segunda-feira, 8 de setembro de 2008
Top 10 - Filmes vistos por esse blog
Num certo clima de retrospectiva, faço aqui o ranking dos 10 filmes já analisados por mim no blog prediletos. As três primeiras posições são mesmos os filmes que eu mais adoro. Quanto aos outros, não sei dizer com certeza: a minha lista de filmes mais amados só é aumentada quando eu realmente tenho certeza do que estou fazendo. Não vou tecer comentários a respeito de cada filme: as críticas devem falar por si próprias. Dito isso, vamos a elas.
1. Apocalypse Now
2. Cinema Paradiso
3. 8 e 1/2
4. Asas do Desejo
5. O Sétimo Selo
6. Um Homem Com Uma Câmera
7. O Anjo Exterminador
8. Sangue Negro
9. Rocco e Seus Irmãos
10. WALL-E
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quinta-feira, 28 de agosto de 2008
O Leopardo
Enquanto isso, ouvimos o rumor de várias pessoas repetindo o que depois se descobre ser o terço, em latim. Uma família inteira, de joelhos, reza, mas logo uma gritaria do lado de fora da sala onde estão os incomoda, e o terço é encerrado. Vem então alguém trazer a notícia: há um soldado morto no jardim. E uma carta para o patriarca os alcança no mesmo momento. Trata-se de um outro nobre, que vai se refugiar com a própria família em um navio inglês, procurando segurança frente aos soldados de Garibaldi.
Sim, estamos na Sicília, no período do Risorgimento, e a aristocracia está com medo. Dom Frabrizio de Salina (Burt Lancaster, numa interpretação soberba) decide ir com a família para o feudo de Donnafugata, a fim de se protegerem de eventuais problemas com os rebeldes. Antes disso, porém, seu sobrinho, Tancredi (Alain Delon), dá a ele a notícia de que irá lutar ao lado de Garibaldi, e profere novamente a frase que já aparecera no início do filme: “É preciso que as coisas mudem de lugar para que permaneçam onde estão.”
Em Donnafugata, Fabrizio conhece Dom Calogero, um burguês riquíssimo, mas sem cultura, representante de uma classe nova, desconhecida. É com a filha de Calogero, Angélica (Claudia Cardinale), que Tancredi acabará por se casar. Eis aí, no casal, uma das imagens centrais do filme: a aristocracia pobre e decadente se unindo à burguesia rica e poderosa. Isso será tratado novamente, e com mais intensidade, na longa seqüência que fecha o filme, um grande baile onde burgueses e nobres dançam juntos, comem juntos, conversam, se unem, enfim, movem-se, saem de seus lugares, rearranjam suas posições, para que tudo, de maneira geral, possa permanecer como era antes.
O filme é esteticamente belíssimo. As paisagens parecem se expandir com os enquadramentos de Visconti, a música de Nino Rota parece ter existido junto ao filme desde o início dos tempos, e as atuações são todas perfeitas. Adaptado do romance de Giuseppe Tomasi di Lampedusa, O Leopardo não é inteiramente fiel ao livro. É, porém, uma obra extremamente pessoal de Visconti.
O tema da decadência, seu preferido, está impregnado em cada fotograma. Um clima de melancolia rege todo o filme. Enquanto acompanhamos os acontecimentos, estamos sempre olhando para eles com o olhar de Dom Fabrizio, um olhar abatido, triste, de mero espectador, impotente, consciente de sua própria derrocada. Perto do fim do baile, Fabrizio dança com Angélica, celebra a união de dois mundos, do novo e do velho, da vida e da morte, e depois se retira para o banheiro, onde, encarando o espelho, deixar cair uma lágrima. Sai então da festa e vai caminhando por vielas estreitas, até entrar num beco escuro e desaparecer na escuridão, levando junto a antiga ordem das coisas.
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domingo, 20 de janeiro de 2008
Rocco e Seus Irmãos
Dirigido pelo mestre italiano Luchino Visconti e estrelado por ícones como Alain Delon e Claudia Cardinale (numa participação mínima), o filme conta a história de uma mulher, Rosaria Parondi, que leva seus cinco filhos – Vincenzo, Simone, Rocco, Ciro e Luca – da Sicília para Milão, afim de que eles encontrem uma vida melhor. As coisas não começam muito bem, mas à medida que elas entram nos eixos começam a cair as pedrinhas que futuramente vão causar um terremoto, uma avalanche na vida de todos eles.
Esteticamente, o filme é perfeito. A fotografia em p&b é primorosa, e os ângulos, as tomadas, lembram inclusive a nouvelle vague. As atuações são impecáveis, a começar pela da lenda Alain Delon, pela primeira vez colaborando com o diretor italiano. A música também é primorosa, entrando para passar a emoção nos momentos de necessidade, e se ausentando quando fosse contrária aos propósitos da cena. A trilha foi composta pelo maestro Nino Rota, mas tem direito até a Tintarella di Luna no meio do filme.
O grande mérito do filme, porém, reside mesmo na história: a forma como ela é contada e tudo que ela envolve. Diversos questionamentos se sucedem, seguindo porém a óbvia máxima de que você não precisa contar o que está mostrando. A história, nua e crua, necessita somente de um pequeno esforço mental para interpretar o que nos atinge, para ir além da história pela história.
Os vícios e vicissitudes da cidade grande, em contraste com o campo, “terra do arco-íris”, se introduzem na vida dos irmãos, mas também não fazem nada mais do que atiçar o que já está dentro de cada um deles. Ele mostra, claramente, que “não importa o que fizeram com você, e sim o que você fez com o que fizeram com você.” Mostra, também, que o perdão e compreensão, as armas da justiça Divina, dos Santos, em contraponto à dos homens, podem, quando em excesso, fazer sucumbir de vez o perdoado.
O filme contrasta, finalmente, a desgraça e o sofrimento, a ruptura, o egoísmo, a violência, com a própria essência da família e a fraternidade. Como as atitudes de cada um em frente às atitudes de cada outro faz com que as atitudes de cada um mudem ou não e quais as conseqüências disso para os envolvidos. Complicado? Não liguem, é só um exercício de retórica. Palavras nunca traduzirão o que a imagem diz, e vice-versa, assim como traduzir a alma é um desafio que todos continuaremos nos impondo até o fim dos tempos, e além.
Ainda assim, arrisco dizer que Rocco e seus Irmãos realmente alcança a alma. Ele faz sentir, lá dentro, uma angústia tão profunda quanto indefinível. Ódio? Inconformidade? Tristeza mesmo? Como saber? No fundo, bem no fundo, todas as coisas se fundem, se mesclam. E é lá que esse filme vai tocar.
