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segunda-feira, 7 de dezembro de 2009

Todo Dia, XIII - Divagações

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CRIAÇÃO

Como do nada surge a existência? Todos têm sua teoria. O tempo antes do tempo e Deus nele. Superaquecimento de uma micropartícula. O Primeiro Sacrifício, gesto de Amor, Deus oferecendo seu corpo como matéria e criando o Universo. A explosão interminável que no antes vazio faz surgir tudo que há.

O Sacrifício é a toada universal, o leitmotiv da Realidade. Pois, assim como na árvore os galhos refletem as raízes, os motivos e cores da existência são reminiscências de sua Criação, ainda que transformadas pelo fluxo da mudança.

No Princípio era Ele e no entanto não havia nada. Ele imaginou dentro de si todas as almas, mas não podia dar-lhes Verdade. Colocou-se então à mercê do Nada e entregou-se à violência do Vazio. Foi esse o primeiro ato de Sacrifício, Ele o Primeiro Sacrificado, e então tudo houve.

De dentro de seu tesouro saíram todas as almas, e vieram habitar no aqui que existe. Foram crescendo, não houve éden ou dias que fossem , mas o lento escorrer daquelas almas pelos estágios casuais do Mundo que muda. Viveram, vivemos, quem sabe amanhã, todas elas, no Universo criado sobre o cadáver de Deus.
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quinta-feira, 19 de novembro de 2009

Todo Dia, VII - Divagações

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Não. O silêncio.

Meu corpo estendido na cama cheio de preguiça, o rosto contra o travesseiro, o braço esticado pelo prazer do movimento, o som alto que vem da TV, música e conversas e barulhos em vão. Está escuro no quarto mas ainda há som, o som da TV que entra pela porta aberta da sala iluminada, logo ali, onde ela se senta imóvel olhando para o brilho que brilha mais que a luz e vendo o som que aparece mais que o vento. Meu corpo, estendido na cama, sem nenhum corpo que o estenda de si.

Levanto, venho pelo corredor, aquele mesmo passo molenga, os ombros caídos, a corcunda ali mas sem mãe que diga “Olha a postura” ou qualquer um que comente “Erga os ombros!” Passo molenga e ombros caídos para através da porta de volta para o meu quarto, procurando afazeres para preencher o momento vazio. Amigos de sempre, os livros agora, nesse momento de desejo de movimento, não me agradam, palavras palavras palavras. Tento a poesia, mas também ela vai se arrastando pelos meus olhos até parar e uma canseira vir se abater sobre o coração.
As coisas que eu escrevo, dessas também já cansei, tantas vezes já lidas, raramente terminadas, deixe-as lá que é o lugar delas, paradas sem fim fracassadas por enquanto.

Penso nos meus fracassos, mas afasto esses pensamentos. Há sempre a incapacidade que nos ronda, ela ergue seu porrete e afasta qualquer um que deseje se aproximar. Estou aqui ainda, mas sozinho, não alcanço os que estão à distância de um braço porque... hein? Covardia fraqueza indecisão cansaço preguiça medo ou o quê?

Os dedos no teclado, as letras se escrevem. É noite. Estou aqui ainda, mas já-já vou embora. Passos de volta, passo molenga, a corcunda, ombros caídos. Ela ainda lá, parada, em frente ao brilho. Vou entrando pela porta aberta, no quarto escuro, mas sem silêncio. “Ei, criança, o que você tem?”

Não, nada.
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segunda-feira, 16 de novembro de 2009

Todo Dia, VI - Divagações

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Quem é você e o que você está fazendo, o que você está fazendo, o que você está fazendo? Quem é você e o que você está fazendo, o que você está fazendo, o que você está fazendo? Quem é você e o que você está fazendo, o que você está fazendo, está fazendo? Quem é você? O que você está fazendo? Quem é você e o que está fazendo?

Três pedras. Uma pra cima. Pra cima que sobe sobe sobe sobe. Uma pra baixo. Pra baixo que desce desce desce desce. Uma pra água que afunda e vibra e gira e dá a volta no mundo e polui os oceanos e macula os rios e transforma as águas em matéria negra e as areias em matéria bruta e dá vida e mata e mistura e faz um caldo pra surgir barro pra surgir lama pra você se arrastar para os seres se arrastarem para todos se arrastarem para se arrastar e dá a volta e vem por trás e te acerta na cabeça te matando num esguicho de sangue. Uma pedra.

Dois livros. Um para ler e um para queimar. Um para ler para abri-lo e seguir suas páginas e página após página seguindo-o e suas letras e suas leituras um livro grande como não sei se existe enorme muito grande mesmo mal dá pra carregar mal consigo vê-lo por inteiro um livro que eu abro e sigo para você abrir e seguir mas é muito grande mal dá pra vê-lo ou carregá-lo e me engole. Um para queimar pequenino assim de bolso como um papel amassado uma nota fiscal já sem serventia que você tira do bolso de trás e joga ao fogo displicentemente assim como se jogasse uma moeda em uma fonte ou para uma criança ou um mendigo você joga o livro pega no bolso de trás e nem olha para ele só joga no fogo e num instante de luz ardente ele pisca e desaparece assim uma faísca tão rápido que mal dá pra ver mas o fogo apaga e sobram cinzas e a chuva molha e o vento sopra e as letras as letras tão negras no fundo branco do papel como no fundo negro das cinzas elas se levantam e se reúnem e vêm rastejantes até onde você dorme e sobem pelos pés da cama e sobem pelos seus pés e seus pés são meus e as letras me envolvem e me agarram e me engolem. Um livro.

Um mundo. Não seremos como os deuses, não somos, não somos mais. A seta flamejante aponta a saída, e cabisbaixos com vergonha vamos andando, sim, de cabeça baixa, nus, devagar, sim, é noite mas quase dia é a hora mágica e vêm os raios e vem o sol e vem a luz e já não é noite. E eu levanto a cabeça e você e levanto os olhos e vejo que Ele, a partir de agora e para todo o sempre, está à nossa frente. Um mundo.

Mas quem é você e o que você está fazendo?
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quinta-feira, 22 de outubro de 2009

Todo Dia, II - Divagações

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Vou criar um novo movimento, a estética do fragmento, baseado nas obras de Eliot, Cortázar e Perec, e nas Mil e Uma Noites. Nosso lema será “Bons artistas copiam, grandes artistas roubam.”, proferida no passado incerto por Pablo Picasso, portanto fundador avant la lettre do movimento. Se houver qualquer coisa, dentre os nosso escritos, que se aproxime de uma unidade total, pretendida, não baseada na multiplicidade caótica das formas, ela será apagada, destroçada, desmembrada em mil pedaços e depois enfiada nos cantos mais inadequados de tudo quanto nos for soprado pelas musas invisíveis. Esse movimento não terá dono, nem nome adequado, cada um o chamará como achar conveniente. Muitos dirão a arte dos pilantras, alguns o ofício dos não-criativos, outros ainda ourivesaria de destroços, mas se foi em fragmentos que TS escorou suas ruínas, tudo é ruína, o mundo é ruína, e não olhamos para o futuro sobre os ombros de gigantes, mas sobre o empilhamento dos destroços de nossos antepassados.

Vejo agora pois à minha frente os dias de glória, recebidos com serenidade e têmpera pelo meu temperamento temperado. Três, quatro dias de supremo ócio, ainda que as preocupações do futuro – sempre incerto – ainda se abatam, de leve, sobre mim. Verei as sombras elétricas, os espectros coloridos dos mortos, vivendo histórias que não as deles, usando vozes que não as suas, somente a aparência igual, quase igual na verdade, desde aquele instante e para sempre perdida, posto que no seguinte momento já se tem outra.
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sexta-feira, 16 de outubro de 2009

Todo Dia, I - Divagações

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Tenho vontade de escrever mas não posso pois minhas mãos estão atadas pelo peso das ambições. Começo mil e uma coisa mas elas não passam da primeira linha, ou do primeiro parágrafo, ou da primeira página. Meu computador, minha caixa de escritos, é um amontoado de textos mortos, iniciados num instante de empolgação, de inspiração, de fúria criativa, e abandonados ao primeiro sopro da brisa fria da falta de idéias, do medo de errar, da preguiça. Ambição, arrogância, procrastinação: atam-me as mãos. Quero muito, inicio querendo muito, ambicionando tudo. Mas logo paro e então ali fico, por medo de continuar, por medo de não conseguir atender à minha ambição e destruir minha obra, pois o uma vez escrito, por arrogância, ou ainda algum outro medo que desconheço, permanece escrito. Assim, aliada à preguiça, minha ambição alimenta a procrastinação, que, como muito bem dito pelo japonês voador, se como masturbação no começo é bom, logo percebe-se que só se está fodendo a si mesmo. Num rampante ataco o texto, e o desfio, e o termino. Mas ele me parece agora muito abaixo do que deveria ser, do que poderá ter sido, do que eu queria que fosse. Mas é isso, escrever é necessário. Digo:

- Meus diálogos são uma merda.

Ela diz:

- Então não escreva diálogos.

Tão simples. Mas e se eles forem necessários? E se for necessário criar tensão através deles, mostrar uma alma, discutir idéias? E se eles forem inescapáveis, o que fazer? Simples, deixe-os fluir, deixe a escrita fluir, deixe tudo fluir. Que fique um lixo. Depois você pode começar de novo, você pode apagar o passado e escrever ainda uma vez (a última antes da próxima) como se você nunca tivesse escrito. É assim que farei, doravante: sem planejar, somente ir. Aqui vou despejar meu anseio pelas palavras. Sentado, os dedos atacando as teclas, e o resultado oculto, escondido do mundo, pela vergonha de ser ruim ou de ser bom, pior ainda. (Mas não tenho coragem, o revelo por ansiedade, vontade de resposta)

Digamos, por que não ater-me à narrativa dos fatos cotidianos, tão naturalmente providos de profundidade, realidade e beleza? É o que aconteceu, através de meus olhos ainda incertos, ainda indecisos, ainda travados pelo que há de sistemático em mim, mas que buscam saber o que olhar. Para onde dirigir o meu olhar? Para o que acontece agora, o que acontecerá, talvez, ou para o que já aconteceu mas mal me lembro?

- Bom dia.

Treinarei diálogos. É o que disse ele ao sorrir-me de manhã.

- Bom dia, tudo bom?

- Tudo tranqüilo.

- Vocês vão pra Bariloche depois de amanhã, né?

Ainda é difícil reproduzir a verdade, várias vozes se sobrepõe na minha lembrança. Vou removê-las, não as quero mais aqui, somente as palavras fictícias, que revelem o sentido real, assim seja!

- Vou, o ônibus sai daqui 5 horas.

- Hahaha, vocês vão de ônibus pra Bariloche?

- Hahahah, é, isso ae...

- Viagenzinha longa hein?

- Pois é, minha irmã falou que daqui até Buenos Aires dá umas 35 horas.

- Então porra, Bariloche é lá no cu da Patagônia... deve dar uns três dias de viagem se o ônibus
não parar um segundo.

- Sim... mas melhor isso que a classe econômica de um avião por 4 horas.

Ué, costumava ser mais difícil. Será que é porque eu tenho essa mania “cinematográfica” de descrever cada movimento facial, cada expressão de sentimento dos locutores? Sim, porra. Por que você não deixa as porcarias das falas falarem pelos personagens? Você não precisa descrever tudo, isso não é cinema, é literatura, caralho, são palavras, PALAVRAS, você só tem que escrever, dizer o que eles dizem, não criar imagens clichê de seus rostos contorcidos.
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