meu irmão com seu leve passo de abelheiro, era um bordado feito no nada que se assemelha a esse fio de tinta, que deixei escorrer por páginas e páginas, cheio de riscos, de indecisões, de borrões nervosos, de manchas, de lacunas, que por vezes se debulha em grandes pevides claros, por vezes se adensa em sinais minúsculos como sementes puntiformes, ora se contorce sobre si mesmo, ora se bifurca, ora une montes de frases com contornos de folhas ou de nuvens, e depois se interrompe, e depois recomeça a recontorcer-se, e corre e corre e floresce e envolve um último cacho insensato de palavras idéias sonhos e acaba.”
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segunda-feira, 2 de fevereiro de 2009
sexta-feira, 9 de janeiro de 2009
Citação de Sexta: Os Mortos
“Chega um momento da vida em que, entre todas as pessoas que conhecemos, os mortos são mais numerosos que os vivos. E a mente se recusa a aceitar outras fisionomias, outras expressões: em todas as faces novas que encontra, imprime os velhos desenhos, para cada uma descobre a máscara que melhor se adapta.”
- Italo Calvino, As Cidades Invisíveis
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quarta-feira, 7 de janeiro de 2009
Leituras: Dezembro de 2008
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Em dezembro, finalmente consegui ler um pouco mais do que vinha lendo nos últimos meses. Esse mês, li três grandes clássicos da literatura universal. O primeiro, uma obra ultramoderna, escrita pelo gênio que ditou algumas regras da atual literatura. O segundo, uma sátira feroz e irônica sobre a humanidade, escrita por um dos maiores satíricos. Em terceiro, finalmente, um envolvente romance de um grande autor inglês, pérola do período romântico.
As Cidades Invisíveis, de Italo Calvino
Com freqüência, obras cuja interpretação é complicada possuem algum trecho chave, que serve ao menos para extrair o sentido essencial (ou superficial) delas. Com Cidades Invisíveis, não é diferente. O romance mais conhecido do italiano Italo Calvino é uma espécie de As Mil e Uma Noites da descrição, em que o maior viajante de todos os tempos, Marco Polo, dirigindo-se ao imperador dos tártaros, Kublai Khan, o ser mais poderoso da terra, discorre sobre as cidades do Império deste, dando-lhe o conhecimento que ele não pode obter, devido à extensão de seus domínios e à quantidade de seus deveres. Partindo daí, Calvino traça um painel com 55 descrições de cidades, divididas em onze temas, tais como “As cidades e a memória”, “As cidades e o desejo”, “As cidades e os mortos”, etc., tudo isso entremeado por trechos das conversas entre Polo e o Imperador, onde investigam o sentido da conversa que estão travando e de outras coisas mais. Num desses trechos, acontece o seguinte: “Marco Polo descreve uma ponte, pedra por pedra. – Mas qual é a pedra que sustenta a ponte? – pergunta Kublai Khan. – A ponte não é sustentada por esta ou aquela pedra – responde Marco -, mas pela curva do arco que estas formam. Kublai Khan permanece em silêncio, refletindo. Depois acrescenta: - Por que falar de pedras? Só o arco me interessa. Polo responde: - Sem pedras o arco não existe.” Eis aí o trecho referido no ínicio desse texto. Como já disse, ele não revela todo o sentido (para isso, só lendo o livro todo), mas é simbólico da natureza da obra. Ora, Cidades Invisíveis é um romance pós-moderno, fragmentado, hipertextual, formado por dezenas de partes que, entretanto, formam um todo poderoso e coeso, se cuidadosamente observado. O trecho supracitado explica essa característica, e dá margem a toda sorte de interpretações. De certa maneira, o próprio sentido do livro também é fragmentado e composto. Podemos extrair três ou quatro temas recorrentes tanto nas conversas de Marco e Kublai quanto nas descrições. Um deles, que eu considero secundário (alguns podem querem me tacar pedras por isso) é o das características negativas de algumas cidades, que espelham vários “dramas urbanos” das cidades modernas. Embora o livro fale de cidades, é ingenuidade achar que é realmente de cidades que ele está falando. Os outros temas, que considero mais importantes, são os seguintes, em ordem dos que mais me interessam: o primeiro e segundo, de certa forma, são o mesmo. Trata-se talvez do aspecto principal do livro, embora não seja o meu preferido. É a questão de abrir espaço, como proferida por Polo na célebre última sentença do livro, de extrair das coisas um sentido ao enxergar o mundo com outros olhos e encontrar aí um espaço para se expandir e tornar as coisas melhores. O outro tema, esse sim o que eu mais gosto, é o mais presente nas descrições das cidades, e adquire tamanha diversidade de formas que é preciso fazer uma lista para enunciá-lo. É uma questão recorrente na obra de Calvino, a da discrepância, do conflito, da relação entre o nome da coisa, a descrição da coisa, a memória que temos da coisa, o que desejamos da coisa, o olho com que vemos a coisa e a Coisa, entre o sonho, o símbolo, o mito, o pensamento, o discurso, a narrativa e a Realidade. Calvino fala, discursa, poetiza, divaga e faz mistério em cima desse tema, o que o torna extremamente atraente e profundo. Enfim, pouca coisa não é, esse é um livro para muitas interpretações. Mas, de qualquer maneira, só por existir e ser lido, já se pode dizer que As Cidades Invisíveis é um ponto que, no meio do inferno, não é inferno, e portanto se deve preservá-lo, e a partir dele, abrir espaço.
As Viagens de Gulliver, de Jonathan Swift:
Jonathan Swift, o “deão furioso”, foi um dos mais violentos satíricos que o mundo já viu. Munido de um visão afiadíssima em relação ao mundo, contudo sem ser amargurado, Swift erigiu em As Viagens de Gulliver uma obra que conseguiu a proeza de ser ao mesmo tempo uma sátira feroz da natureza humana e um livro bem-humorado, que anos depois acabou por se tornar, em sua versão resumida e suavizada, um clássico infantil. Lemuel Gulliver, cirurgião e pai de família, tem um apreço especial pelo mar. Assim, sai durante a vida em várias viagens, que o levam às terras mais estranhas. Em primeiro lugar, vai parar em Liliput, país onde as pessoas tem quinze centímetros de altura e parecem ser, à primeira vista, criaturas adoráveis, ainda que um pouco desconfiadas. O tempo revelará, porém, que elas são traidoras cruéis, capazes de fazer mal até a seus próprios heróis. Depois, Gulliver chega em Brobdingnag, onde os seres são gigantes, e tratam Gulliver como um brinquedo, um animal de estimação. Incomodado com o desprezo que lhe é dirigido, Gulliver parte daquele país. Depois, na terceira parte do livro, visita vários países e cidades, dos quais o mais ilustre é Laputa, a ilha voadora, onde os homens só sabem pensar em música e astronomia e suas mulheres fogem com as mais grotescas criaturas. Ele chega também em Glubbdubdribb, onde conversa com os mortos e descobre que a raça humana está cada vez pior, em Lagado, onde a Academia de Ciências só pesquisa idiotices, e em Luggnagg, terra de amaldiçoados imortais que vão se tornando cada vez mais degenerados à medida que os anos passam. Então, na quarta parte do livro, Gulliver se encontra no país dos Houyhnhnms, cavalos inteligentes e civilizados que “domesticaram” os Yahoos, seres bestiais e repulsivos que nada mais são que humanos em estado selvagem. Por fim, após ser obrigado a sair do país dos Houyhnhnms, Gulliver se torna um misantropo que tem nojo até da própria família. Com isso, Swift dá seu golpe de mestre. No fim do livro, Gulliver, que é o narrador, faz um discurso contra o orgulho humano, mas o fecha rogando que ninguém que possua “esse absurdo vício” (o orgulho) apareça diante dele. Ora, que sinal de orgulho seria maior que esse? Desse modo, Swift satiriza a própria ferramenta de que se havia utilizado para satirizar a humanidade. Após presenciar os costumes de todos os povos acima citados (que nada mais eram que paródias de pessoas e acontecimentos da época de Swift), e por fim observar o último estágio da degeneração humana, chegando até mesmo a usar roupas e objetos feitos das peles de yahoos (ou seja, de sua própria espécie), Gulliver se isola e torna-se ele mesmo um exemplo de tudo aquilo que julgava abominar. Usando-se desse artifício, Swift retroativamente suaviza todas as (pesadíssimas) críticas que havia feito ao longo do romance, e transforma seu livro em obra de gênio, revelando por fim seu verdadeiro discurso: o da valorização do ponto de vista. Não que a humanidade seja desse jeito, mas considerando-a desse ângulo é assim que ela irá parecer. Sofisticado ao último grau, e feito mesmo pra pensar muito depois de ler. Matéria-prima das mais densas para conversas, sejam elas filosóficas ou de botequim.
Grandes Esperanças, de Charles Dickens
Escritores românticos são sempre acusados de criar personagens rasos, caricaturais, exagerados, e colocá-los em situações irreais e exageradas usando para isso uma linguagem floreada e exagerada. Enfim, o supra-sumo do exagero. Embora tenha lastro na verdade, grande parte dessa concepção moderna do romantismo é exagerada, posto que, se tais obras não tivessem valor, não seriam obras-primas da literatura universal, maciçamente presentes no cânone da literatura. Dickens, pois, foi um escritor romântico, talvez o mais célebre romântico inglês. E, embora seu estilo seja sim floreado e exagerado, e haja situações e personagens caricatos e exagerados em seus romances, Dickens também possuía uma grande sensibilidade para o ser humano, e criou, ao menos em Grandes Esperanças, que foi seu único livro que li, uma grande variedade de personagens complexos e tocantes, capazes de dizer muito sobre a sociedade e a humanidade. O maior exemplo disso talvez seja Wemmick, retrato perfeito da confusão de identidades e personalidades tão presente na sociedade atual, mas já despontando na Inglaterra do século XIX. Além dele, Pip, Miss Havisham, Estella, Mr. Jaggers, todos são personagens com mais de um lado, mais de um rosto, mais de uma forma de reagir ao mundo. E, juntos, formam uma tocante e envolvente história, contada num estilo delicioso, ao mesmo tempo emocionante e cômico. Um “livrão”, sem dúvida, gostoso de ler e difícil de largar.
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Em dezembro, finalmente consegui ler um pouco mais do que vinha lendo nos últimos meses. Esse mês, li três grandes clássicos da literatura universal. O primeiro, uma obra ultramoderna, escrita pelo gênio que ditou algumas regras da atual literatura. O segundo, uma sátira feroz e irônica sobre a humanidade, escrita por um dos maiores satíricos. Em terceiro, finalmente, um envolvente romance de um grande autor inglês, pérola do período romântico.
As Cidades Invisíveis, de Italo Calvino
Com freqüência, obras cuja interpretação é complicada possuem algum trecho chave, que serve ao menos para extrair o sentido essencial (ou superficial) delas. Com Cidades Invisíveis, não é diferente. O romance mais conhecido do italiano Italo Calvino é uma espécie de As Mil e Uma Noites da descrição, em que o maior viajante de todos os tempos, Marco Polo, dirigindo-se ao imperador dos tártaros, Kublai Khan, o ser mais poderoso da terra, discorre sobre as cidades do Império deste, dando-lhe o conhecimento que ele não pode obter, devido à extensão de seus domínios e à quantidade de seus deveres. Partindo daí, Calvino traça um painel com 55 descrições de cidades, divididas em onze temas, tais como “As cidades e a memória”, “As cidades e o desejo”, “As cidades e os mortos”, etc., tudo isso entremeado por trechos das conversas entre Polo e o Imperador, onde investigam o sentido da conversa que estão travando e de outras coisas mais. Num desses trechos, acontece o seguinte: “Marco Polo descreve uma ponte, pedra por pedra. – Mas qual é a pedra que sustenta a ponte? – pergunta Kublai Khan. – A ponte não é sustentada por esta ou aquela pedra – responde Marco -, mas pela curva do arco que estas formam. Kublai Khan permanece em silêncio, refletindo. Depois acrescenta: - Por que falar de pedras? Só o arco me interessa. Polo responde: - Sem pedras o arco não existe.” Eis aí o trecho referido no ínicio desse texto. Como já disse, ele não revela todo o sentido (para isso, só lendo o livro todo), mas é simbólico da natureza da obra. Ora, Cidades Invisíveis é um romance pós-moderno, fragmentado, hipertextual, formado por dezenas de partes que, entretanto, formam um todo poderoso e coeso, se cuidadosamente observado. O trecho supracitado explica essa característica, e dá margem a toda sorte de interpretações. De certa maneira, o próprio sentido do livro também é fragmentado e composto. Podemos extrair três ou quatro temas recorrentes tanto nas conversas de Marco e Kublai quanto nas descrições. Um deles, que eu considero secundário (alguns podem querem me tacar pedras por isso) é o das características negativas de algumas cidades, que espelham vários “dramas urbanos” das cidades modernas. Embora o livro fale de cidades, é ingenuidade achar que é realmente de cidades que ele está falando. Os outros temas, que considero mais importantes, são os seguintes, em ordem dos que mais me interessam: o primeiro e segundo, de certa forma, são o mesmo. Trata-se talvez do aspecto principal do livro, embora não seja o meu preferido. É a questão de abrir espaço, como proferida por Polo na célebre última sentença do livro, de extrair das coisas um sentido ao enxergar o mundo com outros olhos e encontrar aí um espaço para se expandir e tornar as coisas melhores. O outro tema, esse sim o que eu mais gosto, é o mais presente nas descrições das cidades, e adquire tamanha diversidade de formas que é preciso fazer uma lista para enunciá-lo. É uma questão recorrente na obra de Calvino, a da discrepância, do conflito, da relação entre o nome da coisa, a descrição da coisa, a memória que temos da coisa, o que desejamos da coisa, o olho com que vemos a coisa e a Coisa, entre o sonho, o símbolo, o mito, o pensamento, o discurso, a narrativa e a Realidade. Calvino fala, discursa, poetiza, divaga e faz mistério em cima desse tema, o que o torna extremamente atraente e profundo. Enfim, pouca coisa não é, esse é um livro para muitas interpretações. Mas, de qualquer maneira, só por existir e ser lido, já se pode dizer que As Cidades Invisíveis é um ponto que, no meio do inferno, não é inferno, e portanto se deve preservá-lo, e a partir dele, abrir espaço.
As Viagens de Gulliver, de Jonathan Swift:
Jonathan Swift, o “deão furioso”, foi um dos mais violentos satíricos que o mundo já viu. Munido de um visão afiadíssima em relação ao mundo, contudo sem ser amargurado, Swift erigiu em As Viagens de Gulliver uma obra que conseguiu a proeza de ser ao mesmo tempo uma sátira feroz da natureza humana e um livro bem-humorado, que anos depois acabou por se tornar, em sua versão resumida e suavizada, um clássico infantil. Lemuel Gulliver, cirurgião e pai de família, tem um apreço especial pelo mar. Assim, sai durante a vida em várias viagens, que o levam às terras mais estranhas. Em primeiro lugar, vai parar em Liliput, país onde as pessoas tem quinze centímetros de altura e parecem ser, à primeira vista, criaturas adoráveis, ainda que um pouco desconfiadas. O tempo revelará, porém, que elas são traidoras cruéis, capazes de fazer mal até a seus próprios heróis. Depois, Gulliver chega em Brobdingnag, onde os seres são gigantes, e tratam Gulliver como um brinquedo, um animal de estimação. Incomodado com o desprezo que lhe é dirigido, Gulliver parte daquele país. Depois, na terceira parte do livro, visita vários países e cidades, dos quais o mais ilustre é Laputa, a ilha voadora, onde os homens só sabem pensar em música e astronomia e suas mulheres fogem com as mais grotescas criaturas. Ele chega também em Glubbdubdribb, onde conversa com os mortos e descobre que a raça humana está cada vez pior, em Lagado, onde a Academia de Ciências só pesquisa idiotices, e em Luggnagg, terra de amaldiçoados imortais que vão se tornando cada vez mais degenerados à medida que os anos passam. Então, na quarta parte do livro, Gulliver se encontra no país dos Houyhnhnms, cavalos inteligentes e civilizados que “domesticaram” os Yahoos, seres bestiais e repulsivos que nada mais são que humanos em estado selvagem. Por fim, após ser obrigado a sair do país dos Houyhnhnms, Gulliver se torna um misantropo que tem nojo até da própria família. Com isso, Swift dá seu golpe de mestre. No fim do livro, Gulliver, que é o narrador, faz um discurso contra o orgulho humano, mas o fecha rogando que ninguém que possua “esse absurdo vício” (o orgulho) apareça diante dele. Ora, que sinal de orgulho seria maior que esse? Desse modo, Swift satiriza a própria ferramenta de que se havia utilizado para satirizar a humanidade. Após presenciar os costumes de todos os povos acima citados (que nada mais eram que paródias de pessoas e acontecimentos da época de Swift), e por fim observar o último estágio da degeneração humana, chegando até mesmo a usar roupas e objetos feitos das peles de yahoos (ou seja, de sua própria espécie), Gulliver se isola e torna-se ele mesmo um exemplo de tudo aquilo que julgava abominar. Usando-se desse artifício, Swift retroativamente suaviza todas as (pesadíssimas) críticas que havia feito ao longo do romance, e transforma seu livro em obra de gênio, revelando por fim seu verdadeiro discurso: o da valorização do ponto de vista. Não que a humanidade seja desse jeito, mas considerando-a desse ângulo é assim que ela irá parecer. Sofisticado ao último grau, e feito mesmo pra pensar muito depois de ler. Matéria-prima das mais densas para conversas, sejam elas filosóficas ou de botequim.
Grandes Esperanças, de Charles Dickens
Escritores românticos são sempre acusados de criar personagens rasos, caricaturais, exagerados, e colocá-los em situações irreais e exageradas usando para isso uma linguagem floreada e exagerada. Enfim, o supra-sumo do exagero. Embora tenha lastro na verdade, grande parte dessa concepção moderna do romantismo é exagerada, posto que, se tais obras não tivessem valor, não seriam obras-primas da literatura universal, maciçamente presentes no cânone da literatura. Dickens, pois, foi um escritor romântico, talvez o mais célebre romântico inglês. E, embora seu estilo seja sim floreado e exagerado, e haja situações e personagens caricatos e exagerados em seus romances, Dickens também possuía uma grande sensibilidade para o ser humano, e criou, ao menos em Grandes Esperanças, que foi seu único livro que li, uma grande variedade de personagens complexos e tocantes, capazes de dizer muito sobre a sociedade e a humanidade. O maior exemplo disso talvez seja Wemmick, retrato perfeito da confusão de identidades e personalidades tão presente na sociedade atual, mas já despontando na Inglaterra do século XIX. Além dele, Pip, Miss Havisham, Estella, Mr. Jaggers, todos são personagens com mais de um lado, mais de um rosto, mais de uma forma de reagir ao mundo. E, juntos, formam uma tocante e envolvente história, contada num estilo delicioso, ao mesmo tempo emocionante e cômico. Um “livrão”, sem dúvida, gostoso de ler e difícil de largar.
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quarta-feira, 5 de novembro de 2008
Leituras: Outubro de 2008
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Esse mês, li um pouco mais que no último. Embora meu ritmo de leitura ainda não seja o que eu considero ideal, consegui ler três livros: dois romances e um livro filosófico. Gostei de todos, embora em diferentes níveis. Seguem abaixo os livros em ordem de preferência.
O Barão nas Árvores, de Ítalo Calvino: Calvino é um dos meus escritores preferidos. Sua prosa é leve, mas diversificada, e ele consegue mergulhar com extrema habilidade nos mais diversos temas da vida humana. Já falei aqui no blog sobre meu livro favorito dele, Se um viajante numa noite de inverno, mas O Barão nas Árvores se encaixa em uma outra linhagem dentro da obra do italiano. O romance faz parte da trilogia Os nossos antepassados, composta também pelos excelentes (e divertidos, e profundos) O visconde partido ao meio e O cavaleiro inexistente. Juntos, os três formam um conjunto ímpar, mas analisados caso a caso também são excepcionais. No caso de O Barão nas Árvores, acompanhamos a história de Cosme Chuvasco de Rondó, o rebelde filho de um barão que um dia resolve subir nas árvores para nunca mais descer. A partir daí, ele começará a enxergar muito melhor a vida dos habitantes daqui de baixo, e viverá sua própria vida sobre os galhos das florestas da Europa. Com um estilo composto por uma ironia fina e uma poesia irreverente, Calvino construiu nesse livro mais uma obra-prima encantadora, para ser lida e relida, e que possui um desfecho – em questões de enredo e forma – extraordinário e melancólico. Um dia posto aqui, para vocês verem.
Macunaíma, de Mário de Andrade: Uma aglutinação radical e anárquica dos Brasis, especialmente como eram vistos no início do século XX. Mário de Andrade reuniu aos poucos as mais variadas fontes de referências sobre o que havia no Brasil, e depois juntou tudo (com a ajuda dos sobrinhos) num livro que pode não ter pé nem cabeça, mas tem raízes fincadas profundamente no solo tupiniquim e estende seus ramos muito alto. Fazendo graça com a cultura popular e erudita, o folclore, a religião, a mitologia brasileiros, e até mesmo com a língua portuguesa, o escritor modernista fez uma obra-prima divertida e descompromissada, para ser lida dando risada e tentando fazer conexões entre as imagens que ele criou.
A Utopia, de Thomas More: Obra fundamental da nossa civilização, A Utopia é, embora muito citada, pouco lida. Não são muitos, que sabem, de fato, como é a sociedade que o filósofo imaginou. Eu, ao ler o livro, descobri, e, posso dizer, não é algo que mudou minha vida. Mas explico: a primeira parte do livro, que apresenta a discussão do interlocutor de More, Rafael Hitlodeu, com algumas pessoas em uma reunião na casa de um cardeal, é a que mais me agradou. Trata-se de um assunto extremamente (e infelizmente) atual, tratado com uma clareza e coerência de idéias impressionante. Entretanto, a descrição da Utopia em si, na segunda parte do livro, é atrapalhada por algumas coisas. Em primeiro lugar, por uma questão histórica de quando o livro foi escrito, a sociedade apresentada é machista e até escravista. Contudo, isso se perdoa, pois esse machismo e esse escravismo são moderados e até mesmo aceitáveis, especialmente em comparação àqueles que vigoravam na época. Mas, além disso, o próprio cerne da civilização utopiana é um pouco incômodo: todas as cidades são iguais, as pessoas se vestem de maneira igual, tudo é nivelado e asséptico... não me parece um bom lugar para se viver. Porém, mais uma vez, isso não desmerece o livro. Se até Oscar Wilde, um cínico por natureza, disse que um mapa do mundo que não tenha em si a ilha de Utopia não é sequer digno de consulta, é porque o sonho utópico é algo realmente extraordinário, e de fato: o que mais valeu no livro, para mim, foi seu tom sonhador, esse sentimento que percebemos subjacente de querer que as coisas como são melhorem, de saber que nossa sociedade-e-civilização pode sim evoluir, e alcançar um patamar melhor para todos os seres humanos, que respeite as individualidades e as diferenças, mas não deixe de olhar para o todo, para o Outro. Em tempos de um negro filho de imigrantes com nome estranho ser eleito para ser presidente dos EUA, isso é extremamente significativo.
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Esse mês, li um pouco mais que no último. Embora meu ritmo de leitura ainda não seja o que eu considero ideal, consegui ler três livros: dois romances e um livro filosófico. Gostei de todos, embora em diferentes níveis. Seguem abaixo os livros em ordem de preferência.
O Barão nas Árvores, de Ítalo Calvino: Calvino é um dos meus escritores preferidos. Sua prosa é leve, mas diversificada, e ele consegue mergulhar com extrema habilidade nos mais diversos temas da vida humana. Já falei aqui no blog sobre meu livro favorito dele, Se um viajante numa noite de inverno, mas O Barão nas Árvores se encaixa em uma outra linhagem dentro da obra do italiano. O romance faz parte da trilogia Os nossos antepassados, composta também pelos excelentes (e divertidos, e profundos) O visconde partido ao meio e O cavaleiro inexistente. Juntos, os três formam um conjunto ímpar, mas analisados caso a caso também são excepcionais. No caso de O Barão nas Árvores, acompanhamos a história de Cosme Chuvasco de Rondó, o rebelde filho de um barão que um dia resolve subir nas árvores para nunca mais descer. A partir daí, ele começará a enxergar muito melhor a vida dos habitantes daqui de baixo, e viverá sua própria vida sobre os galhos das florestas da Europa. Com um estilo composto por uma ironia fina e uma poesia irreverente, Calvino construiu nesse livro mais uma obra-prima encantadora, para ser lida e relida, e que possui um desfecho – em questões de enredo e forma – extraordinário e melancólico. Um dia posto aqui, para vocês verem.
Macunaíma, de Mário de Andrade: Uma aglutinação radical e anárquica dos Brasis, especialmente como eram vistos no início do século XX. Mário de Andrade reuniu aos poucos as mais variadas fontes de referências sobre o que havia no Brasil, e depois juntou tudo (com a ajuda dos sobrinhos) num livro que pode não ter pé nem cabeça, mas tem raízes fincadas profundamente no solo tupiniquim e estende seus ramos muito alto. Fazendo graça com a cultura popular e erudita, o folclore, a religião, a mitologia brasileiros, e até mesmo com a língua portuguesa, o escritor modernista fez uma obra-prima divertida e descompromissada, para ser lida dando risada e tentando fazer conexões entre as imagens que ele criou.
A Utopia, de Thomas More: Obra fundamental da nossa civilização, A Utopia é, embora muito citada, pouco lida. Não são muitos, que sabem, de fato, como é a sociedade que o filósofo imaginou. Eu, ao ler o livro, descobri, e, posso dizer, não é algo que mudou minha vida. Mas explico: a primeira parte do livro, que apresenta a discussão do interlocutor de More, Rafael Hitlodeu, com algumas pessoas em uma reunião na casa de um cardeal, é a que mais me agradou. Trata-se de um assunto extremamente (e infelizmente) atual, tratado com uma clareza e coerência de idéias impressionante. Entretanto, a descrição da Utopia em si, na segunda parte do livro, é atrapalhada por algumas coisas. Em primeiro lugar, por uma questão histórica de quando o livro foi escrito, a sociedade apresentada é machista e até escravista. Contudo, isso se perdoa, pois esse machismo e esse escravismo são moderados e até mesmo aceitáveis, especialmente em comparação àqueles que vigoravam na época. Mas, além disso, o próprio cerne da civilização utopiana é um pouco incômodo: todas as cidades são iguais, as pessoas se vestem de maneira igual, tudo é nivelado e asséptico... não me parece um bom lugar para se viver. Porém, mais uma vez, isso não desmerece o livro. Se até Oscar Wilde, um cínico por natureza, disse que um mapa do mundo que não tenha em si a ilha de Utopia não é sequer digno de consulta, é porque o sonho utópico é algo realmente extraordinário, e de fato: o que mais valeu no livro, para mim, foi seu tom sonhador, esse sentimento que percebemos subjacente de querer que as coisas como são melhorem, de saber que nossa sociedade-e-civilização pode sim evoluir, e alcançar um patamar melhor para todos os seres humanos, que respeite as individualidades e as diferenças, mas não deixe de olhar para o todo, para o Outro. Em tempos de um negro filho de imigrantes com nome estranho ser eleito para ser presidente dos EUA, isso é extremamente significativo.
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sexta-feira, 24 de outubro de 2008
Citação de Sexta: Da arte de escrever histórias
sexta-feira, 15 de agosto de 2008
Citação de Sexta: Two Suns in the Sunset
segunda-feira, 4 de agosto de 2008
Meus 10 romances preferidos
Hoje, seguindo a "tradição" das listas de segundas, trago aquela que indica os romances que mais me marcaram. Eles são, em sua totalidade, romances modernos, no século XX, mas isso não foi nenhuma escolha premeditada. É que, por um lado, não li muitos romances mais antigos, do século XIX ou anterior, e por outro, é possível que eu me identifique mais com uma linguagem mais próxima de mim, mesmo que só cronologicamente. Enfim: mistério, mistério, mistério... Leiam a lista, leiam os livros nela contida, e também façam as suas próprias e postem aqui! Estarei esperando.
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1. Ulisses, de James Joyce: O melhor e mais importante livro do século XX é também aquele que marcou o ponto de virada na minha vida de leitor. Antes dele, dedicava-me quase que somente a épicos de fantasia e ficção científica. Depois dele, o mundo da literatura descortinou-se diante dos meus olhos, e eu descobri o prazer da forma e do estilo. Já falei um bocado sobre Ulisses aqui neste blog, inclusive menos de dois meses atrás, quando foi comemorado o Bloomsday. Portanto, me abstenho de tecer maiores comentários a respeito deste monumento: o que nos cabe é lê-lo, e multiplicar assim seu alcance.
2. Grande Sertão: Veredas, de João Guimarães Rosa: Outra obra transcendental, extremamente marcante para mim. Guimarães Rosa é, de longe, meu escritor brasileiro preferido (não à toa, ele é considerado o Joyce tupiniquim). O estilo místico, mítico e poético de Rosa, misturado ao valor que ele dá à linguagem, fazem de Grande Sertão uma referência, um motivo, como eu li em algum lugar, para que, daqui a alguns séculos, quando talvez o português for uma língua morta, as pessoas aprenderem-no somente para ler a obra. E, além disso, há o lado humano, universal, que trata dos nossos grandes temas, e o coloca ao lado de Dom Quixote, de Fausto, do Ulisses supracitado... Grande Sertão: Veredas é um triunfo, e precisa ser lido e celebrado.
3. O Senhor dos Anéis, de J.R.R. Tolkien: Embora seja menosprezado por muitos dos ditos intelectuais, pela inteligentsia que o vê como uma obra infanto-juvenil, O Senhor dos Anéis é talvez o épico definitivo. Ele resgata os arquétipos e valores da infância da humanidade, quando obras como Beowulf, a Ilíada, a Odisséia, o Kalevala e outros poemas épicos surgiram,e os condensa em um único romance, cuidadosamente trabalhado e concebido. Já li O Senhor dos Anéis seis vezes, e a cada vez ele se me apresenta melhor, mais divertido, mais gostoso de ler. Marcou a minha vida de leitor, foi o meu "grande início", e por isso me é tão caro.
4. No Caminho de Swann, de Marcel Proust: Único livro de Em Busca do Tempo Perdido que eu li até agora, é também o primeiro volume. Atualmente, espero a sequência de publicação das ótimas edições da Globo para retomar (do início) a leitura, e então ir até o final. De qualquer modo, No Caminho de Swann já é, por si só, uma obra prima. O estilo lento e rebuscado do autor serve de instrumento para imergir totalmente o leitor em sua prosa. E o último páragrafo do livro, que remete cataforicamente ao final da série, é uma pérola que guardo permanentemente em minha lista de citações.
5. Lolita, de Vladimir Nabokov: O livro mais conhecido de Nabokov é, o que é injusto com a obra, conhecido principalmente por seu conteúdo polêmico. A história do professor que gosta de garotinhas, e empreende com uma delas uma viagem pela América escandalizou a sociedade da época, embora não contenha passagens explicitamente eróticas, como outro clássico polêmico, O amante de Lady Chatterley (do qual tratarei quarta-feira). Os grandes triunfos do livro são, em primeiro lugar, o fato de ser narrado pelo próprio professor pedófilo, o que exige do leitor uma atenção e uma concentração imensas em relação ao que é dito, caso contrário ele pode se ver enredado pelo discurso de Humber Humbert, tornando-se simpático a ele; e em segundo lugar pelo seu estilo, rebuscado, milimétrico e extremamente divertido.
6. O Processo, de Franz Kafka: Kafka, quando em vida, foi um completo fracasso. Mas seu legado, garantido ao mundo pela traição do amigo Max Brod, o colocou entre os melhores e mais importantes romancistas do século XX. Diferente de Proust ou Nabokov, o estilo de Kafka é seco, e diferente do de Joyce ou Rosa, direto. Ainda assim, ele opera verdadeiros milagres, com contruções hipnóticas e capítulos impossíveis de largar. Neste livro, Kafka antecipa a onda de regimes autoritários que assomaria a Europa após sua morte, com a história não terminada de um homem, Josef K., que é acusado de algum crime que desconhece, e acaba conhecendo as engrenagens de uma máquina escrupulosamente lógica, ainda que irracional e inumana. Assim como Flaubert em Bouvard e Pécuchet, Musil em Um Homem Sem Qualidades, e alguns outros gênios, Kafka chegou talvez em O Processo tão perto da Verdade que foi obrigado a parar.
7. Se um viajante numa noite de inverno, de Italo Calvino: Calvino tinha ligações com a corrente literária OuLiPo (Ouvroir de Littérature Potentiel, algo como oficina de literatura em potencial), e por isso gostava de experimentações em seus livros. Também gostava de escrever histórias curtas, contos formando um todo, como aparece em As Cidades Invisíveis e O Castelo dos Destinos Cruzados. Ambas as características estão presentes nesse Seu viajante... um dos livros mais originais da história da literatura. Pra começar, ele é o único livro narrado em segunda pessoa que eu conheço. Isso mesmo: Você, o Leitor, é o personagem principal, e a história começa justamente com Você lendo Se um viajante numa noite de inverno, o novo romance de Italo Calvino. Entretanto, Você logo percebe que há um problema de impressão no seu exemplar, e com isso um outro livro começa. Sucessivamente, Você vai percorrendo diversos romances, tentando ler cada um até o fim, inutilmente. Por meio desse recurso, Calvino exercita sua escrita em diversos estilos, e faz uma reflexão fascinante sobre a leitura, a literatura, e a maneira de contar histórias.
8. Cem Anos de Solidão, de Gabriel García Márquez: A saga dos Buendía na mitológica Macondo é um ao mesmo tempo melancólico e encantador romance. Os cem anos de solidão que a estirpe vive sobre a terra são o pano de fundo para diversos acontecimentos em que Márquez desenha lugares e personagens extraordinários, pessoas que têm suas vidas entremeadas com uma matéria onírica, que ao mesmo tempo é capaz de proporcionar alegrias e conquistas fora do comum, e caminhadas até o mais profundo vale de sombras. O estilo de Márquez é particularmente notável, um registro que, pela "indiferença", é capaz de encantar muito mais que alguns palavrórios desconjuntados.
9. Um Retrato do Artista Quando Jovem, de James Joyce: Primeiro livro de Joyce que eu li de cabo a rabo, após o retumbante fracasso com a primeira tentativa de leitura de Dublinenses, O Retrato do Artista Quando Jovem já foi alvo da análise deste blog. Atualmente, empreendo a leitura no original em inglês, para poder sentir de maneira mais imediata a força que o som e as palavras têm nesse livro, característica que só faria aumentar nas obras subsequentes do escritor.
10. Admirável Mundo Novo, de Aldous Huxley: Outro livro que já foi objeto de resenha do Amortescimento, Admirável Mundo Novo é uma deveras admirável construção que mistura ficção científica, totalitarismo, Shakespeare e até um certo misticismo para retratar um mundo onde a felicidade e a satisfação são imperativos, e o conceito "humanidade" é algo tão puramente científico e racional que se torna inócuo. Assustador e, ao mesmo tempo, revelador, como todas as distopias devem ser, Admirável Mundo Novo é uma obra que mistura uma linguagem poética e sutil com um pesado conteúdo, mistura que dá muito mais do que certo.
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1. Ulisses, de James Joyce: O melhor e mais importante livro do século XX é também aquele que marcou o ponto de virada na minha vida de leitor. Antes dele, dedicava-me quase que somente a épicos de fantasia e ficção científica. Depois dele, o mundo da literatura descortinou-se diante dos meus olhos, e eu descobri o prazer da forma e do estilo. Já falei um bocado sobre Ulisses aqui neste blog, inclusive menos de dois meses atrás, quando foi comemorado o Bloomsday. Portanto, me abstenho de tecer maiores comentários a respeito deste monumento: o que nos cabe é lê-lo, e multiplicar assim seu alcance.
2. Grande Sertão: Veredas, de João Guimarães Rosa: Outra obra transcendental, extremamente marcante para mim. Guimarães Rosa é, de longe, meu escritor brasileiro preferido (não à toa, ele é considerado o Joyce tupiniquim). O estilo místico, mítico e poético de Rosa, misturado ao valor que ele dá à linguagem, fazem de Grande Sertão uma referência, um motivo, como eu li em algum lugar, para que, daqui a alguns séculos, quando talvez o português for uma língua morta, as pessoas aprenderem-no somente para ler a obra. E, além disso, há o lado humano, universal, que trata dos nossos grandes temas, e o coloca ao lado de Dom Quixote, de Fausto, do Ulisses supracitado... Grande Sertão: Veredas é um triunfo, e precisa ser lido e celebrado.
3. O Senhor dos Anéis, de J.R.R. Tolkien: Embora seja menosprezado por muitos dos ditos intelectuais, pela inteligentsia que o vê como uma obra infanto-juvenil, O Senhor dos Anéis é talvez o épico definitivo. Ele resgata os arquétipos e valores da infância da humanidade, quando obras como Beowulf, a Ilíada, a Odisséia, o Kalevala e outros poemas épicos surgiram,e os condensa em um único romance, cuidadosamente trabalhado e concebido. Já li O Senhor dos Anéis seis vezes, e a cada vez ele se me apresenta melhor, mais divertido, mais gostoso de ler. Marcou a minha vida de leitor, foi o meu "grande início", e por isso me é tão caro.
4. No Caminho de Swann, de Marcel Proust: Único livro de Em Busca do Tempo Perdido que eu li até agora, é também o primeiro volume. Atualmente, espero a sequência de publicação das ótimas edições da Globo para retomar (do início) a leitura, e então ir até o final. De qualquer modo, No Caminho de Swann já é, por si só, uma obra prima. O estilo lento e rebuscado do autor serve de instrumento para imergir totalmente o leitor em sua prosa. E o último páragrafo do livro, que remete cataforicamente ao final da série, é uma pérola que guardo permanentemente em minha lista de citações.
5. Lolita, de Vladimir Nabokov: O livro mais conhecido de Nabokov é, o que é injusto com a obra, conhecido principalmente por seu conteúdo polêmico. A história do professor que gosta de garotinhas, e empreende com uma delas uma viagem pela América escandalizou a sociedade da época, embora não contenha passagens explicitamente eróticas, como outro clássico polêmico, O amante de Lady Chatterley (do qual tratarei quarta-feira). Os grandes triunfos do livro são, em primeiro lugar, o fato de ser narrado pelo próprio professor pedófilo, o que exige do leitor uma atenção e uma concentração imensas em relação ao que é dito, caso contrário ele pode se ver enredado pelo discurso de Humber Humbert, tornando-se simpático a ele; e em segundo lugar pelo seu estilo, rebuscado, milimétrico e extremamente divertido.
6. O Processo, de Franz Kafka: Kafka, quando em vida, foi um completo fracasso. Mas seu legado, garantido ao mundo pela traição do amigo Max Brod, o colocou entre os melhores e mais importantes romancistas do século XX. Diferente de Proust ou Nabokov, o estilo de Kafka é seco, e diferente do de Joyce ou Rosa, direto. Ainda assim, ele opera verdadeiros milagres, com contruções hipnóticas e capítulos impossíveis de largar. Neste livro, Kafka antecipa a onda de regimes autoritários que assomaria a Europa após sua morte, com a história não terminada de um homem, Josef K., que é acusado de algum crime que desconhece, e acaba conhecendo as engrenagens de uma máquina escrupulosamente lógica, ainda que irracional e inumana. Assim como Flaubert em Bouvard e Pécuchet, Musil em Um Homem Sem Qualidades, e alguns outros gênios, Kafka chegou talvez em O Processo tão perto da Verdade que foi obrigado a parar.
7. Se um viajante numa noite de inverno, de Italo Calvino: Calvino tinha ligações com a corrente literária OuLiPo (Ouvroir de Littérature Potentiel, algo como oficina de literatura em potencial), e por isso gostava de experimentações em seus livros. Também gostava de escrever histórias curtas, contos formando um todo, como aparece em As Cidades Invisíveis e O Castelo dos Destinos Cruzados. Ambas as características estão presentes nesse Seu viajante... um dos livros mais originais da história da literatura. Pra começar, ele é o único livro narrado em segunda pessoa que eu conheço. Isso mesmo: Você, o Leitor, é o personagem principal, e a história começa justamente com Você lendo Se um viajante numa noite de inverno, o novo romance de Italo Calvino. Entretanto, Você logo percebe que há um problema de impressão no seu exemplar, e com isso um outro livro começa. Sucessivamente, Você vai percorrendo diversos romances, tentando ler cada um até o fim, inutilmente. Por meio desse recurso, Calvino exercita sua escrita em diversos estilos, e faz uma reflexão fascinante sobre a leitura, a literatura, e a maneira de contar histórias.
8. Cem Anos de Solidão, de Gabriel García Márquez: A saga dos Buendía na mitológica Macondo é um ao mesmo tempo melancólico e encantador romance. Os cem anos de solidão que a estirpe vive sobre a terra são o pano de fundo para diversos acontecimentos em que Márquez desenha lugares e personagens extraordinários, pessoas que têm suas vidas entremeadas com uma matéria onírica, que ao mesmo tempo é capaz de proporcionar alegrias e conquistas fora do comum, e caminhadas até o mais profundo vale de sombras. O estilo de Márquez é particularmente notável, um registro que, pela "indiferença", é capaz de encantar muito mais que alguns palavrórios desconjuntados.
9. Um Retrato do Artista Quando Jovem, de James Joyce: Primeiro livro de Joyce que eu li de cabo a rabo, após o retumbante fracasso com a primeira tentativa de leitura de Dublinenses, O Retrato do Artista Quando Jovem já foi alvo da análise deste blog. Atualmente, empreendo a leitura no original em inglês, para poder sentir de maneira mais imediata a força que o som e as palavras têm nesse livro, característica que só faria aumentar nas obras subsequentes do escritor.
10. Admirável Mundo Novo, de Aldous Huxley: Outro livro que já foi objeto de resenha do Amortescimento, Admirável Mundo Novo é uma deveras admirável construção que mistura ficção científica, totalitarismo, Shakespeare e até um certo misticismo para retratar um mundo onde a felicidade e a satisfação são imperativos, e o conceito "humanidade" é algo tão puramente científico e racional que se torna inócuo. Assustador e, ao mesmo tempo, revelador, como todas as distopias devem ser, Admirável Mundo Novo é uma obra que mistura uma linguagem poética e sutil com um pesado conteúdo, mistura que dá muito mais do que certo.
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