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quarta-feira, 26 de janeiro de 2011

Pílulas Cinematográficas, Edição 16: Novembro-Dezembro de 2010

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Para encerrar as "pílulas" de 2010, a lista e cotação dos filmes que eu vi em Novembro e Dezembro do ano passado. Aproveitei o fim do ano para ver os lançamentos de 2010 que eu tinha perdido, ou seja, todos. Só vi dois filmes no cinema esse ano, o argentino Dois Irmãos e a primeira parte do último Harry Potter. Isso deixa minha alma cinéfila destroçada, mas ir ao cinema pra mim há um bom tempo é uma raridade. Pelo menos tenho conseguido acompanhar os lançamentos por outros meios. Sei que isso é uma espécie de traição da pureza da sala escura, mas é melhor do que nada. Como todo mundo, amei Toy Story 3 e chorei muito naquela cena. Também gostei de A Origem, como sensacional filme de ação que é, e, talvez por ter visto com o hype já distante, não me alinhei nem aos malucos dizendo que esse é o melhor filme de todos os tempos nem aos haters. Em termos do velho questionamento "sonho ou realidade?", o classicaço O Vingador do Futuro do Verhoeven ganha de longe. A Rede Social é um ótimo filme, mas não me pareceu nada de especial. É um daqueles Oscar que ninguém vai lembrar com muita saudade (dificilmente o premiado será outro, e se for O Discurso do Rei, que já vi mesmo sem ter visto, será ainda menos lembrado). Num mundo ideal o campeão seria Toy Story 3, mas mesmo o prêmio para outro filme menos "redondo" poderia ser mais marcante. Aliás, a animação está mesmo numa ótima fase. Como Treinar Seu Dragão e Meu Malvado Favorito são ótimos, embora não se aproximem da excelência da Pixar. Scott Pilgrim contra O Mundo é o injustiçado do ano, um filme frenético, divertidíssimo e ultracriativo que acabou meio renegado em termos de crítica e público mas tem grande potencial cult. Esquadrão Classe A é um dos filmes de ação mais divertidos em muitos anos, e Machete é um poderoso exploitation que, no entanto, não me envolveu muito.

Fora os "contemporâneos", o que eu mais vi nestes dois meses foram filmes de dois gêneros muito bacanas: monstros e kung-fu. Vi alguns clássicos da Universal como O Lobisomem e A Múmia, o clássico absoluto King Kong, mas também uma visão mais moderna com o sensacional Um Lobisomem Americano em Londres. Quanto ao kung-fu, dediquei-me a ver o máximo que consegui da obra do mestre King Hu, que trouxe ao gênero famoso do estúdio dos Shaw Brothers uma visão pessoal artística única e envolvente. Yojimbo, do mestre Kurosawa, que inspirou meu favorito Por um Punhado de Dólares, embora seja um filme de samurai, acabou entrando no rolo. No meio disso tudo, também sobrou espaço para alguns filmes herdeiros do noir, O Grande Lebowski e O Perigoso Adeus, que vi para entrar no clima de Vício inerente, último livro do Pynchon, do qual quero falar mais depois, e também obras mais brucutus, À Queima Roupa e Perseguidor Implacável, o clássico fascista de Don Siegel, que também dirigiu o inesquecível Vampiros de Almas, que tem uma das cenas finais (sem contar o epílogo imposto pelo estúdio) mais assustadoras da história do cinema. Vi também Tron, que de modo geral é ruinzinho, mas tem um visual tão único que impressiona e cria um clima também único para o filme.

Novembro

1. King Kong (Merian C. Cooper e Ernest B. Schoedsack) - ****
2. O Lobisomem (George Waggner) - ***
3. Como Treinar Seu Dragão (Dean DeBlois & Chris Sanders) - ****
4. A Origem (Christopher Nolan) - ****
5. Dia e Noite (Teddy Newton) - ****
6. Toy Story 3 (Lee Unkrich) - *****
7. Scott Pilgrim contra o Mundo (Edgar Wright) - ****
8. O Vingador do Futuro (Paul Verhoeven) - *****
9. Um Lobisomem Americano em Londres (John Landis) - *****

10. A Múmia (Karl Freund) - **
11. Dois Irmãos (Daniel Burman) - ****
12. Os Irmãos Cara-de-Pau (John Landis) - ***
13. Vampiros de Almas (Don Siegel) - *****
14. Que Viva México! (Sergei Eisenstein) - ****
15. Os Mercenários (Silvester Stallone) - *

Dezembro

1. Harry Potter e as Relíquias da Morte, parte 1 (David Yates) - ****
2. Esquadrão Classe A (Joe Carnahan) - ***
3. Tron, uma odisséia eletrônica (Steven Lisberger) - ***
4. Chuva de Luz na Montanha Vazia (King Hu) - *****
5. À Queima Roupa (John Boorman) - ****
6. O Grande Lebowski (Coen Bros) - ****
7. O Perigoso Adeus (Robert Altman) - *****
8. Perseguidor Implacável (Don Siegel) - ***
9. Come Drink With Me (King Hu) - ****
10. Dragon Gate Inn (King Hu) - ****
11. Yojimbo, o guarda-costas (Akira Kurosawa) - ****
12. The Meaning of Life (Don Hertzfeldt) - ***
13. A Touch of Zen (King Hu) - *****
14. A Rede Social (David Fincher) - ****
15. Machete (Robert Rodriguez) - ***
16. Meu Malvado Favorito (Pierre Coffin & Chris Renaud) - ***
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segunda-feira, 1 de novembro de 2010

Pílulas Cinematográficas, Edição 16: Julho - Outubro de 2010

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Sei que tinha prometido esse post há muito tempo, mas acabei não conseguindo fazê-lo. Por causa disso, ele ficou bem maior. Agora inclui os filmes que eu vi nos últimos quatro meses. Muitos deles são curtas do início do cinema que eu vi em uma matéria que estou fazendo na faculdade. Recomendo fortemente a busca deles nos youtubes da vida, é bem fácil de encontrar.

Como já sabem, os filmes com duas barras na frente são os revistos. Os em negrito são alguns destaques cuja vista recomendo fortemente.

Julho

1. Um Tiro no Escuro (Blake Edwards) - *****
2. O Dia do Desespero (Manoel de Oliveira) - ***
3. Ghost in the Shell (Mamoru Oshii) - ***
4. Meu Vizinho Totoro (Hayao Miyazaki) - *****

Agosto

1. Um Tiro na Noite (Brian De Palma) - *****
2. Jackie Brown (Quentin Tarantino) - ****
3. Casino Royale (Val Guest, Ken Hughes, John Huston, Joseph McGrath e Robert Parrish) - *****
4. Trágica Obsessão (Brian De Palma) - ****
5. Corrida Sem Fim (Monte Hellman) – *****
6. Contos da Lua Vaga (Kenji Mizoguchi) - *****
7. Eternamente Sua (Apichatpong Weerasethakul) - ****
8. Eles Vivem (John Carpenter) - *****
9. Onde Fica A Casa do Meu Amigo? (Abbas Kiarostami) - *****
10. A Bela da Tarde (Luis Buñuel) - *****
11. Dublê de Corpo (Brian De Palma) - *****
12. Noivo Neurótico, Noiva Nervosa (Woody Allen) - *****
13. Zelig (Woody Allen) - ****
14. Os Vivos e Os Mortos (John Huston) - ***
15. E A Vida Continua (Abbas Kiarostami) - ****
16. Através das Oliveiras (Abbas Kiarostami) – *****
17. Roma, Cidade Aberta (Roberto Rossellini) - *****
18. Viagem à Itália (Roberto Rossellini) - ***
19. //Viagem à Lua (Georges Méliès) - ***
20. The Girl and Her Trust (D. W. Griffith) - ****
21. Fantasmagorie (Émile Cohl) - *****
22. Gertie the Dinosaur (Winsor McCay) - ****

Setembro

1. Fantômas: Juve contre Fantômas (Louis Feuillade) - ***
2. A Última Gargalhada (F. W. Murnau) - *****
3. A Mulher de Areia (Hiroshi Teshigahara) - *****
4. A Noviça Rebelde (Robert Wise) - ***
5. Persépolis (Marjane Satrapi, Vincent Paronnaud) - ***
6. Herói Por Acidente (Stephen Frears) - ****
7. Homem de Ferro 2 (Jon Favreau) - ****
8. O Intendente Sansho (Kenji Mizoguchi) - *****
9. Pulse (Kiyoshi Kurosawa) - ****
10. O Gabinete do Dr. Caligari (Robert Wiene) - *****

Outubro

1. Drácula (Tod Browning) - ***
2. M, o Vampiro de Düsseldorf (Fritz Lang) - *****
3. Dr. Mabuse, o Jogador (Fritz Lang) - *****
4. O Vampiro (Carl Theodor Dreyer) - ***
5. Piaf – Um Hino ao Amor (Olivier Dahan) - ***
6. Nosferatu (F.W. Murnau) - *****
7. Drácula de Bram Stoker (Francis Ford Coppola) - *****
8. Nosferatu, o Vampiro da Noite (Werner Herzog) – ***
9. Entreato (René Clair) - *****
10. O Balé Mecânico (Fernand Léger & Dudley Murphy) - ****
11. Anémic/Cinéma (Marcel Duchamp) - ***
12. Nada Além das Horas (Alberto Cavalcanti) - **
13. O Retorno à Razão (Man Ray) - ***
14. Toda Revolução é um Lance de Dados (Straub & Huillet) - ***
15. The Fall of the House of Usher (James Sibley Watson & Melville Webber) - ****
16. The Hearts of Age (Orson Welles & William Vance) - **
17. Manhatta (Charles Sheeler & Paul Strand) - **
18. Romance Sentimentale (Grigori Aleksandrov & Sergei M. Eisenstein) - **
19. Vormittasgsspuk (Hans Richter) - *****
20. Symphonie diagonale (Viking Eggeling) - ***
21. Paris Adormecida (René Clair) - *****
22. A Viagem Imaginário (René Clair) - ****
23. Aconteceu Naquela Noite (Frank Capra) - *****
24. Uma Noite na Ópera (Sam Wood) - *****
25. Levada da Breca (Howard Hawks) - *****
26. Essa Pequena é uma Parada (Peter Bogdanovich) - *****
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sábado, 28 de agosto de 2010

Pílulas Cinematográficas, Edição 15: Filmes do Primeiro Semestre de 2010

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Sei que o blog tem estado paralisado desde que a primeira temporada dA Série acabou, mas tenho uma justificativa simples e incontestável para isso: faculdade. O curso de Letras preenche, digamos, “intensamente” meu tempo, tanto com coisas boas como clássicos da literatura e textos que geram reflexão e ensinam quanto com áridas dissertações acadêmicas cujo único objetivo parece ser “não-comunicar” para usar um conceito de Michel Pechêux - cujos discípulos, pobre dele, são os mais enrolados na hora de dizer o que querem dizer.

Mas eu não abandonei o blog e sinto muita falta de escrever para cá. Por isso pretendo voltar a falar sobre literatura e cinema aqui, mas de uma forma mais leve, sem necessariamente ter de escrever sempre longas críticas sobre os “objetos culturais” com os quais tomo contato. Para começar segue, nessa nova edição das Pílulas (naquele que deve se tornar o formato mais usual por aqui), a lista dos filmes que vi no primeiro semestre desse ano, com os devidos créditos de direção e minha nota para cada um. As estrelinhas vão de uma a cinco. Notem que a partir de Março a quantidade de filmes vistos caiu muito, de novo por aquele motivo que citei no começo do texto. Mas nos últimos tenhos venho recuperando um pouco do terreno perdido para os “filmes que eu não vi” e que, a bem da verdade, sempre me assombra um pouquinho.

Quem quiser acompanhar “em tempo real” os filmes que eu vejo, recomendo frequentar meu perfil do MUBI: http://mubi.com/users/241718

Os filmes com duas barras na frente são os revistos. Os em negrito são alguns destaques cuja vista recomendo fortemente.

Em breve posto os filmes vistos em Julho e Agosto.

Janeiro

1. Os Bons Companheiros (Martin Scorsese) - ****
2. Cassino (Martin Scorsese) - ***
3. A Fita Branca (Michael Haneke) - ***
4. Distrito 9 (Neill Blomkamp) - ***
5. Férias Frustradas de Verão (Greg Mottola) - *****
6. Vício Frenético (Werner Herzog) - ****
7. Deixe Ela Entrar (Thomas Alfredson) - ***
8. Star Trek (J.J. Abrams) - ****
9. O Hospedeiro (Joon-ho Bong) - ****
10. Zombieland (Ruben Fleischer) - ***
11. Um Homem Sério (Joel e Ethan Coen) - *****
12. Se Beber, Não Case (Todd Philips) - *****
13. O Fantástico Sr. Raposo (Wes Anderson) - ****
14. Coraline e o Mundo Secreto (Henry Selick) - ****
15. Lunar (Duncan Jones) - ***
16. My Winnipeg (Guy Maddin) - *****
17. Onde Vivem os Monstros (Spike Jonze) - ****
18. Montros VS. Alienígenas (Letterman/Vernon) - **
19. //Up (Pete Docter) - *****
20. //Bastardos Inglórios (Quentin Tarantino) - *****
21. Três é Demais (Wes Anderson) - *****
22. Entre os muros da escola (Laurent Cantet) - ****
23. Sinédoque, Nova York (Charlie Kaufman) - ***
24. Avatar (James Cameron) - ****

Fevereiro

1. O Casamento de Rachel (Jonathan Demme) - ****
2. Aquele Querido Mês de Agosto (Miguel Gomes) - ****
3. (500) Dias com Ela (Marc Webb) - ****
4. Em Busca da Vida (Jia Zhang-Ke) - ****
5. Sex and Fury (Norifumi Suzuki) - ***
6. A Lula e a Baleia (Noah Baumbach) - ****
7. A Noiva Estava de Preto (François Truffaut) - ***
8. Cabo do Medo (Martin Scorsese) - *****
9. A Vida Marinha com Steve Zissou (Wes Anderson) - ****
10. A Idade da Terra (Glauber Rocha) - **
11. Zero de Conduta (Jean Vigo) - ***
12. Um Dia de Fúria (Joel Schumacher) - ****
13. Caminhos Perigosos (Martin Scorsese) - *****
14. Viagem a Darjeeling (Wes Anderson) - ***
15. Jogos e Trapaças (Robert Altman) - *****
16. Mother (Bong Joonh-Ho) - *****
17. O Mundo (Jia Zhang-Ke) - *****
18. O Mundo Imaginário do Dr. Parnassus (Terry Gilliam) - ***
19. Lavoura Arcaica (Luiz Fernando Carvalho) - ****
20. O Conformista (Bernardo Bertolucci) - *****
21. Nashville (Robert Altman) - *****
22. Barton Fink – Delírios de Hollywood (Joel e Ethan Coen) - ****
23. Ajuste Final (Joel e Ethan Coen) - ****
24. A Missão (Roland Joffé) - *****
25. A Grande Ilusão (Jean Renoir) - ****
26. A Palavra (Carl Theodor Dreyer) - ****
27. O Caso dos Irmãos Naves (Luiz Sérgio Person) - ****
28. Arraste-me para o Inferno (Sam Raimi) - ***
29. São Bernardo (Leon Hirszman) - *****

30. A Mulher de Todos (Rogério Sganzerla) - ****

Março, Abril, Maio, Junho

1. Os Canibais (Manoel de Oliveira) - *****
2. Um Filme Falado (Manoel de Oliveira) - ****
3. O Signo do Caos (Rogério Sganzerla) - ***
4. O Silêncio (Mohson Makhmalbaf) - ***
5. A Ilha do Medo (Martin Scorsese) - ****
6. Tudo Pode Dar Certo (Woody Allen) - ****
7. A Estrada Perdida (David Lynch) - *****
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quinta-feira, 19 de março de 2009

Pílulas Cinematográficas, Edição 14: Especial Trilogia das Cores de Kieslowski

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Nos 200 anos da Revolução francesa, o cineasta polonês Krzysztof Kieslowski resolveu filmar o que os velhos ideais de Liberdade, Igualdade e Fraternidade representavam no mundo de hoje (ou melhor, de 1990). Bem ao seu estilo, porém, o foco que ele deu nessas três abstrações foi pessoal, humano, e não político ou social. Embora possam se extrair interpretações dessa estirpe de sua obra, o que realmente importa aqui são os seres humanos.

De forma absurdamente criativa, ele ligou cada ideal à sua cor respectiva, e fez filmes permeados pelo Azul, pelo Branco e pelo Vermelho. Mais do que predominarem, essa cores pontuam o mise-en-scène, imprimindo significado e chamado atenção onde aparecem. O trabalho que Kieslowski faz com o ritmo e o estilo de cada filme também é sublime. Se o primeiro filme é mais reflexivo e poético, o segundo é ao mesmo tempo melodramático e cômico, e o terceiro é discursivo e cálido.

Como uma trilogia que se preze, a das Cores, embora não conte exatamente uma história contínua, só faz sentido totalmente ao ser vista por completo. Com as histórias tão humanas e próximas que conta, Kieslowski transmite a Dor e o Sentimento no nosso mundo pós-revolucionário, assim como os aspectos que aqueles velhos ideais têm quando encarados de frente por homens e mulheres solitários, desarmados e vivos. Mas não só: também questiona a presença da Lei, do estado de direito, herança daquela revolução, na vida das pessoas.
Na pílula de cada filme, apresentarei seus aspectos próprios e como eles contribuem para o quadro geral.
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A Liberdade é Azul (Trois Couleurs: Bleu, 1993): A gente precisa se agarrar a algo, diz um flautista de rua para Julie, personagem de Juliette Binoche, em determinado momento de Azul. Tons frios - das ruas no inverno, de um apartamento escuro, da piscina em que nada sempre – circundam Julie. Após perder o marido e a filha em um acidente de carro, ela percebe que perdeu esse algo e começou a afundar. Então, ela inicia sua “expiação”, livrando-se de tudo que a prenda ao passado para poder flutuar novamente. A Liberdade, ela aprende, esse estado místico em que se não está ligado a nada, passa pela dor. A dor é instrumento, causa e aspecto da liberdade. Aos poucos, porém, outras coisas começarão a aderir a ela, e Julie não terá alternativa senão voltar para o chão. Julie, isso fica claro, é como os praticantes de esportes radicais que sua mãe vê pela televisão do asilo: alguém que caminha sobre uma corda bamba, que salta no espaço, livre de quase tudo. Mas, por ser humana, Julie permanece presa, ou, em outra visão, protegida, sustentada por algo, assim como os atletas da TV têm a corda amarrada aos pés e uma rede onde cair. Na medida em que ela reencontra o amor e o calor humano nas pessoas que a cercam, Julie retorna para o seio da terra. Bem longe do céu infinito ou das profundezas azuis e dolorosas do oceano.
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A Igualdade é Branca (Trois Couleurs: Blanc, 1994): Em Branco, a igualdade aparece sob muitas formas, não só nos direitos individuais, mas também no sofrimento. Se Karol, sem falar francês, é confrontado com um sistema legal em que essa língua é o padrão, acaba tendo que fugir da polícia, e passa por maus bocados para voltar à Polônia, sua terra natal, ele fará de tudo para que Dominique, a causa de seu sofrimento, passe pelas mesmas coisas. Olho por olho, dente por dente, Karol e Dominique se fazem iguais, “no amor e na dor”. Embora seja mais físico, cômico e cruel que os outros dois filmes, Branco também é muito bonito, e também delicado. Se aproxima de seus personagens sem meias palavras, sem pisar em ovos, mas também sem julgá-los ou condená-los a algum castigo. Simplesmente os acompanha, e os entende, e os penetra, e acaba por envolvê-los na igualdade suprema do branco absoluto, antes de soltá-los de novo no mundo frio e desigual.
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A Fraternidade é Vermelha (Trois Couleurs: Rouge, 1994): Meu preferido entre os três, é o mais tocante e significativo, o mais, digamos, universal, que imprime novos sentidos aos anteriores e os abraça, enchendo de calor a história dos personagens e talvez de lágrimas os olhos expectadores. De modo irretocável, o tema da fraternidade é exposto e defendido, e finalmente compreendemos por que a Fraternidade vem por último, e o que ela tem a ver com as outras duas coisas. Mas antes, vamos dar uma olhada rápida na questão da Lei que se imiscui na vida pessoal. Como já dito, uma obra-prima como essa Trilogia das Cores permite muitos olhares e interpretações, dentre os quais escolhi o que me pareceu mais significativo. Entretanto, considerando o lado político da Revolução Francesa, não é excesso enxergar em certas passagens de cada filme paralelos com a situação do povo, dos seres humanos, em relação à Lei como se tornou após o evento que a Trilogia relembra. Em Azul, a amante do marido de Julie é advogada, e está grávida dele. Esse é um dos principais acontecimentos que traz Julie dos ares de volta à terra. Em Branco, Karol e Dominique acabam tendo que enfrentar a Lei, simplesmente por não conseguirem resolver seus problemas pessoais nesse âmbito. Ou seja: a Lei é um instrumento imparcial usado pelos dois, pelos indivíduos, para resolver os problemas individuais de que eles, sozinhos, não dão conta. Finalmente, em Vermelho, a lei se torna ainda mais presente e significativa. O homem que “espiona” os vizinhos escutando suas conversas é, afinal, um Juiz aposentado, e tem várias conversas com Valentine a respeito de sua profissão. Em uma dessas conversas, ele diz que, quando ainda trabalhava, não sabia se estava do lado do bem ou do mal, e ao ouvir as conversas alheias, pelo menos, sabia onde estava a verdade. É a figura da Lei que, paradoxalmente, não sabe julgar, e só ao findar-se como Lei (ou seja, o Juiz que deixa de sê-lo) é capaz de discernir a verdade. O sentimento humano em lugar do institucional, a compreensão ao invés do julgamento.

E tudo isso dá lugar ao tem principal do filme, das vidas humanas que correm em paralelo mas fazem mais sentido quando juntas, de como, enfim, duas vidas fazem mais sentido que uma. Nos três filmes, há uma cena em que o protagonista observa uma velhinha tentando com muita dificuldade jogar uma garrafa em um lixo alto. Mas, dos três, somente Valentine a ajuda. Por quê? Oras, claro que os personagens não se reduzem a alegorias, mas se tomarmos o conceito de cada filme, veremos que só o último daria motivo para ajuda. Ajudar a velhinha seria como estar preso a algum “imperativo moral”, o que vai de encontro à Liberdade. De maneira semelhante, seria contrariar a Igualdade ajudá-la, visto que todos devem ter as mesmas condições de jogar a garrafa fora... Assim, somente a Fraternidade é que ajuda as pessoas a jogarem seu lixo fora. Foi a ação dos que insistiam em puxá-la para a terra que impediu Julie de desaparecer no espaço. Foi graças à ajuda de Mikolaj que Karol voltou para a Polônia, e graças à ajuda de Karol que Mikolaj recuperou a vontade de viver. Assim, vemos como a Fraternidade se sobressai, como ela é importante.

Ela não é fácil, com certeza, mas é essencial. Se a vida de Auguste corre em paralelo à de Valentine, isso não significa que elas não chegarão a se encontrar. São duas vidas diferentes, mas igualmente belas e significativas. Se o Juiz ouve as conversas dos vizinhos, é justamente porque deseja ter consciência das vidas que o cercam, porque quer conhecer o ritmo e o caminho daquelas vidas. Perto do fim do filme, Valentine diz ao Juiz “Ao Meu redor coisas importantes acontecem, por isso eu tenho medo”. Essa frase resume magnificamente o sentido da Fraternidade: filme e conceito. Ao redor de cada vida, outras vidas acontecem, e, vidas que são, são tão importantes quanto qualquer outra. No entanto, pelas nossas próprias dores, e pela enormidade das outras vidas, ficamos amedrontados ao pensar nisso, nos bilhões de outros caminhos trilhados diariamente sobre o planeta. Mas essa enormidade não impede as pessoas de ajudarem umas às outras, de se importarem com as outras, de sentirem que as outras vidas lhe dizem respeito. Ao final do filme, com o sublime trecho que o encerra, os traços das vidas que Kieslowski representou convergem, e então sentimos que, mesmo sob a pior das tempestades, a Fraternidade pode salvar-nos do naufrágio.
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quinta-feira, 12 de fevereiro de 2009

Pílulas Cinematográficas, Edição 13: Especial Orson Welles

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Na véspera de uma sexta-feira 13, a décima terceira edição das Pílulas! Hoje, mais uma edição especial, dessa vez com os filmes de um diretor único: Orson Welles. Welles é uma figura estranha. Seu primeiro filme é o melhor de todos os tempos por excelência, e o segundo poderia ter chegado lá, não fosse a interferência do estúdio. Ele tem ainda, em sua filmografia, ao menos duas obras-primas do cinema noir, duas obras-primas baseadas em Shakespeare, e uma obra-prima expressionista. Entretanto, o diretor nem sempre é lembrado como um dos maiores de todos os tempos, o que de fato é. De qualquer forma, com esta edição das pílulas presto pela primeira vez tributo ao gênio de Welles, que, indiscutivelmente, transformou o cinema que veio depois dele.
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Cidadão Kane (Citizen Kane, 1941): Nove em cada dez listas de melhores de todos os tempos o colocam no topo, e a razão disso é bem simples: nunca um filme inovou tanto. Aproveitando-se de sua experiência no rádio e no teatro, Welles imprimiu no filme inovações na edição do som, utilizando-o para marcar a transição de uma cena para a outra. Além disso, inovou também nos ângulos de câmera, na montagem e, sobretudo, na narrativa. Ao contar a história da vida de Charles Foster Kane (corajosamente inspirada em um personagem real – William Randolph Hearst), Welles não poupou flashbacks nem a platéia, exigindo dela menos passividade e mais cérebro para acompanhar o que se desenrola na tela. Acumulando as funções de diretor, produtor, ator e co-roteirista, Welles realizou todas com perfeição, entregando ao público uma obra perfeitamente engendrada, infinitamente original e, cada vez mais, mítica.
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A Dama de Xangai (The Lady from Shanghai, 1948): A primeira obra-prima noir de Welles foi um fracasso retumbante, mas afinal, as bilheterias nunca foram mesmo muito amigas dele. Aqui, pela primeira vez, Welles investiga a fundo as crueldades da alma humana, e o faz em grande estilo. Rita Hayworth, linda e loira, interpreta uma femme fatale misteriosa, inescrutável, que envolve Michael, o personagem de Welles, em uma intrincadíssima trama de traição e suspeita. Com habilidade, Welles revela o aspecto "tubarão" do ser humano, sem no entanto deixar de investigar os motivos e mecanismos que levam as pessoas a agirem como bestas ouriçadas pelo sangue dos iguais. No final, ainda somos presenteados com uma cena emblemática, cheia de significado e beleza.
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A Marca da Maldade (Touch of Evil, 1958): Dez anos depois, Welles volta ao noir e aos recôncavos escuros do ser humano (metafisicamente falando, por favor). Mas dessa vez ele está ainda mais sombrio. Num memorável plano-sequência, ele inicia o filme apresentando-nos várias informações importantes que terão seu reflexo durante a narrativa. A partir desse ponto, personagens apresentados, ele se aprofundará neles, exercendo seu talento quase incomparável de sondar o caráter e as motivações dos personagens utilizando-se da linguagem cinematográfica. Nesse filme já parece haver uma guinada em seu discurso sobre as ações humanas, ao introduzir as instituições e mecanismos sociais como símbolos da corrupção, e os seres humanos como meros peões que, embora possam, sim, fazer as tais escolhas, às vezes simplesmente estão no lugar errado, na hora errada, fazendo a pior coisa possível...
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O Processo (The Trial, 1962): Adaptação do romance de Fraz Kafka, O Processo é uma obra expressionista condizente com o livro do autor tcheco. Anthony Perkins, o Norman Bates de Psicose, interpreta Josef K., que certamente foi caluniado por alguém, visto que certa manhã o prendem, sem que tenha feito qualquer mal. De uma hora para a outra, K. é introduzido no mundo da Lei e dos tribunais, e conhece personagens típicos desse mundo. Em momento algum ele descobre de que é acusado, e mal tem direito de defesa. O romance de Kafka permaneceu inacabado, mas o escritor chegou a escrever um capítulo que poderia ser o último do livro, com K. sendo executado por dois oficiais da polícia a facadas, “como um cachorro!”. Welles optou por alterar um pouco esse final, mantendo K. desafiador até o último segundo. No filme, os policiais não têm coragem de esfaqueá-lo, e acabam sendo alvos da pilhéria de K.. Por fim, eles jogam uma dinamite no buraco em que o homem estava e o explodem. Welles justificou essa adaptação como uma atualização do romance para depois do Holocausto, mas o fato é que o filme é uma visão pessoal do diretor sobre a obra de Kafka. Extremamente claustrofóbico e escuro, o filme é visualmente impactante, e memorável. A interpretação de Perkins é fabulosa, e o clima que Welles impõe ao filme é exato. Ver a obra como uma alegoria contra a Lei e o sistema penal é reduzi-la, embora sem dúvida ela passe por isso. O mais correto (e impactante) é absorvê-la como se fosse a própria escuridão que ela tange, e entender que lá se esconde toda a culpa, a da alma, a do corpo, a do ser humano, do cidadão, do inocente...
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quinta-feira, 15 de janeiro de 2009

Pílulas Cinematográficas, Edição 12

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Dando um tempo nas pílulas temáticas, essa edição conta com filmes que não tem absolutamente nada a ver um com o outro, tirando o fato de serem ótimos. Um é considerado a melhor comédia de todos os tempos, outro é um pesado drama sobre o Vietnã, e o último é um filme divertidíssimo produzido pelo gênio de Woody Allen.
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Quanto Mais Quente Melhor (Some Like It Hot, Billy Wilder, 1959): Dois músicos desempregados presenciam um massacre e passam a ser perseguidos pela máfia. Para fugirem transvestem-se de mulher e vão para Miami junto a uma big band feminina. No fim, até homossexualismo (nonsense) é sugerido. Tudo isso numa comédia. Feita na década de 1950. Ninguém além do diretor nascido na Polônia Billy Wilder poderia ter feito algo desse tipo. O genial cineasta criou nesse filme a comédia considerada pela AFI a melhor de todos os tempos (ao menos entre os filmes americanos, tem cacife para isso) e, independente de listas ou coisas do gênero, um filme fantasticamente engraçado, além de contar com a sempre encantadora presença de Marilyn Monroe. Cheio de piadas dos mais diversos tipos, Quanto Mais Quente Melhor é uma aula de como fazer comédia sem se render aos clichês vigentes e ainda construir um filme cinematograficamente bem feito e poderoso.
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O Franco-Atirador (The Deer Hunter, Michael Cimino, 1978): Os dramas em O Franco-Atirador são de pessoas assustadoramente banais. Não há heroísmos, não há crimes, somente desejo, medo e loucura. Os personagens são os americanos típicos dos anos 70: a geração pós-década-de-60 sentindo ainda as novidades do clima liberal mas vivendo sob a sombra do Vietnã. Esse filme é considerado o melhor sobre os traumas que a Guerra deixou na sociedade americana. Os amigos vão para a guerra, vivem seus horrores, mas ao voltar não conseguem viver suas vidas normalmente, situação assustadoramente atual com as dezenas de notícias, reportagens e filmes sobre o estresse pós-traumático do combatentes do Iraque. O Franco-Atirador mostra, com suas imagens limpas e contundentes, que a contagem de mortos de uma guerra é sempre muito maior do que aquela acusada nas estatísticas.

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Hannah e Suas Irmãs (Hannah and Her Sisters, Woody Allen, 1986): Os filmes de Woody Allen são deliciosos, divertidos e adoráveis. Com simplicidade, humor e humanidade, o diretor transporta todo tipo de vivência e sonho humano para as telas, criando assim obras que são espelho da sociedade e dos seres humanos, que mostram seus defeitos, seus dramas, suas alegrias, sem nunca perder, no entanto, um certo sentimento indefinível de amor à vida. Nada de sair por aí pulando e gritando em transe, dizendo que a vida é maravilhosa. Com Allen, as coisas são mais sutis, mais delicadas. Hannah e Suas Irmãs é o maior exemplo disso: os personagens são cheios de defeitos, por vezes dissimulados, sofrem pra caramba, mas nós nos apaixonamos por eles e no fim as coisas dão certo de um jeito ou de outro. Irresistível e iluminadamente, Allen nos transporta de volta para o nosso mundo.

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quinta-feira, 8 de janeiro de 2009

Pílulas Cinematográficas, Edição 11: Especial Steven Spielberg

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De todos os cineastas de sua geração, Steven Spielberg é com certeza o mais popular e eclético. Falando somente de seus pares mais próximos, George Lucas ganhou e continua ganhando bilhões com Star Wars, mas seus outros filmes são bem mais anônimos, e Martin Scorsese e Francis Ford Coppola fazem um cinema mais adulto, com menos apelo junto às massas. Já Spielberg fez filmes de todos os tipos, para todas as idades, com as mais diversas qualidades e defeitos. Nessa edição das pílulas, falarei de três. Dois deles fazem parte dos dramas épicos sérios de Spielberg, e tem em comum pelo menos a longa duração. O outro é um filme diferente dos outros dois, mas talvez ainda mais emblemático que eles na carreira do cineasta.
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A Lista de Schindler (Schindler’s List, 1993): Baseado no romance de Thomas Keneally sobre o empresário alemão que salvou milhares de judeus do holocausto, esse longa deu a Spielberg o Oscar e é considerado por muitos sua obra-prima. Longo, belo e dramático, o filme é uma daquelas obras quase unânimes, realmente únicas. Não chorar ou ao menos se emocionar em alguns momentos, especialmente no final, é sinal de que não se tem muito apreço pelo ser humano. A Lista de Schindler permanece como um dos filmes mais importantes sobre o Holocausto, embora nunca se possa falar em registros “definitivos” desse episódio negro da história da humanidade. O que se pode dizer é que, além de drama histórico tocante e humano, o filme é um grito, um apelo pela identificação com o sofrimento alheio e pela postura ativa em defesa da vida, pois aquele que salva uma vida, salva todo o mundo.
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Contatos Imediatos do Terceiro Grau (Close Encounters of the Third Kind, 1977): Diferente dos outros filmes dessa lista, Contatos não é a adaptação de um romance. Por isso, é um projeto mais pessoal de Spielberg, e apresenta algumas idéias muito caras ao diretor. Longas em que os alienígenas são seres amistosos, buscando comunicação, e não predadores interestelares sedentos de sangue, eram uma raridade, mas Contatos entrou para a história como um desses filmes. Spielberg põe em prática aqui suas especialidades: pessoas comuns em situações extraordinárias, dramas familiares, e a utilização consciente dos efeitos especiais, que servem somente de escada para o verdadeiro encanto do filme. À medida que Roy fica mais obcecado por sua visão, Claude Lacombe descobre mais coisas sobre os avistamentos de OVNI’s e Gillian chega mais perto de encontrar seu filho, a tensão cresce, até culminar no espetacular e emocionante final, uma dessas cenas atemporais e cheias de significado e magia que fazem a sétima arte valer a pena.
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A Cor Púrpura (The Color Purple, 1985): Apaixonante. Difícil definir de outra forma essa outra obra-prima de Spielberg, e também o filme que eu mais gostei desses três das Pílulas. Como disse o crítico Roger Ebert, “não existe uma cena que não reflita o amor dessas pessoas por este filme”, e de fato, cada frame do longa pulsa, tamanho o sentimento que diretor, roteiristas, elenco, e o compositor da trilha sonora, Quincy Jones, depositaram nesta obra. Baseado no romance epistolar de Alice Walker, A Cor Púrpura retrata a vida de uma pessoa que era definida por todos os adjetivos ligados ao “elo fraco” da sociedade. Como diz um personagem do filme, Celie, a protagonista, é “preta, pobre e mulher”, e portanto não tem como se dar bem na vida. As passagens em que o filme retrata a opressão contra quem possui essas características são uma denúncia contundente contra os malditos machistas e racistas, e se encaixariam perfeitamente em qualquer filme denúncia. Porém, esse não é o caso aqui, A Cor Púrpura é uma história de seres humanos, e não de massas rotuladas. Ao contrário do que o começo do filme pode dar a entender, o enredo não conta uma seqüência de tragédias, mas sim a vida de alguém que, embora sofra muito, persiste sempre. As cenas finais do longa - desde a ceia de Ação de Graças, passando pelo coro da igreja, até chegar ao reencontro – são todas catárticas, e dão aquele aperto no coração que só quem conhece muito bem a alma humana, como Spielberg, pode proporcionar.
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quinta-feira, 11 de dezembro de 2008

Pílulas Cinematográficas, Edição 10: Especial Charlie Chaplin

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Ao lado de Buster “Cara de Pedra” Keaton, Charlie Chaplin foi o grande ícone das comédias do cinema mudo. Chaplin, porém, tornou-se muito mais famoso e reconhecido que o colega. Talvez seja por causa de Carlitos, o vagabundo mais querido do planeta, figura reconhecida por virtualmente qualquer ser humano (do ocidente, ao menos), mas creio que o maior motivo seja justamente a grande marca registrada de Chaplin: a graça. Não a graça do riso, que Keaton também sabia provocar muito bem, mas a graça da leveza, a graça de ser ao mesmo tempo triste pra caramba e engraçadíssimo/feliz demais, uma mistura adorável e simplesmente irresistível. De fato, para Charlie, a única maneira de superar o “sistema”, qualquer que seja ele, não é substituí-lo por outro sistema, e sim enfrentá-lo com um riso no rosto e paz no espírito, algo que ele expressava divinamente em seus filmes. Humor e humanidade: marcas registradas desse gênio que escrevia, dirigia, atuava, compunha, e ainda jogava xadrez e dançava balé, um homem que não pode ser esquecido.
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Em Busca do Ouro (The Gold Rush, 1925): Carlitos aparece mais uma vez em um filme bastante alegre e engraçado, com um final feliz e cheio de cenas clássicas. A dança dos pãezinhos, o banquete de sapato, a alucinação do frango... ao mesmo tempo em que são terrivelmente engraçadas, essas cenas evidenciam o tema principal do longa: a miséria de uns em contraste com a ganância de outros. Duas versões foram lançadas: a primeira, de 1925, muda. A segunda, de 1942, reeditada e com trilha sonora.
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O Grande Ditador (The Great Dictator, 1940) : Contra a tirania e a favor da vida, Chaplin fez um filme visionário e ousado. Parodiando o nazismo e o fascismo numa época em que eles ainda não eram impopulares (havia simpatizantes mesmo em Hollywood), Charlie criou mais uma obra essencial e inesquecível. A cena em que o ditador dança com o globo terrestre é uma das mais tocantes que eu já vi no cinema, e o discurso final de Chaplin, nesse que foi o primeiro filme falado do diretor, simplesmente saltou da tela para a História, palavras antológicas e cada vez mais necessárias a medida que passa o tempo e muito do que ele acusou se torna cada vez mais presente.
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O Garoto (The Kid, 1921): O “filme com um sorriso, e talvez uma lágrima”, O Garoto sintetiza a carreira e o modo de fazer filmes de Chaplin: um grande tino para a comédia aliado a uma profunda sensibilidade para o ser humano. Entretanto, apesar das antológicas cenas engraçadas, esse é talvez o filme mais triste de Chaplin. O filho recém-nascido do gênio morreu no início das filmagens, e isso afetou o tom do filme, que acabou cheio de cenas de uma beleza que dói. Jackie Coogan, o garoto, tornou-se a primeira celebridade juvenil do mundo, embora não tenha feito uma grande carreira após esse filme. Como o próprio Chaplin disse, ao receber seu Oscar honorário (e ser ovacionado por vários minutos), palavras são fúteis para descrever, então vejam O Garoto, e entendam do que eu estou falando.
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Tempos Modernos (Modern Times, 1936): Filme de transição na carreira de Chaplin, meio mudo/meio falado, e também o último filme de Carlitos. Dez anos depois do advento do cinema falado, Chaplin ainda resistia, e faz um filme em que o som aparece somente em rádios, máquinas, efeitos sonoros e canções: Carlitos resiste bravamente, permanecendo mudo e enfrentando a modernidade com obstinação. A única vez em que ouvimos sua voz, vejam só, é quando ele canta uma música totalmente non-sense em um restaurante, situação em que o importa de fato, afinal, são seus gestos. Embora retrate uma luta de indivíduos contra uma espécie de sistema opressor, Chaplin insiste ainda assim em sua máxima, com a canção tema que se tornou clássica, Smile: “Smile though your heart is aching/ Smile even though its breaking”. Ouçamos seu conselho.
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terça-feira, 2 de dezembro de 2008

Pílulas Cinematográficas, Edição 9: Especial O Poderoso Chefão

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Falar sobre a maior trilogia de todos os tempos não é uma tarefa fácil. A saga da família Corleone, contada com maestria nos três O Poderoso Chefão por Francis Ford Coppola, tem tantos fãs e admiradores – Kubrick o considerava o maior filme de todos - que torna-se difícil falar algo que já não tenha sido dito, ou de que ninguém discorde. Assim, opto por apresentar aqui minha visão pessoal sobre os filmes, e abro o tema para diálogo.

Os filmes são, basicamente, a história de Michael Corleone como chefão da máfia, desde o começo relutante até a morte. Cada um dos filmes dá conta de um momento particular de sua vida. O primeiro retrata a ascensão de Michael, o segundo a derrocada de sua vida pessoal – preço a ser pago pelo poder -, e o terceiro sua redenção e morte. Juntos, formam um painel impressionante da vida de um homem que é levado a descobrir que suas vontades superficiais podem não condizer com sua verdadeira personalidade e com o mundo exterior, e que sempre se perde algo quando se quer muito alguma coisa.
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O Poderoso Chefão (The Godfather, 1972): O primeiro filme da trilogia é também o melhor. Não desmerecendo os outros dois, que são também obras-primas, mas a primeira parte da saga dos Corleone apresenta um equilíbrio interno ideal. Nada sobra nem falta no longa: ele é, no sentido mais pleno da palavra, perfeito. Desde as atuações, com Marlon Brando insuperável, Al Pacino extraordinário e o resto do elenco também sublime, passando pela ambientação – referência para todos os filmes de época posteriores -, pela música – composta por Nino Rota e magistralmente conduzida por Carmine Coppola – e chegando enfim ao próprio enredo do filme, adaptado brilhantemente do ótimo romance de Mario Puzo, tudo se encaixa: O Poderoso Chefão é um símbolo, da união entre o cinema de estúdio e o autoral, do embate entre a ambição e a honra e nossos sentimentos, de tudo que a sétima arte pode dizer...
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O Poderoso Chefão, parte II (The Godfather, part II, 1974): Após a primeira parte ter ganho o Oscar de melhor filme, Coppola nos brinda com mais um ganhador da estatueta, uma nova obra-prima que continua a saga de Michael, embora com um enfoque claramente diferente. Mais longo e lento que o filme anterior, a parte II tem tons mais dramáticos, que seguem em dois caminhos: em primeiro lugar, o do preço que Michael começa a pagar por seu poder e ambição, e em segundo, o da comparação entre ele e Vito, seu pai, que também ascendeu como chefão da máfia. O filme tece de forma brilhante e paciente essas relações, mostrando cenas simples mas significativas da vida de Vito quando era jovem, e de tudo que ele fez para se firmar, ao mesmo tempo em que acompanha Michael por seu inferno pessoal de encarar traições e separações dentro de sua família e se safar da Lei e de seus inimigos que o perseguem. O rosto sombrio e acabado de Al Pacino expressa perfeitamente essa situação. A cena final do filme, em especial, tem uma força raras vezes vista, que sai tanto da situação mostrada em si quanto da expressão que o fantástico ator mantém no rosto.
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O Poderoso Chefão, parte III (The Godfather, part III, 1990): Feita muitos anos depois das outras duas, essa terceira parte acabou não agradando tanto, embora seja um final épico e digno para a saga. A atuação de Sofia Coppola como filha de Michael de fato atrapalha, mas o próprio Al Pacino, Talia Shire e o estreante (na saga Corleone) Andy Garcia mantêm o nível. Dessa vez, Michael busca a redenção, pois percebe o que a busca pelo poder lhe causou, e está cada vez mais obstinado em legalizar suas operações. Sair do jogo, porém, não é fácil, e ele vai descobrir isso da pior maneira possível. De certa forma, a mensagem de Coppola é um pouco pessimista: mesmo para se salvar, Michael é obrigado a recorrer aos velhos métodos, e depois dele sempre haverá outros para continuar a fazer o que ele fez. Entretanto, a redenção para o indivíduo é possível, e a cena final dessa saga, de Michael velho, fraco e abatido, lembrando-se de seus amores e enfim morrendo, traz para a vida amargurada desse “padrinho” um pouco de poesia e graça, e termina de forma formidável, e insuportavelmente triste, essa que foi uma das maiores histórias já contadas no cinema.
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quinta-feira, 6 de novembro de 2008

Pílulas Cinematográficas, Edição 8

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Nessa edição das Pílulas, realmente nada em comum entre os filmes. Um deles é uma obra-prima do horror de um dos maiores gênios do cinema. O outro, uma interessantíssima reflexão sobre a representação cinematográfica. O último, finalmente, é uma envolvente e emocionante história passada na França do século XVIII. E um recado: semana que vem, o blog volta à programação normal. Cinema, agora, só às quintas-feiras. Pelo menos até a próxima onda de filmes...
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O Iluminado (The Shining, Stanley Kubrick, 1980): Em diversos rankings, O Iluminado consta como um dos melhores filme de terror de todos os tempos. E não é difícil perceber o porquê: em primeiro lugar, foi adaptado do livro mais assustador de Stephen King, mestre do horror na literatura. E em segundo, foi adaptado para a tela grande por um dos maiores e mais importantes cineastas de todos os tempos, Stanley Kubrick. Utilizando-se de seu talento completo, Kubrick compôs uma obra ambígua, misteriosa e que dá muito, muito medo. Por um lado, o enredo ajuda muito: ficamos o tempo todo com a dúvida sobre se Jack Torrance está enlouquecendo sozinho ou sendo atormentado por espíritos malignos. Por outro, a realização é primorosa: as atuações são todas espetaculares, a iluminação cria um clima fantasmagórico, a música é precisa em seu intuito de incomodar... enfim: Kubrick criou com este filme uma obra de horror única (que não se utiliza da escuridão, por exemplo), referência para todos aqueles que quiserem meter medo em alguém.
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O Desprezo (Le Mépris, Jean-Luc Godard, 1963): O filme já começa surpreendendo pelos créditos: ao invés de aparecerem escritos na tela, são narrados, pelo próprio diretor, enquanto vemos uma equipe realizando algumas filmagens. No fim, a câmera se volta para nós, e somos sugados para o mundo da imagem. As primeiras cenas mostram um casal na cama, mas têm algo de peculiar: ao invés de vermos a imagem colorida, com os três filtros sobrepostos, vemos somente a que foi filmada com o filtro azul, e depois a que utilizou o vermelho. Com isso, Godard deixa bem claro qual é o tema de seu filme. À medida que o enredo se desenvolve, vemos que aquele casal está envolvido nas filmagens da Odisséia, por Fritz Lang (interpretado pelo próprio), e, mais sutilmente, está sofrendo dos mesmos problemas (em certa medida) que Ulisses e Penélope têm (ou os personagens supõem que eles têm) na obra de Homero. Com o tempo, essa confusão entre o filmado (por Godard), o filmado (por Lang) e o vivido (por todos) vai se tornando mais profunda, e a linha que divide cada segmento, se tornando mais tênue, até o final trágico e inconclusivo. Enfim, uma obra essencial. E não era pra menos: com Jack Palance, Brigitte Bardot e Fritz Lang atuando sob a tutela de Jean-Luc Godard, tinha como dar errado?
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Ligações Perigosas (Dangerous Liaisons, Stephen Frears, 1988): Tenho que confessar uma coisa: a ambientação “nobres no século XVIII” me dá nos nervos. As perucas, o pó de arroz, os tons pastéis: todos esses elementos provocam em mim um certo sentimento de repulsa. Entretanto, isso não me leva a desgostar imediatamente de um filme ambientado na época. Foi o que aconteceu com esse longa. Embora, em seu início, tenha chegado a temer pela minha opinião, ao ver as carruagens com cavalos enfeitados e as sapatilhas, logo fui fisgado pela trama e as duas horas do filme passaram voando. O filme de Stephen Frears é, de fato, perfeito: o enredo, as atuações, o ritmo. Tudo se encaixa perfeitamente para contar a história das intrigas amorosas de alguns nobres franceses, baseada no romance epistolar de Chordelos de Laclos. Glenn Close, em especial, está espetacular, mas John Malkovich não fica muito atrás. Um desses filmes que podem ser vistos muitas vezes, descompromissadamente, mas sempre nos mantém ligados do primeiro ao último segundo.
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Extra: Chegada do Trem à Cidade (L'Arrivée d'un Train à La Ciotat, Auguste e Louis Lumière, 1895): Primeiro filme exibido publicamente, Chegada do Trem à Cidade é lendário. As pessoas, diz-se, pensaram que o trem sairia da tela e adentraria a sala de projeção, saltando sobre todas elas. Imaginem o fascínio, o medo e a surpresa de quem estava lá. Nas palavras de George Meliès, monstro sagrado do cinema: "A mostra começou com uma fotografia estática que depois de alguns segundos começou a se mover. O trem apareceu e acelerou em direção ao público. Nós estávamos estonteados por este espetáculo." Sem mais palavras, fiquem com o vídeo: http://www.youtube.com/watch?v=1dgLEDdFddk
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