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Esse mês, li um pouco mais que no último. Embora meu ritmo de leitura ainda não seja o que eu considero ideal, consegui ler três livros: dois romances e um livro filosófico. Gostei de todos, embora em diferentes níveis. Seguem abaixo os livros em ordem de preferência.
O Barão nas Árvores, de Ítalo Calvino: Calvino é um dos meus escritores preferidos. Sua prosa é leve, mas diversificada, e ele consegue mergulhar com extrema habilidade nos mais diversos temas da vida humana. Já falei aqui no blog sobre meu livro favorito dele, Se um viajante numa noite de inverno, mas O Barão nas Árvores se encaixa em uma outra linhagem dentro da obra do italiano. O romance faz parte da trilogia Os nossos antepassados, composta também pelos excelentes (e divertidos, e profundos) O visconde partido ao meio e O cavaleiro inexistente. Juntos, os três formam um conjunto ímpar, mas analisados caso a caso também são excepcionais. No caso de O Barão nas Árvores, acompanhamos a história de Cosme Chuvasco de Rondó, o rebelde filho de um barão que um dia resolve subir nas árvores para nunca mais descer. A partir daí, ele começará a enxergar muito melhor a vida dos habitantes daqui de baixo, e viverá sua própria vida sobre os galhos das florestas da Europa. Com um estilo composto por uma ironia fina e uma poesia irreverente, Calvino construiu nesse livro mais uma obra-prima encantadora, para ser lida e relida, e que possui um desfecho – em questões de enredo e forma – extraordinário e melancólico. Um dia posto aqui, para vocês verem.
Macunaíma, de Mário de Andrade: Uma aglutinação radical e anárquica dos Brasis, especialmente como eram vistos no início do século XX. Mário de Andrade reuniu aos poucos as mais variadas fontes de referências sobre o que havia no Brasil, e depois juntou tudo (com a ajuda dos sobrinhos) num livro que pode não ter pé nem cabeça, mas tem raízes fincadas profundamente no solo tupiniquim e estende seus ramos muito alto. Fazendo graça com a cultura popular e erudita, o folclore, a religião, a mitologia brasileiros, e até mesmo com a língua portuguesa, o escritor modernista fez uma obra-prima divertida e descompromissada, para ser lida dando risada e tentando fazer conexões entre as imagens que ele criou.
A Utopia, de Thomas More: Obra fundamental da nossa civilização, A Utopia é, embora muito citada, pouco lida. Não são muitos, que sabem, de fato, como é a sociedade que o filósofo imaginou. Eu, ao ler o livro, descobri, e, posso dizer, não é algo que mudou minha vida. Mas explico: a primeira parte do livro, que apresenta a discussão do interlocutor de More, Rafael Hitlodeu, com algumas pessoas em uma reunião na casa de um cardeal, é a que mais me agradou. Trata-se de um assunto extremamente (e infelizmente) atual, tratado com uma clareza e coerência de idéias impressionante. Entretanto, a descrição da Utopia em si, na segunda parte do livro, é atrapalhada por algumas coisas. Em primeiro lugar, por uma questão histórica de quando o livro foi escrito, a sociedade apresentada é machista e até escravista. Contudo, isso se perdoa, pois esse machismo e esse escravismo são moderados e até mesmo aceitáveis, especialmente em comparação àqueles que vigoravam na época. Mas, além disso, o próprio cerne da civilização utopiana é um pouco incômodo: todas as cidades são iguais, as pessoas se vestem de maneira igual, tudo é nivelado e asséptico... não me parece um bom lugar para se viver. Porém, mais uma vez, isso não desmerece o livro. Se até Oscar Wilde, um cínico por natureza, disse que um mapa do mundo que não tenha em si a ilha de Utopia não é sequer digno de consulta, é porque o sonho utópico é algo realmente extraordinário, e de fato: o que mais valeu no livro, para mim, foi seu tom sonhador, esse sentimento que percebemos subjacente de querer que as coisas como são melhorem, de saber que nossa sociedade-e-civilização pode sim evoluir, e alcançar um patamar melhor para todos os seres humanos, que respeite as individualidades e as diferenças, mas não deixe de olhar para o todo, para o Outro. Em tempos de um negro filho de imigrantes com nome estranho ser eleito para ser presidente dos EUA, isso é extremamente significativo.
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quarta-feira, 5 de novembro de 2008
terça-feira, 4 de novembro de 2008
Explosões! Tiros! Medo! Surpresas!
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Nada dessas coisas, e um pouco de cada, estão presentes na novela Através do espelho obscuro, publicada diariamente no blog Nós Mesmos. Atualmente (capítulos 10 pra frente...) a trama está passando por uma grande reviravolta, elemento essencial para o destino do(s) personagem(ns) daqui pra frente. Não perrrrcam!
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Nada dessas coisas, e um pouco de cada, estão presentes na novela Através do espelho obscuro, publicada diariamente no blog Nós Mesmos. Atualmente (capítulos 10 pra frente...) a trama está passando por uma grande reviravolta, elemento essencial para o destino do(s) personagem(ns) daqui pra frente. Não perrrrcam!
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segunda-feira, 3 de novembro de 2008
O Bandido da Luz Vermelha
Logo no início, os letreiros diferenciados anunciam um monte de informações, que serão retomadas em algum momento ao longo do filme: é o início de uma narrativa experimental e entupida das mais diversas referências. O cinema de Sganzerla é o marginal, a estética do lixo que surgiu principalmente entre os cineastas paulistas a partir da crise de representação referida no primeiro parágrafo.
Nós, brasileiros, vivemos no lixo... o Brasil é uma espécie de lixão continental.Em plena Guerra Fria (o filme é de 1968), a única “Guerra Total” com que nós, moradores da boca do lixo, temos de nos preocupar é aquela que já acontece em nossas cidades, a violência que está por todo lado. “O Terceiro Mundo vai explodir!”, proclama um anão profeta, e de fato: o amontoado de lixo que se acumula por toda parte vai acabar entrando em combustão, cedo ou tarde, e mandar tudo pelos ares.
No lixo, tudo está amontoado, fora de ordem, coisas das mais diversas origens estão juntas, unidas sem hierarquia, sem nenhuma espécie de organização. Para representar isso, Sganzerla fez um filme fragmentado, recheado de inúmeras influências, de pedaços do lixo que é jogado no terceiro mundo. A narração do filme remete, com um tom debochado, aos programas policiais do rádio. Há citação dos quadrinhos, da TV, de Godard... o filme é uma mistura bizarra e única da vanguarda e do popularesco, uma espécie de meio termo entre o cinema cabeça de Glauber Rocha e companhia e as pornochanchadas.
Ao mesmo tempo cômico, trágico, aventureiro, filosófico e pessoal, O Bandido da Luz Vermelha foi a solução que Sganzerla encontrou para fazer cinema no terceiro mundo. Sem os recursos – a tecnologia, o dinheiro, o aparato intelectual – do primeiro mundo, o cineasta foi longe para mostrar como o (seu) cinema do terceiro mundo é: uma mistura genial e estranha de tudo que vem de fora, que é jogado no lixão que chamamos lar. Como diz o personagem título, numa frase emblemática que resume bem a situação, "Quando a gente não pode fazer nada, a gente avacalha. Avacalha e se esculhamba."
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sexta-feira, 31 de outubro de 2008
Citação de Sexta: One of the old Bill, the Bard
quinta-feira, 30 de outubro de 2008
Pílulas Cinematográficas, Edição 7: Especial David Lynch
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A obra de David Lynch é única no cinema mundial, e por isso ele é considerado o mais criativo diretor americano vivo. Seus filmes são claustrofóbicos e perturbadores, recheados de elementos assustadores, que o credenciariam para dirigir um filme de terror (prova disso é que Stanley Kubrick fez toda sua equipe assistir a Eraserhead, o primeiro filme de Lynch, pois o gênio queria exatamente aquele clima para O Iluminado). Os temas preferidos de Lynch são o mundo dos sonhos (e pesadelos), as dicotomias (bem/mal, morena/loira, realidade/ilusão, vida/morte), a troca e confusão de identidades, o mistério, o sobrenatural, a cor azul e os coelhos. Ver um filme dele é ser fisgado, e ficar dias com o filme na cabeça, tentando adivinhar que diabos o diretor queria dizer com tudo aquilo. Eu, como se um não bastasse, vi três, e reproduzo abaixo as minhas opiniões a respeito, que muito propositadamente reuni pela internet afora, na ânsia de entender o mundo de Lynch.
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Estrada Perdida (Lost Highway, 1997): Primeiro filme dessa espécie de “trilogia freak” do diretor, aqui Lynch já começa a levar seu gosto pelo estranho às últimas conseqüências. Narrado utilizando a estrutura de uma fita de Möebius, o filme é ao mesmo tempo uma moeda (de duas faces... dãã). Fica em suspenso, e sem resposta, a pergunta sobre se o que vemos é uma única história contada de duas maneiras diferentes ou duas histórias que se confundem, ou ambos! O mistério, o medo, as dicotomias, as confusões de identidade: está tudo ali. Dezenas de perguntas ficam no ar, algumas são respondidas de maneira ilógica... com Estrada Perdida, Lynch inaugurou a série de filmes talvez mais criativos de sua carreira.
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Cidade dos Sonhos (Mulholland Drive, 2001): Cidade dos Sonhos ser um filme colocado exatamente entre Estrada Perdida e Império dos Sonhos é muito significativo. Embora tenha uma estrutura que, observada por completo, à primeira vista é incompreensível, o enredo em si de Cidade dos Sonhos é extremamente linear, e, após desvendado, deixa em suspenso somente o necessário. É bom lembrar que a obra seria uma série de TV, que não vingou, e o último terço do filme, responsável pela confusão daqueles que assistem à ele, foi criado por Lynch para transformar o resto do material em um filme. Mas, embora seja assim, não se pode dizer que a Cidade dos Sonhos é incompreensível e sem sentido. Não vou ficar aqui analisando os pormenores do enredo e os segredos do filme, mas é só procurar pelo nome do filme em português ou inglês no Google que se encontrará inúmeras interpretações de alta qualidade. As que eu mais recomendo são essas duas, em inglês: Lost on Mulholland Dr. e "No Hay Banda." Mas, antes de acessarem esse links, vejam o filme! É uma obra-prima fascinante do cinema mundial e um dos melhores filmes da década.
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Império dos Sonhos (INLAND EMPIRE, 2007): Já em Império dos Sonhos, Lynch adere totalmente ao seu esquema de desconstrução, fragmentação e confusão. Se em Estrada Perdida a falta de sentido era somente parcial e em Cidade dos Sonhos ela funcionava em função do enredo, aqui ela adquire múltiplas personalidades, de tal modo que levou Lynch a ser indagado sobre se estava se sentindo bem mentalmente. Na verdade, o filme é uma espécie de mosaico de histórias-ecos umas das outras que se interligam de formas surpreendentes, mas em certa medida insondáveis. Nem mesmo o diretor e a atriz principal entram em consenso sobre quantas personagens ela interpreta no filme. Que chance nós mortais temos então? Por isso, o jeito é seguir o conselho de Lynch. Ao invés de ficar tentando entender cada detalhe, entremos na viagem e aproveitemos as sensações que o diretor é capaz de proporcionar, pois esse é o segredo de suas obras, e nenhum outro.
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A obra de David Lynch é única no cinema mundial, e por isso ele é considerado o mais criativo diretor americano vivo. Seus filmes são claustrofóbicos e perturbadores, recheados de elementos assustadores, que o credenciariam para dirigir um filme de terror (prova disso é que Stanley Kubrick fez toda sua equipe assistir a Eraserhead, o primeiro filme de Lynch, pois o gênio queria exatamente aquele clima para O Iluminado). Os temas preferidos de Lynch são o mundo dos sonhos (e pesadelos), as dicotomias (bem/mal, morena/loira, realidade/ilusão, vida/morte), a troca e confusão de identidades, o mistério, o sobrenatural, a cor azul e os coelhos. Ver um filme dele é ser fisgado, e ficar dias com o filme na cabeça, tentando adivinhar que diabos o diretor queria dizer com tudo aquilo. Eu, como se um não bastasse, vi três, e reproduzo abaixo as minhas opiniões a respeito, que muito propositadamente reuni pela internet afora, na ânsia de entender o mundo de Lynch.
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quarta-feira, 29 de outubro de 2008
Colunistas de greve
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Calma gente, o título é só ilustrativo. Peço desculpas aos visitantes do blog, por essa semana não termos nem a coluna Music seems to help the pain nem a coluna A Roda. Acontece que o Ciampi está com sérios problemas técnicos e de tempo e o Lobato está no meio de uma crise existencial. Mas não temam: em duas semanas os dois voltam bonitos e cheirosos para alegrar nossas terças e quartas-feiras com suas palavras. Aguarrrdem.
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Calma gente, o título é só ilustrativo. Peço desculpas aos visitantes do blog, por essa semana não termos nem a coluna Music seems to help the pain nem a coluna A Roda. Acontece que o Ciampi está com sérios problemas técnicos e de tempo e o Lobato está no meio de uma crise existencial. Mas não temam: em duas semanas os dois voltam bonitos e cheirosos para alegrar nossas terças e quartas-feiras com suas palavras. Aguarrrdem.
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terça-feira, 28 de outubro de 2008
Continuem acompanhando Através do espelho obscuro!
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A minha novela Através do espelho obscuro, publicada diariamente no blog Nós Mesmos, continua a toda. Entrem no link, leiam, e fiquem conhecendo os personagens e as situações que estão fazendo dessa história um relativo sucesso. Comentem!
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A minha novela Através do espelho obscuro, publicada diariamente no blog Nós Mesmos, continua a toda. Entrem no link, leiam, e fiquem conhecendo os personagens e as situações que estão fazendo dessa história um relativo sucesso. Comentem!
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segunda-feira, 27 de outubro de 2008
Crepúsculo dos Deuses
Contudo, se essas histórias podem ser cômicas, ou inspiradoras, elas também são, muitas vezes, trágicas. É o caso de Crepúsculo dos Deuses, obra-prima do diretor Billy Wilder. No filme, acompanhamos em princípio a história de Joe, roteirista fracassado que sequer consegue pagar o aluguel, e pensa em voltar para sua terra natal. Logo, porém, Joe encontra, por acaso, a mansão onde vive a antiga diva cinematográfica Norma Desmond, ícone do cinema mudo que, com o advento do cinema falado, caiu no ostracismo.
Norma, porém, não se conforma com essa situação. Aliás, vai ainda mais longe: não só ela não a aceita como de certo modo a ignora, crendo ainda viver em seus tempos de glória, quando era desejada por todos, diretores, estúdios e fãs. Como se não bastasse sua própria auto-enganação, essa realidade ilusória é sustentada pelo mordomo Max, na verdade ex-marido de Norma, que teme o que poderia acontecer caso ela caísse na realidade e se descobrisse esquecida.
Tragado pelo redemoinho que é a atriz, Joe não tem escolha senão permanecer em sua mansão, ajudando-a a escrever o roteiro daquele que, ela acredita, será seu grande filme. Ao mesmo tempo, a mulher apaixona-se pelo roteirista, e praticamente o obriga a aceitar seu amor possessivo. Cada vez mais enredado na teia da antiga diva, Joe não vê saída por nenhum lado: começa um relacionamento profissional com a mulher de um amigo, que aos poucos parece querer se tornar algo mais. Norma, porém, não o quer longe de si, e só o que o roteirista pode fazer é ver a loucura da mulher aumentar cada vez mais.
No fim das contas, Joe acaba morto, alvejado pelas balas de uma Norma que ele estava prestes a abandonar. Ela, porém, como o choque, afunda ainda mais em sua loucura, em sua ilusão. Permanece acreditando que todos querem vê-la, todos querem filmá-la. Vira-se para a câmera das TVs que ali estavam para cobrir o assassinato e proclama: “Estou pronta para o meu close-up.”, mas o que vemos em seus olhos transtornados nem de longe lembra a glória de sua antiga fama.
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sexta-feira, 24 de outubro de 2008
Citação de Sexta: Da arte de escrever histórias
quinta-feira, 23 de outubro de 2008
Pílulas Cinematográficas, Edição 6
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Nessa edição das pílulas, o que há de mais em comum entre os filmes é uma verve alternativa: os dois primeiros são de cineastas indies, que fazem seus filmes fora do mainstream (embora a diretora do segundo seja filha de um dos maiores diretores americanos de todos os tempos). Já Woody Allen, diretor do terceiro filme, não é um cineasta alternativo, mas faz os filmes que quer (embora problemas com financiamento o tenham levado a filmar seus últimos filmes na Europa) e, diferente dos outros, é uma lenda viva do cinema.
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Os Excêntricos Tenenbaums (The Royal Tenenbaums, Wes Anderson, 2001): Wes Anderson tem feito bonito desde seu primeiro filme, mas foi com Os Excêntricos Tenenbaums (tradução ruim do título original, renegada até pelo próprio diretor) que ele finalmente alcançou o prestígio. Contando a história de uma família disfuncional (o tema preferido dos cineastas indies), Anderson faz um filme adorável, brilhante, com momentos trágicos e momentos cômicos, mas sempre conduzidos com uma leveza e despretensão dignas do diretor.
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Encontros e Desencontros (Lost in Translation, Sofia Coppola, 2003): Sofia Coppola, também fez um filme estréia elogiado (As Virgens Suicidas), mas foi com Encontros e
Desencontros que ela atingiu o reconhecimento. Indicado ao Oscar de melhor filme e diretor (além de ganhador de melhor roteiro original), entre outros, Encontros e Desencontros é um conto tocante sobre a solidão em um mundo desconhecido e sobre o amor que pode nascer sem depender de idade ou desejo sexual. O final do filme é particularmente brilhante: não nos deixando conhecer o que Bob diz para Charlotte, Sofia concede aos seus personagens um momento de intimidade, não se intrometendo nem permitindo que os espectadores voyeurs nos intrometamos naquele momento tão particular, e ainda deixa no ar a pergunta sobre o que foi dito ali, fomentando desse modo o mistério, que diz infinitamente mais do que o conhecido.
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Desconstruindo Harry (Deconstructing Harry, Woody Allen, 1997): Muitos filmes de Woody Allen são parecidos: têm o próprio diretor atuando como protagonista, um homem judeu de meia idade neurótico e depressivo (cuja vida é movimentada por “cinismo e niilismo, sarcasmo e orgasmo”), que acaba usando o filme como uma espécie de sessão de psicanálise na qual nós, espectadores, somos o médico. Esses filmes, porém, não são iguais, como alguns gostam de falar. Em Desconstruindo Harry, por exemplo, está presente um fator fortíssimo de metalinguagem, eco de Oito e Meio, em que Allen aparece como um escritor com bloqueio criativo que conta nos livros por ele escritos versões de sua própria vida. Na minha visão, o filme funciona como uma espécie de “última sessão de análise”, uma catarse em que Allen justifica todos os filmes que fez sendo personagem principal e ainda se livra, de uma vez por todas (ao menos no mundo da arte) de todas as neuroses e obsessões que marcaram sua carreira (e porque não, sua vida).
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Nessa edição das pílulas, o que há de mais em comum entre os filmes é uma verve alternativa: os dois primeiros são de cineastas indies, que fazem seus filmes fora do mainstream (embora a diretora do segundo seja filha de um dos maiores diretores americanos de todos os tempos). Já Woody Allen, diretor do terceiro filme, não é um cineasta alternativo, mas faz os filmes que quer (embora problemas com financiamento o tenham levado a filmar seus últimos filmes na Europa) e, diferente dos outros, é uma lenda viva do cinema.
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Encontros e Desencontros (Lost in Translation, Sofia Coppola, 2003): Sofia Coppola, também fez um filme estréia elogiado (As Virgens Suicidas), mas foi com Encontros e
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