segunda-feira, 30 de junho de 2008

Doises

Rofrigows e Biel na pegada indie. Gravação surpreendentemente boa, confiram!

http://www.youtube.com/watch?v=iW9siEoyQXA

http://www.youtube.com/watch?v=fHhvUwz9CWk

segunda-feira, 23 de junho de 2008

Stat Roma pristina nomine, nomina nuda tenemus

Os maias diziam que, de longe, o mar parece azul, mas de perto é verde. Que as montanhas também parecem de longe azuis mas são de perto verdes. Logo, se o céu de longe nos é azul, deve ser na verdade verde. Essa visão poderia ser mais associada por alguns a uma percepção das cores, visto que para muitos o mar é transparente ou da côr-que-o-céu-fôr, as montanhas são marrons e o céu nem cor tem, pois não é uma coisa em si. Contudo, há outros tipos de reflexão para se fazer a esse respeito. Afinal, o céu é azul ou é de uma cor que chamamos azul? Se o céu fosse da cor que chamamos verde, nós o diríamos verde ou chamaríamos a cor de azul?

Em outra palavras: o nome pertence à coisa ou é a coisa que pertence ao nome? O nome existe como coisa concreta ou ele é simplesmente um símbolo associado a um conceito? Shakespeare se questionou sobre o valor do nome (“O que há num nome?”). Já Bernardo Morliacense, monge beneditino do século XII, em seu poema “De Contemptu Mundi”, afirma que fora o nome nada nos resta.

De fato, é uma idéia interessante. Se Platão se perguntou se havia uma qualidade inerente à coisa, por que não nos questionarmos se há um nome inerente a ela? O que nos leva a chamar uma cor de vermelho e outra de azul? Pode-se argumentar que o céu é da cor que em português se chama azul, mas que em inglês é blue, em francês é bleu, em alemão é blau, etc., logo não há nome, e sim cor. Mas igualmente pode-se dizer que são meras manifestações diferentes de uma mesma sensação. Por exemplo: o azul é frequentemente associado à tristeza, o vermelho ao perigo, etc.

É claro que no fim é só dizer que o nome é uma forma de comunicação, e as nossas reações às cores uma questão evolutiva, e as cores uma ilusão, posto que só vemos um espectro que não é absorvido, e que a própria existência é uma ilusão, composta majoritariamente por vazio. Mas isso tira todo o romantismo da coisa.

E se a coisa já tem afinal um nome e uma qualidade, não há porque não conceder a ela também um pouco de romantismo. As cinzas dos ancestrais já viraram cinzas de cinzas. Contudo, alguns de seus nomes ainda sobrevivem. O José, que é “dono da padaria”, é também afinal de contas um ser humano. Vamos conceder a ele algo em que se apoiar?

segunda-feira, 16 de junho de 2008

O dia em que o romance morreu

Este post faz parte do Bloom-Blogsday, um evento que busca festejar a obra de James Joyce, especialmente o Ulisses, na blogosfera brasileira. Estando esse ano na quarta edição, o evento consiste em diversas postagens sobre o tema em diversos blogs, com o intuito de divulgar e comemorar neste dia a própria literatura. Para mais informações, visitem o Odisséia Literária, que é o grande vértice do acontecimento.


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Há 104 anos, neste mesmo dia, estava acontecendo algo que mudaria para sempre a história da literatura. Era um acontecimento ínfimo, imperceptível, como uma pedrinha jogada num lago, mas cujas ondas se espalhariam lentamente até que, chegando às margens, já seriam vagas imponentes. Tratava-se do enlace amoroso entre duas pessoas, James Joyce e Nora Barnacle, que ao praticar aquele coito incompleto, não imaginavam que seriam, um século depois, objeto de observação de pessoas como eu e você, meu caro leitor.

Naquele 16 de Junho de 1904, uma quinta-feira, James fez-se homem e Nora, mulher. Alguns anos depois, ele escolheria a data para situar a ação de um dos maiores romances de todos os tempos, o “romance para acabar com os romances”, Ulisses. Passado nesse único dia, o livro gira basicamente em torno de três personagens: Leopold Bloom, que sabe que sua mulher, Molly Bloom, o trairá com o empresário naquele dia, e fica a perambular pela cidade, visitando pubs, restaurantes, o hospital e a biblioteca da cidade, entre outros lugares. Ao fim do dia, ele encontra Stephen Dedalus, que acolhe e ajuda como a um filho.

Nesse percurso, contudo, dezenas, até centenas de personagens se interporão no caminho, e as mais diversas situações serão narradas. A obra tem um lado extremamente popular e obsceno, que levou-a a ser proibida em diversos países, retratando as mais diversas perversões e hábitos íntimos que a literatura dificilmente se propõe a narrar, mas que são tão comuns como respirar: Leopold flatula, defeca (peida... caga...), se masturba, tem sonhos com estátuas de pedra de deusas... enfim, nada que um ser humano normal não faça.

Está aí um dos aspectos mais importantes da obra: ser uma extraordinária comédia humana, que reinaugura o realismo. O crítico Edmund Wilson disse que Ulisses é “talvez a mais fiel radiografia já feita da consciência humana”. De fato, todos os personagens que passam pelas páginas (muitos saídos da vida real de Dublin) são palpáveis, encorpados, eles nos dão a impressão de existir. Outra faceta extremamente humana é o estilo de narração pontuado por monólogos interiores, cheio de impressões, desde as completamente instintivas e emocionais até as mais racionais e criteriosas.

Por outro lado, a obra tem um aspecto completamente erudito e mitológico. Sendo uma grande paródia, o livro condensa uma quantidade imensa de referências e nos permite inúmeras associações. Como foi revelado por Wilson em seu ensaio sobre o romance, Ulisses leva esse nome por ser estruturado em cima da Odisséia, de Homero. Na infância, Joyce escreveu um ensaio intitulado “Meu Herói Preferido”, sobre o Ulisses da Odisséia. Depois, com o pensamento amadurecido, diria que ele é o mais completo herói clássico, por ser “filho de Laerte, pai de Telêmaco, marido de Penélope, amante de Calipso, companheiro de armas dos guerreiros em Tróia e rei de Ítaca.”

Assim, os dezoito capítulos do livro têm uma correspondência em algum episódio da Odisséia, e associados a si uma cor, arte ou ciência e órgão do corpo humano. Mas esse é somente um dos níveis de paródia. O primeiro capítulo, por exemplo, também parodia o Hamlet de Shakespeare. Cada capítulo, por sinal, é uma obra-prima em si. Escritos cada um em um estilo diferente, mimetizam a história da língua inglesa e da própria cultura ocidental. Esse estilo caleidoscópico de referências influenciou grandemente o modernismo do século XX e uma gama imensa de autores deve suas obras a Joyce.

A recepção inicial à obra não foi das melhores, mas esse é mesmo o destino das grandes coisas. Os leitores em geral não estavam preparados para tamanha sinceridade obscena, para tamanho volume de referências e para o estilo de narração de Joyce. Os monólogos interiores, que constituem o elemento principal de narração da obra, foram recebidos com estranhamento, e ninguém entendeu nada. Entretanto, a partir do ensaio de Wilson e da defesa do livro por alguns apaixonados, ela acabou conquistando todos os que se aventuravam a enfrentá-la. Pois, se Ulisses não é uma leitura difícil, é uma leitura exigente, que pede do leitor que mergulhe e se abandone em suas páginas. Embora se referisse mais ao Finnegans Wake, vale aqui também a máxima de Joyce segundo a qual seu leitor ideal teria uma insônia ideal.

No Brasil, o livro ganhou já duas traduções publicadas. A primeira, de Antônio Houaiss, não li ainda, mas diz-se que tornou ainda mais hermético o texto de Joyce, tornando-o por demais sisudo e matando seu lado bufão. A segunda, de Bernardina da Silveira Pinheiro, é mais coloquial e se aproxima do tom de Joyce, mas peca na tradução de alguns jogos de palavras e trocadilhos. Há uma terceira, em vias de ser publicada, de Caetano Waldrigues Galindo, que aparentemente mantém o tom jocoso da obra e também seu aspecto de riqueza lexical e lingüística.

De qualquer modo, vale sempre buscar a leitura no original, pois Joyce foi um gênio de envergadura inigualável, e não há nada como ouvir suas próprias palavras. Ulisses, quando foi lançado, em 1922, pode sim ter acabado com o romance. Ao levar a literatura aos últimos limites, eliminando inclusive a figura do narrador nos dois últimos capítulos de Ulisses, e posteriormente construindo algo ainda indecifrável no Finnegans Wake, Joyce de fato matou o romance. Mas ele imediatamente ressuscitou. Mais do que cometer um crime, esse gênio expandiu os limites do que conhecemos como literatura, e permitiu que ainda por alguns séculos busquemos as próximas margens, até que venha um novo gênio para alargá-las novamente. Nesse Bloomsday, comemoramos a vinda ao mundo desse “Livro Azul inutilmente ilegível ". Ora, nada melhor para festejar um livro do que lê-lo. Vamos então dizer sim à verdade da vida humana e da arte e, quando te perguntarem se você quer ler o Ulisses, responder “yes i will Yes”.

quarta-feira, 11 de junho de 2008

Uma Certa Paranóia

Bah, tudo bem que o poema tava horrível, mas não precisava esnobar também... alguma alma caridosa podia ter dito algo sobre ele. Enfim, só de raiva vou colocar um negócio aqui pior ainda. Topam?

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Hitler e Stalin, redivivos, saltam das paredes e me encaram. Sorrisos doentios em suas caras febris, suas mãos largas balançando alicates à minha frente. Eu ouço as almas dos judeus gritarem nos fornos. Seus corpos estrebucharem sob o peso do gás. Os inimigos do regime serem fuzilados. Um, dois, três. Todos eles com suas cabeças cortadas e as orelhas direitas em sacos, para efeito de contabilidade. A morte de milhões é estatística.

O Judeu Errante agarra meu pé. Veio cobrar a dívida. Ele conhece meus sonhos. Trinta moedas de prata e um corpo pendulando de um lado para o outro. Sua pele é do amarelo da vergonha, mas a imagem é difusa. Os olhos embotados querem se aproximar, mas um movimento de minhas pernas o repele. Ele sai correndo, sua corcunda inominável, pés tortos, um saco de riquezas nos ombros.

Na névoa, eu chocalho minha cabeça, tento derrubar esses pensamentos ruins. Ai deles. Tão perseguidos, tão sofredores, a troco de nada. Foram tirados das terras da servidão, e expulsos da terra prometida. E tiveram que sacrificar seus filhos ao novelo de ouro e daí nasceu o Belo Povo. Eu os vejo em festa, pulando alegres, comemorando em círculos. Cobertos de leite e mel, em rejúbilo, sorrisos reluzentes.

Mas o leite e o mel escarlateiam, numa vermelhidão pegajosa. Sobre eles, cimitarras e montantes e homens explodindo. Tirem-lhes os bancos, tirem-lhes os bens, tirem-lhes os filhos. Deixe que a Gloriosa Legião marche sobre suas cabeças. Deixe que o gás e o fogo os liquefaçam. Deixe que seus gritos se tornem inaudíveis. Faz parte da ordem do universo.

Enquanto eu, deitado só em meu canto, penso neles, suas mães gritam. O Judeu Errante vem exigir seu quinhão, mas sou eu o ventríloquo. Ai de mim! Ele vem me pegar. Ele vai me colocar no saco e me levar embora, e cobrar meu peso em ouro. Enquanto Seu Lobo não vem, me preparo para submergir. A escuridão se torna menos espessa, a luz mais próxima. E quando aliviado surjo para o sol e o ar puro, estou pisando numa pasta grudenta e amorfa de judeus mortos.

Meus olhos se rasgam ofegantes, as pálpebras para cima e para baixo, emitindo intermitentes o ar, reminiscência da respiração presa, indecisa. A cama está encharcada. Levanto devagar, desgrudando minhas costas do pano empapado. Abro a janela, sem força, e de cueca começo a passear no escuro. O piso parece mole, mas uma revigorante brisa me envolve. Alcanço o aparador, e começo a verter água de uma garrafa que ali repousava para o copo.

Levo o recipiente aos lábios, e deito neles a água fresca. No silêncio monótono, um estampido vem interromper a ordem. Uma porta batendo, forte. Engasgo. Deixo o copo e, rápido, alcanço meu quarto. A porta fechada me encara, como se de seus umbrais pudesse me desafiar. Receoso, giro a maçaneta e lanço um olhar para dentro do quarto. As cortinas esvoaçantes me indicam o agente da comoção.

Balanço a cabeça, repreendendo-me por uma preocupação de natureza tão idiota. Fecho a janela e volto a deitar. Deixo meus músculos relaxarem e meus membros se acomodarem no colchão. Só então fecho os olhos, e me entrego ao sono. Ele, contudo, não vem me levar. Fico esperando, de olhos fechados, mas parece inútil. Torno a abrir os olhos, e os fecho novamente. Reviro na cama, arrastando a colcha e os lençóis, mas continuo a não enxergar o sono se aproximando. Impaciente, entrego os pontos finalmente, e começo a mirar o teto, tentando encontrar algum carneiro para contar.

Ali, na insônia e na escuridão, ouço a casa gemer. As luzes estalam, o soalho apita, as portas uivam. E o sono não vem me levar. Só o que eu sinto são seus passos leves, passeando pela casa toda, trancando janelas e conversando com os móveis. Meus olhos tentam acompanhar sua caminhada invisível. Uma vez, e mais uma, e ainda outra, eles se voltam, para lá e para cá, buscando o som dos passos do sono. A perseguição os deixa exaustos. As hostes das pálpebras começam a avançar. A falange das pestanas vai fechando-se lentamente, enquanto o exército dos olhos despertos em perseguição vai sendo derrotado, soldado por soldado, até que as duas fileiras se encontram... e um estampido forte as faz recuar.

Como se estivesse emergindo de um afogamento, salto da cama quase a me debater. O susto e o movimento brusco fizeram meu coração disparar em cavalgada. Deixo para ir atrás dele depois, e opto por acender as luzes. Elas permanecem frias, contudo, decerto obra do destino cruel, e novamente perco o controle. Dessa vez, foram meus dedos que começaram a fugir de meus comandos. O coração relinchou mais forte, também, e os joelhos por um instante vergaram.

Prossegui, todavia, tateando pelas paredes na escuridão, muito silenciosamente, buscando ouvir algum movimento, algum indício da origem do barulho. Ao me aproximar da sala, antevejo uma estranha luminosidade, como se a porta estivesse aberta para a noite. Ainda mais lentamente, dou outro passo, com as mãos arrastando-se pelas paredes indivisíveis. Meus dedos trêmulos se soltam e voltam a descer sobre a superfície desconhecida, e os pés vão languidamente perseguindo sua orientação.

Quando estou a pouca distância de poder ver a sala e a fonte da estranha luminosidade, minha mão desce em falso e meu pé escorrega para a um buraco, disparando então a manada das minhas sensações. É como um estouro morro abaixo, o coração sendo arrastado e outros animais rolando junto a ele, e atropelando meus exércitos dos olhos e do nariz e da boca. Bato em várias quinas, sinto alguns animais agonizarem. Finalmente, com um baque apocalíptico, a disparada acaba. O coração está ferido, vários outros animais também. Meu rosto está pegajoso, ele sangra.

À medida que consigo restabelecer a ordem da manada e das tropas, arrasto-me, buscando algum apoio. Choco-me com alguns objetos, e mais lentamente ainda continuo. Minhas mãos doem muito, minha língua está inchada. Acho que a mordi. Finalmente, encontro uma parede, e largo meu corpo sobre ela.

Após alguns segundos de respiração e calma, meu coração volta a cavalgar em disparada. Ele está vindo me pegar, eu penso. Eu sei disso, por isso meu coração está fugindo. Ele me empurrou escada abaixo, e agora só espera ter certeza de onde estou para descer. Será um massacre. Ouço um degrau ranger, e eu sei do que se trata. O Judeu Errante me encontrou, e agora vem cobrar sua dívida.

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Encontraram o velho morto no porão pela manhã. Estava num estado deplorável, só de cueca e coberto de sangue coagulado. Pobre coitado, mal se mudara e acontece isso. Era alemão, ao que parece, mas ia de país para país há tempos. Caiu da escada, disseram. E, na escuridão, não conseguiu encontrar o caminho de volta.

quinta-feira, 5 de junho de 2008

Sem título.

Poesia não é nem nunca foi meu forte. Entretanto, dessa vez não pude resistir. Um surto criativo (demônio ou musa?) se apossou de mim e escrevi esse monte de versos de uma vez só. Por favor, não me peçam métrica, ordem ou rima... como eu falei, sou uma negação pra isso. Mas tentem apreciar a matéria bruta. Nem cheguei a revisar. Pus tudo no "papel" e agora boto aqui. Opinem por favor... nem que seja pra dizer que é a pior coisa sobre a qual já tiveram o desprazer de deitar os olhos. Aliás, seria realmente bom que alguém interessado sugerisse algumas alterações... eu sei lá, sempre há espaço para melhorar algo. Nesse caso, melhorar muito.

Ademais, preciso de uma título. Sugestões?

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Eu preciso do silêncio e do nada.
Preciso das noites ruidosas sem companhia
E das paredes altas e nuas, indiferentes
Ao tiritar dos meus ossos e meus olhos
Como pássaros empalhados e como
Porcos, chafurdando na lama.

Eu preciso da lama, e das esquinas.
E quero as grades se fechando
Enquanto a luz difusa oscila,
Fustigando meus olhos inocentes
Com seus laivos raivosos
De excitação juvenil.

Eu preciso de purgação e de fogo.
De espinhos que me firam a carne
E de remédio que saiba curar
A mácula dos meus pecados antigos,
Das minhas dúvidas primordiais,
Meus dilemas diluvianos.

Eu anseio por uma visão,
Por um sinal, com o qual
Triunfarei sobre todos os
Inimigos da terra e de mim,
Mantendo-os próximos até
A hora final, a hora das horas
Se reunirem e jogarem nas
Mãos do destino a decisão
Sobre as vidas e as mortes
Dos crentes e dos descrentes
Dos certos e dos indecisos
Dos eus e dos outros.

Eu preciso, e quero, te encontrar.
Seja por acaso, seja por obra
De algum artesão de passos,
Que nos esculpa os nossos
Na mais pura matéria da qual
Serão feitos os nossos sonhos.

E que nos esculpa também como colossos,
Nos dê envergadura própria de gigantes
E um ar e nobreza daqueles dos titãs.
Que nos diga que seríamos como os deuses,
Se não fôssemos tão humanos e tão mortais.
Como nunca houve nem haverá jamais.

E assim, brilhantes eternos e imortais,
Ascenderemos aos céus, envoltos
Por hostes sem número de anjos e fadas.
E seu véu será levado por miríades de ninfas,
E nossa carruagem será levada por
Cavalos flamívomos octópodes.

E nossa voz será o trovão, e nosso
Beijo o a concepção de mundos.
E nossos olhos se apertarão de espanto
E as mãos se abrirão de medo,
E o que era doce então se apagará,
E o fogo da memória futura já não será mais.

E seremos dragões, dragões alados
Com a luz do sol coroados
Pela espada de reis abençoados
E talvez percorramos juntos os ares imprecisos
E talvez mergulhemos juntos no mar bravio
E nadaremos, e ao frio mais estático desceremos
Continuando a nos fechar e morrer
Até afundarmos no lodo das profundezas.

terça-feira, 3 de junho de 2008

Asas do Desejo

Há filmes que, mais do que exercícios cinematográficos, são obras poéticas, que atingem um diferente patamar de criação artística. Asas do Desejo, uma obra-prima do diretor alemão Wim Wenders, é um desses filmes. Essa verve lírica é embasada pela presença do escritor Peter Handke no filme, escrevendo a maioria dos diálogos e o poema que constitui a linha de condução da história.

Mas, ao invés de diálogos, o certo seria dizer monólogos. Explico: Asas do Desejo é um filme sobre dois anjos, Damiel e Cassiel, (Bruno Ganz e Otto Sander, fantásticos), que “vigiam” a cidade de Berlim. Durante o dia, eles observam as pessoas, lendo seus pensamentos (daí o domínio dos monólogos interiores), e depois comentam as coisas que chamaram sua atenção. Damiel, porém, sente um forte desejo de se tornar humano, para poder sentir e participar ao invés de somente observar e saber. Esse desejo se torna ainda mais forte quando ele conhece Marion, uma trapezista de um circo que está prestes a ir embora da cidade.

Este filme não versa somente sobre o amor de um anjo por uma mortal. Essa imagem é só um símbolo do desejo de Damiel pela vida. Ele diz para Cassiel, no início do filme, que não quer mais saber de “infinito” ou “para sempre”, mas sim de “aqui” e “agora”. Por serem ilimitados, esses anjos vigilantes não têm identidade. Um indivíduo é um ser limitado no tempo e no espaço, são os limites que nos definem. Não os tendo, os anjos são somente conceitos vagos.

E Damiel anseia por essa identidade, ele deseja ardentemente saber como são as cores (numa sacada genial, Wenders fez o mundo dos anjos preto-e-branco e o dos homens colorido), como é sentir frio, o gosto do café, do cigarro. Mesmo tendo um alcance infinito, Damiel e Cassiel se debruçam, em suas vigílias diárias, sobre as pequenas coisas. O homem que olhou por cima dos ombros, a moça que se molhou na chuva... é isso que atrai a atenção desses espíritos elevados. É isso que os faz curiosos, por não possuírem, pois é isso que torna os humanos o que são.

Um dos cenários mais importantes do filme é a biblioteca de Berlim, um lugar excessivamente iluminado, como revela a primeira tomada dentro dela. Ali, os anjos se reúnem, para ouvir os pensamentos das pessoas silenciosas. Eles ouvem, também, o canto glorioso das musas, que brota dos livros e do ar e ilumina as cabeças curvadas. Mas há um homem ali que anda não só com a cabeça, mas com os ombros curvados.

Esse homem é muito velho, e caminha com muito esforço, apoiado em sua bengala. Seus pensamentos são os que mais trazem conotações políticas para o filme de Wenders, com seu passeio na Potzdammer Platz devastada e suas lembranças da guerra. Mas é ele, também, que traz um dos aspectos mais importantes do filme, em paralelo à importância das pequenas coisas: a tarefa do contador de histórias.

Seu nome, como é revelado nos créditos, é Homero. Cassiel comenta, no começo do filme, que viu um velho ler a Odisséia para uma criança fascinada. Seria ele? Provavelmente não. Homero lamenta que hoje as pessoas não se reúnam mais para ouvir o contador de histórias, mas, pelo contrário, se fechem em si mesmas lendo os livros e permaneçam solitárias, sem compartilhar a alegria de ouvir uma boa história. Ele deseja criar, em contraposição a seu homônimo (ou seria o velho o próprio Rapsodo grego?), um épico sobre a Paz, cuja inspiração nunca dura o suficiente para que os poetas a louvem como deveriam.

Homero representa, assim, junto aos pensamentos do taxista sobre as pessoas-estado, uma espécie de agonia da narrativa, que está acontecendo, pois as pessoas se isolam completamente, fazendo morrer a história, ou se matam umas às outras, morrendo assim elas mesmas. Numa frase-pensamento belíssima, exprimida quando ele se larga sobre uma poltrona no meio de um terreno devastado, ele diz que o Cantor Imortal perdeu seus ouvintes mortais e com eles a voz. Sem ter ninguém para quem cantar, seu dom simplesmente se esvaiu.

Dando fecho a várias dessas reflexões, uma outra constante está presente. As crianças são as únicas que conseguem ver os anjos, o que daria base para dizer que o filme prega semelhança entre os pequeninos e os seres celestiais. Porém, eu acredito que os anjos para Wenders são outros. Além de Cassiel e Damiel, os personagens principais do filme são todos artistas com um, digamos, toque angelical. Marion é uma trapezista, que se veste de anjo para suas apresentações. Peter Falk interpreta ele mesmo como o protagonista da série de TV Columbo, um ex-anjo (acho esta uma expressão melhor que anjo caído no contexto do filme) que ajuda Damiel em sua decisão. E temos o próprio Homero, que não é um anjo mas é talvez imortal, ou pelo menos um eco imortal.

E mais: o filme é dedicado a três dos maiores cineastas da história, que Wenders chama de anjos. Ou, em suas próprias palavras: “Dedicado a todos os ex-anjos, em especial Yasujiro [Ozu, cineasta japonês], François [Truffaut, cineasta francês] e Andrej [Tarkowski, cineasta russo].” A arte, assim, toma contornos celestiais, mas ao mesmo tempo, quando coloca os artistas como ex-anjos, é humana, demasiadamente humana, com uma ânsia incontornável de ser humana, conquanto sua origem seja divina.

E o filme termina, enfim, com a consumação do desejo de Damiel e a completude da solidão de Marion. Mas do amor deles nasce algo muito importante, a nova narrativa. Marion diz: “Não existe história maior que a nossa, a de um homem e uma mulher. Será uma história de gigantes. Invisível, contagiosa, uma história de novos ancestrais.” Fascinante não? Já que Wenders nos oferece uma viagem tão sensacional, não há como recusar. Pois então, embarquemos!