quarta-feira, 2 de julho de 2008

Pílulas Cinematográficas, Edição 1

Tenho visto muitos filmes ultimamente. Vou então fazer comentários breves sobre alguns deles.
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Butch Cassidy (Butch Cassidy and the Sundance Kid, George Roy Hill, 1969): Filme que repete a parceria do diretor George Roy Hill com a dupla Paul Newman e Robert Redford. É um faroeste com tons de comédia extremamente divertido, que conta a história dos dois pistoleiros do título. Possui passagens interessantes em tons carregados de sépia, além de duas das cenas mais famosas do cinema. O passeio de bicicleta de Newman ao som de Raindrops Keep Fallin’ On My Head. E o final, antológico.
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Fargo, uma Comédia de Erros (Fargo, Joel [e Ethan] Coen, 1996): Um dos mais famosos do Irmãos Coen, e guarda muitas semelhanças com o último deles, o oscarizado Onde Os Fracos Não Têm Vez. Os temas são muito parecidos, os arquétipos de um encontram sua contraparte no outro, há uma maleta com dinheiro... aqui, porém, os tons são frios, gelados na verdade, ao contrário do calor do faroeste pós-moderno. O humor, embora negríssimo, também está mais presente aqui, e a cena final, de certa forma, é o exato oposto da de Onde os Fracos Não Têm Vez: é a mulher que fala, e há muito otimismo e conforto, diferente do desespero e
da entrega à derrota do outro. Parece que os Coen perderam de vez a esperança.
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Um Estranho no Ninho (One Flew Over the Cuckoo’s Nest, Milos Forman, 1975): É um dos únicos três filmes a conquistar as cinco principais categorias no Oscar: Filme, Diretor, Roteiro, Ator e Atriz. Os outros dois foram Aconteceu Naquela Noite, de Frank Capra, e O Silêncio dos Inocentes, de Jonathan Demme. É também um filme fabuloso, com atuações extraordinárias de todo o elenco e uma poderosa mensagem contra o conformismo. A cena final é particularmente emocionante, mas o filme todo é de cair o queixo. Imperdível.

terça-feira, 1 de julho de 2008

E então, acordou.

Ele se despediu dos pais com um boa-noite rápido e distante e logo entrou no quarto. Encostou a porta ao batente e foi pra cama, primeiro sentando-se e depois jogando as pernas pra cima. Colocou-as debaixo das cobertas e se virou, meio-corpo, para ajeitar o travesseiro. Já quase cedendo ao cansaço, esticou o braço e com o dedo clicou no interruptor, interrompendo então a luz. Sua cabeça rapidamente se jogou para trás em direção ao travesseiro, encontrando-o somente um instante antes do que esperara, o que causou nele uma leve dor. Passado o arremedo de contratempo, ele deixou o ar entrar em grandes lufadas nos seus pulmões, e soltou pequenos arrotos, que o lembraram instantaneamente do jantar. Enquanto praticava esses exercícios pré-sono, notou pela fresta da porta que a luminosidade da sala diminuíra, deduzindo daí que a luz havia sido apagada. O lusco-fusco-quase-breu, violado somente pelos tênues raios luminosos da tevê, logo o envolveu num clima aconchegante, fazendo-o esquecer os pequenos arrotos, o cansaço, o jantar e o boa-noite distante. Sem que sua mente tomasse nota disso, adormeceu.

E então, acordou. Com um solavanco, da total ausência do sono passou à existência, e a tangibilidade do colchão e o peso do ar, tão familiares, o fizeram ter certeza de que havia acordado. Sonhara talvez com um vôo, ou uma queda, não se lembrava. Só sabia que se encontrava tomado por aquele estranho sentimento que nos envolve quando acordamos de um sonho intenso do qual não lembramos. Aquela sensação de que algo importante nos escapa, de que sabíamos algo que se perdeu. A sensação de impotência diante da inevitabilidade do esquecimento. Sem, no entanto, formular tais pensamentos muito racionalmente, logo eles se dissiparam e ele pôde se levantar.
Desde o momento em que tocou o soalho com o pé estranhou o silêncio. Não se ouvia sequer um ruído dentro da casa. Seus pais, normalmente tão barulhentos pela manhã, estavam totalmente silenciosos. Ele abriu a porta do quarto, que emitiu um gemido leve, e saiu para o corredor. Na sala de tevê, tudo estava mais ou menos como ele deixara na noite anterior. O céu que se entrevia pela janela parecia bem limpo. A porta do quarto dos pais estava fechada, mas com um leve empurrão ele a abriu. Ali dentro não havia ninguém. A cama jazia impecavelmente arrumada, e o banheiro também estava sereno e limpo.
Com passos rápidos, saiu dali, atravessou a sala de tevê e chegou à sala da frente. Abaixou-se e tirou o telefone do gancho. Com o dedo firme, apertou o botão de ligar e levou o aparelho à orelha. Não ouviu nenhum som. Tentou discar o número do celular de sua mãe, e depois de seu pai, mas em ambas as vezes não obteve nenhum retorno. Correu então de volta à sala de tevê e com o controle remoto ligou o bonito aparelho que os pais haviam comprado no último mês. Zapeou por todos os canais mas em todos eles só havia chuvisco. No seu quarto, tentou ligar o computador, mas o monitor só apresentava uma tela preta.
Estava sendo tomado lentamente pelo desespero. Da apreensão inicial de acordar com a casa vazia, passando pelo estranhamento de não conseguir se comunicar com seus pais e pelo medo flagrante de não obter ali nenhum sinal do mundo externo, chegara a um desespero num estado puro, que só fazia se aprofundar. Obrigou-se então à calma, e decidiu ser melhor buscar uma alternativa mais imediata de contato com algum outro ser vivo.
Tirou o pijama e enfiou-se rapidamente numa camiseta e numa bermuda, calçando depois os tênis. Voltou à sala e foi para a cozinha, onde abriu a geladeira - repleta, sua mãe fizera compras no dia anterior - e pegou uma barra de cereais para mordiscar. Abriu a porta e saiu do apartamento. No hall, chamou o elevador e, num arroubo de ansiedade, apertou as campainhas dos outros apartamentos do andar. Nenhum ofereceu resposta. Tentou então abrir as portas, mas elas estavam trancadas. Com isso, lembrou-se de pegar a chave de seu próprio apartamento. Tirou-as de cima da mesa e as guardou no bolso, fechando a porta em seguida. O visor do elevador indicava que ele continuava parado, e impaciente desceu pelas escadas.
Já no estacionamento, a primeira coisa que fez foi ir até sua garagem. Encontrou os carros de seu pai e sua mãe, que surpreendentemente estavam abertos. Estavam também, contudo, vazios. Nada nos porta-luvas, ou nos porta-malas. Totalmente incrédulo, ele foi correndo até a portaria, que estava vazia. O monitor das câmeras de vigilância estava desligado, e não havia nenhum jornal ou correspondência. O portão da rua, porém, estava aberto, e sem pestanejar ele correu para fora.
Nenhum carro havia ali, nem animal. As vacas que esporadicamente pastavam no terreno em frente ao seu prédio não estavam ali, nem estava ninguém. Andando em pleno asfalto, subiu sua rua até o prédio mais próximo, cuja portaria também estava vazia, embora o portão estivesse fechado, e o mesmo se sucedeu com o próximo. Sequer se deu ao trabalho de tentar pular. Melancólico, começou a descer sua rua e voltar para seu prédio, devorando ansiosamente a barra de cereais que trouxera. Desta vez, contudo, encontrou o portão fechado. Forçou a memória para ver se o havia fechado, mas não conseguia lembrar de nada.
Pulou, então, para dentro, e começou a andar em direção aos elevadores. Quando botou os pés no estacionamento, viu que não havia mais carros ali. Os veículos que minutos antes preenchiam o espaço agora eram sumidos, amplificando a sensação de vazio. Correu para sua própria garagem, e esta também estava vazia. A numeração das vagas estava desgastada e ilegível, e a localização naquela sucessão de pilares de cimento se tornara confusa. Com alguma dificuldade, reencontrou o elevador, mas esse mais uma vez não veio ao seu chamado.
Subiu pelas escadas, que estavam escuras, mas teve de contar uma por uma as portas até chegar ao seu andar, pois a numeração estava também ali apagada e esquecida. Quando finalmente chegou ao número de seu apartamento, abriu a porta e entrou no hall. Ali também estava escuro, embora menos, pois a luz que escapava pela fresta das portas dava algum alento ao ambiente. Entretanto, não o suficiente para que ele conseguisse enxergar o número do apartamento, e com isso acabou tendo que se guiar pela memória.
Seu primeiro espanto foi ao girar a fechadura e descobrir a porta trancada. Não se lembrava de tê-lo feito. Pegou então a chave nos bolsos e no escuro tateou pelo buraco da fechadura. Quando alcançou-o e colocou nele a chave, contudo, ela não entrou, e ele se viu forçando-a contra ele. Perguntou-se se estaria mesmo no andar certo, mas seu desespero e ansiedade eram tamanhos que não se deu uma segunda chance. Jogou-se repetidas vezes contra a porta até arrombá-la. Era seu apartamento.
A visão dos móveis familiares trouxe-lhe então uma certa calma. Ofegante, foi até a geladeira, buscando algum bálsamo gelado para acalmá-lo naquele pesadelo. A geladeira estava vazia. Assim como vazios estavam todos os armários e gavetas da cozinha. Transtornado, foi à sala e ali também só havia móveis. A gaveta do aparador não guardava mais os habituais telefones de restaurantes nem tampouco a caderneta de endereços. Tentou novamente ligar a tevê ou o computador, mas nenhum respondeu. Foi quando reparou em seus livros, padecentes na enorme estante de seu quarto. Puxou o primeiro e começou a folheá-lo violentamente, ansioso por ouvir algum tipo de voz humana. As páginas, como leite e como neve, estavam brancas, e como tudo eram vazias. Folheou um por um, só para depois jogá-los ao chão. Os títulos também haviam desaparecido, das capas e de sua memória.
Tremendo e débil, foi até o banheiro lavar o rosto, mas nem uma gota de água veio aliviar sua febre. Dali, já tropeçando e esbarrando nas paredes, foi à varanda tomar um pouco de ar. Com os olhos arregalados, fitou a cidade, que podia ver até o horizonte. Desviando um pouco a cabeça, percebeu as plantas que sua mãe mantinha ali. Tocou a folha de uma delas e ela se soltou na sua mão. Estavam todas mortas. Desviou novamente o olhar e voltou ainda uma vez para a cidade. Dela, só percebia o silêncio. Não enxergava nenhum movimento, não importava quão longe tentasse olhar.
Surpreendentemente, já escurecia. Foi andando lentamente para trás até encontrar uma parede, e deixou-se escorregar por ela até o chão. Levantou os joelhos e apoiou o rosto contra eles. Não lembrava o nome de seus livros, ou de sua cidade, nem os de seus pais, nem mesmo o seu. Seu mundo afundava cada vez na palidez e brancura de solidão e esquecimento, e após o crepúsculo que se avizinhava, ele seria negro. Deixou escorrer as primeiras lágrimas enquanto pensava em quanto a noite seria longa.

segunda-feira, 30 de junho de 2008

Doises

Rofrigows e Biel na pegada indie. Gravação surpreendentemente boa, confiram!

http://www.youtube.com/watch?v=iW9siEoyQXA

http://www.youtube.com/watch?v=fHhvUwz9CWk

segunda-feira, 23 de junho de 2008

Stat Roma pristina nomine, nomina nuda tenemus

Os maias diziam que, de longe, o mar parece azul, mas de perto é verde. Que as montanhas também parecem de longe azuis mas são de perto verdes. Logo, se o céu de longe nos é azul, deve ser na verdade verde. Essa visão poderia ser mais associada por alguns a uma percepção das cores, visto que para muitos o mar é transparente ou da côr-que-o-céu-fôr, as montanhas são marrons e o céu nem cor tem, pois não é uma coisa em si. Contudo, há outros tipos de reflexão para se fazer a esse respeito. Afinal, o céu é azul ou é de uma cor que chamamos azul? Se o céu fosse da cor que chamamos verde, nós o diríamos verde ou chamaríamos a cor de azul?

Em outra palavras: o nome pertence à coisa ou é a coisa que pertence ao nome? O nome existe como coisa concreta ou ele é simplesmente um símbolo associado a um conceito? Shakespeare se questionou sobre o valor do nome (“O que há num nome?”). Já Bernardo Morliacense, monge beneditino do século XII, em seu poema “De Contemptu Mundi”, afirma que fora o nome nada nos resta.

De fato, é uma idéia interessante. Se Platão se perguntou se havia uma qualidade inerente à coisa, por que não nos questionarmos se há um nome inerente a ela? O que nos leva a chamar uma cor de vermelho e outra de azul? Pode-se argumentar que o céu é da cor que em português se chama azul, mas que em inglês é blue, em francês é bleu, em alemão é blau, etc., logo não há nome, e sim cor. Mas igualmente pode-se dizer que são meras manifestações diferentes de uma mesma sensação. Por exemplo: o azul é frequentemente associado à tristeza, o vermelho ao perigo, etc.

É claro que no fim é só dizer que o nome é uma forma de comunicação, e as nossas reações às cores uma questão evolutiva, e as cores uma ilusão, posto que só vemos um espectro que não é absorvido, e que a própria existência é uma ilusão, composta majoritariamente por vazio. Mas isso tira todo o romantismo da coisa.

E se a coisa já tem afinal um nome e uma qualidade, não há porque não conceder a ela também um pouco de romantismo. As cinzas dos ancestrais já viraram cinzas de cinzas. Contudo, alguns de seus nomes ainda sobrevivem. O José, que é “dono da padaria”, é também afinal de contas um ser humano. Vamos conceder a ele algo em que se apoiar?

segunda-feira, 16 de junho de 2008

O dia em que o romance morreu

Este post faz parte do Bloom-Blogsday, um evento que busca festejar a obra de James Joyce, especialmente o Ulisses, na blogosfera brasileira. Estando esse ano na quarta edição, o evento consiste em diversas postagens sobre o tema em diversos blogs, com o intuito de divulgar e comemorar neste dia a própria literatura. Para mais informações, visitem o Odisséia Literária, que é o grande vértice do acontecimento.


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Há 104 anos, neste mesmo dia, estava acontecendo algo que mudaria para sempre a história da literatura. Era um acontecimento ínfimo, imperceptível, como uma pedrinha jogada num lago, mas cujas ondas se espalhariam lentamente até que, chegando às margens, já seriam vagas imponentes. Tratava-se do enlace amoroso entre duas pessoas, James Joyce e Nora Barnacle, que ao praticar aquele coito incompleto, não imaginavam que seriam, um século depois, objeto de observação de pessoas como eu e você, meu caro leitor.

Naquele 16 de Junho de 1904, uma quinta-feira, James fez-se homem e Nora, mulher. Alguns anos depois, ele escolheria a data para situar a ação de um dos maiores romances de todos os tempos, o “romance para acabar com os romances”, Ulisses. Passado nesse único dia, o livro gira basicamente em torno de três personagens: Leopold Bloom, que sabe que sua mulher, Molly Bloom, o trairá com o empresário naquele dia, e fica a perambular pela cidade, visitando pubs, restaurantes, o hospital e a biblioteca da cidade, entre outros lugares. Ao fim do dia, ele encontra Stephen Dedalus, que acolhe e ajuda como a um filho.

Nesse percurso, contudo, dezenas, até centenas de personagens se interporão no caminho, e as mais diversas situações serão narradas. A obra tem um lado extremamente popular e obsceno, que levou-a a ser proibida em diversos países, retratando as mais diversas perversões e hábitos íntimos que a literatura dificilmente se propõe a narrar, mas que são tão comuns como respirar: Leopold flatula, defeca (peida... caga...), se masturba, tem sonhos com estátuas de pedra de deusas... enfim, nada que um ser humano normal não faça.

Está aí um dos aspectos mais importantes da obra: ser uma extraordinária comédia humana, que reinaugura o realismo. O crítico Edmund Wilson disse que Ulisses é “talvez a mais fiel radiografia já feita da consciência humana”. De fato, todos os personagens que passam pelas páginas (muitos saídos da vida real de Dublin) são palpáveis, encorpados, eles nos dão a impressão de existir. Outra faceta extremamente humana é o estilo de narração pontuado por monólogos interiores, cheio de impressões, desde as completamente instintivas e emocionais até as mais racionais e criteriosas.

Por outro lado, a obra tem um aspecto completamente erudito e mitológico. Sendo uma grande paródia, o livro condensa uma quantidade imensa de referências e nos permite inúmeras associações. Como foi revelado por Wilson em seu ensaio sobre o romance, Ulisses leva esse nome por ser estruturado em cima da Odisséia, de Homero. Na infância, Joyce escreveu um ensaio intitulado “Meu Herói Preferido”, sobre o Ulisses da Odisséia. Depois, com o pensamento amadurecido, diria que ele é o mais completo herói clássico, por ser “filho de Laerte, pai de Telêmaco, marido de Penélope, amante de Calipso, companheiro de armas dos guerreiros em Tróia e rei de Ítaca.”

Assim, os dezoito capítulos do livro têm uma correspondência em algum episódio da Odisséia, e associados a si uma cor, arte ou ciência e órgão do corpo humano. Mas esse é somente um dos níveis de paródia. O primeiro capítulo, por exemplo, também parodia o Hamlet de Shakespeare. Cada capítulo, por sinal, é uma obra-prima em si. Escritos cada um em um estilo diferente, mimetizam a história da língua inglesa e da própria cultura ocidental. Esse estilo caleidoscópico de referências influenciou grandemente o modernismo do século XX e uma gama imensa de autores deve suas obras a Joyce.

A recepção inicial à obra não foi das melhores, mas esse é mesmo o destino das grandes coisas. Os leitores em geral não estavam preparados para tamanha sinceridade obscena, para tamanho volume de referências e para o estilo de narração de Joyce. Os monólogos interiores, que constituem o elemento principal de narração da obra, foram recebidos com estranhamento, e ninguém entendeu nada. Entretanto, a partir do ensaio de Wilson e da defesa do livro por alguns apaixonados, ela acabou conquistando todos os que se aventuravam a enfrentá-la. Pois, se Ulisses não é uma leitura difícil, é uma leitura exigente, que pede do leitor que mergulhe e se abandone em suas páginas. Embora se referisse mais ao Finnegans Wake, vale aqui também a máxima de Joyce segundo a qual seu leitor ideal teria uma insônia ideal.

No Brasil, o livro ganhou já duas traduções publicadas. A primeira, de Antônio Houaiss, não li ainda, mas diz-se que tornou ainda mais hermético o texto de Joyce, tornando-o por demais sisudo e matando seu lado bufão. A segunda, de Bernardina da Silveira Pinheiro, é mais coloquial e se aproxima do tom de Joyce, mas peca na tradução de alguns jogos de palavras e trocadilhos. Há uma terceira, em vias de ser publicada, de Caetano Waldrigues Galindo, que aparentemente mantém o tom jocoso da obra e também seu aspecto de riqueza lexical e lingüística.

De qualquer modo, vale sempre buscar a leitura no original, pois Joyce foi um gênio de envergadura inigualável, e não há nada como ouvir suas próprias palavras. Ulisses, quando foi lançado, em 1922, pode sim ter acabado com o romance. Ao levar a literatura aos últimos limites, eliminando inclusive a figura do narrador nos dois últimos capítulos de Ulisses, e posteriormente construindo algo ainda indecifrável no Finnegans Wake, Joyce de fato matou o romance. Mas ele imediatamente ressuscitou. Mais do que cometer um crime, esse gênio expandiu os limites do que conhecemos como literatura, e permitiu que ainda por alguns séculos busquemos as próximas margens, até que venha um novo gênio para alargá-las novamente. Nesse Bloomsday, comemoramos a vinda ao mundo desse “Livro Azul inutilmente ilegível ". Ora, nada melhor para festejar um livro do que lê-lo. Vamos então dizer sim à verdade da vida humana e da arte e, quando te perguntarem se você quer ler o Ulisses, responder “yes i will Yes”.

quarta-feira, 11 de junho de 2008

Uma Certa Paranóia

Bah, tudo bem que o poema tava horrível, mas não precisava esnobar também... alguma alma caridosa podia ter dito algo sobre ele. Enfim, só de raiva vou colocar um negócio aqui pior ainda. Topam?

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Hitler e Stalin, redivivos, saltam das paredes e me encaram. Sorrisos doentios em suas caras febris, suas mãos largas balançando alicates à minha frente. Eu ouço as almas dos judeus gritarem nos fornos. Seus corpos estrebucharem sob o peso do gás. Os inimigos do regime serem fuzilados. Um, dois, três. Todos eles com suas cabeças cortadas e as orelhas direitas em sacos, para efeito de contabilidade. A morte de milhões é estatística.

O Judeu Errante agarra meu pé. Veio cobrar a dívida. Ele conhece meus sonhos. Trinta moedas de prata e um corpo pendulando de um lado para o outro. Sua pele é do amarelo da vergonha, mas a imagem é difusa. Os olhos embotados querem se aproximar, mas um movimento de minhas pernas o repele. Ele sai correndo, sua corcunda inominável, pés tortos, um saco de riquezas nos ombros.

Na névoa, eu chocalho minha cabeça, tento derrubar esses pensamentos ruins. Ai deles. Tão perseguidos, tão sofredores, a troco de nada. Foram tirados das terras da servidão, e expulsos da terra prometida. E tiveram que sacrificar seus filhos ao novelo de ouro e daí nasceu o Belo Povo. Eu os vejo em festa, pulando alegres, comemorando em círculos. Cobertos de leite e mel, em rejúbilo, sorrisos reluzentes.

Mas o leite e o mel escarlateiam, numa vermelhidão pegajosa. Sobre eles, cimitarras e montantes e homens explodindo. Tirem-lhes os bancos, tirem-lhes os bens, tirem-lhes os filhos. Deixe que a Gloriosa Legião marche sobre suas cabeças. Deixe que o gás e o fogo os liquefaçam. Deixe que seus gritos se tornem inaudíveis. Faz parte da ordem do universo.

Enquanto eu, deitado só em meu canto, penso neles, suas mães gritam. O Judeu Errante vem exigir seu quinhão, mas sou eu o ventríloquo. Ai de mim! Ele vem me pegar. Ele vai me colocar no saco e me levar embora, e cobrar meu peso em ouro. Enquanto Seu Lobo não vem, me preparo para submergir. A escuridão se torna menos espessa, a luz mais próxima. E quando aliviado surjo para o sol e o ar puro, estou pisando numa pasta grudenta e amorfa de judeus mortos.

Meus olhos se rasgam ofegantes, as pálpebras para cima e para baixo, emitindo intermitentes o ar, reminiscência da respiração presa, indecisa. A cama está encharcada. Levanto devagar, desgrudando minhas costas do pano empapado. Abro a janela, sem força, e de cueca começo a passear no escuro. O piso parece mole, mas uma revigorante brisa me envolve. Alcanço o aparador, e começo a verter água de uma garrafa que ali repousava para o copo.

Levo o recipiente aos lábios, e deito neles a água fresca. No silêncio monótono, um estampido vem interromper a ordem. Uma porta batendo, forte. Engasgo. Deixo o copo e, rápido, alcanço meu quarto. A porta fechada me encara, como se de seus umbrais pudesse me desafiar. Receoso, giro a maçaneta e lanço um olhar para dentro do quarto. As cortinas esvoaçantes me indicam o agente da comoção.

Balanço a cabeça, repreendendo-me por uma preocupação de natureza tão idiota. Fecho a janela e volto a deitar. Deixo meus músculos relaxarem e meus membros se acomodarem no colchão. Só então fecho os olhos, e me entrego ao sono. Ele, contudo, não vem me levar. Fico esperando, de olhos fechados, mas parece inútil. Torno a abrir os olhos, e os fecho novamente. Reviro na cama, arrastando a colcha e os lençóis, mas continuo a não enxergar o sono se aproximando. Impaciente, entrego os pontos finalmente, e começo a mirar o teto, tentando encontrar algum carneiro para contar.

Ali, na insônia e na escuridão, ouço a casa gemer. As luzes estalam, o soalho apita, as portas uivam. E o sono não vem me levar. Só o que eu sinto são seus passos leves, passeando pela casa toda, trancando janelas e conversando com os móveis. Meus olhos tentam acompanhar sua caminhada invisível. Uma vez, e mais uma, e ainda outra, eles se voltam, para lá e para cá, buscando o som dos passos do sono. A perseguição os deixa exaustos. As hostes das pálpebras começam a avançar. A falange das pestanas vai fechando-se lentamente, enquanto o exército dos olhos despertos em perseguição vai sendo derrotado, soldado por soldado, até que as duas fileiras se encontram... e um estampido forte as faz recuar.

Como se estivesse emergindo de um afogamento, salto da cama quase a me debater. O susto e o movimento brusco fizeram meu coração disparar em cavalgada. Deixo para ir atrás dele depois, e opto por acender as luzes. Elas permanecem frias, contudo, decerto obra do destino cruel, e novamente perco o controle. Dessa vez, foram meus dedos que começaram a fugir de meus comandos. O coração relinchou mais forte, também, e os joelhos por um instante vergaram.

Prossegui, todavia, tateando pelas paredes na escuridão, muito silenciosamente, buscando ouvir algum movimento, algum indício da origem do barulho. Ao me aproximar da sala, antevejo uma estranha luminosidade, como se a porta estivesse aberta para a noite. Ainda mais lentamente, dou outro passo, com as mãos arrastando-se pelas paredes indivisíveis. Meus dedos trêmulos se soltam e voltam a descer sobre a superfície desconhecida, e os pés vão languidamente perseguindo sua orientação.

Quando estou a pouca distância de poder ver a sala e a fonte da estranha luminosidade, minha mão desce em falso e meu pé escorrega para a um buraco, disparando então a manada das minhas sensações. É como um estouro morro abaixo, o coração sendo arrastado e outros animais rolando junto a ele, e atropelando meus exércitos dos olhos e do nariz e da boca. Bato em várias quinas, sinto alguns animais agonizarem. Finalmente, com um baque apocalíptico, a disparada acaba. O coração está ferido, vários outros animais também. Meu rosto está pegajoso, ele sangra.

À medida que consigo restabelecer a ordem da manada e das tropas, arrasto-me, buscando algum apoio. Choco-me com alguns objetos, e mais lentamente ainda continuo. Minhas mãos doem muito, minha língua está inchada. Acho que a mordi. Finalmente, encontro uma parede, e largo meu corpo sobre ela.

Após alguns segundos de respiração e calma, meu coração volta a cavalgar em disparada. Ele está vindo me pegar, eu penso. Eu sei disso, por isso meu coração está fugindo. Ele me empurrou escada abaixo, e agora só espera ter certeza de onde estou para descer. Será um massacre. Ouço um degrau ranger, e eu sei do que se trata. O Judeu Errante me encontrou, e agora vem cobrar sua dívida.

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Encontraram o velho morto no porão pela manhã. Estava num estado deplorável, só de cueca e coberto de sangue coagulado. Pobre coitado, mal se mudara e acontece isso. Era alemão, ao que parece, mas ia de país para país há tempos. Caiu da escada, disseram. E, na escuridão, não conseguiu encontrar o caminho de volta.

quinta-feira, 5 de junho de 2008

Sem título.

Poesia não é nem nunca foi meu forte. Entretanto, dessa vez não pude resistir. Um surto criativo (demônio ou musa?) se apossou de mim e escrevi esse monte de versos de uma vez só. Por favor, não me peçam métrica, ordem ou rima... como eu falei, sou uma negação pra isso. Mas tentem apreciar a matéria bruta. Nem cheguei a revisar. Pus tudo no "papel" e agora boto aqui. Opinem por favor... nem que seja pra dizer que é a pior coisa sobre a qual já tiveram o desprazer de deitar os olhos. Aliás, seria realmente bom que alguém interessado sugerisse algumas alterações... eu sei lá, sempre há espaço para melhorar algo. Nesse caso, melhorar muito.

Ademais, preciso de uma título. Sugestões?

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Eu preciso do silêncio e do nada.
Preciso das noites ruidosas sem companhia
E das paredes altas e nuas, indiferentes
Ao tiritar dos meus ossos e meus olhos
Como pássaros empalhados e como
Porcos, chafurdando na lama.

Eu preciso da lama, e das esquinas.
E quero as grades se fechando
Enquanto a luz difusa oscila,
Fustigando meus olhos inocentes
Com seus laivos raivosos
De excitação juvenil.

Eu preciso de purgação e de fogo.
De espinhos que me firam a carne
E de remédio que saiba curar
A mácula dos meus pecados antigos,
Das minhas dúvidas primordiais,
Meus dilemas diluvianos.

Eu anseio por uma visão,
Por um sinal, com o qual
Triunfarei sobre todos os
Inimigos da terra e de mim,
Mantendo-os próximos até
A hora final, a hora das horas
Se reunirem e jogarem nas
Mãos do destino a decisão
Sobre as vidas e as mortes
Dos crentes e dos descrentes
Dos certos e dos indecisos
Dos eus e dos outros.

Eu preciso, e quero, te encontrar.
Seja por acaso, seja por obra
De algum artesão de passos,
Que nos esculpa os nossos
Na mais pura matéria da qual
Serão feitos os nossos sonhos.

E que nos esculpa também como colossos,
Nos dê envergadura própria de gigantes
E um ar e nobreza daqueles dos titãs.
Que nos diga que seríamos como os deuses,
Se não fôssemos tão humanos e tão mortais.
Como nunca houve nem haverá jamais.

E assim, brilhantes eternos e imortais,
Ascenderemos aos céus, envoltos
Por hostes sem número de anjos e fadas.
E seu véu será levado por miríades de ninfas,
E nossa carruagem será levada por
Cavalos flamívomos octópodes.

E nossa voz será o trovão, e nosso
Beijo o a concepção de mundos.
E nossos olhos se apertarão de espanto
E as mãos se abrirão de medo,
E o que era doce então se apagará,
E o fogo da memória futura já não será mais.

E seremos dragões, dragões alados
Com a luz do sol coroados
Pela espada de reis abençoados
E talvez percorramos juntos os ares imprecisos
E talvez mergulhemos juntos no mar bravio
E nadaremos, e ao frio mais estático desceremos
Continuando a nos fechar e morrer
Até afundarmos no lodo das profundezas.

terça-feira, 3 de junho de 2008

Asas do Desejo

Há filmes que, mais do que exercícios cinematográficos, são obras poéticas, que atingem um diferente patamar de criação artística. Asas do Desejo, uma obra-prima do diretor alemão Wim Wenders, é um desses filmes. Essa verve lírica é embasada pela presença do escritor Peter Handke no filme, escrevendo a maioria dos diálogos e o poema que constitui a linha de condução da história.

Mas, ao invés de diálogos, o certo seria dizer monólogos. Explico: Asas do Desejo é um filme sobre dois anjos, Damiel e Cassiel, (Bruno Ganz e Otto Sander, fantásticos), que “vigiam” a cidade de Berlim. Durante o dia, eles observam as pessoas, lendo seus pensamentos (daí o domínio dos monólogos interiores), e depois comentam as coisas que chamaram sua atenção. Damiel, porém, sente um forte desejo de se tornar humano, para poder sentir e participar ao invés de somente observar e saber. Esse desejo se torna ainda mais forte quando ele conhece Marion, uma trapezista de um circo que está prestes a ir embora da cidade.

Este filme não versa somente sobre o amor de um anjo por uma mortal. Essa imagem é só um símbolo do desejo de Damiel pela vida. Ele diz para Cassiel, no início do filme, que não quer mais saber de “infinito” ou “para sempre”, mas sim de “aqui” e “agora”. Por serem ilimitados, esses anjos vigilantes não têm identidade. Um indivíduo é um ser limitado no tempo e no espaço, são os limites que nos definem. Não os tendo, os anjos são somente conceitos vagos.

E Damiel anseia por essa identidade, ele deseja ardentemente saber como são as cores (numa sacada genial, Wenders fez o mundo dos anjos preto-e-branco e o dos homens colorido), como é sentir frio, o gosto do café, do cigarro. Mesmo tendo um alcance infinito, Damiel e Cassiel se debruçam, em suas vigílias diárias, sobre as pequenas coisas. O homem que olhou por cima dos ombros, a moça que se molhou na chuva... é isso que atrai a atenção desses espíritos elevados. É isso que os faz curiosos, por não possuírem, pois é isso que torna os humanos o que são.

Um dos cenários mais importantes do filme é a biblioteca de Berlim, um lugar excessivamente iluminado, como revela a primeira tomada dentro dela. Ali, os anjos se reúnem, para ouvir os pensamentos das pessoas silenciosas. Eles ouvem, também, o canto glorioso das musas, que brota dos livros e do ar e ilumina as cabeças curvadas. Mas há um homem ali que anda não só com a cabeça, mas com os ombros curvados.

Esse homem é muito velho, e caminha com muito esforço, apoiado em sua bengala. Seus pensamentos são os que mais trazem conotações políticas para o filme de Wenders, com seu passeio na Potzdammer Platz devastada e suas lembranças da guerra. Mas é ele, também, que traz um dos aspectos mais importantes do filme, em paralelo à importância das pequenas coisas: a tarefa do contador de histórias.

Seu nome, como é revelado nos créditos, é Homero. Cassiel comenta, no começo do filme, que viu um velho ler a Odisséia para uma criança fascinada. Seria ele? Provavelmente não. Homero lamenta que hoje as pessoas não se reúnam mais para ouvir o contador de histórias, mas, pelo contrário, se fechem em si mesmas lendo os livros e permaneçam solitárias, sem compartilhar a alegria de ouvir uma boa história. Ele deseja criar, em contraposição a seu homônimo (ou seria o velho o próprio Rapsodo grego?), um épico sobre a Paz, cuja inspiração nunca dura o suficiente para que os poetas a louvem como deveriam.

Homero representa, assim, junto aos pensamentos do taxista sobre as pessoas-estado, uma espécie de agonia da narrativa, que está acontecendo, pois as pessoas se isolam completamente, fazendo morrer a história, ou se matam umas às outras, morrendo assim elas mesmas. Numa frase-pensamento belíssima, exprimida quando ele se larga sobre uma poltrona no meio de um terreno devastado, ele diz que o Cantor Imortal perdeu seus ouvintes mortais e com eles a voz. Sem ter ninguém para quem cantar, seu dom simplesmente se esvaiu.

Dando fecho a várias dessas reflexões, uma outra constante está presente. As crianças são as únicas que conseguem ver os anjos, o que daria base para dizer que o filme prega semelhança entre os pequeninos e os seres celestiais. Porém, eu acredito que os anjos para Wenders são outros. Além de Cassiel e Damiel, os personagens principais do filme são todos artistas com um, digamos, toque angelical. Marion é uma trapezista, que se veste de anjo para suas apresentações. Peter Falk interpreta ele mesmo como o protagonista da série de TV Columbo, um ex-anjo (acho esta uma expressão melhor que anjo caído no contexto do filme) que ajuda Damiel em sua decisão. E temos o próprio Homero, que não é um anjo mas é talvez imortal, ou pelo menos um eco imortal.

E mais: o filme é dedicado a três dos maiores cineastas da história, que Wenders chama de anjos. Ou, em suas próprias palavras: “Dedicado a todos os ex-anjos, em especial Yasujiro [Ozu, cineasta japonês], François [Truffaut, cineasta francês] e Andrej [Tarkowski, cineasta russo].” A arte, assim, toma contornos celestiais, mas ao mesmo tempo, quando coloca os artistas como ex-anjos, é humana, demasiadamente humana, com uma ânsia incontornável de ser humana, conquanto sua origem seja divina.

E o filme termina, enfim, com a consumação do desejo de Damiel e a completude da solidão de Marion. Mas do amor deles nasce algo muito importante, a nova narrativa. Marion diz: “Não existe história maior que a nossa, a de um homem e uma mulher. Será uma história de gigantes. Invisível, contagiosa, uma história de novos ancestrais.” Fascinante não? Já que Wenders nos oferece uma viagem tão sensacional, não há como recusar. Pois então, embarquemos!

sábado, 31 de maio de 2008

Corrente

Corre, meu rio, e que seu fluxo liberte esse dilúvio que me arruína. Deixe ver sua cavalgada em branco azul e conceda que seu destino seja um somente, ainda que infinito. Vejo-te serpentear, e com minhas mãos cuidadosas toco sua correnteza. Sem demora, mergulho em sua alma líquida, mas do retorno só trago essas pálidas gotas, reminiscências de meu sonho azul.

Sua lembrança me persegue, e me alcança, e me assalta. Pronuncio seu nome, que é graça e rio, e repetidamente, e de novo, e outra vez, e não me canso, tamanho o deleite que a eufonia de tão simples palavra causa. Em meus ouvidos, em minha pele, em meus nervos mais profundos.

Como rio, flui você em toda a parte. É na nascente, é na foz, é rio no começo e no fim, essa imagem do tempo. Não há como esquecer, é impossível. Se por montanhas passeio, vejo suas águas brotarem de uma simples fonte para se tornarem um colosso indivisível. Se caminho na praia, contemplo seu estuário e seu fim, seu abandono nas águas maiores do paimardeus, e é colosso, inesquecível.

Mas eis que vagas me assaltam, e a ressaca do desencanto turva meus olhos, e me fere, e me acaba. E vejo seus olhos de rio em tudo, e teus cabelos de rio em tudo, e te vejo, rio e tudo, tanto em início como em fim, e não posso escapar da sua presença.

Rediviva, vem num turbilhão, e cobre tudo que eu alcanço, tornando azul o mundo. Ainda resisto atrás de barragens, mas elas logo se partem, e se liquefazem, e as águas invadem meu cativeiro, e você me inunda, e eu me afogo, e já não sou mais.

quarta-feira, 28 de maio de 2008

Veludo Azul

David Lynch é um dos mais criativos diretores americanos. Ele é especialmente conhecido por suas bizarrices, e por não fazer concessões. Trata de seus temas sem medo de arriscar, e possui uma grande capacidade de traduzi-los em imagens. Também

trabalha com ótimos atores, e os dirige magnificamente. É, em suma, um cineasta completo.

Em Veludo Azul, uma de suas obras-primas, as bizarrices e surrealismos que o tornaram famoso não estão presentes. O tom, porém, permanece sendo o do estranhamento, o do contato com o desconhecido. E é disso, afinal, que o filme trata.

Em sua cena inicial, vemos a câmera passear por uma cidadezinha americana, essas tradicionais de filme. Ela é quase irreal de tão perfeita: o caminhão dos bombeiros passa na rua, mas não para combater um incêndio e sim meramente fazendo ronda. Crianças atravessam calma e ordenadamente a linha de pedestres. Aqui, o azul é mais azul, o vermelho é mais vermelho, o verde é mais verde. Um senhorzinho rega sua grama com uma mangueira enquanto um cachorrinho brinca ao seu lado.

Nem tudo, porém, é alegria. Na sala, a mulher do homem vê filmes de violência e mistério. E, apesar de todo o clima pacífico, o velhinho tem um ataque cardíaco e desaba no gramado. A câmera então como que penetra na grama e chafurda, até encontrar um amontoado de besouros, ocultos numa semi-escuridão.

Depois disso, conheceremos as personagens: o filho do homem, que volta da universidade para ver seu pai, encontra em um terreno baldio uma orelha, e a leva para o xerife da cidade. Depois, reencontra a filha dele, amiga de infância, agora já crescida. Sua curiosidade sobre a orelha o levará finalmente a conhecer uma cantora e um criminoso demente, que o farão descobrir um mundo que ele jamais imaginou existir.

“It’s a strange world”, diz um dos personagens, no filme. Sim, é um mundo estranho, muito mais do que se poderia supor, e nele coexistem as pessoas mais estranhas. Sem fazer concessões, Lynch conta sua história de uma maneira profunda, forte, incômoda. Genial. Mas, após esse mergulho num mundo de trevas, todos voltam para a superfície, onde o final os reserva um melhor destino. Superados, pois, os dilemas desse mundo paralelo (chame-o como quiser), pode-se desfrutar mais uma vez do sol brilhante e do azul irreal, de tão azul.