quarta-feira, 1 de abril de 2009
Leituras: Fevereiro e Março de 2009 - A Montanha Mágica, de Thomas Mann
Em fevereiro não teve aqui no blog o habitual “Leituras” porque eu ainda não havia terminado de ler A Montanha Mágica, o livro daquele mês. De fato, só fui terminar de lê-lo há poucos dias, no final da semana passada, após aproximadamente dois meses de contato com a obra. A justificativa para tamanho alongamento não está em mim, em eventuais problemas que eu tenha tido que me impediram de ler com freqüência. Está, na verdade, no próprio livro, pois como diz o narrador, no “Propósito” que o abre: “Não será, portanto, num abrir e fechar de olhos que o narrador terminará a história de Hans Castorp.” Tal característica, de exigir uma alongada leitura, é intrínseca a A Montanha Mágica, não só pelo seu tamanho – a edição que li tem 950 páginas – mas sobretudo pelo seu espírito, pelo manejo peculiar que faz do tempo de seu enredo e que acaba nos conduzindo a entrarmos nós mesmos em seu ritmo.
Lançado por Thomas Mann em 1924, seis anos após o final da Grande Guerra, o romance é vasto e complexo, e trata dos mais variados temas. Também, pudera: A Montanha Mágica é a crônica do espírito europeu às vésperas da Grande Guerra, das idéias que percorriam o continente e de como a relação entre elas acabou levando a Europa até a Guerra. É, portanto, um livro simbólico – para não dizer alegórico -, cheio de “coisas que significam” e de imagens e pensamentos que se intercruzam e referenciam. No entanto, ao mesmo tempo é uma obra profundamente realista, de um estilo clássico, de prosa bela, reminiscente dos franceses do início do século, de retrato minucioso de personagens e acontecimentos. Assim, percebe-se naturalmente outra característica central do livro: a ambigüidade. Mas, antes de prosseguir nessa toada de exposição das idéias do romance, vamos voltar um pouco no caminho e descobrir do que se trata, afinal, o livro.
A história começa quando Hans Castorp, “jovem singelo” recém-formado em engenharia naval, chega a Davos, na Suíça, para visitar seu primo, Joachim Ziemssen, internado há alguns meses em um sanatório para tuberculosos nas montanhas. Ziemssen quer entrar para o exército, é um rapaz sério e sisudo, enquanto Castorp é um “paisano”, não está preocupado com muitas coisas além de seus charutos honduranos e alguns passeios para espantar o tédio. No entanto, a caminhada do tempo trará mudanças dentro de Hans Castorp, à medida que ele for conhecendo novas pessoas e a si mesmo. Seus pensamentos e experiências, tais como a disputa que os intelectuais Settembrini e Naphta travam por ele, seu amor por madame Chauchat, e a amizade com Mynheer Peeperkorn, cada uma dessas coisas o levará um passo adiante em sua descoberta como indivíduo. No entanto, ao invés de terminar o romance como um indivíduo maduro e experiente, ele desce da Montanha Mágica e vai lutar na Grande Guerra que acaba de estourar, quando é insinuada sua morte nos campos de batalha. Pode-se falar, então, de A Montanha Mágica, como um grande romance de formação, mas, ao mesmo tempo, como a paródia de um romance de formação, pois Hans não completa o ciclo, não atinge o final de sua jornada, já que a Guerra o “tirou do caminho”. Temos aqui, então, mais ambigüidade. Romance de formação ou paródia? Indivíduo pleno ou destruído pelas circunstâncias? Tais perguntas, e outras de natureza semelhante, colocam-se em nossa mente no decorrer da leitura.
A Montanha Mágica é, pois, um livro ambíguo ao máximo, recheado do espírito relativista que impregnou o século XX. Todas as ideologias e atitudes dos personagens são relativizadas. Dão-se longas discussões teóricas mas ninguém “sai vencendo”, tanto um quanto outro argüidor parecem estar ao mesmo tempo certos e errados. Personagens a princípio apresentados como tolos se mostram majestosos, e logo depois como tolos novamente, e assim sucessivamente, numa alternância de tolice e majestade que não chega a um termo a não ser pela violência, assim como as supracitadas discussões filosóficas não encontram vencedor, mas somente o fim, com a violência. São atitudes simbólicas do que aconteceu com a Europa na Primeira Guerra Mundial. Mas, antes de falar do conjunto, voltemos novamente, para falar, dessa vez, dos indivíduos que pontuam a narrativa.
Hans Castorp, o protagonista, passa sete anos no sanatório. Inicialmente, vai para ficar três semanas, mas descobre ter também focos de tuberculose, e acaba permanecendo ali. Ao longo do romance, é ele o centro do enredo, a medida das coisas que são contadas. Sua mente é devassada para nós, num dos trabalhos mais completos e complexos de penetração psicológica já feitos, e acompanhamos as transformações por que ela passa. Nos sete anos que ele passa ali, um dos temas que mais lhe ocupam a mente é o do tempo, a descoberta do que ele é e o que significa. Essa pergunta, no entanto, permanece sem resposta. O mais próximo disso que temos é a constatação de que o tempo passa não segundo o relógio, mas segundo nossa cabeça. Como comentei no início do texto, o tratamento do tempo no romance é singular, justamente por expressar essa situação: os cinco primeiros capítulos – aproximadamente metade do número de páginas – dão conta do primeiro ano de Castorp no sanatório. O sexto capítulo – as duzentas e cinqüenta páginas seguintes – falam dos próximos meses. E o sétimo e último capítulo, que percorre as páginas restantes, fala sobre os outros cinco anos do rapaz do sanatório, anos esses tomados por grande tédio. Assim, é expressa de maneira singular a percepção temporal do protagonista, percepção da qual nós mesmos acabamos compartilhando. Falarei mais de Castorp adiante, mas antes, observemos as figuras que o rodeiam.
As principais, na primeira parte do livro, são Settembrini e Naphta, os intelectuais opositores que disputam o espírito de Hans Castorp. São freqüentemente citados como personificações do pensamento liberal e conservador do início do século, mas não é tão simples. Settembrini é um republicano, um beletrista que sempre fala plasticamente e expõe suas idéias de maneira pedagógica, é um intelectual que quer resolver os problemas da civilização. Naphta, por sua vez, é um descendente de judeus e ex-jesuíta que, embora seja a personificação do radicalismo religioso, antimaterial, é também defensor do comunismo. Digo embora porque hoje, ou mais tardiamente no século XX, o “progressismo” está mais associado à esquerda, enquanto o “conservadorismo” à direita. Independente da vacuidade de tais rótulos, hoje e sempre, é por esse motivo que não se pode chamar o confronto entre Naphta e Settembrini de um confronto entre a ideologia progressista e a conservadora, mas antes entre o confronto de duas visões de mundo bem diferentes. Como se sabe, porém, quando duas pessoas pensam ter idéias totalmente opostas, naturalmente a semelhança entre elas é maior do que imaginam. No caso, Naphta e Settembrini compartilham um certo desprezo pelo indivíduo enquanto tal, e tratam de suas idéias somente no campo da generalização e da lógica pura e simples, sem levar em consideração o sentimento humano.
Para este, Hans Castorp precisa recorrer aos outros dois “coadjuvantes principais” do livro, madame Chauchat e Mynheer Peeperkorn. A primeira é o grande amor de Hans, a mulher que lembra a ele um rapaz que o encantava na infância, uma mulher de ar misterioso que se entrega aos poucos. Peeperkorn, por sua vez, é um homem rico, imponente, com uma vida pautada pelo deleite, uma personalidade absolutamente magnética que, por outro lado, não consegue dizer uma frase que seja por completo, só diz coisas vazias e genéricas. Finalmente, há Joachim Ziemssen, o primo de Castorp, um homem profundamente ligado ao seu dever.
São esses os personagens que orientam a caminhada de Hans Castorp pela Europa do início do século, representada no microcosmo do sanatório. E, ao mesmo tempo, são eles que o conduzem em sua própria caminhada, na jornada de Hans para encontrar a si mesmo. Settembrini é o iluminismo, Naphta é o radicalismo, Joachim é o dever, Chauchat é o amor, Peeperkorn é o hedonismo... mas o mais importante é que eles são Settembrini, Naphta, Joachim, Chauchat e Peeperkorn. Em seus primeiros anos de estada no sanatório, Hans Castorp deixa-se influenciar profundamente pela pedagogia de Settembrini e Naphta, e cresce em sua capacidade filosófica. Em um dado momento, porém, na época que seu primo sai do sanatório para servir no exército, Castorp sai para esquiar na neve e, perdido em uma tempestade, tem uma visão aterradora: pessoas vivendo uma felicidade plena, iluminada, mas atrás delas, no meio daquela felicidade, há um edifício sombrio e misterioso, e ao adentrá-lo Hans Castorp vê duas mulheres velhas de aparência horrível devorando uma criança. Quando acorda do sonho, ele medita um pouco sobre aquilo, renega a influência que Naphta e Settembrini tinham sobre ele, e conclui: “Em consideração à bondade e ao amor, o homem não deve conceder à morte nenhum poder sobre os seus pensamentos.”, que é também a única frase em itálico do livro. Esse é o ápice da formação de Castorp: ao alcançar o topo da Montanha Mágica, ele descobriu uma Verdade. No entanto, quando desce de volta para o sanatório, esquece tudo o que pensara, e a sabedoria alcançada perde-se. Embora após essa experiência Hans Castorp esteja mais maduro, o essencial se perdeu. Aí está a verdade sobre sua formação como indivíduo (e a formação do europeu como indivíduo, por extensão), aí está a triste verdade do espírito da época, o espírito que acabou na Grande Guerra.
Pois, após esse momento, é ladeira abaixo para Hans. Passamos a gostar mais dele, por uma certa serenidade que ele alcança. No entanto, as coisas ao seu redor vão se fragmentando, concedendo-lhe somente um pouco de alegria antes de desaparecer. Joachim retorna ao sanatório, mais doente do que nunca, e acaba por morrer. Chauchat, que partira há anos, volta finalmente, mas acompanhada de Pepperkorn. Tomado pelo ciúme, Hans Castorp chega a desprezar o homem, mas é atraído de tal maneira por ele que se tornam grandes amigos. Essa alegria dura pouco, porém: em seu último discurso, Peeperkorn atinge o auge do vazio ao falar contra o barulho de uma cachoeira e não ser ouvido. Todavia, ironicamente era aquele o discurso mais importante que jamais fizera, pois estava anunciando seu próprio suicídio, que comete no dia seguinte. Após isso, Chauchat parte, deixando a Castorp somente a lembrança de um beijo e uma chapa (de raio-x) de seu pulmão. Mais sozinho que nunca (pois não podia contar nem com a esperança do retorno), Hans vê os anos passarem cada vez mais rápidos, iguais e tediosos ali em cima, e vê as pessoas ao seu redor serem tomadas ao mesmo tempo por um grande tédio e uma grande irritação, que culminam, em sua visão, no bater de armas final, a Grande Guerra. Até mesmo Settembrini e Naphta, até então tão controlados, se ofendem e marcam um duelo, no qual o último, indignado com a atitude do primeiro de atirar para cima, aponta a arma para a própria cabeça e puxa o gatilho. São essas as imagens e os símbolos do que acontecia na Europa. A violência contra si mesmo, a desintegração das unidades, o esvaziamento dos discursos. Como Pynchon escreveria anos depois, sobre a Segunda Guerra (que foi uma extensão da primeira): a Europa afundava nos próprios dejetos.
E ainda assim, há algo para segurar-se. No final, influenciado pela memória do primo e pela audição de A Tília, uma canção de Schubert, Hans conclui que vale a pena lutar e morrer por uma “canção mágica”, morrer com uma “nova palavra de amor” nos lábios. Ele conclui, enfim, que da morte pode surgir a vida e o amor, e que vale a pena morrer e lutar para que, dos destroços do passado, surja um futuro luminoso. Assim, Hans Castorp vai para a Guerra, e na última vez que o vemos ele está em uma batalha, no meio de névoa, chuva e crespúsculo, cantarolando A Tília. Mesmo aí, portanto, nas linhas finais de sua obra-prima, Thomas Mann não cede espaço às certezas e ao absoluto. Mesmo no final há ambigüidade, há dúvida, e por isso ele termina com perguntas. As implícitas, como “Hans Castorp morreu ou não?”; “Há ou não esperança?”; “A vida pode surgir da morte?”; e a definitiva, que toma a última linha, em que somos levados indagar – especialmente hoje, quase meio século após a tragédia, após cem anos de outras tragédias ainda maiores -: “Será que da festa universal da morte, da perniciosa febre que ao nosso redor inflama o céu desta noite chuvosa, surgirá um dia o amor?”
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Esta foi uma singela tentativa de abarcar o espectro geral de A Montanha Mágica. Obviamente, é um resumo/crítica muito falho, especialmente se considerarmos o principal conselho que Thomas Mann dá ao leitor do livro: “leia-o duas vezes”. No entanto, acho que da visão geral dos personagens e acontecimentos consegui extrair alguma coisa. Ainda voltarei, no decorrer dos meus dias, a ler esse livro novamente, com certeza. Por enquanto, porém, contento-me com a lembrança, com os momentos que surgem de repente, me surpreendendo ao saltar detrás de um arbusto da memória, e trazem para mim nos dentes um novo pedaço da compreensão, uma nova partícula da Verdade que eu encontrei – mas esqueci, após menos de um segundo – ao escalar A Montanha Mágica.
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segunda-feira, 16 de março de 2009
100 livros essenciais da literatura mundial
Em 2007, a revista Bravo! publicou uma edição especial com 100 das obras mais importantes da literatura, não se limitando a somente um gênero mas incluindo poemas, romances, peças de teatro e misturas disso tudo. Como principal referência, adotou a obra do crítico Harold Bloom, que em livros como O Cânone Ocidental e Gênio, Os 100 Autores Mais Criativos da História da Literatura definiu as mais importantes peças literárias da nossa história, mas serviu-se também de outras fontes, como listas análogas e obras de referência em geral. No fim, a edição especial acaba sendo uma valorosa fonte de consulta. Embora apresente algumas injustiças e incoerências no que tange aos "melhores" livros, é compreensível que esse tipo de desvio aconteça numa lista com tantas fonte. E além disso, a diversificação daí advinda é um ponto a mais no quesito de inovação, de apresentação de obras que do contrário permaneceriam obscuras, mesmo aos bibliófilos mais constantes.
De minha parte, gosto muito da revista e sempre a consulto quando leio algum dos livros lá presentes. Embora a qualidade dos textos de apresentação seja irregular, eles apresentam muitas informações, que acabam ajudando na hora de formar uma opinião contextualizada sobre uma obra. Dos cem, li vinte e cinco, o que não chega a uma número vultuoso mas é, de qualquer maneira, um bom começo. O tempo se encarregará se trazer os demais aos meus olhos (ou não). Fiquem então com a lista completa (os que eu li estão marcados em negrito).
1) Ilíada - Homero
2) Odisséia – Homero
3) Hamlet – William Shakespeare
4) Dom Quixote – Miguel de Cervantes
5) A Divina Comédia – Dante Alighieri
6) Em Busca do Tempo Perdido – Marcel Proust
7) Ulisses – James Joyce
8) Guerra e Paz – Leon Tolstoi
9) Crime e Castigo – Dostoievski
10) Ensaios – Michel de Montaigne
11) Édipo Rei - Sófocles
12) Otelo - William Shakespeare
13) Madame Bovary – Gustave Flaubert
14) Fausto – Goethe
15) O Processo – Franz Kafka
16) Doutor Fausto – Thomas Mann
17) As Flores do Mal – Charles Baudelaire
18) Som e a Fúria – William Faulkner
19) A Terra Desolada – T. S. Eliot
20) Teogonia – Hesíodo
21) As Metamorfoses - Ovídio
22) O Vermelho e o Negro – Stendhal
23) O Grande Gatsby – F. Scott Fitzgerald
24) Uma Estação no Inferno - Arthur Rimbaud
25) Os Miseráveis - Victor Hugo
26) O Estrangeiro - Albert Camus
27) Medéia - Eurípides
28) A Eneida - Virgílio
29) Noite de Reis - William Shakespeare
30) Adeus às Armas - Ernest Hemingway
31) Coração das Trevas - Joseph Conrad
32) Admirável Mundo Novo - Aldous Huxley
33) Mrs. Dalloway - Virginia Woolf
34) Moby Dick - Herman Melville
35) Histórias Extraordinárias - Edgar Allan Poe
36) A Comédia Humana - Balzac
37) Grandes Esperanças - Charles Dickens
38) O Homem Sem Qualidades - Robert Musil
39) As Viagens de Gulliver - Jonathan Swift
40) Finnegans Wake - James Joyce
41) Os Lusíadas - Luís de Camões
42) Os Três Mosqueteiros - Alexandre Dumas
43) Retrato de Uma Senhora - Henry James
44) Decameron - Bocaccio
45) Esperando Godot - Samuel Beckett
46) 1984 - George Orwell
47) Galileu Galilei - Bertolt Brecht
48) Os Cantos de Maldoror - Lautréamont
49) A Tarde de um Fauno - Mallarmé
50) Lolita - Vladimir Nabokov
51) Tartufo - Molière
52) As Três Irmãs - Anton Tcheckov
53) O Livro das Mil e Uma Noites
54) Don Juan - Tirso de Molina
55) Mensagem - Fernando Pessoa
56) Paraíso Perdido - Jonh Milton
57) Robinson Crusoé - Daniel Defoe
58) Os Moedeiros Falsos - André Gide
59) Memórias Póstumas de Brás Cubas - Machado de Assis
60) O Retrato de Dorian Gray - Oscar Wilde
61) Seis Personagens em Busca de um Autor - Luigi Pirandello
62) Alice no País das Maravilhas - Lewis Carrol
63) A Náusea - Jean-Paul Sartre
64) A Consciência de Zeno - Ítalo Svevo
65) Longa Jornada Noite Adentro - Eugene O'Neill
66) A Condição Humana - André Malraux
67) Os Cantos - Ezra Pound
68) Canções da Inocência /Canções do Exílio - William Blake
69) Um Bonde Chamado Desejo - Tennessee Williams
70) Ficções - Jorge Luis Borges
71) O Rinoceronte - Eugène Ionesco
72) A Morte de Virgílio - Herman Broch
73) As Folhas da Relva - Walt Whitman
74) Deserto dos Tártaros - Dino Buzatti
75) Cem Anos de Solidão - Gabriel García Márquez
76) Viagem ao Fim da Noite - Louis-Ferdinand Céline
77) A Ilustre Casa de Ramires - Eça de Queirós
78) Jogo da Amarelinha - Júlio Cortázar
79) As Vinhas da Ira - John Steinbeck
80) Memórias de Adriano - Marguerite Yourcenar
81) O Apanhador no Campo de Centeio - J.D. Salinger
82) Huckleberry Finn - Mark Twain
83) Contos de Hans Christian Andersen
84) O Leopardo - Tomaso di Lampedusa
85) Vida e Opiniões do Cavaleiro Tristam Shandy - Laurence Sterne
86) Passagem Para a Índia - E.M Forster
87) Orgulho e Preconceito - Jane Austen
88) Trópico de Câncer - Henry Miller
89) Pais e Filhos - Ivan Turgueniev
90) O Náufrago - Thomas Bernhard
91) A Epopéia de Gilgamesh
92) O Mahabharata
93) As Cidades Invisíveis - Italo Calvino
94) On The Road - Jack Kerouac
95) Lobo da Estepe - Hermann Hesse
96) Complexo de Portnoy - Philip Roth
97) Reparação - Ian MacEwan
98) Desonra - J.M. Coetzee
99) As Irmãs Makioka - Junichiro Tanizaki
100) Pedro Páramo - Juan Rulfo
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segunda-feira, 16 de fevereiro de 2009
Grandes Desfechos de Livros 3 (de 5)
Na primeira semana dos Grandes Desfechos de Livros, vimos uma final que concluía, que recapitulava a narrativa e então a levava a um fecho. Na segunda semana, vimos um final que desaguava no começo, um final que se recusa a sê-lo, o final irremediavelmente ligado ao princípio. Agora, na terceira semana, o final que aparece na lista é de um outro gênero: é um final que responde.
Sem dúvida, ele tem algumas semelhanças estruturais com o final de O Barão nas Árvores, visto que também faz uma espécie de recapitulação. Entretanto, o que temos no final de Grande Sertão: Veredas, este que é o Grande Romance Brasileiro, inegavelmente a obra que mais longe foi em suas pretensões (cumpriu todas, é bom dizer) e abrangência, são palavras gigantescas, que a despeito do tamanho físico contém significados abrangentes, adquiridos durante a narrativa, e que põe um fecho, ainda que já anunciado, nas divagações e dúvidas de Riobaldo, o narrador-herói que vendeu (ou não) a alma para o Diabo, o Fausto jagunço apaixonado pela dualidade personificada no ser amado, Diadorim.
Nessas últimas palavras, Riobaldo afirma suas crenças e conclusões, dando por fim espaço ao símbolo do infinito, ao infinito da travessia que é a troca entre dois opostos, entre dois mundo. A linguagem mágica de Rosa, os significados profundos que ele sonda e o sentido poético que ele dá ao livro fazem do final de Grande Sertão: Veredas um dos mais emblemáticos de toda a literatura mundial, assim como é emblemática essa obra-prima que merece o reconhecimento.
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Grande Sertão: Veredas, de João Guimarães Rosa.
“Cerro. O senhor vê. Contei tudo. Agora estou aqui, quase barranqueiro. Para a velhice vou, com ordem e trabalho. Sei de mim? Cumpro. O Rio de São Francisco – que de tão grande se comparece – parece é um pau grosso, em pé, enorme... Amável o senhor me ouviu, minha idéia confirmou: que o Diabo não existe. Pois não? O senhor é um homem soberano, circunspecto. Amigos somos. Nonada. O diabo não há! É o que eu digo, se for... Existe é homem humano. Travessia.”
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quarta-feira, 4 de fevereiro de 2009
Leituras: Janeiro de 2009
Em janeiro, li dois livros que disputam um posto muito especial, e ainda vago: o de Grande Romance Americano. Ambos já foram colocados nessa posição, mas nunca houve um consenso sobre qual, dentre os dois e dentre outros, obra merece tal título. Ambos, também, cada um à sua maneira, apresentam inovações e dificuldades em sua leitura, embora, como em qualquer livro, elas possam ser superadas com somente boa vontade e dedicação. As semelhanças entre os dois vão um pouco mais longe, ao menos para os exegetas mais obsessivos, mas paremos por aqui. O importante é que, seja pelos mares do mundo caçando um cachalote branco, seja pela Europa devastada pela Segunda Guerra Mundial, os dois livros, como a Literatura em si, proporcionam viagens inesquecíveis, marcantes, insuperáveis... viagens pela nossa própria alma.
Moby Dick, de Herman Melville
Moby Dick é um romance peculiar. De fato, não é exagero dizer que ele é anacrônico. A metade do século XIX (o livro foi lançado em 1851) não parece adequada para esse livro, não mesmo. Moby Dick é uma obra quase um século à frente de seu tempo, um romance moderno encravado no ápice do romantismo. Certo, a linguagem do livro é romântica o bastante, cheia dos exageros e da imagética típico do estilo. Entretanto, a estrutura e a organização do livro são impressionantemente modernas. Vejamos... O enredo, embora emblemático, é um fiapo: Ismael, o narrador, torna-se amigo do arpoador Quiqueg e embarca no baleeiro Pequod, capitaneado pelo capitão Acab (Ahab no original), cuja perna foi arrancada por Moby Dick, um imenso cachalote branco, e portanto empreende essa viagem para se vingar. Então, o barco vai viajando pelo mundo, encontra vários outros baleeiros, mata algumas baleias, e no final encontra Moby Dick, que com sua fúria o destrói e faz toda a tripulação afundar e morrer, à exceção de Ismael, que escapa do naufrágio e muitos anos depois conta a história da viagem... O livro é uma enorme parábola sobre os impulsos da humanidade, e sobre como a obsessão e os sentimentos de um homem podem sozinhos destruir muitas vidas. Está recheado de metáforas fascinantes, de comentários pertinentes sobre o ser humano, de digressões sobre o significado das coisas. Apropriando-se de um enredo até certo ponto trivial, Melville construiu um Grande Romance, um tratado abrangente da alma humana. E, quanto à forma, ele foi pioneiro. A história em si, como já mostrado, é reduzida, mas ao invés de introduzir enredos paralelos para aumentar o livro, Melville o transformou numa verdadeira enciclopédia sobre as baleias, enchendo-o de digressões a respeito da espécie e da atividade baleeira através dos séculos, entre outras coisas. Apesar do livro ser contado em primeira pessoa, há passagens em que se usa a estrutura de uma peça de teatro, e várias outras em que o pensamento de outros personagens se intromete na narrativa, um verdadeiro fluxo de consciência à moda do século XIX que cria, assim, o novíssimo narrador personagem onisciente. Inovador ao extremo, Melville não foi, é claro, compreendido à sua época. Mas o tempo o colocou em seu devido lugar, o posto de um dos maiores escritores que a América já teve, e um dos grandes entendedores do ser humano.
O Arco-Íris da Gravidade, de Thomas Pynchon
Eles adoram dizer que certos livros são ilegíveis. Segundo o lugar-comum oficial, os livros que se encaixam nessa categoria são vários... Ulisses e Finnegans Wake, de James Joyce, Crítica da Razão Pura, de Imannuel Kant, O Arco-Íris da Gravidade, de Thomas Pynchon... mas espere aí. Se o livro estiver escrito (ou traduzido) em uma língua que o leitor conhece (ou domina), que motivos haverá para que ele não consiga lê-lo? Pois é. O conto da “ilegibilidade” de certos livros é facilmente espalhado por todos os cantos, e todo mundo acredita. A questão poderia ser então “Por quem essa história é espalhada?” – e a resposta entraria facilmente em várias suposições, digamos por aqueles que lêem esses tais livros, para afirmarem sua suposta superioridade intelectual, ou pela editora rival da que imprime os livros ilegíveis, para que ninguém os compre -, mas isso não vem ao caso, agora. O que vem ao caso, ou, em outras palavras, o que é realmente importante é: não, nenhum livro é ilegível. Afinal de contas, independente de quais idéias revolucionárias ele possa trazer em seu entrecho, ou de quão complexas elas sejam, um livro é só um livro, e um livro, como já afirmado no início desse texto, é para ser lido, desde que ele e o leitor compartilhem o mesmo tipo de linguagem. Assim, ler um livro não é, por si só, um ato que deveria gerar algum tipo de respeito (ouviram, intelectuais superiores?), mas também é algo cuja destinação básica é, isso mesmo, ler, e portanto não seria nada mal se todos comprassem livros e os lessem (ouviram, editoras rivais?).
Posto isso, podemos passar à próxima etapa dessa resenha: livros não são ilegíveis, certo, mas eles podem, sim, apresentar dificuldades. É o caso de O Arco-Íris da Gravidade. Esta obra monumental é única na literatura mundial, só pareada, em certos níveis, por outros dos livros do autor, Thomas Pynchon, um americano recluso de quem se sabe relativamente pouco, e que possui poucas fotos conhecidas, todas da época em que era jovem. O livro, passado no final da Segunda Guerra Mundial, um período de aproximadamente nove meses entre o fim de 44 e o meio de 45, conta múltiplas histórias e tem inúmeros plots, mas sua linha principal, pode-se dizer, acompanha (ou tende a perseguir, ou gira em torno de, ou ziguezagueia com, ou explode pra todo lado em) Tyrone Slothrop (anagrama de Sloth or Entropy – Preguiça ou Entropia), tenente americano em missão em Londres. Slothrop, na infância, foi cobaia dos experimentos pavlovianos de um cientista alemão chamado Laszlo Jamf, e condicionado a sentir tesão (no vulgar: ficar de pau duro) ao sentir o cheiro de um plástico especial chamado Imipolex G. Agora, no final da Guerra, quando Foguetes alemães com o composto sintético em suas coberturas estão caindo sobre Londres, ele sente a presença do plástico antes mesmo dos foguetes serem lançados e fica excitado, terminando por fazer sexo nos locais onde, dias ou semanas depois, um foguete vai cair. Intrigado com isso, um cientista que trabalha para o governo o envia para a Europa destruída, e Slothrop, o maior paranóico do Universo, assim como são paranóicos todos os outros personagens, começará sua busca por algo que ele ainda nem sabe ao certo o que é... Ou seria uma fuga d’Eles, que o perseguem por toda parte? Será que ele faz isso por vontade própria, ou continua sendo manipulado por Eles? Será que ele terminará a jornada do herói como começou, O Louco que passa pelos 21 Arcanos Maiores, pelos dez sephirah e retorna ao estado inicial, será que ele transcenderá, ou será que acabara se desintegrando no caminho? Maluco, complicado? Sim, e tem mais, muito mais... O livro mergulha fundo na paranóia, nos sistemas de controle, na Entropia e na inevitabilidade, na tendência de todas as coisas para a morte e a desintegração, assim como na Contraforça de tudo isso, a morte que surge da vida, o preso que se liberta, o amor que aquece as pessoas no frio mais pesado...
O site RinkWorks, que apresenta diversos trabalhos ligados à literatura, tem um resumo muito divertido e apropriado para o livro: “Uma coisa que grita atravessa o céu. É um foguete V-2 carregando cinco toneladas de simbolismo, e está vindo cair bem na sua pobre e iludida cabeça pós-moderna.” Ora, o romance é considerado um ícone do pós-modernismo, e não por menos: o livro está cheio de referências estruturais e culturais aos quadrinhos e ao cinema, e reúne também em suas páginas passagens relativas à química e a física modernas, ao mundo corporativo e político alemão na primeira metade do século XX, às teorias psicológicas/sociológicas de Pavlov e Skinner, aos acontecimentos da SG (Segunda Guerra), especialmente no final, a Rossini, Beethoven e Webern, e, principalmente, ao Foguete V-2, personagem principal e razão de ser do romance, tudo isso desempenhando um papel importante e constante na história. A prosa de Pynchon é densa, às vezes até demais, o que leva o livro a ser, por vezes, um pouco opressivo. Mas é, ao mesmo tempo, um livro extremamente engraçado, um dos mais engraçados que eu já li, cheio de momentos inacreditáveis e hilários, descrições pormenorizadas de fetiches sexuais bizarros, musiquetas engraçadinhas que irrompem no meio de uma cena séria, concepções estranhas do mundo e dos acontecimentos... um verdadeiro romance enciclopédico, com mais de 400 personagens e inúmeros acontecimentos sucedendo-se à toque de caixa, e também uma obra totalmente insana, cheia de fluxos de consciência, idas e vindas no tempo, transições de fatos, alucinações, sonhos e lembranças sem aviso, plots que começam e não dão em nada, pistas falsas emergindo o tempo todo....
É, em suma, uma obra exigente. Teoricamente, todo livro exige uma postura participativa do leitor. No entanto, na maioria dos livros, essa necessidade não é uma premissa básica para o seu acompanhamento, o que leva o leitor (qualquer leitor) a acompanhar o enredo passivamente. Já em Pynchon – O Arco-Íris da Gravidade, pelo menos – o envolvimento do leitor – de seu pensamento – é indispensável para acompanhar o que está acontecendo. Não é, repito, nenhuma tarefa impossível: basta boa vontade, e talvez um computador ligado para eventuais consultas, e uma ou outra anotação, se for necessário, e qualquer um poder ler o livro e compreendê-lo, ao menos superficialmente, a contento. Essa é uma leitura imediata, mas pode ser a única desejada para o leitor. Todo grande romance esconde em suas entranhas segredos que exigem muito estudo, pesquisa e dedicação para serem descobertos, e esses livros cheios de mistérios e enigmas, como O Arco-Íris da Gravidade, são especialmente pródigos em estudos e interpretações. Mas, para acessar alguns deles, há diversas teses – acadêmicas ou não – a respeito do livro, basta procurá-las.
Quem deseja ir além da leitura superficial, entender melhor o que aconteceu e procurar significados ocultos nas páginas deste grande livro vai encontrar um material farto, quiçá interminável. O livro, assim como Ulisses, outro grande romance-pedreira do século, está estruturado sobre uma obra clássica, no caso as Elegias do poeta alemão Rainer Maria Rilke. Além dela, também desempenham papel fundamental no livro o Tarô e a Cabala, fontes simbólicas riquíssimas, das quais Pynchon se apropria muito bem. Se quiserem um exemplo de simbolismos e segredos escondidos no livro, tomemos as iniciais de Slothrop, T.S.: porque não dizer que o anti-herói caminha, durante o livro, pela Terra Desolada que é a Europa no final da SG? Analogia perfeitamente possível e significativa, embora, talvez, um tanto quanto fácil para o nível pynchoneano de confusão, mas nada impede que essa seja só uma camada de significado que o nome – o nome! – do protagonista esconde. Da mesma maneira, diversos outros enigmas se apresentam, surgindo sem aviso, indo embora sem deixar rastros, confundindo e ao mesmo tempo fornecendo um certo prazer por sua existência...
Magistral, belíssimo, cômico, trágico, científico, popular, erudito, vulgar, obsceno, violento, mágico e sublime, O Arco-Íris da Gravidade é uma singularidade, um objeto infinitamente pesado que distorce o espaço e atrai tudo para seu interior, sem misericórdia... uma obra-prima da literatura, e o maior livro escrito na segunda metade do século XX, sem dúvida alguma.
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terça-feira, 26 de fevereiro de 2008
Resenha: Admirável Mundo Novo
A distopia é um gênero crítico por excelência. Elas simplesmente não são escritas sem ter como referência problemas e características do nosso próprio mundo atual. É assim com “A Laranja Mecânica”, é assim com “
O ano é 2540 d.C., mas para os personagens do livro é 632 d.F., ou seja, depois de Ford. Para eles, Henry Ford, criador das linhas de produção, foi o messias, e eles o invocam por meio do sinal de “T”, no peito, em referência ao célebre modelo do inventor. Nessa sociedade, todos vivem sob o imperativo da felicidade. São divididos em castas: os Alfas, Betas, Gamas, Deltas e Ípsilons. As duas primeiras são compostas de indivíduos únicos, mas as restantes passam por um processo que divide seus embriões e produz cerca de oitenta pessoas iguais. Tudo isso para que, trabalhando juntos, haja um sentido de identidade entre eles.
Mas não é só. Não há pais, mães ou relacionamentos duradouros. Os embriões são “montados” em linhas de produção, de acordo com sua casta. Desde o nascimento, são condicionados, seja por hipnopedia (repetição de frases durante o sono) ou outros métodos, a aceitarem a Morte e tratarem o Sexo como algo absolutamente trivial, para ser praticado sempre e com todos. Esse condicionamento os leva também a se sentirem totalmente satisfeitos com sua condição, seja a de pesquisador ou ascensorista. E se, porventura, algo de ruim acontecer, sempre é possível (e aconselhável), recorrer ao soma, droga alucinógena que traz de volta a felicidade.
No início, vemos Bernard Marx, personagem que passou por um trauma quando ainda era um embrião e se sente incomodado em sua posição. Mas consegue que Lenina Crowne, uma donzela assaz pneumática, vá com ele até a Reserva dos Selvagens, onde tribos de índios americanos ainda vivem como nos tempos antigos. Lá, encontram uma mulher Beta, que se perdeu na Reserva há muito tempo, e seu filho crescido. Interessado na fama que isso lhe trará, Bernard o leva para a “civilização”, coisa com que o jovem sempre sonhou, e veremos então o que acontece.
O livro é perturbador por fazer uma reflexão sobre o preço das coisas, e o que nos torna humanos. Para que não nos entristeçamos ou tenhamos que pensar coisas ruins, não há Arte. De modo análogo, a Ciência é suprimida. A única verdade que interessa é a dos Administradores Mundiais. Quem me conhece sabe que eu considero essas duas coisas a grande razão da vida humana. Ver uma sociedade sem essas coisas é como ver uma colônia de robôs. E de fato, são o que os seres desse futuro são: máquinas que reagem a estímulos.
Mas todos são felizes, não? De fato, a felicidade é algo fornecido pelo Estado e irrevogável. Mas em troca de quê? Isso me faz pensar em Cuba, a cujo governo oficial Fidel Castro recentemente renunciou. Uma medicina entre as melhores do mundo. Educação invejável. Garantia de emprego pelo resto da vida. Mas, por outro lado, não há liberdade de pensamento, de expressão. Não há arte no comunismo. Só o que importa é o que acontece, é a jornada do proletariado. Pode parecer algo demasiado subjetivo, vaporoso, comparado a ter saúde e educação, coisas concretas, essenciais. Mas, se sentimos aquele estranho revolver no estômago ao olharmos para esse “Mundo Novo” do livro, é porque de fato aquilo importa.
Shakespeare, a partir do momento em que o Selvagem entra em cena, pontua o livro. Ele é uma das expressões máximas da cultura ocidental. O nosso mundo é shakesperiano. Ele de certa forma criou o ser humano atual. Vê-lo em contraste com os robôs de plástico, todo uns iguais aos outros, é muito significativo. Como disse antes, a distopia é sempre uma alegoria de nossos tempos, um alerta. Olhar para o presente e ver coisas, se não tão assustadoras, assustadoras o suficiente, é motivo de um leve arrepio, de um certo mal-estar. Tenho medo do dia em que deixarmos de ser humanos em troca de casa, comida, e roupa lavada.
“Oh maravilha! Como há aqui seres encantadores! Como é bela a humanidade! Oh! admirável mundo novo, que contém criaturas tais!”
P.S.: A melhor sentença do livro aparece na conversa entre o Selvagem e Mustafá Mond. “Mas eu não quero conforto. Quero Deus, quero a poesia, quero o perigo autêntico, quero a liberdade, quero a bondade. Quero o pecado. [...] Eu reclamo o direito de ser infeliz.” Creio não ser necessário dizer mais nada.
sábado, 5 de janeiro de 2008
Resenha: Um Retrato Do Artista Quando Jovem
A tradição do romance de formação ou Bildungsroman remonta a Goethe e seu “Os Anos de Aprendizagem de Wilhelm Meister.” A história do jovem alemão e suas teorias sobre Hamlet não só influenciou diversos escritores como criou um gênero. Livros como “O Jovem [Aluno] Törless” de Robert Musil, e “Sidarta” de Hermann Hesse são alguns dos expoentes do gênero, embora incontáveis outras obras sejam acrescentadas - ao humor do crítico estiver analisando (Harry Potter inclusive). Ainda que muitas (ou todas) as histórias falem sobre transformação, as características do Bildungsroman são claras e facilmente apreensíveis. Para começar, observe os títulos. Palavras sobre juventude e aprendizado são constantes. Além disso, são romances majoritariamente psicológicos, mais dedicados aos pensamentos e sentimentos do protagonista (notoriamente masculino pelas questões sociais que todos conhecemos, mas obviamente com suas exceções) sobre o que acontece ao seu redor, algo que acaba solitarizando-os.
Joyce adorava o livro de Goethe, e o citou inclusive em sua opus magnum “Ulisses” . Fez assim jus a isso criando um romance de formação – que é frequentemente comparado à autobiografia por semelhanças estilísticas – semi-autobiográfico. A história do “Retrato” é longa. Começou no dia 7 de Janeiro de 1904 (ano fatídico), quando ele escreveu um ensaio autobiográfico intitulado A Portrait of the Artist para a revista Dana, editada pelos escritores John Eglinton e Fred Ryan (também personagens de “Ulisses”), recusado prontamente, pois aquele afirmou: “Não posso imprimir aquilo que não entendo.” Incentivado pela recusa, Joyce se pôs a trabalhar em um romance, com o mesmo tema e história, chamado Stephen Hero, com conteúdo muito mais sociopolítico e extenso, percorrendo 26 capítulos, mas já “estrelado” pelo alterego do autor, Stephen Dedalus. Fragmentos de Stephen Hero seriam publicados depois da morte dele, possibilitando uma análise de seu conteúdo e proposta. Quanto ao “Retrato”, foi metamorfoseado da obra original em algo muito mais psicológico e denso, sendo então publicado em forma de série na revista The Egoist em 1914 e 1915, e depois impresso em forma de livro em 1916.
Como toda a obra de Joyce, o livro pode ser analisado sob muitas facetas. Comecemos pelo protagonista: St. Stephen foi o primeiro mártir cristão, e Dédalo foi o gênio inventor e arquiteto da mitologia grega - que construiu um touro de madeira para a rainha Pasífae copular com um touro campeão, e por isso foi preso pelo rei Minos no labirinto que construíra para o Minotauro, junto com seu filho. Ele então fez dois pares de asas com penas e cera, e as utilizou para fugir. Seu filho, por outro lado, se aproximou muito do sol e caiu, gerando a famosa analogia/metáfora do “vôo de Ícaro” ou da “queda de Ícaro”, tão batida quanto a “ressurreição da Fênix das cinzas” -, o que ilustra perfeitamente a dicotomia do personagem: inicialmente e por um lado um católico contrito, cheio de culpas e arrependimentos, eternamente melancólico; e posteriormente e por outro um pagão, um poeta herético ou, em suas palavras, “um horrível modelo de livre pensamento.” Analisado contra Poldy ou Molly Bloom, Stephen é um personagem um tanto estéril (como o disse Harold Bloom). Quando divide a cena, acaba ficando em segundo plano. Mas “Retrato” é seu livro, sua história, e aqui ele executa perfeitamente bem seus papéis.
E a maneira que ele encontra para tomar posse do livro é a penetração psicológica, aplicada sob a forma do monólogo interior, usado pela primeira vez por Joyce. O método “criado” por Edouard Dujardin foi utilizado por muitos, mas Joyce é o mestre e artesão definitivo do estilo. O monólogo de Molly Bloom em “Ulisses” é especialmente citado, mas já em “Retrato” Joyce explora de mil maneiras o mundo interior do protagonista com o fluxo de consciência. Impossível não entender os dilemas de Stephen, e identificá-lo como humano. A maneira como as coisas vêm pode ser um pouco difícil, mas qualquer leitura atenta desvenda imediatamente toda a - com o perdão da expressão – magia do livro.
Magia esta que toma outras formas. A “formação” ou “evolução” da personagem, o outro grande trunfo do romance, ocorre aqui em paralelo à evolução do livro. O crescendo da sofisticação lingüística e sua representação musical são de fato os verdadeiros retratos de Stephen. Inicialmente sons monocórdios, orações coordenadas, idéias girando em torno de um mesmo conceito. Sim, o início do “Retrato” é o mundo pelos olhos de um bebê. O resto deste primeiro capítulo, um dos mais deliciosos de se ler, também retrata fielmente o pensamente infantil, em sua busca dos porquês e em sua ânsia analítica de entender as coisas e relacioná-las umas às outras. Finda a prótase, vem a epítase: nascem os conflitos, familiares, religiosos e psicológicos, na mente e no mundo de Stephen. A descrição do Inferno, em particular, me marcou profundamente quando o li pela primeira vez, transformando-se no trecho mais perene na minha memória. A catástase, em minha concepção, é sua decisão de ir embora, de romper de vez com sua família, e ir morar em Paris, sendo todo esse conflito permeado por suas discussões estéticas e políticas com colegas estudantes.
Antes que se consuma o fim, já se formou na memória qual foi a “formação” pela qual Stephen passou: um garotinho estudante de um colégio jesuíta passa por um momento de quebra (a falência de seu pai) e se entrega à promiscuidade como refúgio (e como descoberta). Mas as reminiscências do passado religioso renascem quando ele volta à escola, e se descobre um pecador, fechando-se então cada vez mais em seu desespero profano. Acomodado, encontra um ponto de segurança, mas continua preso e fechado. Finalmente, vai se libertando, se desprendendo de sua família que o prende, de suas culpas que fecham, de seus medos que o vedam. Como aquele do qual tomou o nome, ele escapa de um labirinto - onde em cada parede se encontra uma frustração -, estende suas asas, e alça vôo, para descobrir novos ares e tentar novas empreitadas. É a catástrofe, o desfecho, o amadurecimento do jovem aprendiz. Independente do que vier a mais, ele se encontrou definitivamente, e se transformou no que viveu para ser. E para que, quando encontrasse novos grilhões, novas barreiras, pudesse voar novamente, pede, nas linhas que encerram o romance: Velho pai, velho artífice, valha-me agora e sempre.
